Notas iniciais
Como prometido, aqui está o novo capítulo!!! Espero que gostem :) meu Deus... São muitas emoções...

O cheiro estava ótimo e eu tinha de admitir que estava com fome. O crochê vermelho dava à Lia um aspecto jovial e delicado — o oposto do show. Os cabelos lisos e loiros tinham um aspecto bem cortado, com pontas cheias. O contraste do vermelho com o cabelo dourado era hipnotizante.

Por que de repente eu estava me abrindo? Por que eu disse aquilo? Lia come um pedaço da lasanha. Eu faço o mesmo.

- Está gostoso. — eu digo.

Ela mastiga e seus lábios se contraem em uma linha fina e única, selados enquanto sorri para mim pelo elogio. O seu notebook está aberto ao lado dela. É um computador dourado e parece bem desgastado.

- Então, — ela diz com a boca cheia. Engole. — Estou precisando montar um estúdio musical. Até pensei em montar algo aqui; construir mais um cômodo, mas isso não ia me satisfazer. Não quero abrir um estúdio só para mim. Quero ajudar outras pessoas a conseguirem o que desejam nessa indústria. Eu sei que pode ser difícil.

Eu escuto com atenção. Assenti com a cabeça.

- Eu já tenho o lugar. — ela para de comer e se volta para o computador. Vira a tela para mim para que eu possa ver uma espécie de casa de fachada quadrada. O lugar está judiado...

- Eu sei. — ela sorri de lado percebendo o que eu estava pensando. — Está um caco.

As luminárias acima de nossas cabeças parece deixá-la com um contraste quase etéreo. Os cabelos claros brilham sob a luz; a pele marfim, um vestígio de olheiras, sardas claríssimas e quase imperceptíveis no nariz arrebitado. A boca bem desenhada rosada e saudável pela mastigação e atrito, os olhos que parecem calda de chocolate derretido brilham. Eu engulo em seco e arrumo minha postura. Ela coça a ponta do nariz com o dedo indicador e volta seu olhar lentamente para a tela. Lia continua a falar; diz que é por isso que precisa de mim e que já teve um estúdio antes. Me pergunto o que aconteceu com o local. Ela passa pelo assunto de maneira breve, apenas dizendo as características dos outros locais.

- Eu tenho que dizer que isso vai ser novo para mim. — confesso. — Os materiais e tudo o mais... Preciso dar uma pesquisada, mas podemos começar a montar umas ideias na planta hoje mesmo.

Seus olhos brilham. Ela se empertiga na banqueta do outro lado do granito.

- Sério? — ela sorri.

Faço um maneio com a cabeça.

- Eu poderia usar o seu notebook rapidinho?

- Por favor!

No momento em que eu ia pegar o notebook, ela tem a mesma ideia. Eu deveria ter esperado. O que eu estava fazendo? As costas das mãos de Lia estão frias. Seus olhos pairam sobre nossas mãos. Ela desvia o olhar. Eu recolho minha mão e a outra vai até meu pescoço.

- Desculpe. — eu digo.

- Não por isso, Joaquin.

Há esse silêncio breve que cai sobre a cozinha. Lia se recompõe do embaraço rapidamente. Minhas mãos estão geladas. Eu respiro fundo e acho que dou um meio sorriso. Acho que tento. Trago o notebook dela para a minha visão, posicionando-o na minha frente. Lia está de pé e caminha com o seu prato sujo e vazio até a pia.

- Posso te oferecer algo para beber?

As minhas lembranças ecoam para o bar e para a noite com Emília depois do bar.

- Só água, por favor.

***


Quando destranco a porta do apartamento e passo por ela, Emília está sentada ao sofá com a televisão ligada. Seus olhos encontram os meus. Eles parecem marejados. Sinto meu coração disparando e permaneço congelado por um momento.

- O que aconteceu?

- Nada... — ela balança a cabeça em negativa. — Eu só... Estou preocupada com a Mariana. Ela foi hoje para Viena, lembra?

Acho que consigo respirar novamente. Caminho até o sofá e sento-me ao lado dela. Emília se aninha encolhida encostando sua cabeça em meu peito. Eu inclino a cabeça para encostar na dela. O cheiro do seu cabelo é frutal e gostoso. Os fios ainda estão um pouco úmidos.

- Ela vai ficar bem, Emi. — eu digo e encaro a televisão. Não faço a mínima ideia do que ela estivera assistindo. Parecia um reality show. Emília nem assistia a realities... — Sei que está preocupada, mas precisa se lembrar de que Mariana é uma mulher mais velha do que eu e você! Ela foi realizar um dos sonhos dela!

- E se por algum motivo algo der errado lá? Ela sempre tem recaídas e fica mal...

Balanço a cabeça em negativa lentamente depois dou de ombros.

- Mas isso não está no nosso controle.

Ela parece estar em um colapso emocional. Não podia estar chorando apenas por aquilo. Uno as sobrancelhas. Penso por um momento...

- Tem certeza de que está assim só porque está preocupada com Mariana?

Ela assente ainda com a cabeça apoiada em meu ombro. Ouço-a fungar. Ela não olha para mim. Emília limpa o nariz com as costas das mãos.

