Afetos Desalinhados
22 Joaquin
Notas iniciais
Bato a porta do carro com um baque surdo. Estou com dor de cabeça. Afivelo o cinto de segurança e abro o porta-luvas. Estou no subsolo do escritório. Minhas mãos procuram o frasco de Xanax quase que de maneira desesperada; os papéis guardados virando um amontoado amassado. Eu acho. Tenho apenas cinco comprimidos restantes. Viro o frasco na mão. Engulo um comprimido com água junto de um analgésico para a dor de cabeça. Pego a armação de óculos de sol. O meu reflexo no retrovisor é desgastado; como se o próprio espelho se enferrujasse de maneira seca e criasse bolor. Fujo do reflexo dos meus olhos com o óculos estilo aviador e lentes pretas. Dou ré com o veículo e giro o volante para a esquerda rapidamente. Os pneus cantam contra o asfalto do estacionamento.
O rádio está ligado. Passam-se das cinco e meia da tarde. O céu ainda tem o mormaço quente e característico de uma tarde de primavera de novembro. As pancadas de chuva já tinham caído por duas vezes. Estou preso no engarrafamento cotidiano. Pego um chiclete no bolso da calça. Hortelã verde e característico. O cheiro preenche o meu olfato e o interior do carro. Masco quase de maneira violenta. Meu coração está acelerado. Estou suando. Ligo o ar condicionado e fecho o vidro da janela.
- ... temos uma novidade para os fãs leais de Lia Carneiro Ragazza! Sim! A loirinha parece estar de volta depois de um hiato de três anos na música!
Masco o chiclete. Minhas mãos estão segurando o volante. Pressiono minhas costas contra o banco de couro sentindo-a alongar. Encaro o engarrafamento à minha frente.
- A novidade é que a loira voltou a publicar em uma rede social de fotos que desde então estava desativada. A sua volta às redes fez com que na rede vizinha ela fosse o assunto mais comentado do país! Eu não sei vocês, mas sabemos que Ragazza tem um futuro promissor no mundo da música. Esperamos que ela volte logo aos palcos com músicas novas também. Enquanto isso não acontece, vamos relembrar o começo da carreira da artista com "To Love".
Estou imóvel. No meu horizonte, consigo ver os faróis dando passagem para os carros à minha frente. Estou prestes à virar na avenida mais famosa da cidade. Os prédios poderiam nos engolir agora mesmo; grandes, autoritários, ferozes! A voz de Lia começa a ecoar por todos os auto-falantes do carro assim como no seu show no bar: suave, densa e aveludada beijando o microfone; os olhos fechados; os holofotes vermelhos e azuis criando um jogo de luzes criminoso sobre Lia. Ela balança os cabelos finos e dourados de um lado para o outro quase em câmera lenta. O vestido de manga cumprida brilhante e ousado, a meia calça repleta de pedrarias. Os olhos com o delineado marcante. "Obrigada, pessoal" O sorriso largo apesar dos lábios delicados e bem desenhados. O júbilo de ser reconhecida. "Oi, Joaquin"; o aperto de mão. Mãos frias. Ela se inclina para Emília. O cheiro pairando no ar. Chanel. À minha frente, em meio aos últimos raios solares e nuvens densas, há esse arco-íris fraco no céu. Não me lembro a última vez que vi um.
Lia envolta no crochê vermelho segurando a manga do casaco com o dedo do meio na palma da mão como uma maneira de se aquecer mais ou parecer mais confortável. Eu coço minha testa e mudo de estação. Emília adorava aquela música. Ela amava Tom Odell. Penso na noite passada.
Seus dedos faziam redemoinhos em meu cabelo enquanto eu pousava minha cabeça em seus seios nus. Meu coração voltava ao ritmo normal. O meu corpo quente e o dela com uma película fina de suor. Seus cabelos ao redor do pescoço com um aspeto molhado e grudado. Suas bochechas estavam coradas. Ela estava sonolenta. Eu poderia dormir a qualquer momento.
- Posso te fazer uma pergunta?
Estou de olhos fechados. Sinto sua respiração profunda; o coração está um pouco disparado apesar de estarmos deitados e quietos.
- Pode. — eu respondo e espero.
Emília não diz nada por um tempo. Por um momento acho que ela adormeceu ou estivesse falando dormindo.
- Por que hoje você não... — ela hesita. Abro meus olhos esperando.
- Não o quê? — pergunto suavemente.
- Não... Gozou dentro de mim?
Minhas sobrancelhas se unem de maneira reflexiva. Não sei por quanto tempo fico em silêncio; talvez segundos, talvez um minuto. Olho para ela, forçando-me a me apoiar em ambos os meus cotovelos para não machucar a sua barriga.
- O que quer dizer?
Emília de alguma maneira parece envergonhada por me perguntar aquilo. Ela hesita.
- Emília. — sorrio encabulado. — Sou eu! Como assim?
- É que... ultimamente, das últimas vezes que transamos você fez isso e... geralmente você não fazia e eu achei que talvez você quisesse, sabe...
Eu me sento na cama e ela também. Emília puxa o lençol para cobrir o seu corpo, como se não quisesse mais ser vista ou estivesse tentando se proteger. Ela coloca uma das mechas do cabelo atrás da orelha.
