Notas iniciais
Parte I. "Como é frágil o coração humano — espelhado poço de pensamentos. Tão profundo e trêmulo instrumento de vidro, que canta ou chora". Sylvia Plath.

O metrô abandonou a estação no momento em que eu subi o último degrau do lance de escadas rolantes que se encontrava parado por algum motivo. Eu ainda podia ouvir o eco das rodas dos vagões raspando velozmente contra os trilhos da estação enquanto os vagões desapareciam no túnel escuro ao fundo. Eu estava cansada, com um pouco de fome e louca para tomar um banho. A cidade do lado de fora da estação de metrô, de certa maneira, parecia mais calma do que eu sabia que era. Já eram quase nove da noite e mesmo que muitas pessoas ainda estivessem voltando do trabalho, as ruas não pareciam estar escoltadas pela cacofonia habitual. Enquanto eu saía da estação, pude ouvir conversas distintas de um grupo de pessoas que passou ao meu lado e as alamedas de concreto e paralelepípedos desnivelados onde alguns moradores de rua jaziam em cima do papelão, se encontravam desertas e prontas para o descanso noturno entre a selva de pedra.

Caminhei por mais cinco minutos até virar à esquina deserta do prédio de Mariana. O porteiro já me conhecia, então não tive que me apresentar. Era um senhor que tinha olhos de camundongo, um nariz fino e protuberante; cabelos grisalhos ao extremo. Eu desejei boa noite, ele me respondeu e eu parti para o lance de escadas (seriam três), pois eu preferia elas do que ficar esperando o velho elevador que fazia ruídos estranhos quando você estava dentro. Eu tinha pavor só de pensar em ficar presa naquela porcaria...

Cheguei ao terceiro andar. O apartamento à esquerda, num fundo diagonal e estranho, era o de Mariana. A luz do corredor se acendeu automaticamente; amarelada e convidativa. Ouvi Snoopy latir e cheirar o pé da porta incessantemente e depois toquei a campainha; um singelo som agudo e clássico. Dim-dom. Segundos depois, Mariana abre a porta para mim sorrindo entre olheiras.

- Oi, meu amor. Como você está?

Nós nos abraçamos.

- Cansada e com fome. E querendo um banho.

- Vai tomar um banho, então. Vou colocar a comida para esquentar para você.

Dou uma olhada em volta. A televisão estava ligada no noticiário em um volume tão baixo que nem mesmo eu estaria ouvindo. No sofá, algumas folhas de artigos espalhadas para lá e para cá... Uma bagunça! Snoopy latia e queria atenção aos meus pés.

- Você quer atenção, não quer, seu safadinho? — falo com ele com uma voz infantil e acaricio suas orelhas peludinhas.

- Ele adora quando você vem. — Mariana disse.

Eu sorrio.

- O que você está fazendo?

- Ah, estava lendo algumas coisas para a aula de amanhã. Alguns artigos... — Mari dá de ombros.

Assenti.

- Tudo bem. Vou ir tomar meu banho. Você já comeu?

- Sim, já comi.

Eu sorrio para minha irmã mais velha e vou para o quarto de hóspedes. Quando abro a porta, sinto um aperto no coração. Mariana sempre arrumava o quarto para mim se eu falava que vinha para dormir; às vezes até quando não vinha. O quarto tinha uma cama de solteiro, piscas-piscas na parede da cama que tinham luzes pequeninas, redondas e coloridas que estavam sempre acesas. Havia também um guarda-roupa pequeno com algumas roupas de cama, cabides e toalhas. Ela já tinha colocado cobertores e um par de meias novos em cima deles com o bilhete "para esquentar seus pezinhos". Tenho vontade de chorar e pisco algumas vezes com a sensação de choro entalado na garganta.

Saio do quarto com o par de meias das mãos e a muda de roupas que eu tinha trazido para dormir. Vou para o banheiro ao lado do quarto e fecho a porta. É um banheiro pequeno e de azulejos claros — com exceção do box que é repleto de pedras pretas contrastando com toda a decoração imaculada. Mariana tinha bom gosto. Eu me olho no espelho enquanto estou me despindo. Sinto-me... Velha? Cansada? Estranha?

Meus cabelos ondulados e castanho claro caem sobre os meus ombros. Eles não são muito volumosos. Meus olhos escuros parecem cansados e a minha pele de marfim, apesar de o clima não estar abafado, tem uma camada fina de suor; consigo ver a cútis com aquele brilho seboso do final do dia. Suspiro. Enquanto encaro meu próprio reflexo no espelho do banheiro; aquele espelho retangular e largo, sinto que navego para dias antigos, onde tudo era diferente; onde minha irmã ainda morava em casa e era mais velha do que eu e estávamos escovando os dentes. Na verdade, ela estava escovando os meus dentes enquanto eu falava alguma bobagem de criança. Ela entrou na minha brincadeira e fez caretas e algumas outras palhaçadas que eu não conseguia recordar o motivo; mas ela sempre entrava na brincadeira. Lembro de Mariana aparentar ser bem mais nova — obviamente — e estar de pijama. Ela terminou de me ajudar a escovar os dentes e me deu um beijo na testa. Disse alguma coisa para mim e eu saí do banheiro correndo e rindo... Naquela noite tínhamos feito uma festa do pijama e lembro-me de ela ter deixado um abajur aceso no quarto — apesar de ela não gostar de dormir com luzes acesas. Eu deitei na cama dela, que era de casal, e lembro-me de ver que os olhos dela estavam molhados. Hoje eu sabia que Mariana estava chorando — mas eu não sabia e nunca soube o motivo. — Ela acariciou os meus cabelos até que eu adormeci.

