Notas iniciais
Vamos começar a segunda parte da história, pessoal! Apertem os cintos e venham comigo! parte II "Não vou explicar aqui os motivos que me fizeram parar de fumar. Basta dizer que tem a ver com covardia e ambição. De repente descobri que queria viver mais. que coisa mais absurda essa: querer viver mais. como se a gente fosse, por exemplo, feliz". Alejandro Zambra.

Querido diário,

O que foi que eu fiz? Estou encarando a folha em branco por minutos intermináveis... O que foi que eu fiz?

Eu não consigo dormir. A imagem do sangue, o grito dele... O meu próprio grito! Estou vivendo em um filme de terror sem fim. Todos me abandonaram... Todos menos Elton e Carmen. O olhar de dor no semblante da minha mãe quando chegamos ao hospital me matou por dentro. Como se eu não estivesse morta antes... Quantas vezes ainda é possível morrer?! Aqui é tudo silencioso, imaculado; como se ao adentrar as portas frias de ferro eu tivesse cumprido um rito de passagem.

É a minha segunda noite aqui; ontem foi pior. Estive com dores de cabeça o dia inteiro, pois não consegui pregar os olhos. Todas as vezes que tento adormecer as cores da noite da última quinta-feira vêm até mim para me castigar. Sinto que estou cumprindo uma penitência. A minha liberdade me foi tirada e quase a minha vida. Eu agi em legítima defesa.

Marlon está bem. Eu sei que ele tinha seus problemas. Ele quis me ferir. Ele é o causador de tudo isso. Talvez eu devesse ter sucumbido ao fogo. Talvez eu não esteja aqui para ser feliz. O que todo o mundo pensará de mim?

Eu nunca pensei que seria tão infeliz assim. Não sobrou uma gota de alegria em minhas veias. Tudo foi sugado. Meu sangue virou azul. Se quiser tirar qualquer coisa do meu coração, só vai encontrar fuligem preta.

Não sei mais se quero estar aqui. A cruz marrom pequena pregada à parede do outro lado do quarto me encara e eu me sinto ainda mais pequena e desolada. Sinto que decepcionei a Deus. Sinto-me ainda pior. Gostaria de cobrir esse símbolo para que eu não me sentisse tão indigna...

Apesar disso, estou me voltando para Ele. Se amanhã eu ainda estiver aqui, foi porque Ele quis. Ele me salvou e me deu propósito.

Serei grata, pois no momento, sinto-me oca.

LCR.

***

O sol, apesar das lentes escuras do óculos, ainda consegue fazer com que as minhas pálpebras pareçam vermelhas com os olhos fechados. O silêncio era tão denso e morno que eu senti que poderia dormir ali, debaixo daquela estrela flamejante, sentindo todos os meus poros absorverem a vitamina D. Estava deitada de barriga para baixo na espreguiçadeira em frente à piscina; uma toalha abaixo de mim. A parte de cima do biquíni aberta nas costas; quase um top less. Eu cheguei a realmente cochilar na espreguiçadeira. Passar a noite insone escrevendo músicas novas tinha acabado comigo naquele dia. Eu estava exausta.

Acho que ouço passos distantes. Meus olhos estão fechados; meu rosto amassado contra a espreguiçadeira. Talvez eu estivesse babando.

Um pigarreio.

Que sol quentinho...

- Srta. Carneiro.

...

- Srta. Carneiro, nós temos visitas!

Abro os olhos. Pelas lentes pretas do meu óculos de sol, deitada de bruços à espreguiçadeira, o sol ardendo em minhas costas, Elton parece desconfortável me olhando. Sua postura é rígida e profissional como sempre; os braços quase cruzados como um X em frente ao corpo.

- O quê!? Visitas?

- A senhora Carneiro está aqui para te ver.

