Notas iniciais

Quando os espíritos de Eva e Adão atingiram o enorme planeta “Z de ALPHA”, na primeira dimensão do universo, uma grande surpresa os aguardava.
Nestor, irmão de Adão, encontrava-se junto à Gangue Selvagem, todos eles espiritualizados, num reencontro fantástico. Eles zombavam articulando piadas, numa farra sem fim. Davam-se tapas, brincando, e quando viram Adão caíram por cima dele, todos de uma vez, compondo um amontoado de brincalhões que ria e gargalhava sem parar.
Adão nem acreditava que tudo era verdade. Seus amigos, seu irmão, com os quais vivera tempos maravilhosos em vidas passadas, estavam ali, para matar a saudade e fazer tudo de novo.

Quando os espíritos de Eva e Adão atingiram o enorme planeta “Z de ALPHA”, na primeira dimensão do universo, uma grande surpresa os aguardava.

Nestor, irmão de Adão, encontrava-se junto à Gangue Selvagem, todos eles espiritualizados, num reencontro fantástico. Eles zombavam articulando piadas, numa farra sem fim. Davam-se tapas, brincando, e quando viram Adão caíram por cima dele, todos de uma vez, compondo um amontoado de brincalhões que ria e gargalhava sem parar.

Adão nem acreditava que tudo era verdade. Seus amigos, seu irmão, com os quais vivera tempos maravilhosos em vidas passadas, estavam ali, para matar a saudade e fazer tudo de novo. Loucuras de adolescentes, e palhaçadas sem fim pelo resto da existência. Seria reviver o paraíso na terra. Seria um desejo preenchido.

Enquanto Adão chacoteava que nem guri, Eva correu emocionada ao encontro de sua irmã Ana. Abraçaram-se, choraram lágrimas furtivas, pois nasceriam novamente como irmãs. Haviam vivido aventuras incríveis, por muitos milênios, e agora, “00”, lá no alto, as juntara novamente, para reviverem o passado. Eva contou sobre o reencontro com a irmã Joanna, e da emoção dos dias vivenciados na Terra. O único que Eva não sabia era o que tinha acontecido na Terra depois da sua partida.

Ana abraçou-a emocionada. Tranquilizou-a, afirmando que estivera na Terra, como espírito, dando uma espionada antes de viajar para esse planeta, e que Carlão havia conseguido salvá-la. Ela não entendera muito bem o acontecido. Só viu revoluções e homens inteligentes assumindo os governos. Só isso.

Eva começou rir, chorar, numa mistura de alívio, pois afinal de tudo, lutar para salvar esse mundo havia valido a pena. E fez um resumo do que vivera na França para Ana, pois entender a história da Terra era complicado.

Enquanto todas as almas desencarnadas falavam ao mesmo tempo, cada um contando sua história para os outros, longe deles, na vida dos encarnados, os pais de Eva e de Ana, as esperavam com 19 filhos, numa pequena cidade, com avenidas de chão batido, pois nesse planeta ninguém se preocupava ainda pela urbanização, e muito menos com o calçamento. Somente as fileiras de árvores assinalavam as alamedas, posicionadas entre as casas. As copas das árvores se aproximavam de um lado a outro, e as ruas davam a impressão de serem túneis. Abóbadas com telhado de folhas e flores, que refrescavam o ambiente com sua sombra, e expandiam um suave aroma no ar.

Quando Ana mostrou a família para Eva gracejaram juntas, pois ignoravam que tinham tantos irmãos homens. Eles eram os mais lindos machos desse mundo, fortes, altos, iguais ao pai João em tudo. Depois avistaram a mãe Dina e correram a abraçá-la. Eva vertia lágrima comovida. Sua mãe permanecia uma guria maravilhosa, pois a maternidade só lhe dava juventude. Em seguida, Eva se abraçou na única irmã viva, Tatiana, convertida numa adolescente arrebatadora.

