Emília me manda mensagem enquanto estou levando meu pai para casa. Escuto seu áudio enquanto seguro o volante com umas das mãos. Lá fora, o sol parece mais forte do que estivera nos outros dias. Ela diz que levaria Mariana até o aeroporto de noite e que provavelmente demoraria para chegar em casa. Eu respondo com um áudio dizendo que tudo bem, desejando uma boa viagem para Mariana e eu também demoraria para voltar para casa naquele dia. Eu tinha um novo projeto para discutir com um cliente. Ao colocar o telefone de volta no bolso da calça, no banco do carona, meu pai permanece em silêncio olhando o trânsito à frente.


- Está se sentindo bem? Como estão os efeitos hoje?


- Está tudo bem. Às vezes os efeitos são tardios.


Não digo nada por um instante. Os carros recomeçam a andar.


- Posso perguntar uma coisa?


Eu e o meu pai trocamos um olhar. Ele não parece muito confortável com toda aquela atenção.


- Vai em frente. — diz entre dentes.


- Está com medo de morrer?


Ele parece pensar por um instante.


- Não se Ele quiser me levar. Se for da vontade Dele, então sei que esse é o melhor destino para mim.


Aquilo me pega de surpresa. Meus dedos parecem doer contra o volante por um instante. Os mexo lentamente, como se estivesse os exercitando. Meu pai nunca tinha mostrado uma religiosidade fervorosa. Aquele discurso era algo próximo à morte ou ele sempre acreditara naquelas palavras?


- De qualquer forma — ele continua depois de um momento de silêncio — Sei que vai cuidar da sua mãe.


O modo como ele profere aquelas palavras não é uma certeza, de fato, e sim um "Você vai cuidar da sua mãe. Sabe que é o melhor a se fazer, caso contrário, sua porta de entrada lá em cima será fechada por mim mesmo". Faço um ruído afirmativo. Lembro do último abraço que a minha mãe havia me dado. O "eu te amo" e seus cabelos com vestígios grisalhos.


- Sua mãe é a melhor mulher que já conheci.


Olho para o meu pai enquanto coço o maxilar. Ele sustenta o meu olhar.


- Claro que temos e já tivemos problemas muito maiores quando você era pequeno. — meu pai desvia o olhar para a avenida onde estamos. — Acho que você já é maduro o suficiente para saber que nem sempre nossos casamentos caminham como gostaríamos.


Sinto meus ombros tensionando. Meus próprios olham encaram meu reflexo no retrovisor. Era como se aquela versão do espelho me humilhasse com todas as minhas fraquezas expostas. Ele continua.


- Sabia que já traí a sua mãe?


- O quê?! — uno as sobrancelhas.


Meu pai dá de ombros. Não parece se importar com a minha expressão incrédula e com minhas sobrancelhas espessas e negras como uma taturana raivosa.


- Você era criança. — ele continua. — Não tenho certeza se se lembra disso. Você devia ter uns cinco ou seis anos na época. Ainda estávamos morando na fazenda do seu falecido avô.


Minhas sobrancelhas ainda estão unidas enquanto fito os carros à frente e o movimento do trânsito. Tento lembrar-me com afinco dessa época. Meus pais raramente brigavam na minha frente, mas lembro-me de algo.

Eu estava segurando o batente caramelo da cozinha. As mãos pequenas, as unhas sujas de terra. Minha mãe, uma versão mais nova, usando um vestido florido branco de alças grossas. Os cabelos curtos e ondulados como sempre, pareciam uma camada fofa, fina e delicada que brilhava ao reflexo do sol penetrando pelas janelas. Ela estava em frente à pia da cozinha. Meu pai estava perto dela e segurava com uma das mãos no encosto da cadeira de madeira. Na imagem, eles pareciam exasperados um com o outro. Os traços delicados e ao mesmo tempo fortes de minha mãe traduziram sua insatisfação. Eu não conseguia entender as suas palavras; a memória era distante ainda que dotada de significado. Eu era só um garoto. Todas as palavras que eles poferiram se perderam em um abismo abstrato. Um garoto de seis anos nunca saberia o motivo de sua mãe estar tão exasperada; não saberia o que seu pai estivera fazendo até tarde nos estábulos vizinhos e nas visitas da adega. Ele estaria encontrando vida, reafirmação, algo novo e provas do que realmente queria.


