Notas iniciais
E os anos da Escolinha Infantil se passaram rápido. Foram todos promovidos a um nível mais alto, e quem possuía casa com ambiente selvagem, teve permissão para levar seu cavalo. Adão construiu uma cavalariça com ajuda de seus cunhados, e trouxe junto Belzier, e uma namorada, um unicórnio fêmeo, cor dourada, belíssima. Para não assustar os moradores da cidade, com uma superpopulação de unicórnios, Belzier também foi esterilizado temporariamente pelos veterinários.

João pediu ajuda para Adônis construir uma lagoa entre as duas casas, alimentada pelas duas vertentes naturais de seu pomar. Adão e Nestor ajudaram, com pás nas mãos, empolgadíssimos e alguns irmãos de Eva também. Cavaram tudo a mão, suando embaixo do Sol, e os Estagiários da Lua os ajudaram em tudo. Afinal, para os Estagiários documentar a construção de uma lagoa natural, era motivo de teses escolares, em seus respectivos mundos. E providos de gravadores, máquinas fotográficas, e filmadoras, narraram o passo a passo do novo lar dos sereios.

No fundo desse lago os Estagiários plantaram todas as algas que os oito sereios comeriam. Na superfície, Dina e suas filhas colocaram em redor do lago mudinhas de acelgas, alface, aipos, agrião, repolhos, tudo o que os veterinários lhes deram como cardápios. E para terminar, os veterinários trouxeram alguns peixes limpadores de fossa.

E a pequena lagoa foi enchendo-se de água aos poucos, com os guris impacientes. Quando os sereios foram colocados nela, os meninos entraram juntos com eles, de cuecas e calcinha. Nadaram com os sereios, lhes deram comida na boca, lhes ensinaram a bater palmas, sempre rindo, e tarde da noite os deixaram sozinhos.

Como as outras famílias da cidade fizeram mais umas 50 lagoas como essa, durante longo tempo os garotos se acalmaram, cresceram, e tiraram a virgindade das noivas na adolescência. Poder-se-ia dizer que os sereios e os meninos cresceram juntos, transformando-se em belos púberes. Para evitar a superpopulação das lagoas, os veterinários também esterilizaram os machos sereios, para que desfrutassem do amor, pois eram tão promíscuos quanto os humanos. Os machos seduziam as fêmeas, assim que os guris entravam em casa para dormir. Ficavam grudados até o amanhecer. Monógamos eternos, durante o dia só se beijavam na boca. Mas, isso parecia que era a lagoa do amor, onde os casaizinhos desfrutavam da companhia uns dos outros, casais de humanos e casais de sereios.

E os anos da Escolinha Infantil se passaram rápido. Foram todos promovidos a um nível mais alto, e quem possuía casa com ambiente selvagem, teve permissão para levar seu cavalo. Adão construiu uma cavalariça com ajuda de seus cunhados, e trouxe junto Belzier, e uma namorada, um unicórnio fêmeo, cor dourada, belíssima. Para não assustar os moradores da cidade, com uma superpopulação de unicórnios, Belzier também foi esterilizado temporariamente pelos veterinários.

A Escola de Ensino Superior ficava lado a lado de todas as Universidades, formando um centro educacional enorme, no centro da cidade.

Adão e seu irmão faziam o percurso caminhando, abraçados nas noivas, e os amigos de Nestor iam se juntando aos poucos, pois eram vizinhos do mesmo lugar. Quando entravam pela porta dessa escola, eram 104 adolescentes bagunceiros que corriam, tropeçavam no chão, falavam besteiras, sempre rindo de tudo. Como todos eles eram gênios, especialmente Nestor e Adão, os mestres nunca os chamavam para repreender.

Dentro dessa Escola de Ensino Superior, os jovens podiam descartar algumas matérias, mas, tinha outras que eram obrigatórias a todos em geral. E essas matérias imprescindíveis eram realizadas em ateliês gigantes, em cujo interior havia trecos sem fim. O maior de todos possuía sacolas de linhagem, em cujo interior havia cerâmicas, caixas, utensílios de cozinha, brinquedos, sapatos, todos eles velhos e despedaçados. Esse ateliê era o de restauração de objetos. Nos demais se aprendia marcenaria, costura, tecelagem, sapataria, cultivos de hortaliças, cestaria, cerâmica, retirada de chão batido, e fragmentação de pedras. E as matérias optativas eram matemática, idiomas de outros mundos, história universal, geografia universal, biologia e ecologia. A telepatia não era mais estudada, pois ela fora aperfeiçoada na Escolinha Infantil, e muitos meninos a dominavam desde o berço. E todos os 104 amigos fizeram todas as matérias, obrigatórias e optativas, obtendo as notas máximas.