Dina era dona de uma casa localizada na periferia da cidade, ao lado de um rio encantador e duas vertentes naturais. A casa de madeira possuía dois andares, com 14 dormitórios. Havia nela um salão gigante, com uma mesa para 20 pessoas. Ao redor de casa havia um pomar, entre um jardim de flores cheirosas. Possuía bananais, coqueiros, peras, maças, uvas, laranjas, melões, melancias, era um verdadeiro paraíso de frutas suculentas. E em todo lugar estavam as galinhas, os marrecos, codornas, avestruzes, que deixavam seus ovos na porta de casa. Dina fazia o pão, assim como as cucas, tortas de frutas, pois sua família era de homens fortes que comiam como cavalos. Quando faltava algo para a sua despesa, ela ia à Prefeitura, onde existia um armazém farto de suprimentos, dentro de sacos de linhagem, pronto para subir numa carruagem e trazer para casa.

Passada a euforia de conhecer o lar que as esperava, Eva perguntou para Ana por que motivo ela ainda não havia nascido. Aliás, porque a gangue selvagem ainda não estava infernizando a vida desse pacato mundo. Ana lhe disse:

— Bem, eu estava esperando por ti! Agora nossos maridos não têm onde nascer. Aqui os casados controlam a natalidade durante toda a vida.

— Ah! Adão vai dar um jeito já, já...

— É fácil falar! Vem, vou te desvendar um mistério.

Ana e Eva penetraram numa habitação, em cujo lugar Adão já estava tentando solucionar um enigma, rodeado dos amigos. Ele examinava o interior ginecológico de uma senhora. Ela possuía uma vulva com um ducto que se dividia no centro, em duas partes, formando um ípsilon. A vagina esquerda possuía um caminho fechado, como uma camisinha interna. O sêmen batia no fim do corredor, e em seguida era expulso naturalmente. O outro canal, à direita, era uma passagem muito mais longa e estreita que terminava no colo. Esse colo estava ligado ao útero e as trompas, e aos ovários, formando o ambiente fértil onde se geravam os filhos. E os machos desse mundo só entravam na longa passagem quando estavam a fim de procriar. E naquele momento só havia recém-casados que desejavam uns 100 anos de lua de mel, e velhos casais que já concluíram sua prole.

Adão falou para seus amigos:

— Vamos ao trabalho! Temos que descobrir como virar esses membros hirtos para o lugar certo!

E gangue ria às gargalhadas, enquanto seu irmão Nestor lhe explicava:

— Ainda não viste, nada, cara. Isso é tão denso que parece metal...

Enquanto Adão examinava os membros masculinos, sempre rindo, pois com a gangue tudo era chacota ininterrupta, ele teve uma inspiração.

— E em que idade as pessoas perdem a virgindade?

— Desde adolescentes. Mas quando o fazem já sabem o caminho certo. Os mestres da escola começam o ensino infantil com uma matéria chamada: — Paternidades responsáveis.

— Vamos tentar então visitar os casais em Lua de mel...

Momentos depois, o grupo de espíritos chegou numa pequena casinha de madeira, no meio do mato, na beira de um rio, onde uns recém-casados se amavam como se o mundo fosse acabar. Eles estavam deitados sobre almofadas, com a mulher estendida para trás, braços para cima, cabelo suado, gemendo fazia longas horas.

Adão perguntou:

— Quem vai para esse útero?

Nestor gritou alto:

— As mulheres... Quem quer ser a primeira?

E uma amiga da gangue gritou alto:

—EU! Adeus, meu amorzinho! Quero perder a virgindade ainda na Escolinha Infantil...

— Vai, sua tarada! Vai! Dá-me um descanso...

Depois se beijaram, para uma despedida temporária. E entre piadas e abraços, o espírito dessa mulher encolheu até ficar do tamanho de uma bola de tênis, e Adão lançou-a com forças para o ventre dessa mulher.

Assim que o macho disparou sua bateria seminal, ele dormiu esgotado. Deitou a cabeça por cima da esposa. A seguir A Gangue começou a soprar, todos de uma vez, no ventre da mulher. O sêmen foi descendo, e descendo, e quando chegou à encruzilhada, em meio do caminho Adão pediu para assoprarem forte, para que o sêmen subisse pelo outro canal. Depois tudo foi fácil. O espírito, que já estava nesse útero, sugou os espermatozoides como aspirador de pó.

A festa foi imediata. Nestor havia pleiteado que seu irmão gênio ia descobrir a solução, e ele a achara. Estava chegada a hora, então, de pagar as apostas.

