Estou com o notebook aberto em cima das pernas. As cortinas da sala, eu havia tirado e mandado para a lavanderia, o que tinha concedido ao apartamento maior claridade. Eu podia ver o prédio do outro lado da rua e meus vizinhos de avenida; se quisessem bisbilhotar, teriam uma visão ampla da minha sala. Em algum momento, na avenida, uma chuva de buzinas ecoa e chega ao quarto andar. Minha televisão está desligada; minha casa está em silêncio. Sinto-me sonolenta. A chamada permanece tocando até que Mariana aparece na tela.

Ela está sorrindo, mas seu semblante feliz se desfaz e ela une as sobrancelhas.

- O que aconteceu?

Dessa vez eu que uno as minhas sobrancelhas.

- O quê? Como assim?

- Que cara... Aconteceu algo? Você está com tanta olheira e abatida.

Eu suspiro e uma das minhas mãos vai até os meus olhos. Aperto eles por um momento.

- Está tudo bem eu só... — olho para Mariana. Ela está me olhando com atenção e quase de uma maneira maternal. Dou de ombros. — Joaquin está esquisito ultimamente.- estreito os olhos.

Mariana, que estava me olhando e parecia de pé, se senta em uma cadeira. Acho que está a utilizando um tablet. A imagem se aproxima do peito dela por um breve instante e depois ela parece posicionar o objeto encostado em algum suporte. Minha irmã está com os cabelos lisos e parecem maiores mesmo que tenha se passado apenas duas semanas desde que ela tinha ido para Viena. Ela parece bem e eu me sinto aliviada por trás de todo o meu caos emocional. Ela veste um suéter turtle neck cinza.

- Você acha que ele está te traindo? — sua pergunta é sem rodeios.

Posiciono o dedo indicador entre minhas sobrancelhas e fecho os olhos.

- Não é isso, é que... — bem, eu não podia mentir que aquilo tivesse passado pela minha mente, mesmo que de maneira breve; quase como um pensamento intrusivo.

Fico em silêncio e olho pela janela. Pensar naquilo me fazia ter vontade de chorar. O sol estava entre nuvens e morno. Na verdade, era um dia nublado e o sol não passava de uma ostra dourada e pálida entre todos aqueles algodões densos. Uma traição me machucaria tanto...

- Achei que estivéssemos prontos para começar uma família. — olho para Mariana. — Ele... Perguntei para ele o que achava disso. Ele pareceu tão infeliz com a minha pergunta...

Mariana está com o queixo apoiado em uma das mãos. Ela permanece em silêncio me olhando. Respiro fundo. As lágrimas me escapam num choro silencioso. Encaro o prédio do outro lado da avenida sentindo o mormaço penetrando pelas janelas da sala.

- Emília, lembra quando perguntei se ele também queria e que eu super apoiava se ele também quisesse?

Faço que sim com a cabeça.

- Emi, o Joaquin está passando por uma barra! Imagina se fosse ao contrário. Você pensaria em ter filhos, em trazer uma vida para o mundo enquanto o papai ficou doente, por exemplo?

Ouço o que ela tem a me dizer em silêncio.

- Não faz o menor sentido. — ela coloca os cabelos lisos atrás da orelha. — Talvez seja algo que você queira agora, mas isso não significa que seja o momento certo.

Faço que sim. Concordo com ela, ainda em silêncio.

- Sabe que sempre sou sincera no que digo.

- Eu sei. — e eu sabia mesmo. Respiro fundo. — Bem, não foi para isso que te liguei. — dou de ombros e forço um sorriso — Como estão as coisas por aí?

Mariana me dá um sorriso malicioso e tomba a cabeça para o lado.

- Bem...

- Que tom de voz é esse? Conheceu alguém?

- Hmm..

Eu sorrio e bato palmas.

- Me conta tudo! Vou pegar um café, espera!

Enquanto me levanto do sofá e deixo o notebook de lado, ouço Mariana rir. Estou indo em direção a cozinha e a escuto dizer "...sua doida!".

Eu amava Mariana. Ela era o meu refúgio mesmo quando não sabia ser abrigo. Ela simplesmente era. Pego uma caneca de café que Joaquin sempre usava: preta, de cerâmica e com a letra "E" gravada em rosa. Quando ele ganhou aquela caneca de Robert em um amigo secreto da empresa, disse que havia odiado, mas que ele me amava, então sempre tomaria café nela. E ele sempre tomava. Tento tirar Joaquin dos meus pensamentos. Era como se não estivéssemos praticamente casados e sim no começo de um flerte. Ele vinha espreitando cada labirinto da minha mente.

Íamos passar por aquilo. Era uma fase. Todos os casais passavam por fases, certo? Nós nunca tínhamos passado. Nosso momento havia chegado.

Volto para a sala e sento-me ao sofá novamente.

- Pode começar a desembuchar. — sorrio.

Mariana sorri. Estou feliz por vê-la feliz. Estou aliviada.


Notas finais
O próximo capítulo promete algumas fortes emoções ;) Espero que estejam gostando da história!! Até mais! Abraços, Eliemesse