Mas o melhor de tudo era o fim do dia.

Depois das aulas se perdiam no mato a namorar, ou caíam no rio a nadar, até chegar a hora de jantar com a família, ao fim do dia. Nesse mundo nenhuma menina podia estar fora de casa, na hora da ceia familiar. Estava dentro das leis da Paternidade responsável. Todos sabiam que era obrigação obedecer aos pais, enquanto se morasse no mesmo teto. E que depois, os seus filhos teriam que fazer a mesma coisa para com eles.

Adão e Eva perderam a virgindade no rio, numa tarde de Sol quente. Sozinhos, com a água até o pescoço, Eva sentiu seu namorado entrando no caminho da gravidez. Adão ficou quieto, aos beijos ardentes, como novato, namorando sua mulher até ficar tonto. Fragilizado. Nadaram em direção a casa, e entraram pingando, correndo, pois, a família já estava em redor da mesa arrumando os pratos.

Ana e Nestor foram mais precoces. Depois desse primeiro dia de ginasial, correram para o mato e se atracaram contra uma árvore, no desespero maior.

Com o passar do tempo, os apaixonados acharam outras formas de se encontrar na intimidade. Havia um recreio de uma hora durante o período matutino, e de duas horas para fazer a sesta, após almoço. Adão começou a procurar um lugar escuro. Encontrou-o no sótão, por cima do salão de suprimentos, onde havia uma escada que subia como uma cobra, e onde se guardavam os grãos. Eva se estendia entre as batatas, e namorava seu homem até as aulas recomeçarem.

E os anos do Ginasial se passaram, terminaram, e chegou o dia em que tiveram que escolher uma profissão. E Adão, Nestor, Eva, Ana e toda a gangue escolheram estudar veterinária, por causa dos sereios.

E estudar essa profissão foi mesmo um encanto. Adão e Eva saíam de casa montados em Belzier, e Ana e Nestor na fêmea dele.

Os primeiros dias de aula foram os mais deliciosos de todos, e os mais engraçados. Saíram para o mato, para analisar o linguajar dos bichos. E não necessitavam só estudar, havia que os distinguir, um do outro, imitá-los, e essas matérias duravam a carreira toda. Comiam lanches rápidos, descansavam embaixo de matas altas, e no fim do dia voltavam para casa, cavalgando como índios entre o mato, parando em algum lugar para um sexo furtivo.

Adão descobriu uma caverna, onde só havia borboletas. Faziam uma cama com as próprias roupas, e se entrelaçavam no chão. Mas, embora namorassem todos os dias nessa caverna de borboletas, o desejo de grudar durante dias sem fim era um sonho que aumentava a cada dia. Adão sequer dormia mais. Só desejava acordar abraçado na sua amada todas as manhãs de sua existência. E, um dia, Eva perguntou:

— Amor, e se eu menstruasse, o que se passaria?

— Ficaria prenhe. Casaríamos, e seríamos dispensados da Escola durante 10 anos. Seria o Paraíso da terra. Ficaríamos na cama grudadinhos, até o dia do menino nascer.

— E você não lembra mais como se faz isso?

— Mais ou menos... Lembro-me que havia que massagear bastante neste local... Deixe-me tentar...

— Mas você está estéril! O que vamos fazer?

— Vou me torturar. Um bom golpe nos testículos vai obrigar os médicos a fazer minha cirurgia de reversão.

— Vai se torturar só para ficar comigo, de dia e de noite?

— Nada nos separará, nunca mais, pela eternidade, meu amor. Nossa prova já passou... Na Terra, eu provei que só quero você, e você enlouqueceu de amor por mim...

— Convencido! Eu na verdade me suicidei... Só que o coquetel de pílulas e álcool não deu certo...

E começaram a gargalhar. Eva riu tanto, que o sangue começou a sair com força entre as pernas. Adão teve que colocar sua camisa como fraldas, e voltar para casa ao galope.

No dia em que o Unicórnio deu uma patada nos testículos de Adão, ele desmaiou. Depois foi levado ao hospital, para deter o sangramento, e fazer cirurgia unindo vasos, deixando-o fértil. Colocaram emplastros de argila, e seus testículos ficaram com volume acima do normal, durante semanas.

No primeiro encontro dentro da caverna, depois desse incidente, Eva engravidou.

E Adônis deu a maior bronca no filho durante um almoço:

— Seu irresponsável! Sabe o que você fez?

— Sei! Vamos viver numa barraca na beira do rio, depois do casório...

— Nenhum homem faz isso neste mundo... Eu tive que construir esta casa enquanto sua mãe engordava na habitação de minha sogra... Foi um inferno! Ficamos separados e depois que vocês dois nasceram, eu virei um lavadeiro de fraldas, seus cagões!