A seguir, houve danças de homens nus, pessoas caindo de montanhas altas, trombada de cabeça ao chão, e várias outras palhaçadas. Depois, todos foram entrando nos úteros, um a um, até sobrar apenas Nestor e Adão.

Enquanto caminhavam pela praia, olhando o pôr do Sol, em busca de algum casalzinho fértil, viram Adônis e Mariuska, perdendo a virgindade juntos. Por algum motivo, Mariuska, irmã de Eva e de Ana, havia nascido de uma prima de Dina. Adão e Nestor desviaram a ponta desse pedaço para o caminho longo, e a seguir empurraram as nádegas dele para bater forte. Pularam no útero, segundos antes de Adônis disparar sua bateria seminal, que foi sugada por dois espíritos espertos.

João, o pai de Eva e Ana, nesta vida, era Lenhador.

Uma profissão muito importante nesse mundo, pois em “Z” a maioria dos objetos era feito de madeiras nobres do mato. Casas, barcaças, carruagens, mobílias, além da lenha para fazer o fogo, na estufa caseira. Fazia pouco tempo que se havia iniciado uma profissão nova, a de Pedreiro. As primeiras casas de pedra sobre pedra eram a última moda nesse mundo, e existia uma competição não declarada entre os construtores. Cada qual falava que casas de madeiras eram mais aconchegantes, enquanto os outros asseguravam que casas de pedras eram mais lindas.

Quando não estava com licença paternidade, João levantava cedo pelas manhãs, e partia para o mato num caminhão da Prefeitura, em companhia de cinco filhos. Pesquisavam os acajus-catinga, os mais fortes, e os mais altos. Também buscavam o mogno, canela, cerejeiras, cedros, imbuia, e examinavam as datas de nascimentos. Algumas tinham 100 anos, outras 500, outras 800, e eles só podiam arrancar árvores com mais de 1.000 anos. Assim que as encontravam, eles calculavam o vento, pois não podia cair por cima de árvores em crescimento. A seguir, com um olhar, faziam as folhas caírem ao chão, deixando apenas o tronco, e os galhos para lenha. As raízes eram desintegradas com um olhar demolidor, e empurravam a árvore ao chão. Ela caía suavemente, sustentada pelos homens. Delicadamente. Só então, cortavam os galhos e os apinhavam como lenhas. A seguir dividiam o caule principal em 3, ou 4 partes. Finalmente erguiam os troncos, de uns 5 a 8 metros de diâmetros, e 15 metros de largura, e os carregavam até o caminhão, junto com a lenha.

Em seguida, vinha a parte mais delicada.

Com pás nas mãos enchiam o buraco vazio, deixado pelas raízes, com terra, folhas, e cocô das bestas. E por último, eles plantavam uma muda de árvore, já crescida, trazida junto com eles. Colocavam mudas de flores em redor, deixando-lhe um jardim florido para que se desenvolvesse com alegria. Para molhar, faziam um canal em linha reta desde alguma vertente, ou rio, ou lago, deixando o chão úmido em redor dessa matinha.

Ao fim do dia, João e seus filhos descarregavam a carga nos depósitos da Prefeitura. Os troncos ficavam nas dependências de materiais para construção e a lenha nas lojas de objetos domésticos. Quem precisava de um tronco novo, podia pegar e carregar. Quem quisesse cortar um tronco, ia aos ateliês da marcenaria, colocava na máquina cortadeira, e empilhava as tábuas. Nos depósitos dessa Prefeitura também havia pedras amontoadas, polidas e sem polir, areias limpas para fazer argamassa, sacos com caulim, bolsa com cal, sacola com gesso, e tinha os depósitos com lâminas de metal. Metal de cobre, de ouro, ferro, alumínio, tudo de graça. Materiais manufaturados por outros homens, cuja profissão era distinta. Os ourives manuseavam o ouro. Os ferreiros eram aqueles que martelavam, ou fundiam o ferro, pois conforme o nome da matéria prima era a especialidade desse trabalhador.

E no meio de todos esses armazéns, estava o lixeiro.

Um lugar desprezado pela maioria.

