Adão e Eva, na guerra dos iguanas. Parte II
11 Capítulo IX. O fim da missão
Notas iniciais
Quem partiu em primeiro lugar, foram Guilherme e seus espiões. Eles tinham que regressar ao seu mundo, rever a família, pois os gérmens não os afetavam. Tinham corpo diferente. Imunes. Incorruptíveis. E com certeza outras aventuras os esperavam, pois possuíam vida eterna.
Numa festa que durou uma semana, Guilherme e Olaf foram paparicados, abraçados e beijados, por amigos tomados pela tristeza. Enquanto os maridos conversavam, Alberta repartia entre as amigas seus últimos vestidos, sapatos, lembrando com saudades dos dias que vestiram tudo pela primeira vez. China e Nohiki, que haviam convivido no mesmo lar, como irmãs, sofriam. Fernando Júnior fez um documentário para levar a seus filhos na sua próxima viagem. Olaf, o tio que tanto amavam, falou-lhes em frente às câmeras que tudo era passageiro. Uma vida não era nada em frente à eternidade. E com certeza “00” o faria tio deles, mais uma vez, e para sempre, no Mundo dos anjos, em cujo planeta todos eles nasceriam como filhos de Nohiki e para a eternidade.
A nave negra, que ficou voejando por cima do ar como uma arraia gigantesca, na espera paciente do momento do último adeus, os içou para as alturas, ao amanhecer. Ela deu um leve giro pelo mundo, para que todos os iguanas os vissem partir, e desapareceu. Mirim e Vitor, ao lado de Bernardinho e Evita, ficaram os quatro abraçados por longo tempo, se perguntando como era possível sofrer tanto assim por gente que conheceram em tão pouco tempo.
E o tempo continuou a se alastrar numa vida mansa, pois Adão na mansão de sua filha Nohiki recebia regularmente todos seus filhos a jantar, e nos fins de semana surgia de surpresa Benjamin com Isabela com seus garotos, ou, Vitor Plaza e Mirim em roteiro pelo mundo. Assim que eles apareciam, abrolhava muita festa, e longas conversas entre amigos.
Para Adão, a ideia de novas aventuras brotou do nada.
Junto a Ênio e olhando na televisão para Amon-rá, que chegava do mundo das cobras rodeado de iguanas, perguntou para Eva se ela gostaria de rever o “mundo dos cabeludos”, bem perto dali. E Eva começou a dar um show de lágrimas. E com detalhes minuciosos, Adão contou para Ênio que esse planeta era um paraíso celestial de tão belo. Até onde a lembrança conseguia ir, sabia que pelo menos encontrariam as cavernas onde Eva sobrevivera, fugindo dos iguanas. E como Ênio era também um aventureiro, e Madalena não tinha medo de nada, a ideia de fazer uma viagem foi nascendo entre vinho, conversa, jantares, realizando planos ainda no ar.
No dia que Fernando regressou de um passeio acompanhado de cobras e de iguanas, Adão lhe falou que desejava terminar a existência numa viagem sem retorno, dentro da Oitava Dimensão.
Fernando olhou para Adão, incrédulo:
— Mas ir para esses planetas vai ser suicídio imediato, cara... Tem aqueles que vão matá-los só com o ar contaminado de metano e gases tóxicos... Não se sabe nada de nada desses mundos porque quem viaja para lá são os anjos. E em forma de alma errante. E espírito não escreve livros para nos informar...
Adão respondeu-lhe com um leve sorriso cínico na boca:
— Então, necessitaríamos de cápsulas. Muitas delas. Fazemos pesquisas, escrevemos, e enviamos para as geniais cobras...
— Me deixa pensar. Isso está me parecendo maluquice.
Mas quem convenceu Fernando foi sua filha Noemi, pois ela e Amon-rá desejavam ser unir nessa viagem. Afinal, através da telepatia essa excursão ficou famosa em poucos dias. Numa reunião familiar, ela diz com voz de menininha:
— Autoriza, paizinho... Prometo que na próxima reencarnação, vamos para onde vocês foram. Não é, amor?
— Prometo! Vai ser minha última aventura, sogro. Se o pai inventar para o futuro mais alguma excentricidade, vai encarnar sozinho... Nós vamos para onde vocês forem. E todos meus manos também. Né, Jesus?
— Prometo! Pai, não conta comigo para reencarnações doidas. Só quero sossego no meu futuro...
Paulo falou na hora:
— E eu, nem falar... Quero ter meus dez filhos num mundo cheio de paz e alegria... E tu, Peter?
— Sei lá... Mas dessa viagem maluca nem quero saber... Fico neste planeta mais um pouco com Fernando.
Fernando perguntou:
— Quantas naves necessitariam?
— Naves domésticas umas 100, mas necessito de uma grande nave em forma de pentágono, com horta, provisões, com uns 50 robôs...
Nos dias seguintes, entre a frota de guerreiros só se falava disso. Guerreiros casados, cientistas que descobriram os mistérios do câncer, e outras mil questões nesses anos todos, falaram com telepatia para Adão que desejavam ir junto. Queriam ver de perto o nascimento dos planetas, o início da vida humana, e falavam para Fernando que cada descoberta seria enviada para ele no mundo das cobras. E Adão, viu sua tripulação aumentar, dia a dia, fazendo planos maiores. Ao lado de Ênio, desenharam uma rota mais longa, aumentaram suprimentos de tudo que era essencial, e marcaram o dia da partida com emoção. O último a se inscrever foi Jorge e sua amada Regina, que desejavam ir com Amon-rá a ver as estrelas.
A despedida de Adão, Ênio, Amon-rá e Jorge aconteceu na Casa Azul, com Bernardinho, Benjamim e suas famílias chorando de dores. Eles amavam esses ETs, iam sentir sua falta e jamais os esqueceriam. Nem Paulo, Nohiki, Peter nem Jesus choravam tanto quanto eles. O pai de Benjamin, falou para Adão entre lágrimas: — Obrigado, filho, nunca vamos esquecer o que vieram fazer entre nós.
Mas quem sofria mais era Fernando.
Adão era mais do que um irmão para ele. Um irmão maluco, aventureiro, que compartilhara com ele três encarnações, em três mundos diferentes. Mas como o futuro pertencia a “00” quem sabe ele os juntava a todos, mais uma vez, no Mundo de A, incluindo desta vez a Benjamim, Bernardinho, Vitor Plaza, que formavam juntos uma família do coração.
Ao amanhecer, depois de ficar toda uma noite brindando, dançando, em meio dos holofotes da mídia, a nave em forma de pentagrama desceu uma luz branca e aspiraram Adão com sua família, junto aos cientistas, que eram casados, mas sem filhos.
Em seguida, deram um giro pelo mundo, e desapareceram no ar.
Desta vez, Adão não deixara sua mãe chorando, deixara amigos do coração, que o amavam profundamente. Mas, ele confiava em “00”. No futuro, com certeza se encontrariam de novo. Beijou sua mulher, abraçou Amon-rá ao seu lado, seu filho que nunca o deixava sozinho numa aventura, e seu neto.
E rumaram para o Universo sem fim. Rumo às noites eternas, onde só existe uma massa preta e sem estrelas. O lugar em que o Universo conhecido terminava.
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