Adão e Eva, numa galáxia distante
6 Cap. 6. O mundo silvícola
Notas iniciais
O mundo silvícola
Na sala de comandos, Carlão assumiu os controles até atingir a velocidade do “pensamento”. Em seguida, marcou o ponto universal de seu destino, determinou o tempo dessa viagem, e deu sua posição para seus superiores do planeta “E de Beta”. Pôs três robôs na pilotagem, e foi em busca de sua mulher que não parava de olhar para “A”, que ficara convertida numa luz em poucos minutos. Joana gravou a figura dessa constelação, para olhar sempre naquela direção, e assoou o nariz, pois nunca havia pensado, nem sonhado, que um dia se separaria da família atrás de um homem vestido de negro. Para piorar, ela sabia que desta vez não estava hipnotizada, não, saíra de Atalanta disposta a seguir o marido onde quer que ele fosse.ssim que a porta fechou-se, as roupas de Carlão e Joana foram purificadas por uma luz azul dessa nave. Para Joana, que nunca havia subido numa nave interespacial e só havia-as conhecido através de filmes ou na TV, tudo foi surpreendente desde um princípio. Magnífico. Essa nave era preta por fora, mas por dentro era de um colorido afrodisíaco, com luzes e apetrechos que incentivava um casal para fazer uma única coisa durante uma longa viagem, amor sem fim.
Carlão a beijou docemente, enquanto puxava uma cadeira confortável.
Joana ficou sentada de costas para ele, sem parar de olhar as estrelas. A boca de seu amor beijando-a nas costas para seduzi-la sem trégua. E ficaram assim, se amando, bocas grudadas num beijo molhado e gostoso, até que um robô apareceu com comidas suculentas, pois ele sabia que os humanos quando faziam amor perdiam a noção do tempo, e podiam morrer por causa disso. Comeram uma torta de legumes, depois a sopa de ossos, concentrada, preparada pela Dina antes de partir, cuja receita afrodisíaca não deixava dormir marido nenhum em Atalanta. Depois, foi um guisado feito pelo João com molhos de soja, que Joana adorava, e uma sobremesa preparada pela Evita com cremes e bolachas, e terminaram com uma torta de frutas com cremes. Também havia sobre a mesa uma carta escrita pela mãe onde falava coisas estranhas, como que cuidar do marido era a coisa principal na vida de uma mulher, junto às receitas desse banquete, num caderno de culinária.
Carlão, que nunca havia comido tanto, de tão gostoso esse festim, falou que ia ajudar na cozinha, durante todos os meses em que estivessem viajando. Depois a tomou no colo, atravessou um corredor iluminado, entrou numa sala onde havia uma piscina de águas cristalinas tampada com um grosso vidro transparente.
Quando Joana e Carlão acordaram de um longo sono de descanso, e de reposição de energias, o robô entrou novamente empurrando o carrinho com mais um jantar. Carlão ligou a TV panorâmica, e um programa sobre a vida selvagem apareceu na frente. Presente de um Sacerdote de Atalanta. Era a história de um bando de símios vivendo no mato, onde se viam com frequência coitos entre eles, que eram tão excitantes quanto os dos humanos. Aumentou o tamanho da tela em 360º, para dar a sensação de estar entre os bichos e trocou a cor das luzes, para que tudo no quarto ficasse verde. A cama parecia umas gramas gostosas, prontas para um homem seduzir sua fêmea, enquanto animais em redor faziam a mesma coisa. Rindo, saíram dessa suíte para procurar verduras e frutas na horta, farinhas, e cozinharam uma ágape para ambos.
Dali para frente a doce rotina dessa viagem se alastrou.
Enquanto Joana cozinhava, Carlão pilotava e supervisionava os robôs. Assim que ela aparecia com o carrinho com o banquete do dia a dia, ele atacava o banquete, pois a comida dela era ótima. Depois, caminhavam abraçados, e o amor começava entre beijos ardentes, em qualquer canto, pois toda a nave era revestida de espuma e veludo grosso. Com sua mulher fazendo-o feliz, com amor a toda hora, Carlão não via o tempo passar. Tinha também os momentos em que decidiam subir na cadeira com motor, que os conduzia nessa nave por todos os lados. Percorriam a horta, onde havia luz para tonificar o corpo com vitamina D, areia natural para deitar e onde podiam ligar outra TV em 360º com cenas de praias, ou lagos, e se ter a sensação de estar no meio da natureza. Os humanos que estavam na tela, perambulavam ou corriam. Desta feita, tinham a sensação de estarem acompanhados por muitas pessoas.
Depois de 3 meses estelares eles avistaram de longe o “Mundo de E”. Primeiro, foi uma Nebulosa, e depois, muitas estrelas que passavam perto, cujos clarões duravam poucos instantes. E, finalmente, viram uma estrela pequena que foi aumentando o tamanho até ficar redonda como uma bola de basquete. Paulão mudou de velocidade, para ser visualizado desde seu mundo, e vestiu seu uniforme, pois tinha que se apresentar aos Superiores, frente ao “Espelho falante”.