O lixeiro possuía artefatos esquisitos, que homens de outras civilizações mais avançadas, de outros planetas, lhes enviavam como um presente.

Quando Dina sentira as dores do parto, João correu com ela no colo até o hospital em meio da noite. E pouco a pouco, seus filhos foram acordando com seus berros, se vestindo, e correndo atrás dele, empolgados com a chegada de mais um. Todos faziam apostas. Uns falavam que seria uma menina desta vez. Os irmãos, o menor com dois anos e o mais velho com 23, riam em coro, pois se fosse menina ia alegrar esse lar. Teriam mais mulheres para preparar a janta.

Quando todos os machos dessa família souberam que eram duas, a alegria foi geral. Eles invadiram o dormitório onde Dina estava repousando, bagunçando a pacata vida desse hospital.

Dina se desfez em lágrimas quando as viu, pois as reconheceu imediatamente. Ana surgira de cabelos cor do fogo, como na vida antecedente, e Eva cabelos castanhos, e olhos azuis como nascera na França. João chorava ainda mais do que ela. Lembravam-se do dia que elas se foram de Atalanta, numa viagem sem retorno, deixando-os mortos em vida com a partida. Depois as beijavam, e beijavam, contando aos irmãos a história delas. E os irmãos continuavam a fazer piadas, pois João estava demasiado feliz, e nunca chorava com o nascimento de ninguém. Ana e Eva nunca foram tão beijadas ao nascer. Passaram de braços para outros braços, recebendo os beijos de todos os irmãos.

Na sala ao lado nasciam outros gêmeos, e Adônis chamava João aos gritos para conhecê-los. João saiu na corrida, entrou na sala onde sua filha Tatiana, amiga íntima de Mariuska, balançava Adão no colo, enquanto Adônis carregava Nestor. João os viu, com seus olhinhos arregalados, malandros como em todas as vidas, e lhes disse:

— Desta vez não vão roubá-las de mim, seus sem vergonhas... Vão morrer aqui, neste lugar, com 20.000 anos! Ouviram bem? Neste mundo não existem heróis para nada...

E os bebês gargalhavam de vez, derretendo o coração do João, dos futuros cunhados, dos médicos, e dos estressados enfermeiros. Haviam nascido nessa cidade 104 crianças ao mesmo tempo. Filhos de jovens inexperientes, que juravam que nunca haviam utilizado o canal da maternidade.

Tatiana passou a cuidar da organização do lar, durante o tempo de amamentação das gêmeas, ao lado de João, que entrara em mais uma licença, para cuidar da esposa e das recém-nascidas. Enquanto João recolhia ovos, frutas, legumes, e limpava o chão com a mirada, desintegrando bosta de animais, frutas podres, e folhas secas, Tatiana acordava os menores para ir a Escolinha, vestia-os, penteava, e lhes dava um suco para beber, pois eles faziam o desjejum na Escola. Para os mais velhos colocava uma jarra de leite na mesa, cortava o pão, o queijo, e preparava omeletes. Também fazia panquecas com mel, ou geleias. Ao irmãozinho menor atendia ao final. Ele comia mingau de aveias com bananas amassadas, e em seguida pedia colo, que adorava. Tatiana o carregava para fora, pois era o momento de lavar a roupa na beira do rio. Desta maneira, cada vez que o noivo Perci chegava para ver a amada, ela estava um trapo. Cansada, e mal lhe dava meia dúzia de beijos. Perci, que trabalhava pouco e nada, como todo enfermeiro desse mundo, ajudava-a lavar a louça, ordenar roupas nos armários, pois os irmãos de Tatiana estavam estudando, ou trabalhando. E jurava para si mesmo que assim que Dina se recuperasse iam casar, para tirar a namorada do sufoco. E Tatiana corroborava para ele no ouvido: — Não vamos ter filhos antes dos 100 anos, meu amor...

Mas quem sofria de verdade nesta vida era a vizinha Mariuska, que vivia ao lado numa casinha pequenina, e sequer sabia fazer pão. Tatiana colocava no forno dois pães a mais, e dava para ela todos os dias. Levava-lhe junto ovos e frutas, ou, fazia a sopa para ela e Adônis. Na verdade, elas eram amigas de infância e se amavam como irmãs verdadeiras. E Tatiana sentia-se culpada. Havia instruído a amiga como perder a virgindade com segurança, passo a passo, mas, a coitadinha ficara prenhe sem saber como.

