Afetos Desalinhados
13 Joaquin
Notas iniciais
No momento em que todas as luzes se apagaram, tive a impressão de que o ar teria se estagnado; talvez pelo local ter caído em um silêncio repentino e expectador. Pude ouvir o barulho típico de salto alto ecoando de maneira abafada contra a madeira do estreito palco. A duração em segundos entre todo esse desenrolar de expectativas do público até a sonoridade rouca e sofisticada ecoar nos auto falantes foi mínima. Apesar da expectativa, não houve tempo suficiente para a imagem violenta e ofuscante que viria a seguir.
Meu corpo parece ter entrado em um estado anafilático. O contraste do vermelho vivo do holofote sobre o palco, a madeira desgastada, porém sólida, a silhueta dourada coberta de pedrarias pesadas e pretas era quase militar. Ao meu lado, Robert parece tão em choque quanto eu. O mundo tinha parado de respirar?
- Say that you want me undressed....
- O quê?! - Robert parece que vai pular da cadeira. Ele de fato de curva para frente. Posso vê-lo pelo canto do olho.
Ele olha para mim, mas eu não olho para ele. Estou petrificado. Por algum motivo, desejo não ser visto. Começo a nutrir um sentimento odioso pelo meu colega de trabalho. Ele tinha sugerido o lugar. Ele sabia disso?
- Cara, ela é boa! É a Lia!
- Joaquin!
Olho para o lado. Sinto a mão de Emília com um pouco de força empurrando meu braço. Uno as sobrancelhas.
- Perguntei se vocês conhecem ela!
- Eu...
- Nós fizemos uma obra na casa dela! — Robert interrompe gritando perto do meu ouvido direito.
- Sim. — é tudo o que conseguido dizer. — Robert, pode de controlar, por favor? Está parecendo um cão sedento.
Ele revira os olhos para mim e se apruma na cadeira com um sorriso estúpido nos lábios. Sento-me ereto na cadeira apoiando as costas contra o encosto. Lia continua a cantar a melodia arrastada e provocativa. Sua voz ecoa ainda mais potente e mais aguda no climax da música. Ela está entregue, imersa em um estado delirante da arte. Pergunto-me se notou que Robert e eu estamos ali.
- Nossa, ela é boa! De quem é essa música? — ouço Mariana perguntar.
Robert nos mostra uma letra de música vinda de um site da Internet. A autoria é Lia Carneiro, " Dream Woman".
- É dela! — ele diz gritando para ser ouvido.
- Nunca ouvi falar... — Mariana comenta sem ser desenhosa.
Não teço comentários além de "vou pegar uma outra cerveja". Robert pede para que eu traga uma para ele também. Eu me levanto da cadeira. Emília está olhando para mim. Não consigo ler a sua expressão. Parece confusa. Dou às costas para o palco e encaminho-me para o balcão de bebidas. Todas as pessoas parecem voltadas à direção contrária. Peço licença para um casal que está em frente ao balcão. Eles cedem. A cervejeira tem uma luz neon verde ao seu redor. Peço para o barman duas garrafas. Acredito que eu esteja na quarta. Ele grita "um minuto" para mim, pois está terminando de preparar outra bebida. Faço um sinal positivo com o polegar; a voz de Lia se esvaindo dos auto falantes. Uma salva de palma e ovação. Viro-me no mesmo momento em que ela sorri radiante para seu público.
- Amamos você, Lia! — um grupo de vozes femininas ao fundo, perto da entrada/saída do bar ecoa. Minha atenção se volta para ela que sorri para o grupo. Seriam amigas, fãs?
- Nossa... — agora a voz dela ecoa como eu lembrava, porém mais alta, sem ter como fugir. O som reverbera em todo o meu corpo. Não consigo ouvir os meus batimentos cardíacos. Fomos imersos na voz de Lia como uma espécie de sacramento. — Eu não esperava essa resposta do público, tenho de ser honesta. — mais ovações. — Obrigada, pessoal. — ela faz um breve aceno com a cabeça e agora se senta em um banquinho que alguém acabou de levar para ela pela diagonal do palco. Ela sorri o tempo todo.
Observo Lia posicionar o banco em frente ao suporte de microfone. Ela se senta. As suas pernas douradas brilham com a meia arrastão que dá textura a elas: áspera e brilhante. As botas quase chegam a cobrir um par de joelhos bem delineados. Suas pernas, apesar de ela ser magra, parecem fartas. Lia recomeça a cantar. Há um playback de fundo. Essa música não é de sua autoria; eu reconheço. Emília gosta de Lana Del Rey.
O barman me cutuca e eu me viro. As cervejas estão geladas. As pontas dos meus dedos começam a doer contra as garrafas. Agradeço, mas não sei se escuta. Os olhos estão vidrados no palco e a voz dela está em todos os vertices. Volto para a mesa. Robert me agradece sorrindo e volta sua atenção para sua musa. Olho para Emília e ofereço a cerveja gelada, estendendo a garrafa em sua direção com um sorriso cansado. Ela não diz nada, apenas me olha com um olhar que não consigo decifrar. Está chateada com alguma coisa? Não saberia dizer. Eu me sento na cadeira. Emília está virada para mim. Agarro o assento de sua cadeira e trago-a para mais perto da minha, colando-a em mim. Passo o braço ao redor do seu ombro. Ela coloca a cabeça no meu peito enquanto beberica na garrafa. Emília me entrega fazendo cara de nojo. Eu sorrio e levo a cerveja até minha boca. Os olhos de Lia estão pintados com um delineado preto e curvelíneo.
- Seu coração está disparado! — Emília comenta olhando para o meu rosto e achando graça. Une as sobrancelhas.
Olho para o seu rosto. Seus olhos escuros e grandes; lânguidos de uma maneira quase sofrida. Sua testa pequenina e seu nariz delicado. Curvo-me para lhe tascar um beijo na boca. A voz dela ainda esmaga; a atmosfera treme.
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