Joana revistou o guarda-roupa, e escolheu um vestido celeste, semitransparente, com laço na cintura, e bordado com linha dourada. Passou um batom, delineou sobrancelhas, pintou uma linha grossa ao redor dos olhos, escovou seu cabelo loiro encaracolado, e foi até a sala de pilotagem. As seis Luas de “E” ficaram cada vez mais próximas, pois era nas Luas que os aeronautas eram recebidos.
O “Mundo de E” era um planeta gigantesco, selvagem, verde, onde os homens viviam como índios, em barracas, ou casas de madeira na beira de um lago, no meio do mato fechado. Percorriam as distâncias em cima de elefantes, cavalos, leões, tigres, bichos amigáveis que viviam em harmonia com todos os homens. A civilização desse lugar e todas as mordomias de vida moderna estavam nas seis Luas, onde ficavam as Escolas, Universidades, lugares de lazer e divertimentos, e todos os aeroportos interespaciais.
Nesse planeta, as crianças iam para a Escola durante a adolescência, depois que se tornavam independentes de seus pais. Os melhores alunos eram escalados para as Universidades, e o resto voltava para casa para continuar com sua vida mansa. Quem estudava e se formava Espião, cuja profissão era a mais disputada pelos homens, passava a viver o resto da vida viajando pelo espaço. Mas, antes de começar essas longas viagens os homens tinham que encarar o casamento, para não enlouquecer no meio do Cosmos com a solidão.
Para realizar seu trabalho, os Espiões contavam com a cooperação de todos os mundos superiores, desde “L” até “A de Beta”.
Em “L de Beta”, estavam os guerreiros, e os engenheiros, que lhes construíam as naves para suas missões. No “Planeta A” se preparavam os Comandantes, os homens capazes de guiar um pelotão de viajantes, e nos outros mundos havia outros profissionais experientes em resolver problemas universais. Havia os jornalistas de “C”, os demolidores de “D”, os construtores de “I”, todos de prontidão para um encargo importante.
E quem organizava as missões e escolhia os homens em pessoa, era “00”, o chefe de todos os Espiões, de todos os comandantes, em todas as galáxias. Um espírito que se comunicava com os homens através do “Espelho falante”. Um ser pelo qual todos os homens tinham o maior respeito e a maior admiração. Uma ordem de “00” ninguém tinha coragem de contestar, pois não havia sábio mais ajuizado que “00” em lugar algum do Cosmos. A única coisa que ninguém sabia era a idade dele. Contava-se que “00” era tão velho quanto o próprio Universo.
E Carlão, recém-casado, escolhido por “00” para um mandato importante, cuja mulher era a mais linda que os homens de “E” viram na vida, desceu num terrapleno de uma Lua de “E”, lentamente.
Esse terraço, de longe, mais parecia uma agulha saindo de uma cúpula de vidro, como uma flor com todas as pétalas abertas, onde a nave parava no centro dela. Depois, a flor de vidro se fechava, e uma chuva de líquidos caía sobre a nave como uma cascata, enquanto a plataforma descia até a superfície lunar. Uma vez em terra, a nave era conduzida até as portas laterais, onde o ar dessa cidade recebia os viajantes. Carlão e Joana saíram a caminhar por um corredor, onde receberam um ar quente que os deixou completamente imunizados contra todos os vírus de “E”.
Finalmente, um grupo de pessoas avançou em direção de Joana para abraçá-la, beijá-la, com lágrimas nos olhos. Estavam ali todos os familiares de Carlão, mais ou menos uns 50 primos, 15 tios, seus quatro avós, e seus pais. Carlão abraçou-se na sua mãe, e deixou que as lágrimas escorressem de vez. Seu pai se uniu ao abraço, e os três caminharam atrás de todos, que os guiavam na direção de uma farra improvisada.
A família os levou até um trem subterrâneo, onde todos se acomodaram, e o veículo percorreu um canal iluminado, na direção de outra cidade, coberta desta vez por uma cúpula translúcida de cor amarela.
A cidade era tão alta, que parecia se encostar ao telhão de vidro. Ruas aéreas se entrelaçavam nas alturas como uma cobra, por onde as pessoas subiam e desciam de formas variadas. Havia carros, bicicletas com motores, motos, patins com motorzinho pequeno, cadeiras que rodavam com um casal sentado, por trilhos com cordas, e alguns animaizinhos corajosos que se misturavam à paisagem.