João e Adônis, com essa licença de paternidade para cuidar dos recém-nascidos, estavam felizes como dois garotos. Assim que os gêmeos e as gêmeas deixaram os seios, começaram a levá-los para o rio, todas as tardes, enquanto as esposas cochilavam. Eles chacoteavam como marrecos, sempre rindo, pois, os gêmeos assim que viam as gêmeas davam risadas e nadavam até elas. Quando os irmãos mais velhos de Eva e Ana chegavam a casa, tiravam as roupas na corrida, e caíam no rio a brincar com os bebês.

E a vida tornou-se deliciosa.

Eva e Ana praticamente cresceram nos braços dos irmãos, enquanto Nestor e Adão cresceram nos braços de todo mundo. Nunca os quatro foram tão mimados como nesta encarnação.

E o dia do casamento de Tatiana aconteceu. Ela usou o vestido de noiva de Dina, e Perci colocou camisa branca, e prendeu os cabelos num rabo de cavalo. Afinal, ele possuía uma cabeleira longa, solta, e sentado no seu cavalo parecia um índio americano da Terra. Tatiana e seu amado ficaram pouco tempo nessa festa. Preferiram viajar cedo para sua nova casa, pois a lua de mel seria dentro dela, sem data para terminar. Perci construíra uma casinha de madeira, no outro lado dessa cidade, para tristeza dos cunhados, pois a vida mansa havia terminado. Eles tiveram que começar a lavar suas próprias cuecas.

E a vida continuou, ano após ano, com os menores crescendo felizes e os adultos em eterna lua de mel.

Até chegar o dia em que Eva, Ana, Nestor e Adão foram levados para Escolinha infantil nas carruagens da Prefeitura, pela primeira vez.

O veículo apareceu na porta do domicílio, pois nos primeiros dias de aula a Prefeitura recolhia a todos os guris de casa em casa, num trabalho que se iniciava cedo. Os quatro saíram emocionados, sentaram no caminhão aberto, na parte de trás, e atravessaram a mata virgem. Cruzaram com milhares de passarinhos, também viram os macacos pulando de galhos em galhos e de vez em quando cruzava uma pantera negra, mas totalmente inofensiva. Antas as havia aos centos, como também as capivaras, nas beiras das lagoas, e enormes cobras deixavam-se cair das árvores. Nenhuma delas mordia os humanos. E muito menos os matariam através da constrição.

Com a partida dos quatro para a Escolinha, Dina fazia tudo cantando, pois agora voltava para a cama, e ficava nela com João namorando-a como um adolescente. Enquanto isso, ao lado deles, Adônis e Mariuska começaram a Lua de mel, que nunca tiveram. De manhã, Mariuska acordava com o cheiro do café, que era preparado pelo marido. Esvaziava a bandeja sentada na cama. Eram bananas banhadas com melado de cana, as cucas que Dina deixa na janela, o suco que João trazia junto, que iam comendo com gula. Esvaziavam intestino e bexiga com desintegração, pois nesse planeta todos nasciam sabendo o poder paranormal. Colavam seus corpos, suavam, e quando o Sol começava a entrar nas janelas e esquentar o ambiente entravam na banheira. Reiniciavam o namoro, beijando-se, sem tempo para acabar. Depois do banho, se estendiam na cama, cochilavam, comiam para recuperar forças, namoravam de novo, pois as horas se alastravam deliciosamente. Na verdade, só saíam dessa cama para preparar o jantar para os filhos, no fim do dia.

Como em todas as suas vidas passadas, Adônis era o homem mais lindo desse planeta. Pelo menos até que seus filhos nasceram herdando sua beleza. Nestor nasceu loiro, mas belíssimo, Adão cabelos pretos como Adônis, e o vivo retrato dele. Sensual, olhos cativantes, sorriso de anjo e corpos esculturais. Adônis, sem camisa, era o homem com mais musculatura desse mundo. Cintura mínima, caminhar de pantera, e só tinha olhos para sua esposa. Sempre fora cego frente a outras fêmeas, e eles haviam crescido se beijando, desde os dias que se conheceram na Escolinha Infantil.

