Afetos Desalinhados
14 Emília
Notas iniciais
O show durou por volta de uma hora. Em algum momento Mariana veio para o meu lado para que pudéssemos descobrir um pouco mais sobre a cantora que tinha nos deixado extasiadas. Ela tinha uma voz aveludada e cantava com tanta emoção! Seus olhos se fechavam a cada palavra dolorida... Lia Carneiro era magnética. Eu estava hipnotizada.
Descobrimos que ela havia estado no auge com shows solo três anos atrás. A base de fãs parecia sólida. Ela não tinha redes sociais, mas parecia já ter tido. Algumas fotos tiradas por profissionais sempre a mostravam em preto e branco com uma guitarra nas mãos, um violão ou por trás de uma bateria. Lia Carneiro parecia multi talentosa. A Wikipédia trazia alguns fatos: Lia Carneiro Ragazza. Era filha de um produtor musical, Carlos Ragazza com uma atriz de teatro, Olivia Carneiro. Tinha vinte e cinco anos. Nunca tinha ouvido falar em nenhuma daquelas pessoas. Ela tinha um único álbum lançado. Umas das músicas com três discos de platina.
- Aqui diz que ela se afastou dos palcos depois de um escândalo familiar que envolveu um incêndio. — Mariana une as sobrancelhas. — Que barra!
Joaquin olha para mim e para Mariana.
- Você sabia disso? — eu pergunto.
Ele parece atordoado.
- Claro que não.
Joaquin pega o celular de Mariana. A luz fria e gélida do celular reflete em seu semblante. Os olhos dele se mexem enquanto ele lê a página da Wikipédia. Eu e Mariana voltamos a atenção para Lia Carneiro. Ela estava cantando uma música acústica bonita que era de sua autoria. Quando Joaquin entrega o celular de volta para Mariana, suas sobrancelhas estão unidas e sinto que ele limpa a garganta. De alguma maneira, parece atordoado com a história. Eu também tinha ficado. Mariana pesquisou o nome: "Cliffhanger". Eu tinha adorado o estilo das músicas e estava animada para conhecê-la pessoalmente e parabenizá-la.
- Por que não me contou que tinha conhecido uma cantora? — me volto para Joaquin pegando a garrafa de cerveja de sua mão.
Ele parecia pensativo e prestava atenção ao show. Ao seu lado, Robert tirava fotos do palco. Na verdade, ele parecia estar fazendo todo um photoshoot particular. Joaquin parecia aborrecido com as atitudes fanáticas — e até um pouco cômicas — de Robert.
- Não me liguei nisso. — Joaquin responde dando de ombros. — Para mim ela me pareceu comum; não sabia que tinha base da fãs ou algo do tipo.
- Ela é bem conhecida!
- Eu ouvi vocês comentando. — ele faz um manejo com a cabeça.
Joaquin não parece animado e eu não sabia dizer se era por Robert ou por estar cansado ou pensando no pai. Lia Carneiro termina o seu show com uma melodia arrastada e redentora. O bar implode em aplausos calorosos. Literalmente o bar inteiro tinha parado para ouvi-la cantar. Me coloco de pé junto com Mariana e Robert. Joaquin é o último de nós a levantar. Ele também aplaude. Ela sorri diante da luz quente e amarela que paira sobre ela.
- Obrigada, pessoal. — inclina-se para frente. — Muito obrigada pela recepção calorosa. Vocês vão me deixar acordada a noite toda!
Ela é ovacionada de maneira positiva. Nos auto-falantes sua voz é substituída por uma música da banda The Lumineers. Eu não sabia, mas ela parecia ter percebido que Robert estava ali torcendo por ela a noite inteira — apesar de ser difícil de não perceber. Lia sai do palco caminhando animadamente em direção à nossa mesa, sorrindo como se ela e Robert fossem grandes amigos por décadas.
- Ah meu Deus, que coincidência! — ela o abraça. Robert está animadíssimo.
- Garota, você é incrível! — ele diz. — Que show foi esse?!
Ela ri e olha para nós. Seu olhar paira sobre Joaquin e ela parece surpresa. Seu sorriso diminui um pouco, quase como um reflexo.
- Oi, Joaquin! — ela replica. — Que surpresa! — seu tom, de alguma maneira, parece mais formal.
Lia estende sua mão para Joaquin. Suas mãos parecem um pouco trêmulas. Suas unhas são médias e quadradas e estão pintadas de preto. Consigo sentir um cheiro de perfume característico: Chance da Chanel. Ela exala feminilidade. Um breve sentimento, uma ideia plantada de... inveja me abate. Há esse anel quadrado, fino e dourado no dedo do meio de sua mão direita.
Joaquin parece com sono. Parece ponderar se vai ou não cumprimentá-la. Ele está tão estranho... Estava pronta para interferir e dizer que ele estava um pouco embriagado quando ele estende a mão e retribui seu cumprimento.
- Grande show, Lia. Parabéns! — ele diz balançando a cabeça de maneira positiva. — Você... — ele para de balançar a mão dela na sua. Ela espera. Todos nós esperamos ele completar a frase. — Tem talento.
- Obrigada! — Lia responde radiante e olha para mim e para Mariana. — Vocês estão todos juntos?
- Sim, sou a namorada do Joaquin e essa é a minha irmã, Mariana. — respondo estendendo a mão e sorrindo. — Eu virei sua fã!
