Quando eles chegaram eu não estava em casa. Tinha ido comprar roupas novas e dar um novo corte no cabelo. No salão de beleza, encarando meu reflexo no espelho e as madeixas que foram desfiadas por tanto tempo em camadas bagunçadas para lá e para cá, decidi que eu precisava de um visual menos estropiado, mais sério e que combinasse com o que eu queria passar agora na minha identidade musical. O processo de ser uma liricista era sempre árduo: algumas vezes escrevia até cinco músicas em um momento de delírio ardente entre as insônias caminhando pela casa, deixando folhas espalhadas em cada cômodo; canetas que se perdiam de suas tampas. Beber água no andar de baixo poderia virar uma inspiração.

Eu tive um sonho com ele no final de semana. Eu estava na piscina. Estava um dia quente; daqueles em que o sol quer brilhar tanto que você sente os raios solares penetrando com violência em sua pele. Eu emergi da água, os cabelos caindo encharcados e pesados em meus ombros. De repente, não estava mais sol e o final da tarde havia chegado. Talvez fossem cinco e quarenta e cinco da tarde, precisamente. Eu podia ouvir os grilos cantando ali perto, ele estava sentado na beira da piscina, mas seus pés não estavam na água. Suas pernas estavam cruzadas como se ele fosse um índio. Apoiei o meu queixo em meus braços na beirada da piscina. O piso antiderrapante ainda estava morno. Olho para ele com uma espécie de adoração. Ele me olha e sorri de lado. Sobre nossas cabeças o céu estava mágico: um laranja profundo com uma camada densa de várias nuvens pequeninas que davam a mão entre si, criando tiras e mais tiras de algodão que estavam perdendo sua espessura. O branco delas contrastando com o laranja afogueado do calor de verão. No sonho ele era meu. No sonho, eu saía da piscina sem dizer uma palavra e me sentava ao lado dele. A minha pele estava sensível por causa do sol. Ele tocou em mim. Pressionou a ponta do dedo indicador contra a minha coxa fazendo ficar a marca por causa da minha pele queimada e bronzeada pelo sol. Ele abriu a boca para falar algo. Pude ver seus lábios se movimentando enquanto ele olhava para o desenho da digital dele contra a minha pele. Me senti sagrada, como se carregasse uma relíquia ali.

Inclinei-me para o lado e pousei uma das mãos em seu pescoço, trazendo-o aos meus lábios. Encostei a minha boca molhada e morna contra a sua pele. Foi como se eu pudesse sentir todo o seu corpo e ouvir seu sangue correndo pelas veias. Ele era morno, tinha vida e decepções no coração. Antes de acordar, eu estava deitada na cama e senti...

- Tem certeza que vai cortar tudo isso? São muitas camadas.

Meu reflexo no espelho de bordas iluminadas me encara sorrateiramente, como se risse dos meus devaneios. Pisco algumas vezes atordoada e me endireito na cadeira. Pigarreio baixinho.

- Sim, sim, por favor. Acho que também quero dar uma iluminada no loiro. Pode cortar.

No momento em que passo pelo portão cor mostarda e fecho-o atrás de mim segurando as sacolas de compras nas mãos, sei que tem pessoas diferentes em casa. Elton está do lado da piscina com seu traje habitual: camisa formal branca, calças pretas e um fone de ouvido sem fio, como se ele fosse algum agente da CIA e conversa com os dois rapazes em frente à entrada da casa. Eu me aproximo andando lentamente. Meu coração parece sair pela boca e eu não posso permitir que ele me traia agora.

Quando me aproximo os três rapazes se viram para mim. Elton une uma das sobrancelhas como se não me reconhecesse por um instante.

- Me perdoem, rapazes. — introduzo-me à cena assim — Eu honestamente perdi a noção do horário, mas eu sou apenas uma garota indo às compras! — dou de ombros ao mesmo tempo que levanto as sacolas pesadas das lojas distribuídas em ambas as mãos.

Robert, o responsável pelo design de interiores me olha surpreso e alegre, como se fosse um cachorrinho que acabou de ver um hot dog. Eu sorrio.

- Olha, a celebridade chegou! Eu ouvi as suas músicas.

Tento reprimir um sorriso.

- Por favor, já disse que você me deixa sem graça.

Ao lado dele, talvez um pouco escondido, como se Robert fosse uma pilastra, ele me olha. Ele, que esteve nos meus sonhos no final de semana. Engulo em seco.

- Oi, Joaquin. — digo formalmente e com um leve aceno com a cabeça.

- Oi, como vai? — a resposta dele é seca.

Uno as sobrancelhas. Espero que eu não tenha os aborrecido ou pareça irresponsável. Talvez eu esteja parecendo uma irresponsável e sem compromisso.

- Me desculpem pelo atraso. Eu juro que não sou uma descompromissada. Eu... — suspiro audivelmente. A culpa pintando o meu semblante. Olho para Elton. — Elton, peça para a Carmen preparar um chá para nós e algo para comermos. Está quente e eu quero me desculpar pelo atraso...

- Não é necessário, nós só precisamos sentar rapidamente para...

- Eu insisto, Joaquin.

Robert parece ter dado um passo para frente e ter saído da posição protetora. Agora, posso encarar os olhos dele com firmeza e talvez esperar que ele ceda pelo menos um chá. Ele parece sempre desconfortável. Eu engulo em seco e sou a primeira a desviar o olhar para o chão como se procurasse algo que houvesse caído. Os olhos dele são intensos e escuros e o formato pequeno e quase asiático parece os deixar mais duros ainda.

- Bem, por favor, entrem e fiquem a vontade. — olho para Elton — Por favor, os leve para dentro e os acomode.

Elton me devolve um maneio com a cabeça. Passo ao lado de Joaquin com as sacolas pesadas e não olho para o seu rosto. Subo às escadas com os pés descalços, deixando minha sandália na entrada. Ouço Robert perguntar a Elton se eles também deveriam tirar os sapatos.