Notas iniciais
Oi, pessoal!! Obrigada por chegarem até aqui e por comentar a cada capítulo! Esse é um dos meus favoritos (sei que tenho dito muito isso, mas é verdade 🫠) Espero que gostem! Boa leitura ;)

Meus olhos estão arregalados. Ele está na minha frente com uma garrafa de vidro cheia de álcool e esse pano enfiado no gargalo. Na outra mão, o isqueiro brinca de morde e assopra.

- O que está fazendo? — tento parecer firme, mas minha voz treme.

Tudo acontece em câmera lenta. A garrafa voa contra o vidro causando um efeito borboleta. Consigo ver toda a extensão retangular que poderia me proteger rachar-se com um barulho agudo; cortante. Milhares de estilhaços. Eu acho que gritei. As labaredas começaram a engolir o cubículo onde eu estava centralizada.

Minha testa estava apoiada contra a janela do carro. As sirenes vermelhas e azuis iluminaram o meu rosto de maneira violenta, tirando-me de meus devaneios, corrompendo minha intimidade e ainda assim, eram o motivo por todas as lembranças virem à tona. Eram quatro da manhã. Em breve o sol começaria a aparecer. Em algum lugar, os passarinhos cantariam. Eu reprimo um sorriso ao encarar as gotículas da garoa que salpicam o vidro da janela. O carro balança para lá e para cá. A suspensão é silenciosa. Estou imersa em meus próprios pensamentos; o mundo lá fora não tem som, apenas um ruído grave e abafado do carro andando no asfalto de madrugada.

Eu estava em êxtase! Encaro minhas próprias pernas. Eu não queria tirar aquelas meias ao mesmo tempo que não via a hora de tomar um banho... Meus cabelos estavam suados e agora pareciam grudentos. Eu sentia a película fina de suor que tinha se apoderado da minha pele da cabeça aos pés.

- Estávamos com tanta saudade de ouvir você cantar! — uma das meninas, bem novinha, com os cabelos lisos e castanhos tinha dito saltitando ao meu lado. Eu sorri com aquilo.

O pedido para tirar fotos, o coro cantando "To Love" do lado de fora do bar enquanto eu esperava pelo motorista. O "você vai ter que voltar a tocar nesse bar em breve, garota!" do gerente da boate... Eu não conseguiria dormir!

Quando o carro ultrapassa o portão amarelo mostarda, Elton está do lado de dentro com sua habitual expressão séria e profissional, com as mãos em frente ao corpo; os braços quase que cruzados como um x. Eu abaixo o vidro e inclino minha cabeça para fora enquanto sorrio.

- Como você é profissional, Elton!

- Como foi o show? — ele pergunta como se não fosse quase um pai para mim.

O carro mal para e eu já estou abrindo a porta para descer. Deixo a porta aberta. A luz vermelha dos freios ilumina a grama de maneira pálida e alienígena. Está uma brisa gelada ali fora, mas eu não me importo. A casa está silenciosa. A piscina está limpa — pela primeira vez em dias — e as luzes azuis ao redor de sua borda estão acesas.

- Foi incrível, Elton! — eu digo alto, mas sem me alterar muito. Pouso a mão em seu antebraço. — Foi incrível! — permaneço olhando para o céu negro. Não há nenhuma estrela, mas eu poderia pintar todas aquelas naquela noite. — Estou viva.

A maneira como falo isso parece uma observação. Sorrio apatetada e eu nem estava bêbada. Tinha bebido apenas uma garrafa de cerveja — por conta da casa. Digo ao Elton que vou entrar. Você pega as coisas no carro com ele?

Caminho até a casa de vidro. Minha casa. No hall de entrada o Sr. Jagger me saúda com sua pose de rockstar. Eu faço uma reverência sob as luzes de led amarelas. Tiro o par de botas perto do primeiro degrau da escada. Elas eram lindas e estavam me matando. Sentir a superfície plana contra a sola dos meus pés é aliviante. Subo os degraus espaçados até o meu quarto no terceiro andar. Acendo a luz azul escuro que faz contorno com a sanca. Nada muito claro para não espantar ainda mais o meu sono. Fecho a porta atrás de mim e começo a abrir o zíper do vestido com um pouco de dificuldade. Me certifiquei de colocar cortinas nos janelões de vidro. Eu estava em um santuário melancólico, escuroe sensual de luzes decorativas e cortinas pesadas e aconchegantes. Meu vestido cai no meio do quarto. Estou nua se não fosse pela calcinha preta.

