Notas iniciais
Oi, pessoal!! Capítulo novo saindo do forno! Final de semana teremos o p.o.v de Lia :) Espero que gostem!

Quando saio pela manhã, Emília ainda está adormecida na cama. Tomo cuidado para não acordá-la. Todos os meus movimentos são calculados. Estou com uma dor de cabeça horrível por causa das cervejas. Na cozinha, bebo um copo de água direto da torneira e engulo um comprimido branco e potente de analgésico. Desço os quatro lances de escada rapidamente. Passo pela portaria e cumprimento o porteiro com um aceno breve de mão. No subsolo, desativo o alarme do carro. O barulho característico corta o silêncio entre os carros. Os faróis traseiros e dianteiros se iluminam preguiçosamente projetando uma luz branca contra a parede cinza. Elas se apagam logo em seguida. Entro no veículo e afivelo o cinto de segurança.

Meu carro é uma HB20 preta modesta. Comprei no último ano da faculdade e ele estava comigo desde então. Meu pai, quando eu era mais novo, sempre trocava de carros. A minha mãe ficava louca. Nunca está bom. É o que ela dizia. Eu não tinha o mesmo anseio e por mais que eu estivesse fazendo bastante dinheiro e aplicando na poupança conjunta que eu e Emília tínhamos, não pensava em trocar de veículo tão cedo.

A mensagem do meu pai chegou no celular

Não se apresse. Ficarei aqui durante a manhã inteira. Tome um café sossegado.

Eu não respondo. É claro que eu me apressaria. Ultimamente estivera revezando com minha mãe as idas ao hospital. Ela pareceu aceitar a minha ajuda de bom grado. Eu me sentia em dívida com ambos. Era o meu dever como filho e minha mãe estava exausta. Da última vez em que acompanhei meu pai até em casa, ao nos despedirmos, ela se limitou a me abraçar. Segurou-me em seus braços por longos segundos. Eu retribuí. Senti como se fosse um menino jovem novamente; uma criança amparada pela mãe. Quase me senti protegido. Aquilo me fez melhor do que poderia ter imaginado. Eu encarava o concreto quebradiço e apagado da calçada. Minha mãe se afastou de mim ainda segurando meus braços. Acariciou-os como se quisesse me esquentar. Seus cabelos estavam começando a ficar grisalhos na raíz. Ela sempre foi muito vaidosa e pintava assiduamente.

- Te amo, filho.

- Eu também te amo, mãe.

O trânsito parecia nunca ter fim na cidade. Não eram nem oito da manhã ainda e eu já estava preso em uma fila de carros esperando o semáforo abrir. Minhas têmporas ainda estão latejando e isso me faz lembrar da noite passada.

Robert estava agindo como um perseguidor e aquilo estava me irritando profundamente. Quis puxá-lo de canto e perguntar se ele sabia que ela iria tocar lá e estava se fazendo de besta. Tive que reprimir essa vontade. Lia era... Desconcertante, de alguma maneira. O jeito que ela me olhava era expectante e ansioso. Os olhos cor de chocolate derretido eram intensos. O cabelo cortado em um corte chanel caía como fios dourados ao redor do rosto marcante. Ela não tinha traços delicados como Emília; apesar dos traços femininos, seu maxilar era marcante, seu nariz era arrebitado e combinado com os olhos e a cor intensa de marrom que eles possuíam... Tudo lhe conferia um ar violento e não de uma maneira ruim. Arrebatador era a palavra certa.

Estar na cama com Emília sempre foi uma das minhas atividades favoritas. Eu adorava o sexo que ela fazia. Sempre adorei. Ela era dedicada, sensível e sempre estava aberta a novas tentativas. Eu amava Emília. Tínhamos confiança um no outro. Éramos praticamente casados. Estar na cama com Emília e não conseguir desligar-se daquela voz, das músicas... Enquanto sentia o sexo de Emília quente, convidativo, escorregadio, a meia arrastão arrebatava meus sentidos. A maneira como Lia segurava o microfone perto dos lábios como se estivesse beijando o objeto de língua, as botas amassadas que moldavam a panturrilha de suas pernas. Oi, Joaquin. - ela tinha dito sorrindo.

O suposto escândalo e incêndio na Wikipédia... Ao mesmo tempo que Lia — agora eu sabia — era uma cantora com fãs, era uma pessoa sozinha; quebrada. Eu não a conhecia, mas ela não parecia ter um círculo de amigos promissores. A minha cabeça estava em devaneios desenfreados. A imagem de Lia sob o holofote vermelho, o vestido preto com pedrarias, sua pele marfim brilhando com uma camada fina de suor, o sexo de Emilia... Meu corpo começou a tremer. Era tarde demais. Pisquei algumas vezes atordoado. Isso nunca tinha acontecido antes.

