Afetos Desalinhados
6 Emília
Notas iniciais
Quando me sentei em uma das cadeiras vagas e olhei ao redor, quase tive uma sensação de dissociação. Coloquei a bolsa na cadeira ao meu lado e olhei para o MASP do outro lado da avenida. Meu celular tinha acabado de vibrar com uma mensagem de Mariana dizendo que ela desceria na próxima estação e me encontraria na cafeteria em quinze minutos no máximo. Eu estava animada para vê-la depois do final de semana e perguntar como o congresso havia sido. A semana tinha se passado rápido; já nos aproximávamos da quinta-feira e eu já podia dizer que me sentia cansada. Pelo menos o clima estava ameno; nada quente ou ventania excessiva — para mim, o clima perfeito e equilibrado entre morno, com o sol brilhando e pincelando raios luminosos sobre nós e o eventual sopro de uma brisa fresca para não nos deixarmos grudentos. Pedi ao garçom que me trouxesse um pedaço de bolo de morango — eu amava o bolo de morango daquela cafeteria — e um capuccino caprichado com creme batido em cima. Na calçada, as pessoas passavam ao lado das mesas da cafeteria e às vezes cruzavam um olhar comigo. Eu tinha colocado um par de óculos de sol redondo de aro preto, pois minhas olheiras estavam me incomodando. Estive acordada desde às quatro da manhã, pois Joaquin se levantou para ir tomar um copo de água e demorou para voltar para a cama. Quando decidi me levantar para me certificar de que ele estava bem, o encontrei na cozinha fazendo algo que ele não fazia fazia há anos : fumando um cigarro com uma fresta da janela aberta. Seus cabelos estavam presos em um coque que ele havia se habituado a fazer — principalmente em dias que considerava quente demais — e ele usava uma calça fina e cinza e essa camiseta da mesma cor. Ele parecia tão distante e... fechado. Havia algo de errado.
Não fazia a mínima ideia de quanto tempo fiquei perdida e imersa em meus pensamentos, mas a voz de Mariana me tirou dos meus devaneios.
- Você está parecendo uma patricinha mal encarada com esse par de óculos. Eu gostei.
Olho em sua direção e sorrio. Alguém estava de bom humor. Mariana estava vestida de uma maneira parecida à minha. Usava uma calça de alfaiataria preta e uma blusa da mesma cor, básica e com corte regata com dois botões dourados. Seus cabelos, que eram castanhos — assim como os meus — estavam mais lisos e alinhados; sinal de que ela havia os moldado com o secador. Além disso, ela usava um par de óculos de grau, então diferenciava-se dos meus por esse fator. Seu semblante parecia iluminado. Fazia um tempo que eu não a via dessa forma.
- Alguém teve resultados satisfatórios pelo o que me parece! — eu a abraço.
Mari ri e senta na cadeira à minha frente.
- Você sabe que não sou fã de sentar nessas cadeiras na calçada da avenida... Só você para fazer isso, Emília...
Reviro os olhos.
- Você que é uma paranóica! Ninguém vai nos roubar!
- Estamos em São Paulo; não na França. — ela faz uma cara de pateta para o meu lado. Eu sorrio.
- Me conta como foi e aproveita que o garçom está vindo e pede um café.
Mariana olha para o garçom e diz "preto e sem açúcar por favor e um pão de queijo quentinho para acompanhar". Era engraçado como éramos opostas... Eu amava comer doces e cafés espalhafatosos e Mariana era simples e sofisticada; direta e decidida. Ela olha para o meu café e minha fatia de bolo e sorri unindo levemente as sobrancelhas.
- E então? — insisto.
- Emi, foi tão legal! Eles querem que eu vá apresentar a pesquisa em um congresso em Viena daqui a três meses!
