Afetos Desalinhados
5 Lia
2018
"Querido diário,
Tenho que descrever para você a cena exatamente como foi: o som do saxofone com as batidas eletrônicas pareciam fazer mágica sobre o meu corpo. Os holofotes azuis giravam sobre mim de uma maneira lenta, sensual e eu confesso que essa minha percepção pode ter sido devido à maconha que utilizei antes de entrar na casa noturna. Acho incrível que, por mais que já tenha completado dezoito anos, meu pai insiste em querer me controlar mesmo de longe. Minha mãe não tenta mais; ela sabe que é uma batalha perdida. Eu estava junto de Pedrita e Hugo e já tínhamos bebido algumas antes. Estávamos esperando o tal amigo do Hugo, aquele que eu tinha dito que ele me apresentaria. Eu honestamente estava achando, àquela altura, que Hugo estava apenas me enrolando.
"Ele está no caminho, eu já disse!" — Hugo parecia impaciente.
Ignorei o seu mau humor e comecei a rir com Pedrita enquanto ela fumava o cigarro de maconha e se engasgava. O segurança da balada parecia nos julgar tanto com os olhos... Eu também não conseguia parar de rir. O álcool já tinha subido e eu esperava que o tal do amigo do Hugo não furasse, já que, segundo nosso amigo em comum, ele estava muito interessado em mim.
Hugo não parava de falar das provas do primeiro semestre e nós — literalmente — tínhamos acabado de entrar de férias do primeiro semestre. Será que ele não podia deixar a faculdade de lado? Eu disse que ele provavelmente estava com saudade de paquerar o professor e ele ficou enfezado. Agora, vendo por esse panorama, acho que fui uma amiga tóxica. Em minha defesa ele estava me irritando.
Quando decidimos entrar — Pedrita e eu — pois tínhamos perdido as esperanças que o amigo bonitão e mais velho de Hugo ia aparecer — o segurança da balada nos revistou como se não tivesse visto que já tínhamos enrolado um baseado do lado de fora. Nós passamos por ele enquanto Hugo falava com alguém ao telefone. Do lado de dentro, era tudo mais escuro do que eu imaginava. Eu já tinha ido a outras festas antes, você sabe..."
2025
"Querido diário,
Já olhou para versões passadas de você e sentiu-se completamente estúpida e como se não se reconhecesse? Como se sua versão atual e versões anteriores não fizessem parte da mesma pessoa?
Claro que não! O que estou dizendo? Você é um diário; um objeto inanimado que apenas come todas as minhas palavras e alivia o meu peito cheio de fuligem a ser colocada para fora depois de tantos incêndios... Por mais que seja sofrido, fico feliz e sinto-me grata de ter sido incendiada tantas vezes nos últimos anos. Eu espero que essas versões futuras — a partir de agora — sejam melhores e me tragam um pouco mais de orgulho quando, daqui alguns anos, eu olhar para trás.
A casa está quase toda pronta. Ainda faltam alguns detalhes, sabe? Todas as noites antes de dormir, tenho me sentado nessa cama gigante — com esse colchão extravagante de três metros por dois — e encaro o céu pelo janelão de vidro. Sinto-me extremamente pequena dentro dessa casa de vidro. Não que eu me arrependa de tê-la comprado. É linda, arejada, entra sol — e você sabe que preciso de sol para me sentir minimamente bem humorada e esperançosa com a vida — mas tem sido um pouco solitário, não posso negar. Olhar para alguns registros, onde eu jurava que tinha amigos, pois eles me acompanhavam em festas e faziam loucuras — muitas delas fora da lei — comigo, parece tão imaturo, insano e brutal. É muito tarde para, de repente, começar a ir até a igreja? Eu posso rir com esse pensamento, pois ao mesmo tempo que posso sentir esse ímpeto, lembro-me de todos os possíveis pecados que já cometi e mandamentos bíblicos que posso ter violado — e sinto-me extremamente indigna de qualquer intervenção divina. Ainda assim, o terço que Elton me deu quando foi me visitar no hospital psiquiátrico no começo do ano, continua comigo. Eu adormeço com ele ao meu lado e não sei se Deus se recusaria a ouvir minhas orações, mas eu sempre tento falar com Ele agora — pelo menos antes de dormir.
Tenho um palácio de vidro e não tenho ninguém para dividi-lo. A minha piscina tem se sujado dia após dia. Todos os meus antigos amigos ou conhecidos... Como poderia chamá-los de volta para a minha vida se quando estive no meu pior momento, ninguém apareceu? Chegou aquela parte da vida em que você tem a confirmação de quem são seus amigos. Eu tive a confirmação que não tive nenhum.
De alguma forma, acredito em dias melhores. Isso faz de mim uma estúpida? Estou cogitando alguns caminhos, alguns cursos para poder fazer... Talvez usar o meu talento para música para ensinar crianças ou algo do tipo? Sinto falta de cantar em bares. Estou tentando arrumar um novo produtor musical — já que meu pai se demitiu do cargo depois de tudo. A vida tem sido agridoce, mas não quero mais te monopolizar com nada disso — apesar de ser o seu trabalho me ouvir...
Ah, conheci um rapaz interessante. Não no sentido de sair com ele. O arquiteto que projetou a casa; ele é bonito e parece... Não sei. Achei ele interessante. É louco que, por mais que os anos passem, não perco a mania de idealizar as pessoas quando as conheço — principalmente os homens. Será que é um defeito de fábrica? As minhas idealizações me colocaram em cada lugar...
Enfim, obrigada por sempre me ouvir. Espero que, daqui a alguns anos, ao reler esses relatos mais maduros, eu sinta orgulho.
Lia C".
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