Adão e Eva, na guerra dos iguanas. Parte II
10 Capítulo VIII. O dia da revelação.
Notas iniciais
Durante uma visita ao Senado Internacional, Fernando falou que estava chegada a hora da humanidade conhecer toda sua frota. E marcou uma data, e uma hora, conforme calendário de Alubiavam, para que todos os guerreiros tirassem a máscara, onde quer que eles estivessem. E depois sorriu, pois nem sequer ele já sabia onde é que estava quem. Afinal, ele só usava a telepatia, e raras vezes o endereço era importante nas conversas com seus homens. Em seguida, Fernando contou-lhes que para ser um guerreiro, as pessoas de seu mundo tinham que possuir conhecimento superior, para um dia entregar aos povos que o necessitassem. Portanto, sua frota ficaria nesse planeta ensinando tudo que os iguanas quisessem, até eles não serem mais necessários. Só então, ele mesmo marcaria o dia da partida. Depois de entregar o legado intelectual, muito mais importante do que a pacificação e a remoção de assassinos. Terminou falando que só a sabedoria salvava uma civilização. Só a ciência abriria as portas para a evolução e faria desse mundo uma cultura superior.
Fernando nunca foi tão aplaudido, nem tão paparicado. A mídia rodeou-o como um Deus vivo entre os homens, lhe perguntando antecipadamente tudo o que os guerreiros lhes poderiam ensinar. Nos dias subsequentes, começou a receber cartas de Universidades, onde surgiam às pesquisas científicas, embaixadores de governantes de países novos, que ingenuamente lhe solicitavam coisas até impossíveis. Como, por exemplo, os segredos para voar no ar. Ninguém esquecia Peter volitando a caminho de uma janela, no dia em que declarara guerra a esse mundo. E metade do planeta desejava levantar voo quais passarinhos.
E naquele dia da revelação, que entraria para a história dos iguanas, a mídia saiu às ruas, enquanto o povo olhava para todo indivíduo alto, com suspeitas. Fizeram-se apostas, bingos, tanto dentro de empresas como de faculdades, tentando adivinhar quem era alienígena. O que deu motivo a piadas sem fim.
E esse dia foi mesmo memorável. Fernando, em frente da televisão gritou um: -Agora! e imediatamente assistentes sociais tiraram a máscara dentro de casas humildes, garis de rua puxaram o disfarce enquanto plantavam grama em praças públicas, palestrantes se desmascaravam em frente de congressistas, gerentes tiravam a máscara entre mil empregados, e teve 5 jornalistas que o fizeram durante o telejornal, pois eram famosos pelas suas reportagens. Também ficaram ao descoberto médicos de hospitais, que estavam atendendo pacientes terminais nas suas camas. O mais incrível, foi que ao momento de desintegrar a pele falsa, eles cresceram até atingir os 2 metros de altura. Era mágica. Como é que os viam pequenos?
Em Alubiavam, o mais famoso foi Jorge, ao lado de Bernardinho, numa reunião na Casa Azul. Bernardinho fazia careta em quem não conseguia crer. O resto das pessoas, em redor, não acreditava mesmo.
Outro a dar um show foi Adão em frente de empregados, com Benjamim fazendo jeito de espanto e todo o pessoal rindo, pois Adão era o único preto nessa cidade. Teve os que lhe davam beliscão, para ter certeza que isso era mesmo pele de gente. Depois foi Eva, ocasionando mais gargalhadas hilariantes. Em seguida foram Paulo, Ênio, Madalena e Maláqui, junto a uns dez guerreiros espertos em robótica, gênios da construção moderna. Nas outras empresas de Benjamim, foram uns 400 a mais, entre faxineiros, médicos, agricultores, na verdade nem Benjamim sabia mais quantos alienígenas trabalhavam para ele.
Jesus tirou a máscara dentro do Senado Internacional, durante o fim de um discurso. Era o único ali dentro. Os diplomatas aplaudiram, o abraçaram, pois ele mais parecia mulher. Tinha um cabelo longo, castanho claro, olhos azuis, e um sorriso de anjo.
Olaf, Nohiki e a China tiraram a máscara dentro de uma loja, onde faziam compras para casa. Os espiões o fizeram num parque, fazendo piquenique, ocasionando risos, pois eram os únicos homens baixinhos como os iguanas. No máximo, tinham 1,85m.
