Afetos Desalinhados
23 Lia
Notas iniciais
Sugeri que nos encontrássemos em um restaurante ou bar. Minha mãe estivera passando a semana comigo. Era... bom tê-la em casa, ao mesmo passo que me sentia sem liberdade. Ela me perguntou aonde eu iria; não querendo me controlar, mas curiosa. Ela e Carmen estavam sentadas à bancada da cozinha, ambas com uma xícara de chá nas mãos. Por trás de todos os acessórios e roupas de marca, minha mãe podia se despir das extravagâncias e reduzir-se à simplicidade: uma blusa regata branca, uma calça de malha bege, o cabelo em um coque despojado e desfiado, assim como o meu ficava pelo elástico não abarcar todos os fios curtos.
- Vou me encontrar com o arquiteto que está cuidando das mudanças que faremos no estúdio.
Carmen sorri com doçura e malícia. Eu sorrio.
- Não, Carmen; não faça essa cara. Joaquin é ótimo, mas ele é... comprometido. — olho para meus pés. — Esta roupa está boa? Parece que estou me esforçando de alguma forma?
Ambas olham para mim em silêncio. Ao contrário de Carmen, minha mãe não opina.
- Acho que está ótima, querida. Você está sempre ótima.
Carmen era tão maternal... Eu sorrio com doçura para ela.
- Obrigada, Carmen.
- Nunca se desculpe por se arrumar; nem se for para causar uma boa impressão.
Meus olhos mudam de rumo e pairam sobre minha mãe. Ela pisca para mim com o queixo apoiado em uma das mãos. Meus lábios se contraem em uma linha fina. Sinto minha criança interior sorrindo.
Acabo de sair do banheiro do bar. Tomei a liberdade de pedir uma garrafa de cerveja para mim e já a bebi. Estou com calor apesar da ventania forte que sobrecaiu a cidade durante o começo da noite. No banheiro, esses espelhos retangulares acima de um canteiro cheio de lírios brancos. Lavo minhas mãos enquanto encaro meu reflexo e examino minha roupa e cabelo. O tom dourado com mechas mais suaves e acastanhadas por uma diferença mínima e natural de nuance talvez me apagasse. Eu estava apagada? Meu corpo estava envolto em um vestido jeans de alças grossas e busto em forma de coração. Meu busto não era largo, mas meus seios pareciam fartos sem estarem espremidos. Não era um vestido decotado. Eu esperava que não fosse. Eu esperava que não tivesse escolhido errado. Meus cabelos estavam soltos e ondulados nas pontas — com uma tiara trançada por todo o perímetro do couro cabeludo como se fosse uma coroa de flores, dando-lhe um pouco mais de volume. Meus cabelos eram sempre tão lisos...
Respiro fundo e coloco minhas mãos debaixo da água novamente. Alguém entra no banheiro e passa atrás de mim indo em direção às cabines. Volto meu olhar para meu reflexo. Ajeito as alças do vestido sem que elas precisem ser ajustadas. Meus pés estão gelados; estou com uma sandália branca com fivelas finas trançadas no peito do pé. Minhas unhas pintadas de um branco suave. Engulo em seco. Talvez eu devesse ir embora. O que eu estava fazendo?! Reviro os olhos para mim mesma; exasperada com o fluxo de pensamentos inoportunos.
- Pode me ver outra cerveja, por favor? — pergunto ao garçom que acaba de passar em frente à mesa.
- É claro. — ele anui com a cabeça. — A mesma?
- Sim. — sorrio. — Obrigada.
Volto a atenção ao livro que está em cima da mesa alta de madeira. Olho em direção ao palco de madeira. Não acredito que estive ali a algumas semanas, no palco, voltando a cantar ao vivo depois de três anos! Desde então, estou recomeçando. Meu estúdio está indo para o papel e ganhando forma. Tenho escrito músicas novas — inacabadas — mas começadas. É um recomeço. Deus não desistiu de mim. Meus olhos ardem e as palavras de Neruda se embaralham por um momento. Pisco algumas vezes para que as lágrimas voltem aos seus lugares. Malditas...
O garçom volta com a minha cerveja. Agradeço e levo a garrafa até a boca. Bebo alguns goles. Volto minha atenção à pagina do livro. Seguro-o em pé no balcão; a garrafa de cerveja ao lado do meu braço esquerdo.
"Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.
Mas para onde vá, levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor..."
- Não é comum ver as pessoas lendo Neruda.
Levanto minha cabeça e olho para o lado. As luzes alaranjadas que pendem do teto conferem à Joaquin um ar etéreo e embaçado. As mesas atrás dele são meros borrões. Ele tem um óculos de sol enfiado no colarinho da camisa 3x4 preta que está usando. Seus olhos parecem ainda mais escuros no ambiente tavernoso de madeira.
- Ainda mais em espanhol. — ele acrescenta encarando a capa com a cabeça tombada tentando ler o título.
Meu coração bate desenfreado. Eu engulo em seco. Preciso dizer algo enquanto poderia observá-lo à luz alaranjada por horas...
- Oi.
Joaquin respira fundo e parece se divertir com algo enquanto analisa meu rosto. Senta-se ao banco ao meu lado.
- Oi. — anui com a cabeça e pousa o notebook fechado entre nós.
Nos alto-falantes há essa música tocando: You're All I Got da banda The Lumineers.
- Pode trazer uma cerveja para mim? — observo-o de perfil enquanto ele fala com o garçom do outro lado do balcão.
Coço a ponta do nariz e fecho o livro, pousando ambas as mãos em cima da capa. Analiso minhas unhas em um tom leitoso suave. Minha garrafa de cerveja transpira. criando uma borda aguada em cima da madeira. Pego-a nas mãos; ainda é gelada e a água acumulada molha as pontas dos meus dedos. Levo a cerveja até a boca dando goladas generosas. Encaro a prateleira de bebidas iluminadas por uma luz pálida, branca e quente. Tento ignorar a atmosfera promissora e alinhar minhas expectativas com a realidade de que Joaquin nunca poderia ser meu. Minha mente voa para o dia do show: Emília sorri me estendendo a mão. O que ela tinha dito mesmo? "Sou a namorada de Joaquin". Emília; sorridente, com cabelos castanhos lisos e rosto delicado. Um sorriso doce e acolhedor. Uma mulher que qualquer homem teria sorte de ter. Provavelmente nunca tinha decepcionado forças divinas como eu. Emília, a futura mãe dos filhos de Joaquin...
- Saúde.
A voz de Joaquin me tira de meus devaneios. Ele parece...
- Você parece diferente.
Seu rosto parece igual — sem mudança significativa. — No entanto, há algo diferente nele. Pego a minha cerveja suada. Nossas garrafas trincam uma na outra; um ruído quase metálico. A garrafa de Joaquin quase congelada, o vidro esbranquiçado e texturizado. Eu sorrio.
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