- Eu achei que o que você fez, sem avisar, era algo do tipo "quero começar uma família com você" ou "eu não me importo se isso acontecer, eu te amo".
- Ah. — pisco algumas vezes.
Bem, aquilo era desconfortável. Olho para o travesseiro ao lado dela; meu travesseiro. O abajur em cima do criado mudo está ligado. Está chovendo do lado de fora e estamos envolvidos pela iluminação quente e amarelada do quarto. As paredes são pálidas e frias e a cortina pesada.
- Emi, você sabe que eu amo você e o fato de eu... — por que dizer as palavras gozar parecem tão... desconfortáveis? — ter feito isso, assim, livremente, é porque temos confiança um no outro e somos namorados por anos! Nós somos um casal. Mas... — respiro fundo. Ela está me olhando com seus olhos grandes e escuros. — me desculpe se você levou por esse lado; não foi isso o que pensei. Eu na verdade nem pensei. — solto o ar de uma maneira que soa como uma tosse ou uma risada. Não sei dizer. Coço a minha testa. — Eu... foi automático.
Emília parece magoada. Ela não assente ou esboça nenhuma reação.
- Amor, eu... Por favor, fala alguma coisa. Estou me sentindo péssimo.
Ela desvia o olhar do meu.
- Você ainda me ama?
- Emília! — levanto-me da cama vestindo a cueca. Começo a andar pelo quarto. Encaro o sutiã preto dela jogado ao chão. — O que está dizendo? — dou de ombros. — Está mesmo me perguntando se eu te amo? Nossa, nós acabamos de quase morrer de tanto transar e...
Emília dá de ombros.
- A gente sabe que isso não quer dizer nada.
Estou começando a ficar nervoso com o tom dela. Respiro fundo e coloco ambas as mãos no meu quadril. Olho para seu rosto. Respiro fundo novamente. Quero passar seriedade em minhas palavras. Quero que ela ouça com atenção.
- Emília, eu te amo. — digo devagar e articuladamente. — Estou ofendido que você diga algo assim. Acredito agora que a minha reposta possa ter sido decepcionante para você, mas não tenho culpa do que você pensou! — balanço a cabeça em negativa. — Eu... isso é precipitado!
- Nós estamos há quase sete anos juntos, Joaquin. — ela diz. Seu tom de voz é raivoso. Ela cruza os braços em frente ao corpo. — Isso não é precipitado.
- Emília, por que você está tão brava? Você me perguntou e eu te dei a minha resposta sincera: foi algo sem pensar; automático! Estou sendo honesto com você. Isso não me passou pela cabeça. Aliás, aproveitando a minha honestidade: não acho que estejamos prontos para isso.
- Ótimo, Joaquin. — ela sussura, mas posso ouvi-la. Ela assente. Seus braços estão tão apertados em frente ao seu corpo que ela parece estar se segurando.
Eu me sinto péssimo.
Suspiro exasperado e sento-me à beira da cama. Ela desvia o olhar do meu rosto.
- Emília. — pressiono os dedos contra meus olhos. Olho para ela. — Isso é loucura, você sabe que amo você! Nós nem conversamos sobre isso... Se você quer começar a tentar ter filhos, não acha que é algo que deve falar para mim, que devemos conversar sobre?
Ela assente mordendo o lábio inferior. Emília está evitando o meu olhar.
- Eu só estou sendo honesto: não estou pronto.
Sinto-me tonto.
- Se quiser ficar brava comigo e... tirar dias para pensar sobre tudo o que estou te dizendo, tudo bem. Vou tentar entender o seu lado. Só acho injusto, pois estou sendo honesto com você. Você achou algo que não passou pela minha cabeça. Isso... não estamos no mesmo passo a respeito disso.
- Tudo bem. — é tudo o que ela diz.
Sei que é uma luta perdida. Sinto-me exasperado. Levanto-me da cama e saio do quarto fechando a porta atrás de mim. Entro no banheiro e acendo a luz ao redor do espelho. Abro a gaveta. Pego um comprimido e engulo com ajuda da água da torneira, debruçando-me sobre o granito frio e branco. Fecho a torneira; a água dissipando-se. Encaro o ralo da pia. Apoio meu peso em ambas as mãos em cima do gabinete. Encaro meu rosto perto do espelho. Sigo todos os meus traços com meu olhar. Sinto tanta coisa ao mesmo tempo que poderia explodir. Estou suando. Vou até o box de vidro e abro o chuveiro. Fecho os olhos e sinto a água morna, quase fria atingir meu rosto e minha cabeça.
O farol se abre. Acelero o carro. Há uma mensagem de Lia no celular.
"Sei que marcamos às 20h. Caso esteja no caminho e queira acabar logo com isso, já estou aqui. Tome o seu tempo."
Encaro o notebook fechado no banco do carona.
"Estou à caminho".
- Emi, sei que não está querendo falar comigo, — começo meu áudio — mas queria avisar que estou indo discutir algumas coisas com um dos clientes; vou demorar um pouco mais para chegar. Se quiser, pede alguma coisa para comer no meu cartão. Não tive tempo de deixar nada preparado para nós. Te amo. Te vejo mais tarde.
A note caiu. As luzes da cidade tornaram-se evidentes. Os carros se enfileiraram; no horizonte, uma ponte paralela de veículos cortando a avenida e o céu negro como pano de fundo.
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