Afetos Desalinhados
2 Joaquin
Quando Emília passa pela porta do apartamento, abro meus olhos de maneira sonolenta e pisco algumas vezes. Ela tem o semblante inchado e parece tão sonolenta quanto eu. Observo suas sobrancelhas finas e bem desenhadas se unirem.
- Você está bem?
Pisco algumas vezes e me mexo no sofá. Sinto dor na lombar.
- Acho que estou velho. — gemo.
Acho que ela sorri. De olhos fechados ouço os passos abafados de Emília contra o carpete de madeira da sala e sinto o cheiro do shampoo emanando do cabeço dela. O sofá afunda um pouco mais.
- Por que dormiu no sofá?
- Acho que apaguei. — respondi me sentando e sentindo-me desorientado.
Emília olha para o meu rosto. Seus olhos estão inchados. Tenho a impressão de que estava chorando. Não comento sobre isso. Provavelmente deve ser alguma coisa com Mariana; ela sempre voltava um pouco aérea ou cabisbaixa da casa dela.
- Que horas são agora? — minha cabeça lateja.
- São quase sete. Vim embora cedo, pois a Mari tinha um congresso hoje na univerisade.
Ouço aquela informação e acho que absorvo.
- Você parece ter bebido bastante. — ela diz.
Abro os meus olhos. Ela não parece ter um tom crítico sobre esse fato. Agora que Emília está mais perto, sentada na beirada do sofá na altura de minha cintura, consigo olhar seu rosto com mais nitidez. As olheiras, que já faziam parte das características de seu rosto, pareciam mais evidentes do que o normal, os olhos castanhos tinham um aspecto injetado e brilhante e seus cabelos levemente ondulados e castanhos estavam soltos com uma mecha atrás das orelhas. O rosto de Emília tinha um formato delicado, fino e pequeno; seu nariz com a ponta protumberante e delicada e os olhos grandes — quase lânguidos — faziam-na parecer uma boneca de cera. Nos conhecemos em uma festa de halloween, onde ela estava vestida de Noiva Cadáver e a fantasia "cabia" à ela muito bem.
- Por que está sorrindo? — ela pergunta achando um pouco de graça enquanto junta as garrafas de cerveja vazias em cima da mesa de centro da sala.
- Estava lembrando de você na noite em que nos conhecemos, sabe, como Noiva Cadáver.
Emília sustenta o meu olhar e não diz nada; ela não sorri, mas tem a sombra de um sorriso em seus lábios. Nos conhecíamos há sete anos e namorávamos há seis e meio. Morávamos juntos faziam três. Eu tinha visto muitos cortes de cabelo, brigado em muitas TPM's por coisas que para mim não tinha sentido nenhum, comemorado um número considerável de aniversários de namoro e datas de nascimento — nossas e de familiares. Aquela mulher já tinha me visto nos melhores dias da minha vida — com uma gravata de patos amarelos envolta ao pescoço — bebendo diretamente de barris de cerveja em alguma festa estúpida e torpe da universidade e agora, de alguma maneira, ela ainda estava ali, presenciando direta ou indiretamente um dos apagões por causa da cerveja consumida em larga escala na noite anterior e...
-... está me ouvindo?
Pisco algumas vezes.
- Desculpe, não ouvi.
- Como foi o trabalho ontem?
Coço uma das sobrancelhas com o dedo mindinho.
- Tudo bem. Nada de novo. Consegui fechar com aquele cliente que estava me cozinhando por duas semanas.
- Isso é ótimo, Joca.
A maneira como ela diz que aquilo era ótimo é vazio e sem vida. Não que ela não achasse ótimo; eu sabia que ela achava — mas acredito que Emília se encontrava tão entorpecida quanto eu. Ela se levanta do sofá com as garrafas vazias de cerveja na mão e começa a ir em direção a cozinha.
- Vou tomar um banho e vou ir até a academia. — anuncio. — Você quer vir?
- Não, acho que vou dar uma geral aqui e depois podemos ir almoçar fora, se você quiser. O que acha?
- Tudo bem, vou passar no banco para pagar algumas contas também.
Não fazia sentido ir tomar um banho antes de ir para a academia, por mais que no fundo eu quisesse entrar no banho e talvez ficar por lá uns trinta minutos. Vou até o quarto, visto uma bermuda, uma camiseta cinza básica e um par de tênis. Antes de parar à porta do apartamento com as chaves do carro na mão, olho em direção à cozinha e digo alto "Eu já volto".