A Escolinha infantil recebia os novos alunos, num lugar que era mágico.

Era uma fazenda com cavalos, patos, lagartos, sapos, cobras, gatos, cachorros, cabras, ovelhas, jacarés, papagaios, macacos, galinhas, vivendo livremente em meio de campos sem fim. A cavalaria era o esporte principal daquele lugar maravilhoso. Meninos se cruzavam como índios por cima de potros selvagens, em corredeiras empolgantes, desde o primeiro dia, quando aprendiam a subir nas bestas, e passeavam acompanhados pelos mestres.

Mas em meio às manadas de cavalos, estavam os maravilhosos unicórnios.

Eram bestas gigantescas e arredias ao extremo, impossíveis de montar, que olhavam a gurizada de longe, e nunca lhes faziam dano. Viviam em bando, e nenhum bicho, por mais fera que fosse, se media com eles. O longo chifre na testa assustava tanto aos homens quanto as bestas.

No primeiro dia de aulas, Adão viu um unicórnio branco e ficou enfeitiçado. Foi chegando perto, examinou-o e de repente ouviu a besta lhe falar:

— Não estás me reconhecendo? Abandonaste-me em Atalanta. Teu filho teve a coragem de levar junto seu cavalinho, mas tu me deixaste como um sapato velho...

Adão se abraçou ao pescoço de seu antigo cavalo de Atalanta, alvoroçado, pois não havia nada mais maravilhoso do que o reencontro com seu animal. Beijou e beijou-lhe o rosto, abraçou-o, desatou em choro e quando Eva chegou ao seu lado, ele contou-lhe aos berros: — É ele, meu cavalo Belzier! Eva se abraçou nele, também aos berros, pois lembrou como um raio que em Atalanta correra por cima dele, com Adão agarrada nela, gritando como índio. Procuraram uma pedra alta. Subiram, para poder pular por cima do Unicórnio. Depois se perderam, percorrendo os campos sem fim, deixando os mestres dessa Escola apavorados.

E a vida tomou outro rumo.

Adão era o único que disputava passeios pelos campos, montado num unicórnio fantástico. Sempre que chegava à Escola, a besta o esperava na porta para receber um abraço e um beijo na cara. O unicórnio falava para Adão que no beijo mil e duzentos ele estaria perdoado. Só então.

Nessa Escolinha, assim que os meninos aprendiam a montar, ganhavam sua própria montaria. Com ela se podia ir e voltar para casa, dispensando a Prefeitura do trabalho do transporte escolar.

Por esse motivo, quando todos os meninos recém-chegados aprenderam a cavalgar, se iniciou a distribuição de cavalos. Adão ganhou seu unicórnio branco, pois era o único que montava desde o primeiro dia de aulas. E foi nesse dia, que os recém-chegados, mostraram que eram uma geração diferente.

Eva não quis cavalo algum, pois ela regressaria para casa cavalgando com seu noivo. Além do mais eram vizinhos. Para cúmulo Nestor e sua gangue de amigos barulhentos gritavam a mesma coisa. Cada macho era noivo de alguém e só retornariam para casa, de dois em dois.

A promiscuidade infantil era o maior problema desses professores. Encontrar rapazes nessa Escolinha escondidos em banheiros era coisa corriqueira. Se perderem no mato, pior ainda. Mas, noivos mirins nunca se haviam visto. Sem saber o que fazer, os professores os enviaram para casa de dois em dois, numa fileira enorme atrás dos professores, e pediram ao “Conselho Médico Lunar” que examinasse esses meninos com a máxima urgência.

O Centro Médico era um edifício que estava numa Lua desse mundo. Uma Lua com oxigênio, em cujo lugar os cientistas alienígenas faziam pesquisas. Era nesse lugar onde chegavam os visitantes de outros planetas, de outras Galáxias, principalmente Estagiários e Vendedores Espaciais. Na verdade, eles não vendiam nada. Eles transportavam presentes, enviados de planetas civilizados para esse mundo primitivo. As Prefeituras em agradecimento lhes davam em troca o mais puro mel de todas as Galáxias, e alguns artesanatos lindos.

