Meu corpo estava sendo sacudido com violência. Meu campo de visão parecia limitado e entorpecido. Meus olhos se abriam e fechavam. Havia um falatório alto ao meu redor; eu ouvia imperativos sendo gritados. Eu estava me movendo sem estar andando. Havia estrelas no céu naquele noite. Elas estavam por trás de uma nuvem densa de fumaça preta e do furor alaranjado. Uma mulher estava colocando uma máscara de oxigênio no meu rosto. Eu queria dizer que estava tudo bem, mas meu corpo não me obedecia; minha língua era pesada, meu maxilar não se mexia. De soslaio, o vermelho brilhante e oleoso das sirenes. O cheiro de queimado... Meu nome sendo chamado inúmeras vezes longe e abafado. Meus olhos se fecham e se abrem novamente. Meu rosto é banhado pelo azul e vermelho das sirenes policiais. Fecho meus olhos com força.

-... a pressão está caindo!

- ... adrenalina...

- LIA!

Sento-me com um movimento brusco na cama. Estou ofegante. Olho em volta e me deparo com o quarto espaçoso e as paredes de vidro tocadas pela brisa do lado de fora. Ao meu lado, o celular jazia com cinco por cento de bateria. Eram três e quarenta da manhã. Respiro fundo. Sinto uma dor repentina no abdômen inferior. Levanto-me e me encaminho até a suíte. A luz amarelada me cega brevemente. Pisco algumas vezes antes de me encaminhar até o vaso sanitário. Percebo essa mancha grande e avermelhada no fundo do short. Suspiro colocando uma mecha atrás da orelha. Pego um absorvente no pacote e visto uma calcinha limpa. Fico um tempo encarando o azulejo branco e imaculado do banheiro. No chão, meus pés com as unhas pintadas de um lilás cremoso me trazem à realidade. As memórias esconderam-se atrás da cortina vermelha.

Quando deixo o banheiro e volto para o meu quarto, visto um short limpo e um roupão preto por cima. Caminho até o grande janelão de vidro que dá para os fundos da casa. Há essa lua cheia brilhante, como uma bola de queijo prateada iluminando o gramado. O silêncio é quase etéreo. Faço uma coisa infantil como um ímpeto: aproximando-me do vidro, solto o ar pela boca na superfície que fica levemente esbranquiçada. Desenho com a ponta do polegar uma carinha sorridente. Fico observando o desenho desaparecer lentamente até que o que me reste seja o meu reflexo pálido.

Abraçada a mim mesma, caminho para o outro vértice do quarto. Encaro a entrada da minha casa sendo aberta pelo carro de Elton. Aquilo me conforta. De repente eu estava com tanto medo... Junto as cortinas pesadas e cinzas uma na outra novamente e caminho até os pés da cama onde meus chinelos se encontram. Visto um par de meias e saio do quarto. Desço o primeiro lance de escadas, indo para o andar de baixo, onde a sala de estar jazia e depois o segundo lance para descer até o hall de entrada. Elton parece levar um susto ao me ver acordada uma hora daquelas. Ele pergunta se está tudo bem. Dou de ombros e desço o último degrau. Caminho até Elton e o abraço. Ele retribui de maneira paternal.

- Vamos tomar um café. — é tudo o que eu digo.

***

Carmen ainda estava dormindo no quartinho ao lado da cozinha. Eu havia insistido para que ela não dormisse lá todos os dias e já que fosse dormir, que pegasse o quarto ao lado do meu, o que ela declinou veementemente. Enquanto a água fervia na chaleira, pensei que eu não queria que eles tivessem a visão de que eu os via como meros funcionários. Cruzo os braços em frente ao corpo e olho para Elton sentado à bancada. As cúpulas estão com as luzes apagadas. Ele meche no celular dele.

- Como estão sua esposa e sua filha? — pergunto em tom baixo para não acordar Carmen mesmo que a porta do quarto estivesse fechada.

Elton deixa o celular em cima da bancada.

- Elas estão bem. Estava avisando que já cheguei. Marta está sempre preocupada.

Um sorriso amarelo cruza meus lábios.

- Às vezes me sinto culpada por você chegar tão cedo.

- Srta. Carneiro, o nosso contrato é esse...

- Eu sei, eu sei. — aproximo-me de Elton. Sento-me à bancada de frente para ele com as mãos entrelaçadas em cima da bancada de granito branco — Elton, eu... — respiro fundo e paro por um momento. Ele espera pacientemente. — Eu nunca te agradeci por tudo o que fez e ainda faz por mim. Você me chama de senhorita Carneiro — aqui tento imitar o tom de voz grave dele ao pronunciar meu nome. Ele não esboça nenhuma reação — mas sabe que temos mais história do que isso. Você salvou a minha vida. Você se arriscou por mim mesmo tendo uma família, você... Você está aqui enquanto o meu pai ou a minha mãe não estão. E eu sinto que não faço o suficiente por você ou por Carmen. — inclino meu corpo um pouco para o lado como se Carmen estivesse atrás de mim. Meu olhar se volta para a porta fechada do quarto onde ela está dormindo. Volto-me para Elton. — Eu gostaria que, se você precisasse de qualquer coisa, qualquer coisa, que falasse comigo. Me sinto com uma dívida eterna. — dou de ombros e balanço a cabeça. De repente as lágrimas estão transbordando meus olhos de maneira silenciosa.

