O carro sacoleja de um lado para o outro enquanto eu leio as minhas próprias palavras. Às vezes eu ainda me sentia patética por ter um diário para escrever o que estava entalado dentro de mim, mas, ei, o terapeuta havia dito que era importante e me ajudaria. E ajudava!

Olho pela janela e os muros altos da vizinhança não me são familiares. Era estranho estar indo para a minha nova casa sem saber como ela realmente estava por dentro. Eu tive toda a equipe para cuidar dos fatos para mim enquanto estive no hospital. Tudo seria uma surpresa.

Paramos em frente a esse portão alto pintado de amarelo mostarda. O estilo todo vedado impossibilitava ver a residência do lado de dentro. O muro era repleto de ramos de flores. Eu sorri. Pelo menos a fachada estava do jeito que eu havia pedido. Sinto um arrepio repentino correr pelo meu corpo, como uma carga de eletricidade. Se passava das três da tarde, estávamos na primavera e apesar disso, o céu tem uma coloração azul, está pálido e leitoso ao mesmo tempo. O sol que está no céu parece fraco e tem um brilho prateado, como se fosse uma ostra brilhante e distante. O carro passa pelo portão e adentramos a minha nova casa. É tudo novo para mim. Há essa piscina modesta logo na entrada. Paramos em uma rampa inclinada repleta de grama e alguns centímetros de concreto. Saio do carro. Acho que estou sorrindo. A piscina era quadrada e espaçosa o suficiente, com um tom azul claro tão pálido quanto o azul do céu naquele dia. Estava tudo tão silencioso que se ali tivesse grilos, eu poderia os ouvir.

- Devo levar suas coisas para dentro, senhora?

Olho para Elton, meu motorista.

- Se você puder, Elton. — eu sorrio. — Obrigada!

No mesmo momento, um homem sai de dentro da casa — aquela estrutura feita de janelões de vidro — falando ao celular. Ele não me vê. Está vestindo uma roupa formal, um blazer social cinza e camisa branca com uma calça de alfaiataria. Os cabelos parecem grandes, mas estão presos em uma espécie de coque no alto da cabeça e há essa barba rala pincelando seu maxilar. Ele não está perto o suficiente para que eu possa ouvir o que está falando no aparelho celular, mas ele parece exasperado e segura o osso do nariz perto dos olhos com o dedo indicador e o polegar. Desvio o olhar e olho para Elton. Seguro o meu diário ao lado do meu corpo enquanto ele se aproxima arrastando minhas duas malas. Elton é alto, negro e parece de alguma forma, sempre com uma expressão enfezada.

- Vou deixar isso lá em cima. — ele diz para mim.

- Não!

Eu e Elton olhamos para o rapaz que estava no telefone com uma expressão infeliz e exasperada. Ele afasta o telefone da orelha.

- Desculpa, tivemos um problema com o lustre da sala. Estou entrando em contato com o escritório para que eles cubram o custo.

Eu olho para ele e ele retribui o meu olhar.

- Eu... Tem alguma coisa que eu poderia fazer para te ajudar? — pergunto. — Digo... O que aconteceu com o lustre?

- Bem, ele se espatifou no chão. — ele deixa os ombros se arriarem.

Faço um maneio com a cabeça.

- Tudo bem, podemos ficar sem o lustre. Você é o arquiteto que contratamos? — pergunto olhando para Elton e depois para o rapaz.

Ele parece respirar fundo e tentar se recompor. Parece enxugar uma das mãos em sua calça antes de estendê-la para mim.

- Me desculpe, sim, sou o arquiteto. Sou o Joaquin.

Sorrio.

- Muito prazer, Joaquin. — aperto a sua mão. — Eu sou a Lia. Lia Carneiro.

- É um prazer conhecê-la. — ele diz. — Poderia lhe mostrar como está o interior da casa? Ainda não está tudo pronto como já devem ter lhe informado e ainda temos o problema do lustre, mas... — ele dá de ombros como se desculpasse. — As coisas saíram do controle entre ontem e hoje.

- Joaquin. — ele parece parar e me escutar pela primeira vez. Seus olhos têm um formato pequeno e quase asiático. — Eu gostaria que você me mostrasse o que conseguiu fazer até agora e que ficasse tranquilo a respeito do que ainda e necessário fazer, sim? Só vou deixar que me mostre o seu trabalho se não ficar preocupado com o que ainda falta.

