Afetos Desalinhados
8 Joaquin
Notas iniciais
Emília estava ao meu lado na mesa de jantar enquanto minha mãe nos servia mais um pouco de suco de uva verde. Meus pais tinham essa obsessão por parreiras, vinícolas ou qualquer coisa que envolvesse cultivo de uvas desde que eu era pequeno. A minha paixão pela arquitetura veio das casas onde meu pai instalava e projetava vinícolas inteligentes. Me lembrava dos passeios que fiz com ele, em pequenos buggies por fazendas ou mansões afastadas da metrópole. Nós mesmos havíamos morado em uma fazenda quando criança, com direito à áreas extensas de vários tipos de uva. A briga de família pela propriedade do meu falecido avô tinha colocado tudo a perder. Hoje meu pai era dono de um quarto da fazenda e só o que gostava de fazer era ir passear algumas vezes e andar pelas parreiras experimentando as uvas. Tanto ele quanto os quatro outros irmãos dividiam o lucro que vinha da fazenda. Essa era a atual renda dos meus pais — e a fonte de tanto suco de uva e vinho.
Emília não gostava de beber álcool, portanto, caso eles nos presenteasse com garrafas de vinho, eu era o único beneficiado. Minha mãe não ofereceu álcool a nenhum de nós naquela noite. Acho que pelo fato do meu pai estar em tratamento e não poder beber fez com que ela não se animasse ou se importasse em me oferecer algo diferente do suco. Eu não estava reclamando, só absorvendo algumas mudanças. Tínhamos acabado de jantar uma refeição excepcional feita por minha mãe. Emília tinha, em certo momento, deitado sua cabeça em meu ombro enquanto meu pai contava sobre sua última ida ao hospital.
- Os médicos não disseram nada de novo, mas estou indo fazer o tratamento, pois se eu deixar a minha parte da vinícola para a sua mãe, ela simplesmente vai abandonar para os seus tios e desonrar a minha memória de beberrão.
Eu sorrio com o humor ácido do meu pai. Minha mãe, que estava colocando a sobremesa em cima da mesa de jantar olha para o meu pai e depois revira os olhos.
- Acho impressionante que a sua língua afiada e caluniadora não anda nem um pouco enfraquecida.
Ouço Emília rir baixinho enquanto sua cabeça está apoiada em meu ombro. Sorrio de lado.
- Pai, o senhor realmente fala cada coisa...
Minha mãe volta à cozinha para pegar mais alguma coisa que não faço a mínima ideia do que seja. Meu pai pisca com seus olhos azuis — quais não tive o prazer de herdar — para mim e coloca a língua para fora em uma expressão de divertimento com azedume forçado.
- Vou ajudar a sua mãe. — ouço Emília dizer e levantar a cabeça do meu ombro.
- Tá bom. — eu respondo.
Ela se levanta e sorri de maneira doce para o meu pai que a acompanha com o olhar enquanto segura sua cabeça com uma das mãos. Observo em silêncio ela se afastar e desaparecer cozinha adentro. Os cabelos castanhos e ondulados estão presos em um rabo de cavalo torto e desajeitado e ela tinha vestido o meu blazer, pois disse que estava sentindo frio. Eu não estava com frio e havia posicionado a peça de roupa contra o encosto da cadeira.
- Ficou parecendo uma super-heroína de roupa GG. — meu pai comenta.
Não faço comentário algum sobre aquilo. Me limito a olhar para o meu pai e deixar que a graça do seu comentário me atinja no âmago. Acho que de alguma maneira eu esboço um sorriso com aquilo. Meu Deus, eu esperava muito que aquele velho sobrevivesse e vencesse todas as etapas daquele tratamento...
- Como está o trabalho? Por que está tão calado?
Fecho os olhos e respiro fundo. Pouso uma das mãos em meu ombro e aperto com a ponta dos dedos.
- Está tudo bem, pai. Estou trabalhando bastante. Você sabe como é trabalho: sempre surge um problema aqui e ali para resolver e... só estou cansado hoje. Só isso.
Ele me olha por trás daquelas lentes multifocais. Tenho a leve impressão de que sabe que estou mentindo. Na verdade, omitindo algumas coisas.
- Está tudo bem entre você e a dona moça?
- Está tudo bem. — tento não entrar em assuntos do tipo — Está tudo certo, seu Marcelo. Agora, pare de ficar provocando a mãe. Ela já está uma pilha de nervos com o seu tratamento...
- E o que vai adiantar qualquer um de vocês ficar nervoso? Se eu tiver de morrer, vou morrer e nos vemos um dia novamente.
Nesse exato momento Emília está voltando com uma travessa de pudim nas mãos. Ela olha para a cabeça do meu pai e depois troca um olhar comigo. É um olhar de cumplicidade. Ela percebe a minha exaustão só de ouvir meu pai falar daquela maneira. Senta-se ao meu lado e enquanto faz isso, apoia uma das mãos em meu ombro e pressiona com a ponta dos dedos de maneira sutil.
- Pai, o senhor me chamou aqui para se comportar assim durante o jantar? Não quero mais que fale essas coisas. Será que o senhor não vê que estamos todos preocupados com tudo e que é difícil para todos nós vermos o senhor passar por isso? — dou uma breve pausa — Não está passando sozinho; nós também estamos no processo e por mais que eu admire a maneira como tenta encarar as coisas, espero que você mostre um pouco mais de educação e modos.
Estou irritado de repente. Eu conhecia meu pai bem o suficiente para saber que aquela postura era estranha ou alguma maneira que ele tinha achado de se proteger, de se blindar psicologicamente.
