Afetos Desalinhados
10 Joaquin
Ela simplesmente desaparece escada acima com as sacolas e de uma maneira estranha, ninguém parece ter visto que uma das peças de roupa havia caído de uma das sacolas de papel. Robert está tagarelando com o tal Elton. Ele sempre parecia uma figura ilustre, séria e até paternal de um jeito que não tirava o seu profissionalismo. Me perguntava qual era o papel dele na casa, além de, eu não sei, segurança particular? Robert e ele estão caminhando em direção à cozinha. Eu me encaminho até a ponta da escada onde esse vestido — uma singela peça de roupa dourada e brilhante repleta de lantejoulas grandes e enormes penduradas por fios infinitos — está caído. É um vestido pequeno e de alças macias, como se por dentro fosse feito de seda. Ouço passos no andar de cima e meu olhar segue Lia que está me olhando do alto da escada. Minha garganta está seca e eu me sinto desconfortável como se estivesse fazendo algo proibido.
Com embaraço eu estendi a roupa em sua direção enquanto ela desce os degraus. Desvio o olhar da sua silhueta ambulante como se ela estivesse nua:
- O vestido caiu da sacola. — digo.
Sinto um cheiro de baunilha com algo cítrico pairando no ar quando ela se aproxima o suficiente. O cheiro era tão aveludado e macio como o vestido. Ela pega a peça de roupa da minha mão com delicadeza. Sinto a ponta de alguns dos dedos dela encostar nas costas da minha mão.
- Obrigada. — é tudo o que ela diz e passa na minha frente.
Lia pousa o vestido em cima de uma espécie de chapeleiro que acabei de perceber que colocara ali na entrada. A peça não combina nada com a decoração de um hall. Uno as sobrancelhas. Pego-me encarando a parte de trás de sua cabeça: o cabelo. Era isso que estava de diferente: ela tinha cortado o cabelo desde a última vez que estivemos ali. Os fios tinham uma aparência recém-cortada em um Chanel simples e sofisticado na altura dos ombros; talvez três dedos para cima, como se estivesse no meio de seu pescoço. As madeixas pareciam fios de linha dourada deixando o começo da espinha dorsal à mostra. Ela se vira para mim antes de virar à esquerda em direção à cozinha minimalista. Não digo nada; ela desaparece do meu campo de visão.
Eu suspiro sentindo-me derrotado e chego até a cozinha com uma das mãos no pescoço, passando a mão pelos cabelos da minha nuca. Sinto uma gota fina de suor escorrendo. Está quente, como se a casa de repente fosse uma estufa de vidro abafada. Robert já está sentado em uma das banquetas. A cozinha modesta comporta os cinco integrantes daquela cena esquisita. A provável Carmen era a serviçal que acabava de pousar uma tábua de frios em cima do balcão de granito branco. Elton tinha uma xícara pequena de café nas mãos e olhou para mim sem demonstrar nenhuma reação.
- Com licença. — eu digo sem saber para quem.
- É muita gentileza sua nos oferecer um chá gelado. — Robert diz. Sento-me na banqueta ao seu lado.
Lia sorri olhando para Robert. Está trazendo uma xícara de café em suas mãos.
- Estou me sentindo culpada. É só um agradecimento pelos serviços de vocês.
Faço um breve manejo com a cabeça. Encaro a tábua de frios: queijo provolone cortado em cubos, salames temperados com um fio de azeite e copa. Lia se senta na banqueta do outro lado da pedra de granito. Estamos muito perto e apertados. Ela parece ler a minha mente e olha para as cúpulas de vidro acima de nossas cabeças.
- Deus, essas luzes esquentam pra caramba! — ela diz sorrindo e voltando sua atenção para o meu rosto e depois desviando o olhar para Robert. — Certo? Acho que foi uma má ideia...
- Nada que você não possa mudar. — Robert diz — Talvez teria sido melhor deixar apenas a iluminação do teto.
Ela o ouve com atenção e leva a xícara de café até a boca. Bebe um gole. Seu peito sobe e desce lentamente.
- É verdade. Acho que eu fiquei tão empolgada que... — ela balança a cabeça e dá de ombros.
Lia paira seus olhos sobre mim.
- Joaquin, por favor, o que você quer beber? — ela olha de volta para Carmen.
- Ah... Um chá gelado estaria ótimo.
Eu estou realmente suando. Ela pega uma fatia de salame com um dos palitos de dente.
- Eu acho legal que de alguma modo eu tenha sido mal educada e tê-los feito esperar, pois acho que tenho outro trabalho para vocês. — olha para Robert e depois para mim. — Eu estou vendo um lugar para alugar que é uma espécie de... Estúdio musical. Vou montar tudo do zero então preciso de ajuda com... — ela ri como se tivesse feito alguma piada — tudo! — dá de ombros. — Acho que essa parte talvez seja mais com a arquitetura do negócio, certo?
- Isso aí. — Robert responde colocando uma fatia de copa da boca e dizendo de boca cheia. — Isso é com o meu chapa aqui do lado.
Lia faz um breve manejo com a cabeça sorrindo um pouco para Robert. Observo seus olhos o percorrerem por um breve segundo.
- Certo. — ela diz.
Carmen, a serviçal, me estende um copo americano e redondo gelado de chá com pedras de gelo e uma folha de hortelã. Agradeço e levo o copo até a boca. Está gelado, refrescante e parece acalmar minha ansiedade. Eu poderia acender um cigarro agora mesmo.
- Então, podemos ver isso depois.
Olho para ela. Não tive certeza de que ela estaria falando comigo. Lia tem seus olhos voltados à minha pessoa. Eu arqueio as sobrancelhas e pouso o copo em cima do granito branco à minha frente. Minha mão pousa em uma das minhas coxas; os dedos úmidos pelo copo gelado.
