After Dark

3 Vice Verses


Notas iniciais
Parte III

Música para leitura: https://www.youtube.com/watch?v=YVap_S6vByo

"O vento poderia ser minha nova obsessão
O vento poderia ser minha próxima depressão
O vento vai pra qualquer lugar que ele quiser
Desejando que eu aprendesse minha lição...

(...)O oceano soa como uma banda de garagem
Vindo até mim como um homem bêbado
O oceano me conta mil histórias,
Nenhuma delas é mentira

Então deixe o Pacífico rir
Deixe-o estar em meu epitáfio

E afinal de contas,
Com suas subidas e descidas, ele é apenas água
E eu sou apenas alma
Com um corpo de água e ossos"



:.

Vez ou outra a garota arriscava olhar discretamente na direção do barqueiro e calculava qual seria o melhor momento de iniciar uma conversa. A viajem já durava um bom tempo e ela ainda não tinha ideia de para onde aquele homem estava levando-a.

Os minutos se arrastavam e aquele silêncio constrangedor apenas a deixava mais aflita.

Você precisa tentar.

Ela disse mentalmente para si mesma.

Vamos.... Apenas diga alguma coisa!

Esfregou as mãos uma na outra para aliviar o nervosismo e ensaiou várias frases na cabeça. Infelizmente, nas poucas vezes em que acreditou ter formulado um diálogo decente, sentia a coragem escapulir antes mesmo de conseguir abrir a boca.

E como se não bastasse, o sujeito continuava a manter aquela expressão intimidante no rosto, o que só contribuía para deixá-la ainda mais tensa.

Será que o barqueiro ficaria zangado se ela pedisse explicações? E se ele estivesse realmente de mau humor e interpretasse as perguntas tolas dela como uma grosseria? Pior, e se ele a enxotasse para fora do barco?! A lembrança de estar imersa naquela água fria como uma geleira veio à tona, fazendo-a estremecer.

Medrosa!

Repreendeu-se por dentro, porém não o bastante para sentir vontade de arriscar uma investida. Inclinou a cabeça para baixo e encarou os próprios pés como se pudesse encontrar as respostas de que precisava ali. No fundo, talvez até quisesse mesmo que eles pudessem revelar alguma coisa. Isto é, se pés fossem capazes de falar.

'Pés falantes'? Ela estava realmente pensando esse tipo de coisa?!

Sufocou uma risada inoportuna e sacudiu a cabeça, massageando-a nas laterais. Céus, não era hora de ficar tendo pensamentos absurdos!

Mas, afinal de contas, o que não era absurdo naquilo tudo?

E de qualquer maneira, seja lá onde fosse, o barco chegaria a algum lugar. Faria alguma diferença saber ou não para onde estava indo em meio a aquelas sombras? A escuridão que envolveu o céu e o horizonte agora também devorava todos os seus argumentos.

Como alguém que desiste de uma batalha já perdida, a garota deixou escapar um suspiro cansado.

Talvez seja melhor não saber.

Conformada, ela endireitou a postura e olhou novamente para a figura do barqueiro.

E para sua maior surpresa, o sujeito estava lá, de pé e com o remo nas mãos, encarando-a fixamente.

Oh, não! Há quanto tempo ele estaria observando-a? Estava tão absorta em seus próprios devaneios que foi pega desprevenida. E o pior é que agora ele provavelmente deveria estar pensando que navegava com uma maluca.

— Por acaso a minha presença lhe perturba? — o indivíduo questionou, arqueando as sobrancelhas pálidas. Um estranho brilho de curiosidade adornava seus olhos grandes e esverdeados.

A garota sentiu as bochechas esquentarem, e com medo da voz falhar ou de gaguejar mais uma vez, apenas se limitou a balançar a cabeça negativamente em resposta

― Peço desculpas se meus modos a aborrecem. Porém, como pode notar... — ele retirou suavemente uma das mãos que seguravam o remo, e com um gesto sutil e elegante indicou as águas negras e a penumbra que rodeavam tudo.