- Joaquin, o que faz você achar que pode falar dessa maneira com um velho que está morrendo?
- Seu Marcelo, não é isso. Acho que estamos todos à flor da pele e esses comentários...
- Bem, é a maneira que eu achei de lidar com toda essa merda e vocês terão que conviver com isso.
Senti-me azedo e a sobremesa, o pudim da minha mãe, enquanto todos nós nos reuníamos novamente envolta da mesa de jantar para saboreá-lo, desceu sem gosto. Por volta das dez da noite nos despedimos da minha mãe e do meu pai. Minha mãe nos acompanhou até o portão e começou a chorar agarrada a mim.
- Mãe, sei que está sendo difícil. — suspiro enquanto abraço ela.
- Não aguento esse jeito horrível dele... fazendo piadas sobre morrer. O que vou fazer se ele nos deixar, Joaquin?
- Não vamos pensar assim. — tento, de maneira vã, acalmá-la. Nem mesmo eu acreditava em minhas próprias palavras.
Minha mãe me solta e me olha por alguns segundos em silêncio e com os olhos úmidos. Seu olhar era como o meu; pequeno, escuro e no momento, acho que ambos carregavam o peso de não saber lidar com aquela situação.
- Nós ligaremos quando chegarmos em casa.
Ela se limita a assentir com a cabeça.
Dou a volta no carro enquanto Emília se despede dela no portão. Afivelo o cinto de segurança e respiro fundo. Encaro a rua sem saída por um momento apertanto o volante com toda a força que eu conseguia; os nós dos meus dedos ficando brancos, as unhas com uma coloração arroxeada. Eu tinha vontade de abrir a janela e sair gritando e arrancando com o carro — talvez dirigir em alta velocidade contra um muro de concreto e ter um descanço mental. Quando Emília entra no carro e fecha a porta, vejo de soslaio ela me olhando. Dou a partida sem falar nada.
- Tchau, mãe. — digo mais alto olhando pelo janela do lado do carona onde Emília estava ao meu lado. — Te amo.
- Vai com Deus! — ela acena para mim com uma das mãos enquanto enxuga os olhos com a outra.
Arranco com o carro e os pneus cantam ao fazer o retorno.
- Joaquin, por que está fazendo isso? — Emília segura no painel do carro.
- Não estou fazendo nada, Emília. — eu respiro fundo. — Eu só... não estou no meu melhor humor, honestamente. — dei de ombros.
- Eu tenho notado, mas você arrancar assim com o carro não vai resolver os seus problemas. Quer dizer, os nossos problemas. Você tem agido como se fossem apenas seus, mas eles são meus também.
Tento não morder a ísca. Respiro fundo mais uma vez e troco de marcha em silêncio. Em um momento, paramos em um semáforo fechado. O clima dentro do carro está tenso e quase sufocante.
- Está chateada comigo por algo? Você sabe que pode dizer, mas achei que à essa altura já era um pouco óbvio para você que eu me dou muito mal com situações que fogem do meu controle.
- Não é essa a questão, Joaquin. — ela olha para mim com seus olhos lânguidos e grandes. Há essa lua cheia no céu que parece iluminar tanto a noite quanto a avenida onde estamos parados. O rosto de Emília parece surgir da penumbra com olhos grandes e intensos e sobrancelhas unidas evidentes e inflamadas. — A questão é que você tem me dado uma espécie de tratamento monossilábico ou... — ela levanta uma das mãos perto do rosto e depois abaixa — não sei nem explicar! Eu sou a sua namorada e estou tentando ser compreensiva de que esteja passando por um momento difícil, mas caramba!
- Eu sei. — digo em um tom de voz baixo. — Eu só estou tentando me aprumar e segurar as pontas da melhor maneira que eu posso.
- Mas eu sou a sua namorada...
O farol fica verde.
- Emília, eu entendo que de alguma forma você virou a salvadora da pátria com Mariana; só sobraram vocês duas. Sabe que admiro isso em você, mas isso não cabe a você nesse momento; não comigo. Eu preciso... — respiro fundo mais uma vez como se estivesse difícil de o ar chegar aos meus pulmões — Eu sei que você quer me ajudar, mas talvez me ouvir sem tentar consertar já seja o suficiente.
No momento em que profiro aquelas palavras sinto um peso abandonar meus ombros. Ao mesmo tempo, sinto que estou magoando Emilia sem querer. Eu sabia que ela me amava, se importava com o meu sofrimento e queria, talvez de uma maneira maternal, assim como ela fazia com Mariana, sua irmã mais velha, exaurir toda a minha dor e sofrimento. Por mais que as intenções dela fossem nobres e bonitas, eu me sentia sufocado e violado. Eu não queria conversar sobre; pelo menos achava que não e não de uma maneira forçada como se ela fosse uma psicóloga. Eu não queria ouvir clichês do tipo "seu pai vai ficar bem". Ela sabia que essas coisas nem sempre saiam como queríamos! Além disso...
- Não quero que pegue esse peso a mais para você. — minha voz corta o silêncio novamente. Acho que dessa vez, de uma maneira mais suave e controlada. — Você já tem que se preocupar muito com a saúde mental da Mariana.
- Joaquin, vai se foder! — ela exclama em resposta ao meu lado.
Sinto que perdi uma batalha aquele dia. Eu deixaria que o silêncio retornasse — com sorte — as coisas para os seus devidos lugares, por mais que eu sentisse todas as minhas tripas reverberando por dentro.
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