Notas iniciais
Mas não estávamos todos assim? Sendo substituídos por versões mais cansadas e maduras que já sabiam como o mundo funcionava? Oi pessoal, eu gosto de deixar vocês à vontade e sem muitas notas - mas eu amo conversar com os meus leitores! Gostaria de ressaltar que, a partir deste capítulo, a história de Lia, Emília e Joaquin será entrelaçada "for good"! Se preparem! Este é um capítulo muitíssimo importante (e honestamente, um dos meus favoritos!) Boa leitura!

Eu estava esperando por Mariana na estação Fradique Coutinho. Havia me sentado em um dos bancos na plataforma para esperar, pois ela estava uns quinze minutos atrasada. Joaquin havia me mandado uma mensagem dizendo que já havia saído do trabalho e estava indo para o bar onde iríamos nos encontrar. Respondo que tudo bem e que eu ainda estava na estação esperando por Mariana. Ele diz que iria ver se tinha mesas vagas.

Estávamos bem novamente. Bem na medida do possível. Eu sabia que ele estava fazendo um esforço para não ficar tão explosivo. Joaquin havia voltado a fumar em uma quantidade considerável. Por mais que o cheiro do cigarro me incomodasse muito no apartamento, não me senti no direito de pedir para que ele não fumasse lá. Seu pai, o seu Marcelo, continuava com o tratamento e tínhamos recebido a notícia que teria de fazer uma cirurgia em breve, antes do Natal. Estávamos caminhando para o meio de novembro e eu tinha certeza de que Joca estava muito tenso. O ritmo de trabalho dele não havia diminuído, mas ele tinha pedido no escritório para fazer mais dias de home office do que presencial, até mesmo para mesclar com sua mãe os dias de acompanhamento no hospital. Eu sabia que isso podia ser estressante.

Eu amava Joaquin. Estava cada vez mais certa de que ele era o homem com quem eu gostaria de me casar. Na noite anterior, enquanto estávamos transando, senti-o um pouco aéreo, mas quando ele gozou dentro de mim, algo que ele geralmente não costumava a fazer, com o rosto enterrado em meu pescoço, o corpo tremendo e quente, senti que não poderíamos ficar mais íntimos do que isso. Eu me senti bem com aquilo e com a remota possibilidade, talvez, de começar uma família com ele. Ele pediu desculpas baixinho dizendo que não tinha conseguido se segurar. Eu disse que tudo bem e ele saiu de dentro de mim, causando-me um rápido desconforto. Joaquin me puxou para perto dele, entrelaçando suas pernas nas minhas e beijando a minha testa. Fechei meus olhos por um instante e quando os abri novamente ele já havia caído em um sono profundo. Seus cabelos estavam soltos e caiam ao redor de seu rosto como um manto castanho e delicado. Ele tinha adotado a barba de vez, com aquele aspecto ralo, mas o suficiente para pintar todo o seu maxilar. Encarei seu corpo nu colado ao meu. Eu tinha sorte de estar ali. Eu tive sorte de conhecê-lo ainda na faculdade e rir dele dançando as músicas mais ridículas possíveis com roupas ainda mais estúpidas por causa dos trotes. Parecia que aquele Joaquin havia ficado para trás, sido substituído por uma versão mais velha e preocupada. Mas não estávamos todos assim? Sendo substituídos por versões mais cansadas e maduras que já sabiam como o mundo funcionava?

O barulho das portas do metrô se abrindo chamam a minha atenção. Sinto um pouco de frio. Mariana acaba de desembarcar e me olha com as sobrancelhas unidas.

- Você está bem? Está toda retesada.

Eu dou risada baixinho enquanto levanto do banco. Eu estava com uma saia social preta e um sapato de bico fino nos pés.

- Estou com frio. E só você para usar palavras como "retesada" no dia-a-dia. — faço as aspas com dedos no ar. Mariana revira os olhos para mim, mas também sorri.

- Esse é o preço de se ter uma irmã linguista e inteligente.

- Que vai para Viena! — complemento em tom animado e dou pulinhos ao seu lado segurando em seu braço.

- Emília!

Eu sorrio e a abraço de maneira rápida. Dou o braço para a minha irmã mais velha e seguimos assim até a saída da estação.

***


Quando chegamos até o bar, Joaquin já tinha entrado. Avisei ele por mensagem que estávamos do lado de fora na fila esperando para entrar. Ele não respondeu. A fila não era muito grande, mas eu estava com frio e aquele blazer não estava me esquentando muito. Eu ainda estava agarrada ao braço de Mariana e estava inquieta. Olhava para os carros passando pela rua de maneira distraída.

- Posso te perguntar uma coisa?

Mariana olha para o meu rosto.

- É claro!

- O que você acha de eu e Joca começarmos uma família?

Mariana parece surpresa com aquilo. Duas sobrancelhas se arqueiam. Seus cabelos ondulados e castanhos estão voando um pouco por causa da brisa gelada.

- Emília eu... Não acho que posso opinar sobre isso. Se é o que vocês querem... — ela dá de ombros. — É o que ele quer também?

Lembro-me da noite anterior. Era o que ele queria? Eu não saberia dizer. Era algo que ele não costumava a fazer. Eu não tomava remédios contraceptivos porque tinha muita enxaqueca, mas mesmo assim sempre nos cuidamos. Não éramos casados ainda, mas morávamos juntos... E ele tinha feito aquilo...

