Afetos Desalinhados
7 Joaquin
- Já pensou morar em uma casa por aqui? — Robert diz ao meu lado enquanto esperamos alguém atender ao intefone que tocamos.
Eu estivera ocupado olhando para a fachada, reparando se tudo parecia dentro dos conformes realmente. Era uma fachada... muito feminina, saída diretamente de uma mente fantasiosa onde Gremlins ou algo do tipo moravam. As flores — mesmo que artificiais — pareciam reais e chamativas por todo o perímetro da fachada da casa. O portão amarelo mostarda se destacava por si só.
- Acha que ela é alguma fada etérea? — Robert pergunta sem dar espaço para que eu responda a sua primeira pergunta. Olho para ele. Talvez o meu semblante de estranhamento àquela fachada que eu tinha ajudado a trazer à vida estivesse evidente. Acho que ergo uma das sobrancelhas.
- Bem, você sabe, tem gosto para tudo. É... diferente. — dou de ombros e encaro os outros muros das casas vizinhas; todos muros altos e impressionantes, mas com uma arquitetura moderna ou clássica; não fantasiosa.
- Nós ajudamos essas pessoas a construir a casa dos sonhos e enquanto isso eu moro em um apartamento de quarenta metros quadrados porque o nosso chefe é um sovina e paga mal.
Decido não tecer nenhum comentário a respeito do que Robert estava falando. Honestamente, eu me encontrava em um humor ruim por vários motivos e nenhum deles, ou a minoria deles, tinha a ver com as escolhas pessoais da nossa cliente. Quando seu pai está morrendo de câncer de próstata, suas reclamações começam a vir em ordem prioritária. Não que eu estivesse radiante de ter que voltar ali pelo menos por mais um mês antes que tudo fosse entregue perfeitamente como estava na planta. Esse era o lado ruim de trabalhar com uma equipe multidisciplinar com engenheiros, eletricistas e entre outros incompetentes... No meu bolso, meu celular vibra. É uma mensagem de texto do meu pai. Meu coração se acelera.
"Filho, vem jantar com a gente hoje? Fico esperando uma resposta".
Eu respondo imediatamente e no mesmo momento alguém abre o portão para nós. Robert fecha o portão amarelo mostada atrás de nós enquanto eu digito uma reposta afirmativa para o meu pai. No mesmo momento, mando também uma mensagem para Emília e pergunto se ela gostaria que eu passasse em casa para pegá-la para irmos até os meus pais. Coloco o aparelho de volta no bolso da calça. Estou ouvindo uma voz suave vindo de um microfone no interior da casa. Uma senhora vem abrir a porta para nós no hall de entrada. Uma das paredes já ganhara uma peça de decoração: um quadro grande do Mick Jagger em preto e branco com uma guitarra na mão, curvado para frente. Embaixo desse mesmo quadro, três discos prateados um ao lado do outro, envoltos por uma moldura de madeira preta. Parecia uma placa... Não tenho tempo de olhar realmente e ler o que ou de quem seriam aqueles discos...
- Vou avisar a srta. Carneiro que vocês chegaram.
Robert olha para mim. Eu acompanho a senhora com o avental de governanta subir os degraus da escada que levam até a sala. A voz cantando uma música em inglês vem de lá. O som acústico de um violão sendo tocado ecoa pela casa de vidro. A voz é suave, com um ritmo folk e underground; parece que foi saída de uma demo gravada em um estúdio amador de música do interior do Alabama ou algo do tipo. Estou impressionado.
- Ei, você não tinha me dito que a nossa cliente é uma cantora!
Olho para Robert. Ele tinha se aproximado dos discos pendurados na parede abaixo do quadro de Jagger.
- O quê? — pergunto sem entender o ponto dele.
- Ela é cantora, cara! Caramba! São três discos de platina. Nunca ouvi a garota! — Robert coça a careca negra e lustrosa.
- É sempre bom conhecer fãs de verdade.