- Por favor, não chore. E eu agradeço. Obrigado. Você sabe que a minha relação com a família Carneiro, tanto a minha quanto a de Carmen, ficou abalada depois de... Tudo. — ele se mexe na banqueta — mas sabe também que sempre acreditamos em você e a vejo como uma filha mais velha. O meu desejo é vê-la encontrar o seu caminho e brilhar.

Sorrio entre as lágrimas. Elton pega as minhas mãos que estão em cima da bancada e as segura com ternura.

- Talvez voltar à terapia, continuar a compor algumas músicas... Você ainda pode trilhar um caminho bonito. Nós acreditamos em você. Você não tem uma dívida eterna comigo. Você já faz o suficiente. Nunca atrasou um pagamento meu... — ele dá de ombros. — Só falta me expulsar se eu passar um minuto a mais aqui. E não pense que eu não sei que quem pagou a dívida da escola da Carlota foi você.

Me empertiguei.

- Como...

- Você é boa demais, Lia. Você tem um bom coração. Fez escolhas erradas, mas precisa parar de viver como se fosse um monstro. Nós amamos você e é por isso que continuamos aqui. Por você.

Assenti e sorri.

- Obrigada, Elton.

Ele faz um breve manejo com a cabeça.

- Agora se me permite, você prometeu um café forte.

Dou risada e me levanto da banqueta indo até a chaleira que começaria a apitar em instantes.

- Os meses passaram rápido, não acha? Já fazem dois que estou aqui. Quero encontrar logo o lugar para abrir o estúdio de música. Você acha que vai ser fácil?

- Tenho um lugar em mente, mas precisaria mesmo fazer uma bela reforma.

Faço que sim enquanto coloco a água no pó de café. O cheiro característico impregna as minhas narinas e parece ser o suficiente para me despertar ainda mais.

- Preciso de alguém que me ajude nisso.

Eu tomo uma xícara de café com Elton. Ele me conta um pouco mais sobre como Carlota está indo bem nos esportes na escola e que estava sendo chamada para participar de jogos de vôlei profissional representando o time da escola. Ele falava com muito orgulho. Ouvi de maneira carinhosa. O café não me despertou tanto quanto achei que despertaria. Quando é por volta das seis e meia, aviso que vou subir e tentar cochilar mais um pouco apesar de o céu já estar praticamente claro; com uma manhã que parece que será nublada e fria. Eu havia entrado em contato com alguns bares e casas noturnas da cidade, mandado vídeos e demos de algumas músicas originais minhas ou covers de músicas de outros artistas. Tinha mais ou menos uma semana. Quando sento-me à cama para pegar o celular na mão, vejo que há essa mensagem animadora me convidando para um show solo na próxima sexta-feira, dia doze de novembro. Eu sorrio e começo a dar pulinhos em cima do colchão. Deixo-me cair contra ele e encaro o teto engessado cor branco gelo. Talvez as coisas começassem a mudar para mim. Talvez o incêndio — literalmente — começaria a ficar para trás. E eu ainda precisava de um estúdio de música novo em folha ou... Um estúdio improvisado.

Eu ainda tinha o cartão de Joaquin. Faziam dois meses que as obras em casa haviam terminado. Depois daquele dia no qualele pareceu tão desconfortável, ele não voltou mais com Robert... Tive a impressão de ser algo pessoal e senti-me tão decepcionada e rejeitada de alguma forma que não perguntei mais sobre ele para Robert, nem mesmo quando este tentou explicar a ausência no próximo encontro que tivemos em casa para o novo lustre ser definitivamente instalado.

- Ah o Joaquin não veio; tinha um compromisso particular com o pai. Sabe como é... Familiares doentes demandam bastante.

Enquanto eu o seguia pelos degraus da escada acima senti empatia pela situação, mas achei melhor não perguntar nada a respeito. Eu não queria ser desrespeitosa ou ultrapassar nenhum limite. Não havia mais sonhado com Joaquin também, não depois daquele sonho da piscina. Isso não significava que em alguns momentos eu não me lembrasse por alguma razão do rosto dele. Ele era um homem bonito, de beleza madura e estatura alta. Seus ombros pareciam largos o que não significava que eram fortes. Os cabelos que estavam sempre presos em um coque pareciam ondulados ou quase lisos e os olhos... Eram olhos ferrenhos e intensos. Ele era lindo.

Estou com o cartão que ele me dera para caso que eu tivesse alguma dúvida. O nome dele paira em meu campo de visão: Joaquin Mendes, Arquiteto e Urbanista.