Nestor começou a rir tanto que saíam lágrimas dos olhos. Adão tentava conter a ironia.

— Acham engraçado? Eu proíbo que Eva viva numa barraca. Você tem que levantar uma casa para ela, com o mínimo de dois quartos. E comece amanhã!

— Mas pai... Eu vou construir um palácio para minha mulher! Só que com calma, nada de precipitação... A barraca fica como primeira opção... Eu quero namorar, pai... Não vou ficar erguendo domicílio nenhum...

— Ah, é? Acha que seus cunhados vão deixar? Ah?... Fala isso para eles, vai... Fala... Tem uns 8 machos que carregam árvores de meia tonelada, no colinho... Vai encarar essa?

— Nossa! Estou dando início ao espanto... Estou ficando assustado...

Nestor parou as gargalhadas, pois Adão começava a ficar branco... E falou-lhe:

— Vamos ao Lixeiro, mano... Deve ter alguma coisa lá, que sirva como moradia...

— Mas, é claro... Como se entra no Lixeiro, pai?

— Pela porta... Ela está sempre aberta...

E aguentando o riso, terminaram de jantar.

Mariuska, que nunca falava nada para não interferir na autoridade do pai, deu um abraço no filho, pois estava feliz de saber que ia ter um netinho, e falou-lhe:

— Sabe, filho? Vou ser avó aos 29 anos... Se bem que, como neste mundo os dias são mais longos, quem sabe eu tenha uns 200 anos...

E desta vez, os quatro caíram nas risadas, nos abraços, pois Adão não tinha feito nada que seus pais não fizeram.

Depois Adão e Nestor foram para seu quarto dormir no beliche, pois a casa de Adônis era a menor dessa cidade. Um dormitório com uma cama gigante, e outro com duas camas pequenas, uma acima da outra, além dessa cozinha com uma mesa. O banheiro ficava fora de casa. Algo assim como uma casinha com uma patente onde se defecava e se desintegrava o cocô. A única excentricidade era a banheira redonda, na sacada do dormitório do casal, escondida entre samambaias que caíam desde o teto.

Nestor ria tanto desta vez, que Adão perguntou:

— Qual é a piada?

— Só agora estou percebendo porque somos tão pobres! Nunca imaginei que íamos ter que fazer nossa casa, cara... E vou seguir o exemplo do pai... Acho que construir um dormitório com uma cama basta...

E continuaram a rir.

Enquanto isso, Eva contava para a família que Adão iria pedi-la em casamento, pois ela estava grávida. Como Eva tinha uns 16 irmãos solteiros, todos falaram em coro um: — Eu não acredito nisso! Ana e Dina se abraçaram nela, beijaram, pois nesse mundo quem recebia a bronca era o homem. Como haviam aprendido na Escolinha Infantil, na matéria da Paternidade responsável, a gravidez era responsabilidade total e única do homem. Se a responsabilidade fosse da mulher, a matéria seria Maternidade responsável. Mas era o macho o germinador, quem passava a semente para a mulher. E a obrigação de um germinador era casar com a mãe de seu filho, e cuidar desse filho até o dia que ele fosse adulto e dono do seu destino. Sem direito a arrependimentos.

No dia seguinte, Adão e Nestor levaram suas mulheres junto, para ver esse lugar estranho e abandonado, chamado Lixeiro e desprezado pela humanidade.

Afastaram as portas de par em par, puxaram a escotilha do teto, abriram as janelas, e ficaram pasmos. Dentro dali existiam casas pré-fabricadas, barracas para camping de até com 5 dormitórios, com mesas pequenas, cadeiras, fogão pequeninho, camas infláveis, e dentro de caixas fechadas encontraram fogão gigante, fornilho embutido, lava-louças, geladeiras, micro-ondas, liquidificadores, batedeira de sucos, jogos de cozinha com panelas de vidros, porcelanas maravilhosas, era o paraíso da tecnologia. Presentes de outras civilizações mais avançadas. Tudo de cores alegres, para combinar com esse mundo selvagem.

Nestor falou na hora para seu irmão:

— Quero a Ana menstruada já, mas vou continuar estéril, cara... Só a faz menstruar para que nos deixem casar.

— É para já. E como levamos tudo isto?

— Caminhão... Tem três deles desocupados. Vamos carregar as caixas. Vai ser fácil, fácil... Guardamos na cavalariça do Belzier...

A seguir Nestor deu para Adão um jogo de porcelana pintado à mão. E entre risada falou-lhe:

— Para nossa sogra! Podes também evitar uma surra dos nossos cunhados...