Olho em direção à escada. A "senhorita Carneiro" está descendo os degraus e sorri com o seu próprio comentário. Ela se aproxima com a mão estendida para mim. Os cabelos têm um corte em camadas e alterna em um loiro mais escuro e mais claro. Os olhos parecem duas avelãs amarronzadas derretidas em calda de chocolate. Sua pele é um marfim dourado salpicado de sardas um pouco mais claras. Ela veste um short jeans branco e uma camiseta da banda Pink Floyd customizada com alguns rasgos aqui e ali. Está descalça.
- Oi, Joaquin.
Eu retribuo o aperto de mão sentindo-me um pouco desorientado com tanta informação. Olho para Robert que está me olhando e desvia o olhar. Ele tem uma expressão abobada no rosto que me irrita um pouco. Uno as sobrancelhas.
- Oi, sou a Lia. — ela cumprimenta Robert da mesma maneira simpática.
- Oi, sou o Robert. Eu e Joaquin trabalhamos juntos. Sou o responsável pela equipe de design de interiores.
- Muito prazer, Robert. — ela continua sorrindo e depois olha para mim. — Vocês aceitam algo para beber? Uma água, um suco... Só não ofereço uma cerveja, pois estão em horário de trabalho.
Robert ri exagaeradamente.
- Estou bem, srta. Carneiro. Obrigado. — eu respondo. — Eu preciso que Robert lhe explique algumas mudanças que teremos de fazer na instalação do lustre da sala e discuta algumas outras opções com você para que possamos dar entrada o mais rápido possível na compra e substituição. Se você puder acompanhá-lo...
Ela parece me analisar de cima abaixo e de alguma maneira tem um semblante de divertimento.
- É claro, farei isso. — ela desvia o olhar. — Vamos subir então, Robert?
Robert segue ela pela escada e eu sigo pela direita ao hall de entrada, indo para uma cozinha bem planejada, mas pequena. Dou uma olhada na bancada iluminada por luzes embutidas e suaves. A cozinha tinha um aspecto moderno e claro, com móveis em uma cor cinza e quase sem puxadores. Minimalista e sofisticada. Duas pias jaziam uma ao lado do outro em granito preto e uma lava-louças fora embutida ao lado do forno espelhado. Os lustres — três cúpulas cor púrpura — pendiam de um fio de aço reto um ao lado do outro e iluminava o balcão estreito e branco de granito que era utilizado como "mesa de jantar". O porcelanato era da mesma cor do hall de entrada. Eram jogos de cores interessantes, sofisticados e de bom gosto. Com as mãos no bolso, sinto-me agitado. Meu coração está disparado sem motivo aparente. Em um dos bolsos, o maço de cigarro parece convidativo junto do isqueiro que uma vez Emília tinha me dado de presente. Decido voltar para a entrada e sair pela porta e fumar do lado de fora.
A piscina parecia não ter sido usada ainda. A água já começava a acumular sujeira e um aspecto turvo. Segurando o filtro de cigarro entre os dentes, levo o isqueiro até a ponta do filtro e o queimo. Dou uma tragada longa e profunda que faz minha cabeça girar por um instante. Fecho os olhos tombando a cabeça para trás. Minhas mãos estão geladas e me incomodam. O sol ali fora já começa a dançar lentamente para ir embora. No bolso da calça meu celular vibra mais uma vez e mais outra.
- Piscina é um luxo ingrato, não é?
Olho para trás. Lia tinha vestido uma blusa de moletom branca com capuz que fazia com que seu short sumisse por debaixo dele. Parecia que a única peça de roupa que ela estava usando era o moletom. Ela sorri de uma distância considerável e parece ponderar se deveria se aproximar e diz mais alguma coisa. Engulo a saliva. Um pensamento passa furtivamente por minha cabeça. Ela seria simpática ou estaria... dando em cima de mim? Não saberia dizer. Não dou ouvidos a esse pensamento, mas instintivamente penso que talvez ela esteja... investindo.
