Afire Love
14 Capítulo 14
Notas iniciais
P.O.V. Sophie
Eu simplesmente não acredito que Spencer se meteu nessa. Eu quero muito acreditar que isso foi ingenuidade e não falta de caráter. Spencer sempre me tratou muito bem e eu tenho muito carinho por ele, mas quem em sã consciência iria ficar procurando pirraça com os outros com o problema que nós temos pela frente? Além disso, eu também já estou de saco cheio da divisão que a maioria dessas pessoas ainda insiste em fazer entre “nós” e “eles”, nós não somos todos sobreviventes de Alexandria?
Depois que Daryl me conta o que aconteceu no depósito eu decido procurar Spencer e tentar entender o porquê dele estar caindo na conversa torta do Carter. Quando bato na porta de sua casa, quem me atende é Deanna.
— Ele está lá em cima — diz ela antes mesmo que eu fale qualquer coisa. — Não acho que está de muito bom humor, ele chegou todo estranho e foi direto pro quarto.
— Obrigada — digo e quando alcanço os primeiros degraus da escada, ela me chama novamente.
— Sophie, você tem se dado bem com o Rick e os outros?
— Na medida do possível, tenho sim.
— Obrigada, querida — ela me dispensa e então eu subo até o quarto de Spencer.
Bato na porta e como ele não responde eu decido entrar do mesmo jeito.
— Posso?
— Já entrou mesmo — diz ele deitado na cama.
— Quer falar sobre o que aconteceu hoje? — pergunto me sentando ao seu lado.
— O que aconteceu hoje?
— Sobre o depósito, você, Carter e o Eugene.
— Quem te contou sobre isso? — finalmente ganho sua atenção e ele se senta para me encarar.
— Isso importa?
— Importa se tiver sido um deles.
— Spencer, essa não é a questão. O Carter está fora de si e eu fico surpresa que você esteja dando ouvidos a ele — digo com calma. — E me deixa ainda mais surpresa que vocês tenham ameaçado Eugene. Não acho que esse seja você.
— Talvez seja, mas o que você saberia? Você não estava lá — ele fala cada vez mais enfurecido e eu não consigo entender qual é o problema.
Isso está sendo pior do que eu estava prevendo. Desde quando ele ficou tão irritado assim? E pior, o que faz ele acreditar que nós deveríamos sair por aí matando uns aos outros? Nós temos outras inúmeras prioridades, essa implicância não faz o menor sentido.
— Acho que nós temos um problema maior que realmente ameaça nossa sobrevivência e não é o Rick, ele está tentando nos manter vivos.
— É claro que você acha isso — ele debocha. — É amiga deles, não é? Faz tudo que te mandarem.
— Eu tento me dar bem com eles sim e você também deveria tentar, eles não são nossos inimigos.
— Não são inimigos pra você. Na verdade você tem sido bem amistosa, não é?
Essa conversa definitivamente não está indo para um lado bom, não quero chegar a esse ponto com o Spencer e sei que ele não vai baixar a guarda agora. Às vezes a gente tem que dar um passo atrás e esperar.
— Eu não estou gostando do rumo dessa conversa — digo me levantando da cama. — Acho melhor deixar esse assunto pra quando você estiver mais calmo, Spencer.
— Você veio até aqui então vamos conversar agora — ele também se levanta da cama, agora com raiva. — Está transando só com o Daryl ou também está trocando algum favor com o Rick?
Suas palavras me machucam. Esse tipo de insinuação é ofensiva a mim tanto como sobrevivente quanto como mulher. Eu cheguei até aqui travando as minhas próprias batalhas. É como disse para o Daryl antes, eu fiz coisas das quais não me orgulho, mas foi isso que me trouxe até aqui. Não aceito que Spencer fale comigo desse jeito.
— Chega — digo firme. — Eu não fico aqui nem mais um segundo.
— Ótimo. Vai embora mesmo, volta pra aquela gente — diz ele elevando o tom de voz. — Sai daqui!
Ele grita, por fim e eu acabo saindo de lá batendo a porta com força. Desço os degraus com pressa e encontro Deanna ao pé da escada me esperando.
— O que está acontecendo?
— Seu filho está perdendo a cabeça. E ele vai acabar nos causando problemas se não colocar ela no lugar depressa.
[...]
Depois que converso com Spencer, volto para casa e tiro algumas horas de sono, eu ficaria de vigia durante uma parte da madrugada e provavelmente voltaria a trabalhar na construção durante o dia, então quis estar bem descansada para poder ajudar.
Faltava pouco tempo para o amanhecer quando acordo e vou para o meu posto, quando chego lá encontro Abraham me esperando. Estranho sua presença, eu tinha quase certeza que encontraria Natasha aqui.
— O que você está fazendo aqui? — pergunto.
— Achei que as mulheres ficassem mais felizes em me ver — ele se faz ofendido e eu apenas reviro os olhos.
— Estou muito feliz sim, só queria saber o que aconteceu para que eu tivesse a honra da sua presença.
— Tive que trocar de turno, não estou no meu melhor momento com a patroa — explica ele me entregando um rifle.
— E por que você não conversa com ela e resolve?
— Isso pode esperar. Acho que as coisas não vão se resolver da forma como ela espera.
— Vocês complicam tudo, qual a dificuldade de conversar e resolver as coisas? Vocês deveriam aprender a se comunicar direito, evitariam muitos problemas.
— Vocês? Vocês quem? — pergunta ele e vejo seu tom malicioso. — Tá falando do namorado?