Por um momento a ideia de Emília estar grávida me passa pela cabeça. Tento absorver o que um fato como aquele me causaria. Talvez eu seja um homem de trinta e seis anos imaturo. Aquela imagem não me traz paz ou alívio... Apenas uma sensação de medo e incerteza. Era tudo o que não precisávamos no momento. Meu pai me vem à mente. A nossa conversa mais cedo no carro e tudo o mais... Minhas próprias lembranças infantis começam a me rodear.

- Vou ir tomar um banho, tudo bem? — pergunto me certificando que não me mexer enquanto ela não esteja preparada para que eu me mova. Não quero magoá-la de alguma maneira.

- Tudo bem. — ela diz e se senta com as costas contra o encosto do sofá.

Os olhos lânguidos e castanhos de Emília encontram os meus. Os vasos sanguíneos finos de seu globo ocular parecem irritados pelas lágrimas. A ponta do seu nariz tem uma coloração rosada. Não sei por quanto tempo permaneço olhando para o seu semblante. Sinto carinho por ela. Seguro sua cabeça com ambas as minhas mãos e a trago de encontro a minha boca. Beijo sua testa.

- Vai ficar tudo bem. Você vai ver. Mariana vai arrasar em Viena falando como... Sintagmas nominais funcionam e tudo o mais. Só espero que as pessoas presentes no congresso sejam mais inteligentes do que eu.

Levanto-me do sofá e ouço Emília rir baixinho.

- Eu sei, eu nunca entendo nada...

Dou de ombros.

- Me lembre de mandar uma mensagem para pela pedindo alguns chocolates de lá.

Ela revira os olhos com exasperação contida, mas o sorriso escapa. Emília sabia que eu gostava de chocolate de uma meneira exacerbada.

Caminho em silêncio até o nosso quarto. Acendo a luz do abajur ao lado da cama, pois de repente minha cabeça parecia pesada demais para que eu acendesse a luz principal e fria no centro do teto de gesso. Sento-me na beirada da cama e encaro meu par de tênis bege e sujos.

- Obrigada por ter vindo, Joaquin. — Lia disse enquanto estávamos parados ao portão mostarda do lado de dentro. Ela se abraçava com o crochê vermelho.

Faço um maneio com a cabeça.

- Não por isso.

Ela encara suas meias vermelhas em seus pés e coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha. Pigarreio baixinho.

- Vou te avisando sobre os processos.

Ela assente sorrindo. A luz do interior da casa chega de maneira pálida até ela. Não havia iluminação no céu. Seus dentes alinhados são bonitos. Os caninos mais pontudos e arredondados do que o habitual, talvez. Lia estende a mão para mim. O cheiro de baunilha cítrica preenche meu olfato. Eu aperto sua mão gelada. Ela abre o portão com a outra no mesmo instante olhando para a grama. Desejo boa, noite e saio pela portinhola amarela.

No banheiro, as luzes frias ao redor do espelho fazem com que eu tome um banho quente na penumbra. Eu sentia necessidade de estar nas sombras. Foi um dia cheio: o hospital, as revelações extra matrimoniais do meu pai, o jantar com Lia, as emoções de Emília à flor da pele e o meu caos interno vergonhoso. Encaro meus pés sendo molhados com a água corrente que cai sobre mim. A porta do banheiro se abre. É Emília.

- Você está bem? — ela pergunta estranhando o ambiente escuro.

Faço que sim.

- Só estou com dor de cabeça.

Ela assente, mas não parece confiante com a minha resposta. Emília fica parada à porta segurando a maçaneta. Parece ponderar alguma coisa.

- Tudo bem. Vou deixar você tomar banho.

A porta se fecha. Só agora notei que estive prendendo a respiração. Pensei que Emília se juntaria a mim. Qualquer outro dia, em qualquer outra situação eu adoraria tê-la molhada e colada em mim debaixo do chuveiro morno. Naquele dia, pensar em qualquer ato de intimidade me causava... Respiro fundo e colo minha testa no azulejo frio.

Antes de começar a procurar pelas gavetas do banheiro, tranco a porta de maneira silenciosa e calculada. Eu me lembrava que ela guardava ali em algum lugar...

Na terceira gaveta o potinho redondo e branco com uma etiqueta me encara de volta. Sinto meu coração pular desenfreado. Estou entrando em um terreno novo e desconhecido, que nunca achei que entraria... me julgava forte o suficiente para nunca fazê-lo. Obviamente, eu estava errado.

Engulo o comprimido de Xanax rapidamente e sem água. E coloco o frasco de volta onde estava, certificando-me que estivesse na mesma posição de antes. Fecho a gaveta. Estou com o tronco nu. Os cabelos molhados. Meus ombros parecem arriados no reflexo. O reflexo da pateticidade. Estou pronto. As fronteiras do desconhecido se abriram. Seja bem-vindo. Tome o seu lugar. Você está pronto. Aceite!

Tenho sonhos nebulosos. Nada concreto, nada do que eu pudesse me lembrar. Há uma sensação calorosa, abstrata e dolorosa nos meus sentidos. Um borrão vermelho e dourado. Um borrão amarronzado e frio. Uma cor abstrata se derretendo por uma parede de vidro... Poderia ser a cor dos olhos de Emília.

Notas finais
O que acharam???? Particularmente, esse foi um dos meus capítulos favoritos do Joaquin até agora. Tanta coisa por vir ... Um beijo! Obrigada por ler e até o próximo! Não deixem de comentar para deixar a escritora muito feliizzzz ;) Elismesse