Mas as cobras foram as mais admiradas. A pele manchada, os corpos perfeitos, os olhos amarelos, faziam os iguanas abrir a boca com admiração, pois eram considerados belíssimos. Todos os queriam tocar, para sentir a suavidade dessa pele brilhante que nem cobras. Além do que, eram tão manchados quanto os iguanas. Irmãos. Seres parecidos, vizinhos, e que poderiam um dia visitar em seu planeta.
As sábias cobras falaram em frente da televisão que seus dois mundos estavam de braços abertos. Quem quisesse viajar, podia se inscrever com seus soldados, marcar a data, mas, porém, pesquisadores e cientistas teriam prioridade. Adolescentes que preferiam fumar erva, e rodavam as matérias nos educandários, jamais teriam lugar.
E uma nova era começou.
Fernando, seguindo os conselhos de seu neto Jorge, que sabia como se governava esse mundo, recebia uma vez por semana uns 20 representantes de países diversos, que chegavam a solicitar-lhe milagres, pois o conhecimento que eles possuíam despertara a ambição. E Fernando, escutava tudo, e depois chamava com telepatia seus homens e os enviava a satisfazer todos os pedidos.
E os bravos guerreiros, preparados para enfrentar as mais terríveis pelejas, em frente da ausência de conhecimento dos iguanas, em pouco tempo não sabiam mais o que se fazer. Nas Universidades havia engenheiro metalúrgico, de construção, de informática, de tecelagem, de comércio, de eletricidade, de mecânica, e a lista era infernal. Ou seja, ensinar a Engenharia geral seria impossível, pois o QI mais alto desse mundo sequer chegava a 300.
Como aumentar a inteligência?
Como ensinar levantar pedras com o olhar para a construção?
Como mudar esse programa espacial tão imbecil? Só do Alertse encontraram 10 cápsulas de espionagem girando ao redor do planeta, cujas antenas captavam o movimento de cada homem desse mundo. Nas demais estações, encontraram 30 instalações com mísseis, robôs, e um cargueiro com 3 toneladas de ouro.
Fernando, incrédulo em frente de tudo isso, pediu para descarregar o ouro num Museu da Mineraria, e distribuir os robôs nos aterros sanitários a fazer reciclagem. E, em seguida, desintegrou tudo que havia flutuando no espaço em redor desse planeta. Para o sistema de internet, rádio e televisão colocaram 200 antenas que captavam e retransmitiam os 4.000 canais de televisão, as 10.000 estações de rádios, e abasteceram todas as conexões de internet desse mundo. Fernando também lhes acrescentou 200.000 filmes de mundos superiores com documentários científicos, e histórias de guerreiros. Tudo no idioma universal, adotado pelo Senado Internacional.
Mas quem enlouqueceu realmente, foram os médicos nas Universidades. Havia especialidades médicas que tratavam desde dor de cabeça até dores nos pés. E existia algo que pensaram que era piada, a Psiquiatria! Os guerreiros achavam que os Hospícios eram como as Casas para Drogados, inventadas por Bernardinho. Mas, não era nada disso. Os Psiquiatras possuíam eletrochoque para curar histeria e as pessoas tomavam remédios chamados psicotrópicos. Medicamentos que levavam os pacientes ao suicídio.
Descobrir que os médicos matavam foi a maior de todas as surpresas. Faziam eutanásia nos hospitais, e cada vez que desejavam um órgão para cirurgia de transplante, eliminavam um doente com a desculpa da morte cerebral. Pior do que tudo isso, era a Farmacologia. Drogas para tudo! Desde dor de cabeça até dores nos pés. Medicamentos venenosos, com graves efeitos colaterais, onde o paciente melhorava do pé, mas paralisava a função dos rins, ou, o fígado estourava. E o que era ainda mais sinistro, caríssimos!
Tentar mudar esse quadro de coisas ridículas era um desafio tão grande, que para acalmar os ânimos Fernando os chamava a reuniões periódicas na nave branca, para desabafar, trocar ideias, descontrair, e dar risadas.
Anedotas engraçadas começaram a pipocar entre os guerreiros, ocasionando gargalhadas, e animando-os a seguir em frente. A frase: — Necessito de um psiquiatra, virou bordão. Cada vez que Fernando a escutava sabia que havia um guerreiro, em algum lugar do mundo, na beira de um ataque de nervos.