- Se vocês não pararem o meu maxilar vai doer a noite inteira de tanto sorrir. — sua voz é gentil e agradável. Ela parece genuína no que está dizendo.
- Eu tirei fotos para você. — Robert diz de prontidão. — Você sabe, sou fotógrafo nas horas vagas. Se quiser me contratar...
- Nos desculpe pelo comportamento de Robert durante o show inteiro. — Mariana diz. — Ele pode ser sem noção.
- Obrigado! — Joaquin olha para Mariana e balança a cabeça em negativa.
Sorrio com aquilo. Lia observa Joaquin ainda sorrindo e depois diz para Robert que adoraria ver as fotos que ele tirou e se ele podia enviar para ela.
- Meu número...
- Eu ainda tenho.
Joaquin passa a mão pela nuca ao meu lado. Vejo que está cansado.
- Lia, foi um prazer. — eu digo e lhe dou um rápido abraço. O corpo dela está quente. Ela parece surpresa e desajeitada com o meu abraço, mas retribui.
- Ah, o prazer foi meu!
Ela abraça Mariana rapidamente e para em frente a Joaquin. Não sei se sente-se intimidada com a minha presença, mas estende a mão novamente para Joca. Ele retribui mais uma vez e depois ela faz o mesmo com Robert, mas ele a puxa para um abraço. Mariana olha para mim como se estivesse com vergonha alheia. Eu reprimo um sorriso.
- Bom, eu... Vou dar uma atenção para as meninas lá atrás. Elas parecem estar esperando por mim. — a sombra dourada acima do delineador dela parece estar começando a derreter.
Mariana diz para que ela fique a vontade. Enquanto Joaquin se vira para mim e pergunta se estávamos prontas para irmos embora, ouço ela dizer para Robert que queria ver as fotos. Eles parecem amigos e ter uma conexão bacana — não do jeito que Robert queria, talvez.
- Vamos, sim. — acaricio o braço de Joaquin.
***
O primeiro a ser deixado em casa por Joaquin foi Robert. No banco de trás ele mostrava o talento dele para fotos para Mariana. Eu e ela concordamos com ele: ele tinha talento. Ele tinha tirado fotos profissionais com o celular dele. Joaquin não disse nada durante todo o caminho. Ele parecia aéreo. Eu tinha certeza de que estava pensando em Seu Marcelo ou cansado demais para reagir ao falatório. Robert agradeceu a carona. Ele parecia um pouco fora de si, realmente, mas confiamos que ele conseguiria subir até seu apartamento sozinho.
Depois que o deixamos, olhei para Mariana no banco de trás e disse:
- Ok, agora que ele saiu do carro, posso colocar a música sem que ele fique dizendo o quão gata ela é! Eu amei as músicas dela!
Uma das músicas que tínhamos ouvido no bar "To Love" começa a ecoar no som do carro. Mariana concorda que é uma boa música.
- Eu também acho. — respondo.
- Só o cabelo dela que podia melhorar... Cabelos loiros precisam de muita hidratação. Parecia um pouco frisado...
- Você achou? — perguntei. — Eu não percebi...
E continuamos durante todo o caminho até o apartamento de Mariana conversando sobre trivialidades. Quando chegamos ao nosso apartamento, Joaquin deixa a chave do carro em cima da mesa de centro da sala.
- Ei, você está bem? — pergunto observando-o sentar-se ao sofá.
Ele suspira alto e fecha os olhos.
- Estou bem. Só estou cansado.
- Foi o que imaginei. — caminho até ele e sento-me ao seu lado. Seguro seu rosto com uma das mãos e faço com que ele olhe para mim, segurando seu maxilar gentilmente. Joaquin abre os olhos. — Está muito cansado?
Ele não responde à minha pergunta com palavras; ao invés disso começa a me beijar de maneira lenta, mas firme.
Quando estamos na cama, sinto algo diferente em Joaquin. Ele está mais... Intenso? Não era ruim, mas... Diferente e eu não estava acostumada.
- Joca... — gemo. — Pode ir menos fundo? Está me machucando um pouco.
Sua boca está contra o meu pescoço. Ele vai deixar uma marca ali. Uma de suas mãos está segurando a minha acima de minha cabeça no travesseiro. O corpo dele começa a tremer e sinto-o se esvaziando dentro de mim. Encaro o teto do quarto e a atmosfera que parede pegajosa, fria e densa ao mesmo tempo. Ele está ofegante e permanece assim, sem olhar no meu olho por um tempo. Sinto que há algo de errado. Quando ele me olha, o rosto próximo do meu, parece atordoado. As bochechas dele ganharam uma tonalidade suave e ruborizada. Ele nunca ficava assim... Joaquin pisca algumas vezes olhando para o meu rosto. Me pergunto quão embriagado ele estava. Sua respiração sai como um suspiro, quase exasperada e ele cola a testa na minha.
- Meu Deus, me desculpe.
Faço uma careta de dor quando ele sai de dentro de mim. Pelo o que exatamente ele estava se desculpando? Por gozar dentro de mim novamente ou...
- T-tudo bem. — estou tão confusa.
Observo Joaquin de perfil. Uma de suas mãos está em sua testa. Seus cabelos estão um pouco molhados perto das costeletas. Ele encara o teto.
No que ele estava pensando? O que estava acontecendo?
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