A sala e a cozinha pareciam ter sido reviradas na noite anterior. Eu estava preocupada não apenas com Mariana, mas também com Joaquin. Enquanto lavava a louça, parei para mandar uma mensagem para Mariana e perguntar como tinha sido o congresso e a sua palestra; disse que ela podia me responder quando visse a mensagem mais tarde. Voltei aos meus afazeres. Ela pareceu feliz — bem, um pouco animada pelo menos — em ter algo do tipo para fazer. Tinha passado uma camada de maquiagem no rosto e tudo! A minha irmã era linda e inteligente. Mariana estudava coisas que eu nunca poderia entender — nem que fizesse muito esforço. Era linguista e vivia envolta em pesquisas acadêmicas das quais eu sempre ficava sabendo por ela, e ouvia por educação, mas eu nunca poderia entender nada daquilo. No entanto, eu via como aquilo lhe dava um gás para viver e eu amava ver como ela amava aquilo!

Joaquin, agora trabalhando alguns dias em regime home office, vinha se desdobrando para atender esse cliente realmente trabalhoso e chato que estava construindo uma mansão em Alphaville. Era muito dinheiro envolvido e o fato de ele ser um prestador de serviços... Ele estava animado com a oportunidade — e com o dinheiro — que entraria, mas ele parecia... exausto. Enquanto eu trabalhava no escritório de advocacia, ele se entregava aos inúmeros projetos particulares e pela empresa que o contratara e estava até o pescoço de tanto trabalho. Ele sempre gostara de trabalhar muito em seus projetos, cheguei a considerá-lo um workaholic idiota e sempre brigávamos por ele ter o discurso "trabalhe enquanto eles dormem", mas eu sabia que havia algo de errado. Não era apenas uma demanda alta de trabalho. Ele estava se sobrecarregando de propósito.

Nós não tínhamos grandes problemas financeiros. Não conseguíamos juntar dinheiro todos os meses e de maneira regrada, mas não é como se passássemos privações ou dificuldades. Sim, ainda morávamos de aluguel e dividíamos as contas igualmente, mas funcionava para nós. Vínhamos juntando sempre que conseguíamos e as contas eram pagas em dia. O aluguel do apartamento era um pouco extravagante, mas era perto do meu trabalho e nos dias em que ele precisava ir até o trabalho dele, ele conseguia fazer a proeza de chegar em meia hora de carro se não tivesse muito trânsito. Eu não vinha ganhando rios de dinheiro com a advocacia e a situação política do país ia de mal a pior. Mas, não estávamos completamente fodidos. Já era algo a se comemorar, certo? E agora... seis garrafas de cerveja estavam vazias no saco de lixo e ele parecia destruído.

Quando ouço a porta do apartamento se abrir, volto a lavar a louça. Em poucos segundos ouço seus passos adentrando a cozinha. Olho para Joaquin. Seus cabelos, que eram longos, lisos e castanho escuro, caíam até a altura dos ombros, sua barba estava por fazer, seus olhos injetados. Sua pele parecia pálida. Ele parecia doente. Com um único movimento, ele deixa uma sacola de mercado em cima da mesa da cozinha.

- Como foi na academia? — eu pergunto esperançosa.

- Tudo bem. — ele diz. — Acho que vou tomar um banho. A Mariana ligou?

Neguei com a cabeça. Ele sustenta o meu olhar por um tempo e faz menção em sair da cozinha. Eu chamo o seu nome.

- Está tudo bem?

Ele suspira.

- Está, eu só... não deveria ter bebido tanto. — ele diz. — O meu pai passou mal ontem e... enfim... — ele suspira. — um dia de cada vez no tratamento, né?

Faço que sim e ele sai da cozinha me deixando sozinha com a sacola de compras e a bucha de lavar a louça em minhas mãos. Respiro fundo e volto a abrir a torneira.




Notas finais
Não deixe de dizer o que está achando da história e suas expectativas! :)