Mas ainda, havia problemas indissolúveis nesse planeta.
A pior doença dos iguanas eram os tumores malignos, que matavam com crueldade, dores, e era catalogada como doença mortal. E descobrir a origem desse estranho mal desafiava a inteligência alienígena, dia após dia, ano após ano.
Até que num dia de inspiração, Mônica e Nohiki percorreram fábricas alimentícias, ao lado de Regina, com autorização de Bernardinho, para analisar os componentes dos alimentos industrializados. Foram recolhidas frutas em conservas, lasanhas pré-cozidas, bebidas, sorvetes, brigadeiros, bichos em conservas, verduras em latinhas, e tudo que acharam embalados em latas, papeis e plásticos. Depois foram nos supermercados e compraram biscoitinhos, pão de todas as formas, amendoim, coquinhos, frutas das prateleiras, verduras frescas, e levaram para ver nos microscópios. Formaram uma equipe de pesquisadores, gênios da frota de guerreiros, e separaram cada ingrediente, um a um, ao lado de cientistas iguanas, pois havia coisas que eles desconheciam como era o caso dos conservantes, tintas, adoçantes, um gama de coisas que os iguanas misturavam nas comidas para dar realce à cor e ao sabor dos alimentos.
No fim da pesquisa, Mônica deu um dossiê para Regina. Regina deu para Bernardinho, e Bernardinho levou-o ao Congresso Estadual.
Não havia um, sequer um alimento industrializado que não provocasse câncer nesse mundo louco. A listagem era tão assustadora, pois até o pão fazia mal. O trigo, a cevada e o milho não eram mais filhos da natureza fazia tempo, devido a inúmeras mudanças genéticas. E o resultado disso era nefasto. Nos alimentos enlatados o panorama era aterrador. Além de essências e aromatizantes de alto risco, acharam componentes derivados do petróleo e de óxidos desconhecidos. Não havia como escapar da morte ingerindo tudo aquilo. Era como se alimentar com peçonha dia após dia. O mais hilariante aconteceu nas fábricas de refrigerantes. As bebidas de laranja não tinham laranjas, as de morangos também não, ou seja, não havia uma fruta sequer nas garrafas. Apenas aromas, açúcares, e ácidos para lhes realçar o sabor. Os iguanas só comiam porcarias que matavam mais do que as antigas guerras.
E uma nova época começou, num trabalho que se alastraria por longos e pacientes anos.
Trocar as sementes iguanas foi em primeiro lugar. O arroz selvagem cresceu junto com o milho e o trigo, com grãos cheios de vitaminas. Por causa da divisão do conhecimento iguana, os guerreiros se dividiram para instruir aos Agrônomos, boias-frias, Nutricionistas, Biólogos, Engenheiros florestais, Chefes de restaurantes, e cozinheiro de lanchonete, num trabalho formiga.
Mas, outras desventuras continuavam a acontecer no dia a dia. Ainda havia adolescentes que odiavam estudar, não trabalhavam, eram grosseiros, mal-humorados, e saíam para os bares em busca de duas coisas, orgias e drogas.
Bernardinho e Jorge (que invitara uns 50 amigos) chamaram a uma reunião a portas fechadas aos chefes da polícia, para encontrar uma forma de acabar com isso. Nas clínicas com drogados, muitos jovens iguanas que se recuperavam voltavam a cair no vício, num ciclo sem fim. Consumiam erva alucinógena, ou rum, cachaça, e tinham as pedras. Uma droga de laboratório que destruía os neurônios. O que fazer? Como acabar com isso?
Um policial iguana pediu que o ócio de pessoas com menos de 30 anos, fosse punido como crime social. Pronto. Em lugar de tratar o viciado como doente, que fosse levado a capinar, bem longe, no outro lado do mundo. Colegial que não estudasse, deveria ser retirado das aulas, e colocado a limpar as ruas da cidade com macacão vermelho, ou a recolher o lixo nos caminhões. Os alienígenas estavam sendo ingênuos. Tratar vagabundo com amor! Nossa! Ele preferia regressar aos tempos quando uma boa tortura resolvia tudo, e assassino era fritado na cadeira elétrica.
Jorge e seus amigos gargalharam alto pensando que era uma piada. Quando Bernardinho mexeu a cabeça, entenderam que o homem estava furioso. Ele realmente estava pedindo a gritos uma lei contra a vadiagem.