Piso no freio de repente. Meu pai xinga baixinho. As buzinas me amaldiçoam atrás de mim. Os carros passam ao meu lado com motoristas exasperados.


- O que diabos pensa que está fazendo?


- O que diabos o senhor pensa que fez?!


Nós nos encaramos. Eu estava tão bravo! Meu pai revira os olhos. Ele não se importa que eu saiba da crosta suja que permeou o seu casamento com a minha mãe. Ele não se importa de se expor.


- Não seja dramático, Joaquin. Por mais que ame Emília, pois ela realmente é amável, dou a minha cara a tapa que você nunca a pensou em trair.


- Eu nunca pensei. — meu rosto está em chamas. — E se tivesse pensado, saberia que era errado.


- Eu também sabia. — ele deu de ombros. — Eu também sabia e ainda assim fiz. Eu não me arrependo. Nunca faltou nada a sua mãe e nem para você. O que estou dizendo... Ei, preste atenção em mim. — ele segura o meu queixo fazendo-me olhar para ele.


Minha cabeça lateja. Acho que vou vomitar. Meu corpo inteiro está tensionado.


- O que estou dizendo é que fui o melhor que pude ser, como homem. Se falhei como pai em algo, sei que um dia tentará fazer diferente com seus filhos, se tiver a capacidade de evoluir ou quiser fazer melhor. Mas não vai abandonar a sua mãe ou fazê-la sofrer. Você não é o homem dela, é o filho, está me entendendo? Você não tem o direito de falhar com ela.


Não sei o que dizer. Não profiro uma palavra sequer. Recomeço a dirigir; ambas as mãos apertando o volante com força. O caminho restante até em casa é pesado e mudo. Eu abro o vidro ao meu lado, pois a atmosfera reclusa entre meu pai e eu tinha ficado densa demais para mim. Quando estaciono em frente à casa deles, meu pai pergunta calmo se eu iria entrar.


- Não, eu estou atrasado para o trabalho.


- Certo. Dirija com cuidado.


Ele não parece abalado. Dá um tapinha na minha perna. Continuo olhando para frente. Minha mãe está vindo dos fundos da casa para abrir o portão. Meu pai fecha a porta do carro. Eu tenho que sair dali.


Contorno a rua com um movimento rápido. De relance, vejo o semblante confuso de minha mãe pelo retrovisor. Meu pai e ela olham para o meu carro se afastando no sentindo contrário. Algo quente começa a molhar o meu rosto. Como se eu não soubesse ou quisesse ter a certeza, olho o reflexo do meu rosto no retrovisor. Estou chorando e nem sei o motivo. A imagem dos meus pais mais novos discutindo, mexendo a boca sem que eu ouvisse som algum, minha mãe segurando um pano de prato nas mãos com as sobrancelhas unidas. Eles pareciam altos lá atrás... Versões mais jovens que já haviam vivido tudo o que eu ainda ia viver. Sinto algo se romper dentro de mim.


***


Estou em frente ao portão amarelo mostarda. Não passa um carro ou alma viva naquela vizinhança. O visor do meu celular ilumina meu semblante de maneira esbranquiçada na penumbra noturna. São dez para as oito da noite.


Acha que vai chegar que horas hoje? — é uma mensagem de Emília.


Ouço uma chave no portão que se abre segundos depois. Ela tem a boca entre aberta, quase como se estivesse surpresa apesar da minha resposta. Ela sorri e profere as palavras quase como alívio.


- Joaquin, oi. Entra!


Passo pelo portão. Ele se fecha atrás de mim. Guardo o celular de volta no bolso da calça jeans.


Notas finais
E aí?? O que acharam deste capítulo?!? Alguma parte te tocou? Ler me know!!! Eliemesse