Notas iniciais
Capítulo fresquinho saindo 💛 Espero que gostem! Ah, e o que vcs acham da nossa nova capa? Eu amei 🥹

Quando passei pela porta do bar — o mesmo bar em que Lia tinha cantado algumas semanas atrás — a atmosfera abafada parece pressurizada. Pareço ter sido sugado para uma realidade paralela; o mundo lá fora se esvaindo de repente. As luzes são quentes e alaranjadas conferindo ao local uma aparência tavernosa, medieval e ao mesmo tempo moderna. Acabo de avistar Lia a alguns metros: está sentada ao bar, tem a atenção voltada a um livro que parece surrado. Seus cabelos têm um penteado diferente: uma trança ao redor da cabeça e as pontas das madeixas onduladas. O corpo abraçado por um vestido jeans justo. Dou um passo a frente antes que paralise.

Ela está lendo Pablo Neruda. Aquilo me surpreende.

- Não é comum ver pessoas lendo Neruda.

Seu olhar encontra o meu. Meus pensamentos foram vomitados pela minha boca. Lia abriu um meio sorriso; um sorriso discreto e de lado. Seus olhos feitos de um intenso chocolate derretido parecem ter mergulhado em uma camada extra de açúcar naquele dia pela maneira como me olhava.

- Oi. — seu tom de voz é suave e baixo.

Engulo em seco. Sento-me ao seu lado e pouso o notebook em cima do balcão.

- Oi. — olho para o barman. — Pode me trazer uma cerveja?

Lia fecha o seu livro em cima do balcão. A observo enquanto ela parece evitar meu olhar. A alça jeans do vestido é grossa. O jeans é quase de um azul royal. Os fios dourados do cabelo com a nuance da peça de roupa lhe confere um ar sofisticado e doce. Lia parece uma menina jovem frente à vida. A beleza mordaz; a sensualidade latente e avermelhada foi substituída por uma aura regada à maresia ao final de uma tarde chuvosa de novembro: o céu pintado de cinza azulado, a areia da praia fofa e branca contra os pés; o som da correnteza se quebrando a cada onda e nada mais.

Recebo minha garrafa de cerveja. Ela bebe alguns goles da sua. O pescoço dourado à mostra. O cheiro de baunilha cítrica me causa uma sensação calorosa.

- Saúde. — eu digo estendendo minha garrafa em sua direção em cima do balcão.

Ela olha para mim. Parece analisar meu rosto.

- Você parece diferente... — seus olhos se estreitam ligeiramente.

Lia trinca sua garrafa de cerveja na minha e sorri.

Eu me sinto diferente. - penso. E não significava um diferente bom, mas um diferente adormecido, dissociado, em dúvida.

- Tenho algumas coisas para te mostrar. — abro o notebook. Minha foto de papel de parede é uma foto que Emília tinha tirado de mim no topo do Empire State Building quando fomos no começo do namoro. Não era uma fotografia de boa qualidade, mas eu estava no topo de um dos prédios mais lindos e enormes que já tinha tido o prazer de estar. Apesar do sol ter raiado no céu nova iorquino naquele dia, eu estava de touca. O vento era cortante.

- Nova York é demais.

Olho para Lia. Ela retribui meu olhar cautelosamente. Ela aponta para a minha tela do computador.

- É verdade. — concordo com ela. Pigarreio. — Emília tirou essa foto para mim. Estava um frio terrível, mas fora isso, foi uma experiência muito legal. — digo encarando o computador enquanto procuro pelo arquivo que devo mostrar à Lia.

Quando olho para seu rosto, vejo que ela raspa a unha contra a garrafa suada de cerveja em sua mão. Ela tem um meio sorriso cruzando seus lábios e parece pensativa. Minha cabeça gira um pouco.

- Bem, estive pesquisando sobre... Tudo. Os materiais... — gostaria de te mostrar os avanços que fiz na planta. Se você aprovar, podemos começar as obras na semana que vem.

Lia faz um breve manejo com a cabeça ainda com a sombra de um sorriso nos lábios.

- Tudo bem. — seu tom de voz é suave, suas mãos estão juntas no meio das pernas perto do joelho, como se ela estivesse com frio.

- Aqui é a porta de vidro que iremos colocar...

Ela se inclina um pouco para frente para enxergar a tela do computador enquanto eu acompanho cada parte da planta com o polegar, mostrando o trabalho que eu tinha feito. Continuo a apresentar a planta do seu novo estúdio. Seu corpo está perto o suficiente de mim para que eu possa sentir o calor dos átomos que a compõem ao meu lado sem que ela precise encostar em uma única fibra do meu corpo. Tento ignorar aquilo. Acho que estou começando a suar. Talvez fosse o Xanax. Eu estava tendo essas ondas de calor... Estou me esforçando. Estou me esforçando para continuar em meio a todo aquele caos.

- Certo... - ela diz em algum momento próxima ao meu rosto. — Acha que colocar uma parede inteira de vidro aqui é uma boa ideia em termos de escape acústico? Estou perguntando porque... — seu dedo indicador fino e delicado com unhas pintadas de uma cor leitosa dança pela planta do estúdio como uma caneta de ponta suave. Sinto meu corpo travado por alguns instantes. Talvez eu precisasse de outro comprido de Xanax e mais uma cerveja... Talvez eu estivesse muito confuso com o que Lia estivesse despertando em mim. Não me lembrava de ter me sentido daquela maneira com Emília. O que eram todas aquelas... Sensações, percepções... Sentimentos?

Notas finais
Vocês gostaram?!! Me contem tudo!! Até o próximo. Eliemesse
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.