After Dark

2 The Shadow proves the Sunshine


Notas iniciais
Parte II de III

música para leitura: http://www.youtube.com/watch?v=3VtjKvA8f1g

“Luz do Sol, não seria você a minha mãe?

Luz do Sol, venha e me ajude a cantar


Meu coração está mais negro do que estes oceanos

Meu coração está afundado e congelado


Eu sou uma alma quebrada tentando permanecer de pé

Olhos secos na chuva torrencial

Onde a escuridão prova a luz do Sol


Oh, brilhe sobre mim!

Deixe que minhas sombras provem a luz do Sol”


.:

A primeira coisa da qual ela tomou consciência é de que estava flutuando. A segunda, quando ousou abrir os olhos, foi a luz e o calor da chama alaranjada da lanterna. Quando finalmente sentiu-se desperta o suficiente, ela olhou para si mesma e descobriu que estava deitada em um barco de madeira.


Ela não estava lá sozinha.


Em pé, na extremidade da modesta embarcação, a luz tremeluzente da lanterna iluminava a figura de um indivíduo que a observava atentamente.


Aturdida, a garota apoiou-se nos cotovelos e arrastou-se de costas tentando criar alguma distância daquela figura misteriosa. Não havia muito espaço para percorrer e logo suas costas bateram com força contra a proa, que com o impacto fez a lanterna pendurada no ferro balançar e bruxulear. A menina emitiu um gemido de dor pela pancada e quase desequilibrou-se perigosamente. Por muito pouco não escorregara.


Ela inspirou fundo lutando para controlar as batidas enlouquecidas de seu coração e tentou reunir a pouca calma que lhe restara após o susto. Tremendo da cabeça aos pés, abraçou os joelhos e encolheu-se ainda mais no canto do barco.


Limpou a garganta e separou os lábios em busca da própria voz. Ela queria perguntar como tinha vindo parar ali, mas o olhar grave e impassível daquele homem tratava de silenciar qualquer palavra que deslizasse em sua língua.


O indivíduo trajava uma túnica de cor cinza cujo capuz cobria-lhe parcialmente o cabelo comprido e platinado. Com as mãos grandes e ossudas, ele manejava o remo tranquilamente como se não fizesse esforço algum para guiar o barco.


Os olhos, grandes e tingidos de um esverdeado pálido, eram marcados por olheiras profundas que conferiam um aspecto cansado e doentio a seu rosto magro. A idade dele era impossível de estimar. Com as feições angulosas, a pele acetinada e clara como cal; ele poderia facilmente ter quinze anos ou cinquenta.


Alguém desprovido de idade. Um ser atemporal.


— Oh...! Não se mova de maneira tão estrondosa. Tomou-me um esforço considerável para encontrá-la e trazê-la à bordo. – a voz dele era baixa, seca e apática como a de alguém que não tem a menor vontade de explicar as coisas mais simples a um leigo. — Então, por favor, acalme-se e permaneça quieta. Seria muito desagradável a senhorita cair por culpa de um mero descuido, e saiba que não me sentirei inclinado a ajudá-la se isto acontecer.


— Que-quem... É... você..? — ela disse aos tropeços, surpresa por ter conseguido destravar a própria voz.


— Quem sou eu...? — ele ecoou as palavras da garota, pronunciando devagar e apreciando a sonoridade de cada letra. — Há muito não me fazem tal pergunta. Nesta era, quase todos que navegaram neste barco estavam mais interessados em seus destinos do que em minha pessoa; e isto quando estão conscientes o bastante para ter algum discernimento.

O sujeito semicerrou os olhos e pressionou os lábios numa linha fina, parecendo refletir profundamente consigo mesmo. — No entanto, lamento dizer que não possuo nenhum nome em particular, apesar de existirem diversos títulos que fazem referencia a mim...


Confusa, a garota apenas o encarava sem pestanejar tentando assimilar as declarações dele. Percebendo o evidente desconforto dela, o homem cessou seu monólogo e redirecionou sua atenção para ela.


— Enfim, pode-se dizer que 'eu sou' um barqueiro.


— Eu não entendo... Por um momento, pensei que tudo havia acabado e me lembro de que afundei. – com espanto, a menina percebeu que estava completamente seca. Não havia uma gota d'água sequer nos cabelos dela ou em seu vestido de algodão. Até mesmo seus pés estavam perfeitamente enxutos. — Por quanto tempo eu estive inconsciente?! E... Foi você, senhor Barqueiro, quem me salvou?


O homem fez uma longa pausa e seu rosto assumiu uma expressão compenetrada e indecifrável. Seja lá quais foram seus pensamentos, ele decidiu guardá-los só para si e voltou a segurar o remo com ambas as mãos, concentrando-se em guiar o barco.


— Não exatamente. – ele por fim respondeu de maneira um tanto monótona.


E depois disso, calou-se.


Passaram-se vários minutos e a garota desistiu de receber qualquer outra palavra vinda dele. Ela ajeitou-se melhor e sentou-se próximo á borda. Ainda tremia um pouco devido ao frio, mas agora a sensação já não era desconfortável.


Olhou ao redor, deixando seus olhos vagarem na imensidão daquele lugar tão estranho e ao mesmo tempo tão familiar. O barco flutuava calmamente, atravessando a névoa macia. A luz da lanterna projetava fachos de luz alaranjada sobre a água, cobrindo a superfície com lindos reflexos dourados.


Ela podia ouvir as ondulações da água colidirem suavemente no casco da embarcação, enquanto o remo cortava e balançava o manto líquido. O som era harmonioso e sereno como uma melodia tranquilizante. Era tão calmo e aconchegante, como se o universo inteiro coubesse naquele pequeno barco e todo o resto simplesmente não importasse.


E ali, pela primeira vez, aquele lugar sombrio não lhe pareceu tão assustador.