— Qual deles? De acordo com a opinião popular eu tenho no mínimo três.
— Tô falando do que se embrenhou na floresta com você enquanto o resto de nós trabalhava. Mas quem são os outros dois?
— Não existe namorado nenhum.
— Mas por que ele é complicado? — ele insiste.
— Daryl?
— Então é dele mesmo que estamos falando — ele sorri. — Eu sabia. Por que ele é complicado?
E sem que eu percebesse, caí na armadilha do Abraham.
— Vocês já estão brigando? Achei que nessa fase era só lua de mel. — ele continua sorrindo.
— Eu não tenho nada com ele, nós tivemos um desentendimento e ontem quando ele foi atrás de mim acabamos nos resolvendo — explico. — Foi apenas isso.
— Se resolveram foi? — ele não tira o sorriso malicioso do rosto.
— Ele me pediu desculpa e foi só isso — estou começando a ficar nervosa. — Nós não temos nada, Abraham.
— Vocês brigaram e ele te pediu desculpas? — agora ele parece chocado. — Daryl pediu desculpas? Daryl Dixon? O Daryl que anda com a crossbow? O Daryl da Geórgia? O mesmo Daryl que não toma banho?
— Sim, foi o que eu disse. O que tem de mais?
— O que tem de mais? — agora ele está rindo abertamente. — Nunca vi isso. O Daryl não pede desculpas, o próximo passo deve ser o pedido de casamento.
— Você está enganado — defendo Daryl. — Ele é um cara bacana.
É o suficiente para que Abraham solte uma gargalhada.
— Se é o que você está dizendo, mas acredito que essa não seja uma opinião muito popular.
— Não fale assim, eu gosto dele.
— Posso apostar que gosta e posso apostar também que ele gosta de você.
— Eu não quis dizer nesse sentido que você está pensando — tento esclarecer. — Eu só quero dizer que ele é um bom homem e que apesar dos problemas dele, está com o coração no lugar certo.
— Nós estamos mesmo falando do coração de Daryl Dixon? — pergunta Abraham.
— Não sei, estamos? — ouço a voz de Daryl abaixo de nós.
Eu nem reparei quando ele se aproximou da plataforma em que estávamos e agora não consigo sentir nada além de constrangimento pensando no que exatamente ele ouviu.
— Há quanto tempo está aí? — pergunto.
— Vocês são péssimos vigias — responde Daryl. — Abraham, o Rick precisa conversar com você, eu assumo o posto.
— Bom, acho que vou ter que deixar os pombinhos assistindo o nascer do Sol juntos — diz Abraham descendo a escada.
Ele entrega a arma para Daryl que sobe na plataforma e se junta a mim. Estou tão tomada pela vergonha que nem sei o que dizer, não sei o que ele escutou e tenho vergonha do que ele pode estar pensando.
— Falávamos bem de você — digo quebrando o silêncio.
— Eu sei.
— Não vai facilitar e dizer o que ouviu, né? — pergunto e ele nega com a cabeça.
— Sou um cara bacana, mas acho um pedido de casamento um pouco precipitado — diz ele com algo próximo de um sorriso e acabo rindo com gosto.
— Você fez uma piada, isso me deixa tão orgulhosa e feliz — brinco. — Está de bom humor, dormiu bem?
— Dormi. Obrigado pelo que disse antes.
— Obrigada também, por ter acreditado quando disse que não tinha nada a ver com aquela história. Fico feliz que você tenha uma boa opinião sobre mim. Fui conversar com o Spencer e acabamos brigando.
— Brigaram?
— Não foi exatamente uma briga, ele me disse coisas horríveis e gritou comigo. Apenas fui embora.
— Isso não vai ficar assim — diz ele perdendo qualquer resquício de bom humor.
— Não preciso que você resolva isso pra mim, na verdade acho que isso pioraria muito as coisas. Spencer também tem essa ideia fixa de “nós” e “vocês”, ele acha que eu estou traindo a comunidade.
— Ele é um imbecil, enquanto esse filhinho da mamãe fica aqui escondido, você está lá fora ajudando esse lugar a se manter de pé. Somos nós que vamos atrair a horda enquanto ele fica aqui como o grande covarde que é.
— Você não gosta mesmo dele, né?
— Ele é um covarde e vai acabar fazendo merda. Conheço o tipo dele, não pensa duas vezes antes de mandar alguém pro inferno para salvar a própria pele. Não fique perto dele, ou vai acabar sendo você.
— Está preocupado comigo, Daryl Dixon? — pergunto de bom humor, estou com raiva do Spencer agora e não quero continuar esse assunto. — Cuidado, vou acabar acreditando no Abraham.
— Eu ouvi dizer que gosta de mim.
— E não vai sair correndo? — digo me lembrando da noite em que bebemos.
— Não.
E então Daryl Dixon me beija. O mundo ao redor pareceu parar no instante em que os lábios de Daryl encontraram os meus. Não foi um beijo apressado, mas sim hesitante no início, como se ele ainda estivesse lutando contra a própria decisão. A aspereza da sua barba roçou minha pele, enviando um arrepio pela espinha. Quando ele aprofundou o beijo, senti uma onda de emoção que varreu toda a frustração e mágoa dos últimos dias. Era como se, naquele momento, todas as barreiras entre nós tivessem finalmente caído. Respondi com a mesma intensidade, segurando em seu colete, sentindo a força contida em seus braços enquanto o beijo se tornava mais confiante, mais real, sob o nascer do sol.
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