Olho para a pia do banheiro. Há um hidratante da Victoria's Secret pela metade, sabonete líquido na saboneteira, um porta escovas com uma escova vermelha e uma pasta de dente. A Mari adorava aquele hidratante. Ela sempre comprava se o dela acabasse. Sorrio com aquilo e entro no banho com a sensação estranha de que eu estava velha e que talvez, naquele dia, eu acabasse de me dar conta de que, talvez, os papéis tinham acabado de ser invertidos.

Depois do jantar, estávamos sentadas no sofá; Mariana e eu. Ela tinha amontoado os artigos que estivera lendo em uma única pilha mesmo que eu tivesse dito que ela não precisava parar de lê-los só porque eu estava ali.

- Não, está tudo bem. Acho que eu preciso de um descanso para as vistas mesmo. — ela diz esfregando os olhos.

Ela decidiu que colocaria um episódio de Modern Family para assistir. Mariana adorava séries de comédia — eu também gostava — mas eu sentia que para ela era uma espécie de... conforto. Ela gostava de assistir sempre as mesmas comédias e ria como se fosse a primeira vez que estivesse assistindo. No braço do sofá, meu celular vibra. É uma mensagem de Joaquin.

Joaquin: estou indo para casa e vou pedir alguma coisa para comer. você não vem hoje, certo?

Emília: não, não volto hoje, mas amanhã cedo vou para casa. por que? você vai chamar a outra para ir passar a madrugada com você?

Joaquin: haha, como você é engraçada (só que não).

Emília: te amo. até amanhã.

- Você precisa ir para casa?

Olho para Mariana. Ela parece apreensiva. Seu cabelo está preso em um coque e a luz pálida e azul da televisão parece lhe dar um aspecto mais cansado.

- Não, está tudo bem. Joaquin só estava me dando boa noite e dizendo que vai passar a noite com a amante. — sorrio para a televisão.

Mariana solta uma risadinha de nariz.

- Vocês dois... — ela balança a cabeça em negativa. — Vocês são um casal legal. Gosto de vocês dois juntos.

- Obrigada, Mari.

Caímos em um silêncio profundo por algum tempo. Mari parece se entreter com a série e eu apoio o pescoço no encosto do sofá olhando para minha irmã de soslaio. Eu me preocupava com ela. Mari sempre foi... solitária, mas me pareceu lidar bem com isso. Ela nunca me pareceu solitária e sim uma pessoa que era independente e forte. Hoje eu conseguia ver que ela colhia frutos disso, mas que também não era mil flores. Depois da morte de ambos os nossos pais, senti que ela tinha decaído. A depressão dela nunca foi um fato consciente para mim; quando mais nova, nunca soube que ela teve episódios do tipo, mas se eu parasse para analisar o seu estilo de vida solitário e me lembrasse de alguns conselhos que me deu, podia me dar conta de que, talvez, a doença sempre fora um fator presente em sua vida — não só por ter poucos amigos ou quase não sair... Algumas coisas, por mais difíceis que sejam de ser explicadas, você sabe que estão ali, você sabe que há algo de errado. Agora eu tinha maturidade o suficiente para saber e notar que depois da morte dos nossos pais — de ambos — ela parecia mais... adormecida.

- Obrigada por vir. — ela quebra o silêncio e olha para mim. Parece franzir o cenho levemente ao me pegar olhando para ela.

- Eu te amo, sabe que não precisa me agradecer.

- Eu também te amo, meu chuchuzinho. Você está tão crescida... Nem acredito que você tem mais ou menos a minha idade quando você era pequena. O tempo passa mesmo.

- Sem melodrama. — reviro os olhos, mas sorrio.

Ela ri.

- Você se importa se eu for deitar? — pergunto. — Estou cansada.

- Vai deitar. Te amo. Boa noite. — ela me olha e se curva para me dar um abraço.

- Eu amo seu cheiro, Mari. — digo abraçada a ela.

- Eu também amo o meu cheiro.

Nós rimos e eu me levanto do sofá. Parto para o quarto de hóspedes e fecho a porta silenciosamente. A atmosfera mágica proporcionada pelas luzes de natal na parede me abraça e eu me encaminho para a cama de solteiro. Me cubro com os dois edredons e fico encarando as luzes rechonchudas e coloridas na parede. Sinto que eu poderia começar a chorar, pois queria que Mariana se sentisse bem e viva e eu sabia que ela não se sentia assim e ainda assim lutava dia após dia para continuar — por mim e por ela também — sentia vontade de chorar porque de repente, a falta que eu sentia da nossa família inteira, como uma vez fora, era aterradora e também por estar cansada. Penso que o preço a se pagar por crescer era exorbitante e amargo e não vinha com as condições bem detalhadas no contrato. Eu ainda tinha o vislumbre da Emília criança saindo correndo do banheiro e rindo e chegando até a cozinha e indo abraçar o meu pai. Ele vestia uma roupa formal de trabalho. Hoje ele não estava mais entre nós. A minha mãe que um dia sempre esteve cozinhando as melhores comidas do mundo — um simples arroz, feijão e ovo frito — também tinha ido embora. O peso da ausência deles era pior do que eu poderia imaginar. Acho que Mariana se sentia assim também. Pelo menos ela teve um tempo a mais com eles — era mais velha. — Pelo menos eu ainda tinha a ela. Eu amava a minha irmã. Eu amava Joaquin, eu ainda amava os meus pais e em alguns dias, nós esquecíamos o peso da vida e das ausências e vivíamos como se fôssemos donos do mundo e prometidos a um destino extraordinário. Naquela noite, estar envolta em dois cobertores confortáveis em uma cama confortável em um quarto silencioso e aconchegante era o bastante. Tinha de ser.

Notas finais
Obrigada por ler até aqui! Não se esqueça de colocar suas primeiras impressões e comentários para ajudar a escritora ;). Um beijo, Eliemesse.