- Não falamos sobre isso ainda. Acho que eu me sinto preparada, se for o caso.

Mariana assente.

- Bem, eu te apoio se for o que ambos querem.

Chegando a nossa vez na fila passamos pelo segurança que nos revistou rapidamente. Entrar no bar escuro e abafado foi um alívio para mim. Eu estava com frio. Avistei Joaquin de longe, estava a duas mesas de distância do palco vazio e pequeno com uma iluminação que projetava um grande círculo vermelho e pálido contra a parede de madeira. Os cabelos estavam presos no estilo samurai e ele já bebia alguma coisa com Robert.

- Oi. — eu digo pousando a mão em seu ombro.

Ele olha para mim e se inclina para me dar um beijo na boca. Mariana o cumprimenta e também a Robert. Eu me sento ao lado dele e Mariana ao lado de Robert do outro lado da mesinha estreita e quadrada feita de madeira. Era uma daquelas mesas pequenas e bambas que não se pode colocar muito peso.

- Quer beber alguma coisa? — Mariana pergunta em voz alta olhando para mim. Está tocando uma música dos Smiths no auto falante. Não reconheço a música, apenas a voz do cantor e o estilo musical.

- Acho que vou pedir um refrigerante. — eu não bebia álcool.

Mariana diz para eu deixar com ela e se levanta. Robert está tagarelando com Joaquin a respeito de alguma coisa do trabalho. Joaquin passa a mão no maxilar de maneira distraída enquanto responde uma pergunta de Robert. Observo-o de perfil com o seu nariz reto. Tenho que me policiar para não parecer pateta, mas eu achava que tinha sorte em tê-lo até mesmo pela aparência física... Uma de suas mãos estava pousada na minha coxa de maneira leve e despretensiosa. Em alguns minutos Mariana volta com dois copos: um de vodka com morango para ela e um refrigerante diet para mim.

- Que fila para pegar uma bebida! — ela reclama sobressaindo-se à música.

As luzes do bar se apagam de repente. O falatório cessa por um breve segundo. Parece que o ar parou de circular. Estou na expectativa e olho para o palco que agora está apagado também. Ouço o som de salto alto contra a madeira. Uma voz quase etérea que eu nunca tinha ouvido antes começa a ressoar no alto falante. Uma melodia arrastada e cantada em inglês:

- Staaaaaaay, baby, stay...

No mesmo instante, o círculo pálido e vermelho volta a refletir o palco revelando a cantora da noite. Ela tem um cabelo quase em estilo chanel e loiro. Usa um vestido preto de manga comprida que termina seu comprimento no meio das coxas e é repleto de pedrarias brilhantes e pretas. Seu nariz é arrebitado, suas sobrancelhas são bem demarcadas. Ela canta abrindo e fechando os olhos, segura no microfone quase como se estivesse o beijando com movimentos sensuais com a boca. Eu achava curioso como às vezes as mulheres são tão bonitas que podem provocar até uma certa reação de admiração nas próprias mulheres! A voz dela não era aguda; era quase rouca de uma maneira sensual e aveludada; ecoava de maneira poderosa pelos auto falantes do bar, às vezes fazendo a estrutura tremer pelo volume.

- O quê?! — Robert exclama em um tom de voz agudo e fino.

Sinto o corpo de Joaquin se retesar na cadeira. Olho para Robert e depois para Joaquin. Seus olhos estão fixos no palco. Suas sobrancelhas estão levemente unidas, seus lábios suavemente separados. Meu olhar volta para o palco. Ela era linda! Gostaria de cantar bem assim. — eu penso.

- Cara, eu não acredito! — Robert olha para o rosto de Joaquin.

Eu continuo a olhar para Joaquin ao meu lado. Ele, que estivera sentado com ambas as pernas separadas de uma maneira relaxada na cadeira, leva sua mão até a garrafa de cerveja pousada em cima da mesa. Observo em meio à penumbra avermelhada do bar o anel de água que ficou em cima da mesa. Joaquin leva a garrafa de cerveja suando até a boca. O seu pomo de Adão sobe e desce enquanto ele bebe goles generosos. Seus olhos continuam fixos no palco. Desvio o olhar para onde todos estão olhando agora. Observo os pés da cantora: um par de botas de camurça plissada toma quase que toda a extensão de suas panturrilhas. Suas pernas têm uma camada de meia-arrastão preta com pedrarias.

Ouço Robert rir e aplaudir. Acho aquele comportamento estranho. Joaquin parece tão incomodado quanto eu com o comportamento dele. Me inclino para ele; meus lábios chegando perto de seu ouvido.

- Vocês conhecem ela?

Me afasto novamente olhando para o semblante de Joca. Eu não tinha perguntado aquilo em voz alta. Joaquin parece não ter me ouvido apesar de eu ter perguntado em seu ouvido. Seus olhos ainda estavam fixos no palco. Robert, por sua vez, apesar de eu ter certeza de não ter ouvido a minha pergunta, diz com os olhos brilhantes para Joaquin:

- Ela é boa, cara! É a Lia!

Uno as sobrancelhas. Mariana parece ter observado todo o desenrolar da cena. Vejo ela me olhando e quando meu olhar encontra o dela, desvia.

Quem era Lia?

Notas finais
Não deixem de comentar... Lembram-se de que os comentários e trocas com os nossos queridos leitores são mais um motivo pra continuar o nosso trabalho ! Se você leu até aqui, obrigada e até o próximo capítulo! Eliemesse.