Eu exclamo um "Ai meu Deus!"; uma exclamação onde "ai" e "meu" soam agudos e a última sílaba de "Deus" vai perdendo o "pitch" e transformando-se em uma entonação carinhosa do tipo "eu não acredito, mas acredito e eu estou tão feliz por você!" Mariana continua:
- É tão... estranho, sabe? — ela suspira e olha para o outro lado da avenida; parece analisar os carros. — Quando você era criança e eu tinha mais ou menos a sua idade e tinha, sei lá, acabado de me formar, tudo era tão urgente, Emi... Tudo na minha vida sempre foi tão dotado de urgência. — ela começa a gesticular com as mãos — Quero isso agora, quero que tudo aconteça antes dos trinta... Eu sei lá! E agora estou com quarenta e quatro anos e ainda estou sendo possibilitada de realizar sonhos que durante tanto tempo pareceram tão distantes; entende?
Eu faço que sim com a cabeça e beberico o café, pois tenho certeza de que mais um pouco de perda de controle da minha parte, começarei a chorar. Estou tão feliz por ela e por ouvi-la falar daquela maneira!
- Eu... estive entorpecida por tantos anos e isso... isso é ótimo! Não sei se eles estão me dando a oportunidade por pena — ela ri se autodepreciando e olhando para uma de suas mãos que está em cima da mesa de café. Suas unhas largas estão bem cortadas e de aparência sofisticada apesar de não carregar nenhuma tonalidade de esmalte. — Sabe, depois do laudo de depressão moderada a severa...
- Mari — eu a interrompo e pego em uma de suas mãos. — Não faça isso. Você é ótima, inteligente e capaz e... — respiro fundo tentando não chorar — batalhadora. Ninguém nos dá nada por pena no mundo. Se esse era um dos seus sonhos, então está se realizando por mérito seu e porque Deus é bom.
Ela parece estar tentando conter a emoção também. Mari sorri e desvia o olhar para a avenida e depois olha para o céu azul e com algumas nuvens densas fazendo uma dança lenta por ele.
- Eu achei que Deus tinha se esquecido de mim, sabia? — ela balança a cabeça pensativa. — Podemos ser tão estúpidos...
Concordo com ela.
- Podemos, sim. — como um pedaço do bolo de morango. Há alguns pedaços da fruta no creme branco e a massa está tão molhadinha... Está divino. — Esse bolo está uma delícia! — eu comento. — Acho que vou pedir um pedaço para levar para casa e comer de madrugada, talvez. — dou risada.
Mari ri baixinho.
- Como está o Joaquin?
Tenho que fingir que está tudo bem. Eu não a preocuparia com os meus problemas pessoais ou conjugais, não agora que ela parecia tão radiante e iria para Viena. Coloco uma mecha do cabelo atrás da orelha.
- Está tudo bem. Ele está trabalhando bastante, mas... bem, você sabe o que eu acho disso. Acho que ele exagera.
- Vocês têm um custo de vida alto, Emi. — ela dá de ombros como quem se desculpa — Agora é a hora de trabalhar para conseguir as coisas.
Lá estava a versão parental da minha irmã mais velha. Nem sempre essa versão aparecia de maneira robusta; muitas vezes Mariana cuidava de mim nas sutilezas; me dando uma par de meias, preparando pratos gostosos que eu gostava de comer... Ou então, ela se abdicava totalmente desse papel que não era dela e voltava-se para si e para suas dores e invertíamos os papéis de maneira temporária. Não teço comentários em cima do comentário dela. Ela também tinha um custo de vida alto... Não entendi bem o que ela quis dizer ou então não queria entender... Por dentro, estava em conflito pela postura estranha de Joaquin nos últimos dias. Me limitei a continuar a comer o bolo.
- Eu preciso comprar algumas coisas para a viagem; vai estar frio na época que eu tiver de ir. Pensei que você poderia ir comigo e me ajudar...
Enquanto conversávamos sob o abrigo da cafeteria, os carros continuavam passando; as pessoas olhavam para nós ou para outros clientes do café, observavam por trás de óculos de sol redondos e negros. As nuvens continuavam a dançar no céu; rechonchudas, dando um tchau silencioso e sutil. Os minutos iam se passando no relógio, a tarde caindo e a noite chegando. A vida ia continuando.
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