Outro trabalho importante nessa Lua era o recebimento de animais encontrados à beira da morte, em mundos em extinção. As bestas chegavam congeladas dentro de cápsulas espaciais, enviadas por homens de outros mundos. Os veterinários os descongelavam, observavam, faziam-nos se reproduzirem, buscavam um habitat natural, em “Z”, ou em outro lugar, e os devolviam a mãe natureza.

E, estudar os homens era outra coisa corriqueira. Cada homem na sua ascendência, uma vez no seu passado, nascera de um bicho. Estudando sua origem animalesca, se esclareciam muitas coisas. E Adão, Eva, Nestor, Ana e toda a gangue foram aspirados por um raio de luz, para esse Centro espacial, ao pedido dessa Escolinha. Dormindo sobre uma cama, os médicos estudaram o esqueleto, DNA, célula, pele, até chegar ao ponto de partida.

Depois expuseram seu diagnóstico para os mestres da Escola, que esperavam ansiosos pelos resultados. Falaram que Eva, Ana e Adão descendiam de símios, como o eram João, Dina, e toda sua família terráquea. Agora Nestor e a gangue eram descendentes de porcos. E eram os primeiros filhos de porco desse mundo. Um mestre perguntou as características. Os doutores responderam:

— Bem, o porco é valente, muito mais do que um leão. Javalis são capazes de lutas ferozes no meio do mato contra inimigos bem mais fortes. Não têm medo do perigo. Falando sobre a sexualidade são os animais que mais prazer dão para suas fêmeas. Enquanto o símio dá “um” orgasmo para sua fêmea cada vez, muitas vezes, repetidamente, o porco dá uns 50, numa única relação que dura um quarto de dia, mais ou menos.

Os mestres falaram:

— O que vamos fazer?

— Esterilidade! Cirurgia nos testículos de todos os meninos! Só vamos lhes fazer a reversão, no dia em que demonstrem que serão pais responsáveis...

Antes de recobrar a memória, Adão, Nestor e todos os machos da gangue, estavam “estéreis”, por tempo indeterminado.

Para distraí-los, os mestres os levaram para conhecer o grande aquário marinho, no centro da cidade lunar. Desceram escadas, e ficaram assombrados. Através de vidraças enormes, viram baleias gigantes, peixinhos, moluscos, todos eles magníficos. Mas o que mais chamou a atenção foi um aquário especial, pequeno, com um casal de sereios.

Adão ficou com tanta pena, pois o macho estava totalmente impotente. Eles comiam, se abraçavam, nadavam, mas não faziam amor há uns 40 anos. Haviam sido encontrados quase mortos, e enviados com a esperança de recuperá-los, e se reproduzirem.

Adão falou para o macho com telepatia: — Beije-a!

Em seguida, deu um beijo em Eva, de 5 minutos. O sereio imitou tudo. Entrou a língua na boca de sua fêmea, e pouco a pouco, ele foi beijando e beijando, se excitando, enquanto ficava ereto, recobrando a virilidade perdida. Adão gritou: — Devagar, pois ela está sofrendo!

Como o grito não foi telepático, e as crianças gritavam em coro: — Vai, cara, isso ali, vai firme, cara... os mestres deram por encerrada a visita a esse aquário.

Quando os veterinários chegaram correndo, Adão lhes falou:

— Construam rápido um aquário maior, antes dos 600 filhos nascerem...

— Seiscentos? Tem certeza?

— Claro!

— Escute, você tem que estudar veterinária. Nada de pedreiro, construtor ou lenhador. Lembre-se disso. Veterinária! Ouviu bem?

— Legal! Mas eu gosto só de cavalos...

— Dá na mesma! E obrigado. Se alguma vez necessitarem de alguma coisa, estamos em dívida. Pode pedir o que quiser...

— Então prometa que vamos voltar, no dia em que os filhotes de sereios nascerem...

— Prometido!

Depois disso, o estudo nessa Escola finalmente começou.