No térreo, os homens andavam a pé. Entravam nos edifícios, em cujo interior os elevadores os conduziam até as alturas, ou ficavam a passeio visitando lanchonetes, bares, danceterias, onde o divertimento era constante tanto de dia quanto de noite. Joana e sua nova família caminharam pelas ruas, até chegar num hotel, onde havia um banquete preparado para os noivos. Umas 30 mesas enfeitadas com manjares se acomodavam em círculo, com cadeiras de respaldo alto, esculpidas a mão, almofadadas, cor dourada, num luxo fantástico. 20 robôs caminhavam servindo bandejas com petiscos, doces e salgados, já outros serviam vinhos grossos, doces, deliciosos, dos vinhedos desse mundo. Um vinho artesanal, considerado o melhor de todas as galáxias. Por cima de uma plataforma voadora, Carlão e Joana giraram por todos os lados, conversando com todo mundo, tirando fotografias, filmando o encontro, para levar junto nessa viagem com as recordações de um momento perfeito.
Carlão ria de felicidade, falava com telepatia com cada um de seus parentes e beijava sua mulher, de vez em quando.
Depois de comer delícias desconhecidas, Joana teve que dançar músicas esquisitas, onde as pessoas faziam rodas, tomadas da mão, trenzinho, como brincadeira de crianças.
Tarde da noite, cansados de tanto calor humano, a maioria dos familiares voltou para casa. Ou seja, regressaram para o aeroporto, para viajar até o enorme planeta, onde viviam em casas simples e levavam uma vida pacata. O único da família que era Espião e viajava através das estrelas era Carlão, o orgulho de toda essa família.
No dia seguinte, Joana foi dar um passeio pelos jardins desse hotel, rodeada pelos sogros, que não saíam de perto hipnotizados pela sua beleza, enquanto Carlão ia para a “Universidade de Guerra” receber instruções de seus superiores.
Carlão subiu até o décimo andar da Universidade, e entrou numa sala onde 50 pessoas esperavam por ele. Assim que se acomodou num assento, seus mestres lhe explicaram os detalhes da sua missão. Logo em seguida Carlão sentiu um arrepio frio na espinha, pois o relato era o seguinte:
Nessa altura, no mundo selvagem “V de BETA” a bomba atômica já havia sido inventada, com cinco testes muito bem-sucedidos. Já haviam viajado antecipadamente 50 Espiões, metade homem e metade mulher como mandava o regulamento aéreo. Carlão assumiria como chefe desse grupo quando chegasse em “V de BETA” e faria uma avaliação geral da situação mundial. Sua incumbência era tentar, se isso fosse possível, postergar o holocausto fatal até o dia em que Nestor assumisse a missão, e decidisse o futuro desse mundo.
Em seguida, estendido sobre um mapa universal, ele se concentrou no endereço estelar do “Mundo de L de Beta”, onde teria que descer em busca de 50 torres de retransmissão. Carlão deveria instalá-las em 50 Luas, de 50 Mundos Inferiores diferentes, e deixá-la aos comandos de 500 robôs especialistas em rádio, TV e mensagens interespaciais. Depois de espalhar essas retransmissoras, Carlão teria que sair da rota perto da 2º Dimensão, na altura do planeta “N de BETA”. Em seguida, deveria entrar na 3º Dimensão, atravessando reto até chegar na 6º Dimensão por uns corredores negros, preparados especialmente para ele por “00”.
Dali para frente Carlão só teria um superior sobre ele, “00” lá no alto, cuja imagem poderia visualizar através do “Espelho falante”, em sua nova aeronave. Ela também era preta exteriormente e colorida por dentro, com todo o necessário para ele viajar sem ter que se preocupar em cozinhar, ou pilotar, pois teria 30 robôs ajudando-o em tudo.
Após essa reunião, ele ficou dispensado para ser feliz.
Ficou no hotel com seus pais, avós e irmãos, esperando que um a um voltassem para o planeta, e só quando ficou sozinho, ele marcou a data de partida.
Subiram na nave, desceram ao planeta a dar voltas rasas por cima desse mundo, para que Joana visse de perto a beleza encantadora desse lugar. Ela viu desde as alturas as cachoeiras majestosas, as montanhas altíssimas, os animais fantásticos voando, ou correndo pela mata, em harmonia absoluta com os humanos. Como havia várias Luas iluminando-os, não se conhecia a escuridão absoluta naquele canto universal. Sempre havia uma luz lunar encantadora, que guiava os homens durante a noite em seus percursos pela selva. Joana viu os homens sobre elefantes de longos dentes, cruzando selvas, sem medo de nada, pois ali, a vida era perfeita. Nenhuma morte por acidente, nem doenças, nem nada. Um paraíso encantado que os homens cuidavam com amor. Um planeta que um dia, depois de terminada essa missão, ela regressaria para viver, e ter uns 30 filhos. Pelo menos era o que Carlão sussurrava nos seus ouvidos. Ele queria ter filhos na beira de um lago desse mundo, pois isso seria o ápice de sua felicidade.
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