— Não é sempre que tenho a oportunidade de dialogar com alguém, especialmente quando se trata de uma pessoa como você. Diga-me, a senhorita sabe onde está neste momento?

Ela fez que não.

― Como eu imaginava... Oh, sim! É bastante compreensível... — ele declarou com a voz arrastada.

Analisando o olhar distante que o homem exibia, a garota não teve certeza se o barqueiro falava com ela ou apenas consigo mesmo. O homem murmurou mais algumas frases inaudíveis, sempre ostentando o olhar vago e a expressão neutra.

Houve momentos em que a menina chegou a acreditar que ele se esquecera de sua presença ali e ponderou se este seria o comportamento habitual dele. Se fosse, ela concluiu que aquele “senhor” deveria ser uma pessoa pouco sociável. Entretanto, já estava começando a se acostumar com a personalidade enigmática daquele indivíduo e instintivamente soube que precisava apenas aguardar em silêncio e ouvir o que ele tinha a dizer.

E pacientemente, esperou-o concluir mais um de seus monólogos confusos.

Devagar, os olhos do barqueiro ganharam foco e fixaram-se mais uma vez no rosto da naufraga assentada no canto do barco, perscrutando a figura dela por longos segundos.

— Este é o Rio do Sono. É ele quem separa os limites deste... lugar, sendo também a barreira impedidora para aqueles que ousam erroneamente atravessar para o outro lado. – o barqueiro entoou num quase sussurro. O olhar em sua face era distante, como se ele ainda estivesse em sua própria realidade particular. — Isso é possível graças ao poder especial destas águas.

“Elas se alimentam de arrependimentos e mágoas, entorpecendo e arrastando os indivíduos para o fundo do rio. Sendo assim, ninguém nunca consegue atravessá-lo sem a minha ajuda, embora sempre exista algum louco que acredita ser capaz de alcançar a outra margem apenas nadando.”

A garota retraiu-se de vergonha e desviou o olhar para baixo quando sentiu novamente as bochechas enrubescerem.

— E então... – O homem continuou, apontando para ela – Você, jovem dama, apareceu. Bem, eu estive lhe observando por algum tempo. Na verdade, observo a todos que se aventuram a atravessar o rio sozinhos, mas a senhorita atraiu especialmente a minha atenção.

“De longe, eu lhe vigiava e perguntava a mim mesmo até quando você conseguiria suportar, e confesso que a tua determinação me deixou impressionado. Saiba que não foram muitos que resistiram tanto. E, finalmente, eu gostaria que a senhorita esclarecesse algo que venho me perguntando desde então.”

Ela não estava em condições de recusar qualquer pedido.

E então o barqueiro prosseguiu:

— Qual é o motivo que lhe faz querer atravessar o rio tão desesperadamente?

As palavras penetraram nos ouvidos dela e a confundiram. Ora, mas que pergunta era aquela? Era tão óbvio! Afinal, estava ali exatamente para...

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De um modo assustador, a garota sentiu a mente ser invadida pelo branco do esquecimento.

Espere, o quê diabos ela estava fazendo ali desde o início?

Por que não conseguia se lembrar?

Ela sentia, tinha certeza de que conhecia a resposta. O significado flutuava em sua mente. Esforçava-se para alcançá-lo, perseguia-o até o limite, mas a imagem desvanecia ao menor toque.

Quando o vazio atormentador doeu-lhe no peito; ela inspirou fundo, fechou os olhos e concentrou-se com todas as forças. Os fragmentos de memória rodopiaram em sua cabeça como insetos atraídos por uma lâmpada.

A cena desfocada de uma paisagem. Uma dor imensurável. Uma promessa quebrada. Um adeus amargo.

E finalmente... No centro desse turbilhão, ela viu.

A imagem distorcida de um rosto.

Notas finais
Não, ainda não acabou.

Aguardem o epílogo.

E muitíssimo obrigada por ler!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.