Tiveram aulas de: artes, paternidade responsável, desintegração de coisas inúteis, telepatia, levitação, e aprenderam a fazer tijolos para edifício. As crianças pegavam argila, batiam, colocavam em moldes, e em seguida viravam para baixo, pois o tijolo descia sozinho. Os meninos os levavam para secar na sombra, e quando secos ajudavam os mestres acender o formo para queima.

Era o futuro da construção civil. Todas as casas tinham um forno para fazer pão, com tijolos. Mas os construtores já haviam realizado casas de tijolos, tão lindas, que estavam sendo feitas maquetes especiais para elas.

Mas se fazer tijolo significasse moleza, nas aulas balé eles fizeram um papelão. Adão até que se deu bem. Mantinha o equilíbrio, pulava, girava, mas Nestor e a gangue ficavam tontos, caíam no chão, escorregavam com as sapatilhas, quebravam o nariz, era uma desgraça geral. Foram todos reprovados. Apenas cinco mulheres passaram a matéria adiante. Eva, Ana e mais três amigas.

Mas como, além disso, só praticavam corridas a cavalo, os meninos eram felizes. Pulavam obstáculos, concorriam com outras turmas mais velhas, ganhavam medalhas, na verdade essa Escolinha infantil era o paraíso universal. Na volta para casa beijavam as noivas, sem que nenhum adulto os incomodasse, pois iam sempre ao fim da fila.

E antes desse primeiro ano letivo terminar, eles foram levados novamente para a Lua, para ver o nascimento dos sereios.

A sereia estava com uma barriga gigante, deitada de costas, sobre almofadas de areia, dando a luz a um filho de cada vez. Ele saía da barriga nadando que nem peixinho, lindinho, em busca de uma plantinha para mordiscar. A criançada gritava cada vez que aparecia um, perto nas vidraças. As sereias eram azuis, cabelos vermelhos, enquanto os machinhos eram verdes, um pênis na frente bem visível, cabelos brancos. Um mais lindo do que o outro, com muitas machas, com escamas bem suaves.

Quando o último filhote nasceu, a sereia dormiu nos braços de seu macho, abraçados, rodeados de filhinhos que giravam em redor, como um cardume. De vez em quando, os filhos se beijavam. O pai sereio lhes dava beijos, e eles imitavam. Era uma felicidade geral, dentro e fora das águas. Quando a sereia acordou, beijou seu macho, por longo tempo, e depois ficaram sentados, brincando com os filhinhos.

Mas a maior felicidade foi das crianças, pois a sereia aceitou que seus filhos fossem viver com elas. Podia levar qualquer deles. Mas tinham que jurar que os cuidariam muito.

E Adão, Nestor, Eva e Ana, e todos os amigos da gangue, carregaram um aquário pequenino, cada um com um casal dentro, do tamanho de 6 cm, como dois peixinhos beta. Uma fêmea e um machinho. Os sereios ficaram com metade dos filhos. Para manter uma intimidade, os construtores lhes fizeram um esconderijo de pedras para o casal. Dentro dele, almofadas de areia, onde a sereia podia se recostar e receber seu macho, horas a fio, sem cansaço. O macho foi esterilizado, para que continuasse fazendo amor, e fosse feliz “para sempre”, sem mais filhos para ter.

Para as crianças, chegar a casa com os sereios foi motivo de alegria geral nas famílias dessa cidade. Os adultos davam-lhes folhinhas de verduras, limpavam o aquário, trocavam a água, e durante a noite dormiam no dormitório dos guris. Mas pouco a pouco, o aquário foi ficando pequeno, e os colocaram nas banheiras domésticas de madeiras. Quando os sereios começaram a ficar apertados, os adultos já não sabiam mais onde deixá-los.

Notas finais
Tiveram aulas de: artes, paternidade responsável, desintegração de coisas inúteis, telepatia, levitação, e aprenderam a fazer tijolos para edifício. As crianças pegavam argila, batiam, colocavam em moldes, e em seguida viravam para baixo, pois o tijolo descia sozinho. Os meninos os levavam para secar na sombra, e quando secos ajudavam os mestres acender o formo para queima.
Era o futuro da construção civil. Todas as casas tinham um forno para fazer pão, com tijolos. Mas os construtores já haviam realizado casas de tijolos, tão lindas, que estavam sendo feitas maquetes especiais para elas.