- Bem, nós tínhamos prazos e...

- Não tem problema. — tento parecer firme e certa do que estou dizendo.

Ele parece relaxar um pouco mais. Sorrio com aquilo. Ele parece analisar o meu rosto por alguns segundos e pede para que eu o acompanhe. Entro na minha nova casa. O interior é tão iluminado e espaçoso... Onde estamos agora é a entrada. O chão tem um revestimento de porcelanato branco com bege e as paredes um tom de creme. Ainda falta um pouco de decoração pessoal; algumas peças na parede aqui e ali, mas eu já tinha muita coisa em mente.

- Você tem um bom gosto para lustres. — ouço sua voz dizer.

- Obrigada. Devo admitir que na minha cabeça não pareceu tão grande e espalhafatoso, mas eu amei.

Nós prosseguimos para o andar de cima, subindo uma escada de quarenta e cinco graus de madeira espaçadas. O lustre da sala era o que estava quebrado ao chão. Uma outra extravagância de vidro. A equipe de limpeza já fazia o seu trabalho. Não comento sobre o lustre. Para mim era tão irrelevante... Olho para os detalhes na parede. O papel de parede cor de mogno rústico dava um tom mais escuro e sofisticado. Dali de cima eu podia ver a piscina e todo o restante do perímetro da casa. Não era uma casa enorme, mas tinha um bom espaço distribuído.

- Esse é o lustre que estamos tentando recuperar, mas fora isso, a sala está pronta.

- Conseguiram estalar as cortinas que pedi? Eu gosto de ambientes arejados e claros, mas todo esse vidro me deixaria paranóica sem as cortinas... — sinto-me esquisita de repente ao pensar em alguém me espionando ou quebrando a minha privacidade.

- Tudo certo a respeito disso. Consegui falar com o pessoal do design de interiores. Eles farão alguns retoques e entregas até o final da semana. Pelo menos é o que eu espero.

- Joaquin.

Ele me olha apreensivo novamente.

- Obrigada por se esforçar e dar o se máximo. Eu não te conheço, mas tenho certeza de que se o contrataram, é porque você é um bom arquiteto. Estou satisfeita com o seu trabalho.

- Me desculpe, estou um pouco transtornado a respeito dos atrasos e... — ele não termina de falar. Parece se perder em pensamentos. De perfil, tem um nariz reto e simétrico. Parece cansado.

- Bem, vocês podem descansar quanto a isso. Não tem problema. Estou feliz de estar em casa; independente de tudo estar com por cento acabado ou não.

- Obrigado. — ele assente. — Parece que eu tive sorte no final das contas.

Fico com a impressão de que ele está falando de algo mais profundo. Quando seu olhar volta a pairar sobre o meu rosto, desvio o olhar para o outro lado.

- Você sempre morou em casas grandes assim ou é a primeira vez?

Tenho o ímpeto de lhe contar a verdade: que a minha última casa, durante um ano inteiro, havia sido em um hospital psiquiátrico. Um quartinho espaçoso até; com vista noturna para a cidade para que eu me perdesse em pensamentos e pudesse me amargurar enquanto escrevia em um dos meus muitos diários.

- Não, nem sempre. — respondo.

Ele desvia o olhar do meu rosto quando um pedaço pesado do lustre faz um barulho alto ao ser recolhido.

- Deveríamos terminar o tour? — pergunto.

Mais tarde, naquela noite, quando tudo tinha se acalmado e eu tinha saído do banheiro envolta em meu robe e ido deitar no colchão extravagante de três metros de largura, encarei o teto do meu novo quarto. As luzes estavam apagadas, o silêncio da casa e da vizinhança era palpável. Eu estava sozinha junto de meus pensamentos. O meu recomeço estava ali. O trauma deveria ficar pra trás. Os diários já haviam sido empilhados lado a lado como livros nas prateleiras. Lia Carneiro tinha uma chance de recomeçar. Lia Carneiro se debulharia em lágrimas silenciosas em sua nova cama e adormeceria torcendo para que dias melhores realmente viessem até seu encontro.


Notas finais
E aí? O que estão achando dos personagens até agora? Há tanto por vir... Eu prometo! Eliemesse.