- É, precisa ter cuidado constante com a água e tudo o mais. — é só o que digo.
De soslaio a percebo se aproximando.
- O Robert te explicou tudo sobre as mudanças que teremos de fazer? Teremos de abaixar um pouco mais o teto com dry-wall, por exemplo e...
- Sim, ele me avisou. Talvez um lustre mais simples seja realmente uma opção melhor. — ela para ao meu lado e olha o perímetro da casa. Não está mais sorrindo, parece se perder em pensamentos. — Ele foi ao banheiro e já deve estar vindo.
Me limito a fazer um breve aceno com a cabeça e trago o cigarro mais uma vez.
- Desculpe, eu tive que sair para fumar, mas se estiver te incomodando eu apago.
- Não, está tudo bem. — Lia se apressa a dizer balaçando a cabeça em negativa e com um sorriso amarelo e amigável. Ela parece nova. Talvez não tenha nem trinta anos, assim como Emília ainda não tinha. Eu, no entanto, já estava com trinta e seis enquanto ela estava beirando os vinte e nove. — Eu... já fumei por bastante tempo. Às vezes ainda sinto falta, preciso admitir.
Com um movimento não calculado, agacho-me com o cigarro no chão e pressiono a ponta rubra contra o piso antiderrapante ao redor da piscina. Isso parece a pegar de surpresa. Lia não diz nada.
- Não vamos fazer você voltar para isso, então.
Ela sorri. Tinha um sorriso largo. Não eram dentes perfeitos e quadrados como pastilhas de menta, mas eram dentes estreitos e bonitos, com naturalidade nos esmaltes. Pude ver que perto do canino, uma espécie de ferro transpassava a superfície do dente; talvez uma contenção ou algo do tipo. Volto a ficar ereto ao lado dela e enfio a mão nos bolsos.
- Eu também não fumava mais, mas ultimamente tenho... eu sei lá, — coço a testa — usado como válvula de escape ou algo do tipo.
Arrependo-me no mesmo momento que deixo aquilo sair. O que diabos está fazendo? Ia começar a contar a sua vida inteira para ela na beira da piscina? De onde aquilo estava vindo? Pisco algumas vezes e uno as sobrancelhas olhando para dentro da casa. Lia não tece comentários sobre o que digo, mas parece me observar. Robert vinha vindo. Ele aponta um dos dedos para Lia e diz:
- Vou te procurar nas plataformas musicais.
Ela ri.
- Por favor, não me deixe sem graça.
- Eu preciso me exibir para os meus amigos! Eu conheço uma celebridade!
Ela continua rindo de maneira infantilizada. Seguro o ímpeto de revirar os olhos para Robert.
- Uma celebridade da qual nunca tinha ouvido falar antes, não é? — Lia provoca.
- Bem, nós... Voltaremos na semana que vem. Segunda-feira para ser mais preciso. — retomo o rumo da conversa aos negócios. — Qualquer coisa que precisar ou quiser perguntar sobre a obra ou algo do tipo, pode ligar no meu número. — lhe estendo o cartão corporativo.
Lia agradece com um maneio e diz obrigada aos dois. Digo que ela não precisava se incomodar em abrir o portão para nós, tínhamos deixado apenas encostado. Ela diz que tudo bem e nos observa caminhar lado a lado até o portão.
Quando afivelo o cinto de segurança e ligo o carro, Robert está me olhando com uma expressão de curiosidade.
- Será que quero mesmo perguntar o que você quer dizer para mim? — dou a partida no carro, olhando pelo retrovisor. O portão fora minimamente aberto e Lia, a "cantora desconhecida", estava observando o veículo se afastar. Uno as sobrancelhas.
Ela é bem bonita, né?" — ele joga no ar.
Olho para frente. Meus dedos tamborilam no volante. O rádio começa a tocar alguma coisa que não escuto. Não respondo e viro à esquerda deixando o bairro residencial para trás. Minha cabeça lateja um pouco. Adentramos uma avenida arborizada cheia de carros.
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