Trazendo a toalha ao corpo, sento-me de prontidão. Atrás de Elton, uma figura de salto alto preto e um vestido da mesma cor de mangas bufantes e estampa colorida. Os cabelos mesclam em um tom loiro mel e fios grisalhos. Minha mãe, assim como eu, usava um par de óculos de sol preto e redondo. O seu, Chanel; o meu, alguma marca genérica. De salto, ela quase chegava à altura de Elton. Seu semblante era sério. Meu coração pula desenfreado.

- Vejo que está aproveitando sua vida muito bem e sem ao menos dar satisfações à sua mãe. — o tom de voz dela é de poucos amigos e declarativo.

Sinto-me, por um momento, una adolescente levando bronca. Logo, a frustração e vergonha por algo que não sei decifrar, são substituídos por uma raiva crescente.

- Bem, quando eu estava no hospital, ninguém apareceu, não é? Porque eu tinha de avisar quando eu estivesse bem?

Minha mãe tira o par de óculos dela e vem até a espreguiçadeira.

- Eu fui te visitar. Quem não foi, foi o seu pai. E o que podemos esperar daquele homem? — o tom de voz dela é como se ela estivesse falando de um inseto. — Eu fui te visitar sempre que autorizaram...

- Uma vez em nove meses? — pergunto ainda segurando a toalha em frente ao corpo.

Minha mãe sustenta o meu olhar. Seus olhos são como os meus; castanhos.

- Elton, — ela diz. — Por favor, nos deixe a sós. Temos muito o que conversar.

- Sim, senhora.

Tenho vontade de dizer para que ele não a obedeça; afinal Elton trabalhava para mim! Apesar disso, não quero que ele esteja ali presenciando nenhuma das palavras a serem vomitadas por nós duas. Ele se afasta, caminhando para o interior da casa. Observo as costas largas e grandes de Elton envolvidas no blazer preto. A pele das minhas costas está quente.

- O que te faz pensar que não sofri pelo o que aconteceu com você? — ela se senta à espreguiçadeira a o meu lado de frente para mim. Cruza as pernas.

O semblante da minha mãe é duro. Eu parecia com ela de maneira óbvia. Os traços eram quase idênticos. Eu definitivamente era uma versão mais nova, uma continuação de seu DNA. Ela era uma senhora bonita e elegante. Permaneço ouvindo em silêncio.

- O seu pai, sim, nos abandonou. — ela diz isso apontando para mim e depois para seu próprio corpo. — Ele, sim. Para não se sujar; como se já não fosse sujo o suficiente por ele próprio.

As palavras da minha mãe são cheias de ódio. Ela fecha os olhos de maneira quase suplicante.

- Você é minha filha, Lia. A minha única filha. — a voz dela falha e é mais amena agora. Abre os olhos e fita meu rosto. — Por que saiu do hospital e não me avisou?

Não respondo, mas dou de ombros uma única vez. Ela balança a cabeça em negativa. Seus olhos são duros sobre mim, mas ela parece magoada.

- Ninguém nunca torcerá por você mais do que eu. Você saiu de dentro de mim.

As lágrimas são traidoras e transbordam sem aviso dos meus olhos. Eu corro para o abraço de minha mãe, ajoelhando-me à sua frente.

- Me desculpa, mãe. — eu suplico enquanto ela abraça todo o meu tronco. — Eu não queria...

- Você não fez nada de errado. — ela sussurra em meu ouvido. — Nada. Está tudo bem, minha menina.

Estou sendo segurada. Eu choro. Em algum momento há um alívio para mim. Em algum momento, o passado vem me confrontar. Ele sempre vem. Estou tentando seguir em frente. Não quero mais vestígios...

- Eu te amo, minha menina. Minha doce menina... — ela segura a minha cabeça próxima ao peito enquanto eu choro.

Minha mãe está chorando silenciosamente. Ela não emite nenhum ruído. Não olho para o seu semblante. Posso sentir suas lágrimas lavando minha cabeça; quase purificando-me em um ritual doloroso e familiar. Minhas cicatrizes estão expostas. Eu senti falta dela.


Notas finais
Teremos muita coisa pela frente. Fiquem preparados!!! Até o próximo capítulo :) Eliemesse