- Meu Deus, me desculpe. — foi isso o que eu tinha dito?

Eu estava mortificado com a minha mente. Eu não queria pensar em Lia. Não queria me importar se ela tinha um círculo de amigos promissores. Não queria ter a curiosidade de saber o que tinha acontecido e do motivo de ela ter ido morar em uma casa daquela proporção aparentemente sozinha.

Não queria gozar na minha mulher pensando em Lia. E foi isso o que tinha acontecido. A culpa naquela manhã me arrebatou. Era ela quem estava martelando minha cabeça. Meu celular vibra novamente. É uma mensagem de áudio de Robert. Minhas mãos estão no volante, mas aperto o play na tela do celular para escutar o que ele tinha para falar, dividindo minha atenção nas suas tarefas. Emília detestava isso e com razão.

- Oi, cara. Bom dia! Queria só me desculpar se ultrapassei algum limite ontem. Você parecia bem incomodado e acho que bebi além da conta. Me desculpe mesmo. Sei que lidar com idiotas bêbados é a última coisa que precisa no momento com tudo o que está acontecendo com o seu pai. — Robert suspira audivelmente. O conheço bem, então parede que posso vê-lo encarar a bagunça que possa estar na sua sala de estar enquanto ele segura o telefone perto dos lábios. — Enfim, cara. É isso. No mais, acho que todo mundo se divertiu. A moça tem muito talento, não é? Nos vemos no trabalho.

Também não respondo a mensagem de Robert. Pelo menos não conseguiria fazer naquele momento. Ele tinha razão: Lia parecia ter talento. Além da voz bonita, aveludada e sensual, eu não saberia opinar. Não tinha parado para procurar nada. Não sabia uma nota de teoria musical. Ela parecia ser boa no que fazia.

Quando chego ao hospital, informo meu nome na recepção. Me entregam uma espécie de etiqueta laranja de acompanhante. Começo a andar pelos corredores deprimentes e passo por uma porta automática de vidro. Meu pai está sentado em uma poltrona com um dos braços estendidos recebendo a quimioterapia. Ele desvia o olhar da pequena televisão que está pairando em um suporte para mim.

- Que cara horrível. — ele comenta sem emoção.

Suspiro e deixo meus braços caírem ao lado do corpo; as mãos batendo de leve nas pernas.

- Não tenho mais idade para beber tanto assim.

- Hum. — é tudo o que o meu velho diz.

Um sorriso involuntário cruza os meus lábios.

- Guardei o café da manhã pra você. — ele aponta para a bandeja com a cabeça. A bandeja está em um pequeno criado mudo perto da poltrona. São algumas bolachas de água e sal, um sanduíche pequeno natural e uma caixa de suco.

- Só isso? — pergunto, pegando o pacote de bolacha nas mãos.

Um sorriso lento; a pequena linha de um sorriso sem mostrar os dentes cruza os lábios do meu pai; seus olhos fixos na televisão. Eu também sorrio com aquilo. Encaro os meus pés. Meu tênis bege precisa ser lavado. Pergunto-me se ele já tinha se sentido andando em linhas tortas com a minha mãe. Não tenho coragem de perguntar. Sinto-me um homem de trinta e seis anos patético. Meu celular vibra no bolso da minha calça.

Oi, Joaquin. Aqui é a Lia Carneiro. Me desculpe por estar mandando mensagem... Não gostaria de incomodar. Se estiver disponível, gostaria de oferecer um trabalho. Preciso da ajuda de um arquiteto que saiba o que está fazendo... Enfim, foi bom encontrar você e Robert na outra noite. Obrigada por irem me prestigiar...

Enfim, se estiver aberto e com disponibilidade para aceitar um novo trabalho, me deixe saber.

L.C.R.

O celular me encara enquanto levo um pedaço da bolacha de água e sal até a boca. Eu mastigo.

- O que foi? Parece que viu um fantasma?

Olho para o rosto do meu pai. Ele parece cansado e levemente entediado. Balando a cabeça em negativa.

- Coisas de trabalho. — dou de ombros.

O celular ferve em minha mão. Mastigo a bolacha de novo e de novo, criando uma massa em minha boca. Desbloqueio o celular e encaro a mensagem novamente. Meus dedos digitam uma mensagem de volta. Eu apago. Meu par de tênis bege me olha; é cúmplice silencioso. Meus dedos voltam a digitar. Eu aperto em enviar.

Notas finais
E aí? Quais são as suas expectativas?! O que acharam?!? Abraços, Eliemesse.