- Bom treino! — a voz de Emília chega até mim de maneira abafada. — e eu saio.
Dentro do carro, ligo o rádio em um volume baixo. Estão falando sobre como o trânsito está difícil em algumas das avenidas. Eu quase não escuto, ao invés disso, perco-me em meus pensamentos durante o trajeto. Não consigo parar de pensar em Emília e no quanto ela tinha presenciado sobre a minha pessoa e a minha vida particular até ali. É claro que ela tinha presenciado bastante; ela era a minha namorada afinal, mas havia algo de... especial em compartilhar tantos fatos sobre a sua vida com alguém e ela permanecer mesmo na sujeira. Na noite anterior, depois de termos trocado mensagens de texto e ela ter me avisado que ficaria pelo apartamento de Mariana, entrei no aplicativo de delivery e pedi uma pizza. As minhas costas doíam, eu estava tenso de ficar o dia inteiro praticamente — a tarde inteira — no computador, resolvendo as pendências que necessitava resolver para a entrega das três plantas diferentes para o cliente. Além disso, minha mãe tinha me mandado mensagens durante a tarde dizendo que meu pai tinha passado mal — mais uma vez — na sessão de quimioterapia. Aquilo estava acabando comigo. O fato de você ter um parente doente já é o suficiente para sentir sua energia — aquela carga mínima de bateria que lhe resta — exaurida. Enquanto eu tirava ou adicionava uma parede, um cabide, uma pia... o que quer que fosse na planta da casa do meu cliente, a bolsa de medicamento intravenoso laranja me atormentava. A possível imagem de meu pai com seu óculos de grau retangular quase fundo de garrafa sentado à uma poltrona com um dos braços estendidos recebendo o tratamento que deveria lhe curar passando mal — mais uma vez — deixando-o fraco e debilitado — ao invés de curá-lo do câncer de próstata — aquilo acabava comigo.
Eu parei pelo menos três vezes durante o dia para ir ao banheiro jogar uma água no rosto e tentar acalmar os meus olhos. Eles ardiam o tempo inteiro, as lágrimas ameaçavam vir à tona e eu tinha de me concentrar. Enviei as plantas e as modifiquei pelo menos umas três vezes durante o dia. Atendi ao telefone; "é claro que posso lhe explicar melhor: sabe essa linha tracejada que você está vendo...", "na minha opinião profissional, essa não seria a melhor escolha, pois...", "é claro, posso fazer todas as mudanças necessárias...".
"Nossa, o seu pai está tão pálido, coitado. Já vomitou umas três vezes..." — foi uma das mensagens da minha mãe.
Era difícil não se sentir o azarado do universo enquanto subia com a caixa de pizza quentinha da portaria. Ofereci um pedaço para o senhor Cabral, o nosso porteiro. Ele recusou. Eu insisti — estava frio, a pizza quentinha e ele ainda teria um longo turno pela frente. Ele aceitou só um, mas insisti que pegasse dois. Subi os lances de escada, pois nem eu e nem Emília gostávamos de elevadores. Morávamos no quarto andar — não eram tantos lances assim. Na sala, a televisão estava ligada em um canal de filmes. Fui até a cozinha, peguei o fardo de cerveja que estava fechado e o levei para a sala. A sala de estar virou um amontoado de guloseimas e entupimento de artérias. A pizza era de pepperoni, a preferida de Emília. Entre os pedaços famintos que eu devorava, as garrafas de cerveja vazias foram se acumulando contra a superfície da mesa de centro. O filme pareceu entrar em um looping distorcido em minha mente em um determinado momento. Deitei-me no sofá e puxei a colcha que Emília sempre deixava pendurada no encosto para cima de mim. Devo ter chorado enquanto a televisão fina e larga me devolvia cenas de matança descontrolada e apelativa. Em algum momento a minha cabeça girava e eu sentia muito... E então eu apaguei.
Lá estava eu, parado ao estacionamento da academia, com ambas as mãos no volante, o carro ligado e as lágrimas começavam a sair dos meus olhos. Com a chave ainda na ignição, permaneço dentro do veículo com o rosto apoiado contra o volante enquanto minhas lágrimas escorrem pela extensão do meu rosto.
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