No banheiro, não posso fugir da claridade. As luzes amareladas das leds redondas estapeiam o meu rosto. Eu não me importo. Enquanto a banheira enche eu encaro o meu reflexo no espelho. Não o meu corpo nu. Minha nudez não me provocava em nada. Encaro o meu rosto. Minha maquiagem havia se derretido um pouco. Os meus lábios voltaram a ter uma cor pálida e menos saudável. Meus cabelos pareciam frisados; as pontas ainda cheias pelo corte recente. Sorrio para mim mesma de maneira forçada e depois sinto-me grata por aquele dia em específico e dessa vez sorrio genuinamente sem perceber ao encarar de maneira borrada a cuba quadrada da pia.

Tiro a minha calcinha e a jogo dentro da água da banheira. Fecho a torneira. Quando coloco uma das pernas dentro da água, ela parece elevar de nível e quase transborda. Talvez eu tenha exagerado. Gemo de prazer ao afundar meu corpo na água quente. As pontas dos meus cabelos se molham. Eu não ligo. Encaro o azulejo branco à minha frente e a torneira dourada que agora estava fechada. Robert me vem à cabeça. Ele era tão engraçado e tinha um astral maravilhoso! Sorrio encarando a água com espuma branca e densa. Começo a acariciar meu braço com ela e Joaquin não pede permissão e invade meus sentidos.

Meu semblante pode ter mudado. Acho que me sinto decepcionada em saber que ele tinha uma namorada. Mas o que eu esperava? Ele era lindo, um arquiteto... Parecia mais velho. A namorada parecia ser um amor de pessoa... Era baixinha. Talvez alguns centímetros maior do que eu. Ela parecia ser o tipo de garota para casar. Penso na vida que eles podem ter: talvez um cachorro labrador gigante que seja atentado e destrua os sofás do apartamento. Ela... Professora de educação infantil, pois parece meiga. Ele, sério e racional; um contraste perfeito. Ela gosta do velho sexo baunilha e ele de experimentar coisas mais ousadas. Yin e Yang. Opostos perfeitos se completando.

Sinto inveja dela. Não por toda a vida perfeita que deve ter ao lado de Joaquin, mas porque é amada. Quão mais fácil a vida pode ser vivida quando você tem certeza de que é amado por alguém? Os problemas estarão lá, mas no final do dia, a pessoa que te ama estará lá também; oferecerá ouvidos dedicados aos seus problemas ou talvez só um deles, enquanto o outro está ouvindo a televisão. As refeições se tornam mais caras, mas é o preço de se comer por dois e ainda teria a ração dos cachorros... A toalha molhada em cima da cama que será uma mania chata e estúpida que pode gerar discussões cotidianas... O sexo na tarde de domingo e a preguiça entrelaçando joelhos debaixo do cobertor. A pizza no final do dia, pois ninguém está a fim de cozinhar. Voltar para casa no final do dia e ter certeza de ter um abrigo em forma de sangue, ossos e uma alma concedida pelo criador do universo; o mundo lá fora continuando a viver as suas loucuras, suas maldades, seus sorrisos e suas dores e vocês ali; reclusos.

A água quente parece ter tido um efeito sobre mim. Sinto-me sonolenta. Começo a tomar o meu banho, limpando-me antes que a água esfrie. O ralo começa a levar todos os resquícios da noite embora. Decido lavar o cabelo com o chuveiro aberto. Quando volto ao quarto, enrolada no roupão preto, jogo-me no colchão que me acolhe como um velho amigo. O terço está ao lado do meu travesseiro. Eu agradeço e para minha decepção como ser humano, já estou próxima de pedir mais...

- Por favor...

Sou acordada repentinamente pelo meu celular vibrando em cima do colchão. Eu tinha dormido de roupão, cabelos molhados e de braços abertos como o Cristo Redentor em cima da cama. Apaguei. As mensagens são de Robert mandando-me as fotos que ele tinha tirado. Sorrio de olhos fechados e não abro as mensagens por enquanto. O rosto de Joaquin me vem a mente. Ele parecia cansado.

- Você tem talento.

Eu precisava continuar gravando músicas. Precisava de um ambiente para músicas novas. Eu precisava reconstruir os estilhaços e reconstituir o que foi consumido pelas labaredas. Pego o celular nas mãos e digito freneticamente. Coloco as minhas iniciais. Ativo o modo silencioso. Estou dormindo de novo.

Notas finais
Espero muito que tenham gostado deste ponto de vista da Lia após o show que ela fez no pub! Tem muito por vir... Beijo grande e nos vemos no próximo capítulo!!! Eliemesse.