- Ah, nós podemos falar a respeito, sim. Eu tenho alguns projetos paralelos, mas se eu conseguir encaixar...
Ela pisca algumas vezes sem dizer nada. Parece estar me lendo. De alguma forma parece desapontada.
- Eu... Gostei do seu trabalho. — dá de ombros. — Mas, se você conhecer outro arquiteto tão competente quanto... Eu não quero atrapalhar, claro.
Desvio o olhar para Robert que já está me olhando com uma expressão que não consigo ler, mas parece julgamento. Ele desvia o olhar para a tábua de queijos e pega um pedaço do provolone.
- Eu tenho tido algumas questões familiares, é por isso. Nada pessoal.
Lia da outro gole de café e se inclina para pegar um pedaço de queijo na tábua. Quando ela o faz, o cheiro de baunilha cítrica invade meu olfato mais uma vez. Pigarreio baixinho para limpar a garganta e levanto-me da banqueta no mesmo instante.
- Desculpem, será que posso usar o banheiro?
- Você está bem, cara? — Robert olha para mim, parece preocupado.
- Estou.
- Fique a vontade, é no andar de cima.
Saio da cozinha sem olhar para trás. Subo as escadas que já conhecia tão bem e passo por uma porta de madeira cor de mogno assim como o papel de parede da sala de estar. Tranco-me lá dentro. É um banheiro para convidados. É pequeno. Acima da cuba quadrada e branca da pia, jazia um espelho retangular, estreito e simples. Abro a torneira. A pressão da água é forte e espuma. Junto as mãos em uma concha e levo-a até o rosto. A água não está gelada, mas fesca o suficiente para me trazer alívio. Repito o processo três vezes antes de fechar a torneira e olhar meu reflexo no espelho; as gotas de água escorrendo por minha pele e algumas se acumulando na barba por fazer. Pego a toalha de rosto vermelha. Dou algumas batidas com o tecido de fibra contra o meu rosto. Sinto-me aliviado de alguma maneira. Eu estava prestes a ter um colapso? Um ataque de ansiedade? Por que estar ali me deixava tão agitado? Estava estressado?
Quando saio do banheiro e desço as escadas, Robert está me esperando na porta de entrada. Ele conversa alguma coisa com o tal Elton. O sujeito ri um pouco. Robert tinha facilidade em se comunicar com as pessoas. Ambos olham em minha direção.
- Está bem?
- Sim, acho que... Estou precisando de um cigarro e um analgésico. — minha cabeça genuinamente havia começado a doer.
- Obrigado, cara.
Agradeço Elton e passo pela porta com Robert. Olho em direção à casa de vidro. Sinto que talvez devesse dar tchau e ser mais educado com a anfitriã, mas não o faço.
Entro no carro com Robert no banco do carona.
- Tem certeza de que está...
- Eu estou bem, Robert. Só... Me sinto desconfortável. Ela é amigável demais e somos apenas funcionários indo prestar um serviço. Não deveríamos estar sentando para tomar café com ninguém. Fomos lá a trabalho e ela nem estava lá para discutir o que fomos discutir. Quer dizer, o que você foi discutir.
- Cara, ela só é uma cliente simpática e que nos trata bem. Eu prefiro assim do que pessoas mal educadas que nos olham como se fôssemos insetos e não oferecem um copo d'água. Qual é o seu problema com gentileza?
- Nenhum. — dou de ombros. — Só me sinto desconfortável. E se está interessado em sair com ela, poderia me poupar das suas investidas na minha frente?
Robert se vira no banco do carona me encarando com as sobrancelhas unidas.
- Vem cá, que bicho te mordeu?
Eu não respondo e ele continua.
- Cara, sei que está passando por bastante coisa ultimamente com o seu pai e tudo o mais, mas acho que você deveria pegar mais leve com as pessoas. Você acabou de recusar um trabalho no qual você iria ganhar bastante grana, inclusive, e a coitada só estava tentando ser simpática.
Continuo ouvindo sem dizer nada. Talvez ele estivesse certo. Eu não queria pensar em nada daquilo agora. Robert e eu fizemos o trajeto de volta ao escritório em silêncio, com a rádio fazendo o trabalho por nós dois .
Quando chego em casa, Emília está na cozinha preparando algo para comer. Paro na soleira da porta e observo sua silhueta enquanto mexe algo na panela. O cheiro é de molho branco. Ela se vira para mim, tomando consciência da minha presença. Não diz nada.
- Me desculpe. — eu digo. — Sei que tenho sido difícil e sei que estava tentando me ajudar e ser compreensiva. Me desculpe pelas coisas que eu disse.
Emília parece ponderar. Me olha sobre o ombro, o cabelo preso em um rabo de cavalo bagunçado. Ela usa uma camiseta branca surrada e simples tamanho G, que fica como um vestido em seu corpo e um par de chinelos nos pés. Seu nariz arrebitado parece congestionado, pois ela funga. Seus olhos castanhos e arredondados me olham com atenção.
- Sei que não é a minha responsabilidade, eu só quis mostrar que estou aqui por você.
Caminho até Emília, diminuindo a distância entre nós. De modo automático os nossos corpos se encaixam; ela coloca os braços em volta do meu pescoço e eu seguro sua cintura com as mãos. Pressiono meus lábios contra os dela. Sua língua contorna minha boca. Seus lábios estão macios. Pressiono meus dedos em seu quadril, trazendo-a para mais perto de mim. Ela parece entender e diz contra a minha boca:
- O molho vai queimar.
Com ela ainda agarrada ao meu tronco, inclino-me para apagar o fogo aceso. Ela ri baixinho e eu contorno a linha do seu maxilar delicado com os meus lábios.
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