Como um silêncio veio a tomar conta de todos eles, outro policial falou que não era necessária a tortura, nem a pena de morte para atacar os malandros preguiçosos. Preferia que os alienígenas ensinassem a todos a ler os pensamentos. Vestidos à paisana, apreendiam os desocupados antes de pegar a droga nos bares. Aproveitavam para descobrir aqueles que as vendiam, e matavam duas charadas, o mafioso era enviado para o exílio, e o adolescente a capinar.
Jorge e seus amigos sorriram, pois admiravam a sabedoria desses iguanas. Policiais inteligentes, que só necessitavam de uma lei, e de aulas de telepatia. Esse povo, finalmente, estava começando a escrever o seu futuro, por eles mesmos. Além do que, a telepatia possuía múltiplas vantagens. Escutavam-se gritos de socorro a longas distâncias, batidas de carros com feridos, e principalmente soterrados vivos em avalanches, terremotos ou inundações. A prostituição desapareceria junto, pois ela também se nutria no desprezo ao trabalho pesado. O “salário mínimo universal” não satisfazia as meretrizes, elas eram ambiciosas, e desejavam ser muito ricas.
Bernardinho só fez um questionamento:
— Essa nova lei vai requerer minha assinatura, e a de todos vocês. Alguém acha que isso não estaria correto?
E uma risada inundou finalmente essa reunião. Garçons da Casa Azul entraram com um café com guloseimas, enquanto Jorge e seus amigos marcavam as aulas de telepatia em todos os distritos policiais de Alubiavam. Escrever a lei foi moleza. Apenas um artigo. Antes do fim do dia, essa lei estava no Congresso, em caráter de urgência. Dali em diante a ociosidade da gente jovem estaria proibida. Ou se estudava, ou se trabalhava, até a idade dos 30 anos. Depois dessa idade, os homens podiam continuar a viver com o “salário mínimo universal” e não fazer nada de nada, além de ser feliz.
E dali em diante a vida entrou na rotina derradeira. A sociedade iguana foi mudando aos poucos, lentamente, com o trabalho organizado dos guerreiros e dos Espiões, que intercalavam férias no planeta das cobras, sempre acompanhados de turistas iguanas, que viajavam com eles num sistema de sorteios.
Viajar de graça para outro mundo, onde não existia o dinheiro para nada, converteu-se em pouco tempo no sonho possível de um a cada dez iguanas. Desta vez, todas as naves em forma de pentágonos iam e voltavam periodicamente. Além do mais, nas empresas de aeronáutica dos iguanas fora inventado o primeiro ônibus espacial, todo de metalponita, com capacidade para 300 pessoas. Geralmente usado por milionários, ou, pessoas ligadas ao Senado Internacional.
E dez longos anos se passaram!
E durante esse período, mudou muita coisa nesse mundo.
Quando Amon-rá levou o último comboio de homicidas e malandros para o mundo das cobras, a realidade já era outra. Alguns ladrões e algumas crianças estavam de regresso. Os adultos totalmente regenerados, ótimos amantes com as esposas dentro de casa, fiéis, felizes com o reencontro com a família. As crianças convertidas em jovens trabalhadores, que sabiam que qualquer erro os levaria para o desterro em definitivo.
As antigas casas de drogados desapareceram junto com os lupanares.
O povo abandonara definitivamente as drogas, e se bebia e se fumava socialmente. Cigarros que não faziam mal a ninguém. Tabaco inocente. Fabricado conforme todas as novas leis de salubridade pública. Bebidas alcoólicas de baixíssimo teor. Podiam-se beber uma noite corrida sem jamais perder a consciência. No máximo falar com a língua enrolada. Ou seja, ir para danceteria significava desta vez para dançar, namorar, e desfrutar a vida sem desgraças posteriores para lamentar.
No âmbito das ciências, ela avançou tanto que a extração de matérias primas da terra acabou em definitivo. Sobrou somente a reciclagem. Mas num tratamento mais digno desta vez. Em lugar de crianças recolhendo sucata para vender, as empresas enviavam seus robozinhos em busca de plásticos, papéis, latinhas, peças de metal, e roupas. Tudo que podia se misturar nas fábricas na água-régia para ser reutilizado, lotava as despensas.
Esmeraldas, diamantes, ouro, prata, foram nascendo através de pesquisas em laboratórios, onde os guerreiros mostravam com paciência como unir a força da mente à física, para se obtiver o milagre da ciência experimental. E aqueles que conseguiam aprender, em lugar de ir trabalhar numa empresa e enriquecer, ficavam na Universidade ensinando aos alunos, pois os guerreiros um dia os deixariam, e a nova ciência tinha que criar raízes fortes.
Desta maneira, nasceram os carros voadores que mexiam com o poder da mente, e repeliam-se uns aos outros, evitando batidas, mortes, e desocupando as ruas da cidade para uso exclusivo de patins, bicicletas e outros inventos. Aves desta vez voavam lado a lado de aviãozinho em miniatura, que cruzavam o ar na velocidade de condores, pombos, e centenas de aves do céu. E os ônibus espaciais desciam lado a lado de todos os aviões comerciais. Desta maneira, voar para o outro lado do mundo, ou, para outro mundo tornou-se rotina. Afinal, a pintura quântica evitava batida, e a energia humana não tinha custos. Poderia se dizer que o combustível de cada voo era o próprio passageiro, além do piloto e o pessoal de bordo.
A eletricidade dentro de casa foi reduzida a uma bateria, que alimentava todas as máquinas, desde robozinhos até luminárias. Baterias imortais, pois elas absorviam a energia dos seres vivos, desde homem até rato de casa, transmutavam, e mexiam com os objetos caseiros como mágica.
Já dentro das empresas, e nos grandes edifícios, foi instalado o condensador de alta capacidade. Ele se alimentava da energia do Sol, dos ventos, da umidade do ar, ou dos homens, ou das árvores, ou dos raios que caíam do céu, ou seja, aspirava força onde quer que fosse. E as montadoras dentro das fábricas funcionavam como relógios. Sem gasto algum, pois a natureza dava força gratuita, para fazer a felicidade dos trabalhadores. Desta forma, deixaram de funcionar as usinas elétricas que mexiam com gás, ou com carvão, ou com petróleos, ou madeiras, pois tudo ficou obsoleto e ultrapassado.
Mas o que foi mais lindo de se ver com o fechamento das hidroelétricas, foi a mudança da paisagem. As turbinas pararam, e as águas dos lagos artificiais esvaziaram aos poucos para que a natureza retomasse seu antigo curso normal. Os depósitos que obstruíam a passagem natural dos rios esvaziaram. E quando todos os rios corriam caudalosos na sua caminhada para o mar, as estruturas gigantes de concreto armado viraram ar, com o olhar dos destruidores de asteroides. Sobravam cachoeiras, lagos pequenos, prontos para deliciar aos homens contemplando-os. Mas o que mais reconfortava a Fernando, entre todas as mudanças modernas, era a transformação de própria espécie humana.
Nas reuniões com os guerreiros, ano após ano, mediam em gráficos quantos drogados ainda havia no mundo, quantas meretrizes nas ruas, quantos alcoólatras deambulavam durante a noite, quanta gente ia parar na cadeia, quantos abortos em surdina, quantos pais solteiros, quantas meninas dando à luz, quantos órfãos em orfanatos, quantos homens com amantes, enfim. E todos os gráficos desceram vertiginosamente, depois que a ociosidade fora enquadrada como crime. Primeiro em Alubiavam. Depois, no mundo todo, numa lei escrita no Senado Internacional.
Afinal, todos os alienígenas sabiam que sem reverter o comportamento humano, de nada valiam as ciências, pois assim que eles fossem embora, a semente da maldade poderia germinar e começar uma transformação social ao contrário. Um drogado podia chegar ao poder, pois eram inteligentes, ou um alcoólatra inventar uma bomba novamente, pois era ali que acendia o lado negro. Na inconsciência. Na divagação de mentes chapadas, imaginando que recebiam encomendas divinas. Os guerreiros sabiam que beber sua cerveja e ficar embriagado com ela, nada tinha a ver com as drogas dos iguanas, que apagavam totalmente a consciência, pois a droga lhes desenhava dentro do cérebro um mundo surreal.
Mas, com todas essas mudanças sociais, os guerreiros também entenderam que a missão dessa guerra tinha chegado ao fim. Os homens iguanas, dali em diante, não necessitavam mais de babás.
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