Mas antes de colocar tudo no caminhão, tiveram que enfrentar a autoridade da cidade. O Prefeito Alain. Um loiro esquisito. Adônis contava que na Escolinha ele tinha a mania de ser sempre o melhor em tudo. O mais inteligente, o campeão de corridas, quer dizer um chato. E era por isso que a cidade o escolhera Prefeito.

Mas, como nesse planeta as autoridades eram respeitadas e admiradas, contaram-lhe que iam casar, com palavras suaves, e acrescentaram que desejavam puxar algumas caixas do Lixeiro. Explicaram para ele o que estavam levando. E o Prefeito lhes deu tudo, e também pediu que escolhessem o sítio de seus futuros lares. Mostrou um mapa da cidade e seus arredores. Adão procurou uma lagoa, e marcou com um dedo o lugar, a 200 metros dela. A seguir, o Prefeito Alain perguntou-lhe o tamanho da casa que ia construir.

— Vou levantar uma mansão gigante, pois vamos ter uma dúzia de filhos... No mínimo 10 dormitórios, e a quero, toda ela, de um andar.

Foram levados então, para examinar maquetes. E Adão viu uma casa que parecia um sonho. Possuía uma piscina em frente de uma sala gigantesca, sanitário com banheiras de madeiras maiores, três jardins internos, desenhada com tijolos à vista. E em redor, haras para cavalos e lugar de pastagens para vacas.

Adão perguntou para Eva:

— Gostou, meu bem? Eu vou construir esta maravilha para você! Só para mostrar o quanto a amo...

— E eu vou ajudar! Vou fazer tijolos vitrificados para a cozinha, para cada banheiro, com figuras bem lindas! E um mural de cobre para cada dormitório, e outro gigante para a sala, o que acha?

Alain falou para eles:

— Calma, os Estagiários da Lua irão ajudar bastante. Limparão o sítio, e deverão construir as bases, pois tudo isso requer conhecimento técnico. Agora, levantar as paredes, fazer as portas, as janelas, ou, o telhado, é com vocês... Eles só vão levantar o esqueleto da mansão. E você Nestor, qual casa quer?

— Nenhuma... Vamos levantar duas casinhas pré-fabricadas. Vamos ser vizinhos...

— Excelente ideia! Enquanto a mansão demora uns 5 anos para ser terminada, o ideal é morar nessas residências... Vou pedir a um Estagiário que os ensine a montá-las.

Ao sair dali, Adão se perguntava a si mesmo: — Mas, de onde é que conheço esse cara? Bem, com certeza era algum ex-aluno de Agarta, a cidade perdida da Terra.

Dina e João não ponderaram nada com o pedido de casamento. Abraçaram os genros, e os cunhados se ofereceram em bando para ajudar a levantar a casa pré-fabricada. Na verdade, a família estava mais curiosa em olhar para os artefatos do Lixeiro do que em mais um casamento. Adão abriu algumas caixas e explicava detalhes daquilo que ele conseguiu fazer funcionar. Como havia 5 irmãos de Eva já casados, eles correram a levar para as esposas lavadoras de louça, e o limpador de chão, que eram a sensação do dia. Por mais incrível que pareça, nessa família os homens imitavam o pai, limpavam o piso e lavavam os pratos e panelas dentro de casa. Tudo a mão.

Levantar as casas pré-fabricadas foi moleza.

Elas possuíam sistemas de ajustes e encaixes. Vigas grossas que se assentavam umas nas outras, firmes, deixando um esqueleto forte que cruzaria os milênios. Todas de lenhos que eram de outro mundo. Madeira artificial, que tinha o nome de Plastonita. O preenchimento entre as vigas de sustentação eram blocos, do mesmo material, que entravam na perfeição, na medida justa, sem nenhuma argamassa. O telhado também encaixava, com duas coberturas. Interno, com uma placa só, e externo, com imitação de telhas, mas eram placas grandes, unidas por um corredor de telhas pequeninas. As janelas, portas, tudo era ajustável. No fim, eram duas casinhas lindinhas, pois elas vinham acompanhadas de cortinas xadrez vermelho e canteiro para flores nas janelas.

Nos dias seguintes, os Estagiários limparam a área para construir a mansão.

Puxaram do solo tudo o que era rasteiro, sem frutas comestíveis. Pouparam as árvores milenares e centenárias, e as que serviam de comida para os passarinhos. Depois despejaram sementes de erva para vacas e cavalos. A seguir, demarcaram no chão a metragem que seria construída. Com a mirada desintegraram o buraco para fazer os alicerces. Colocaram as vigas de sustentação, alinharam-nas matematicamente, e o esqueleto dessa mansão ficou pronto. Preencheram o buraco com pedras e argilas firmes, aplanaram a terra, e finalmente cimentaram o chão. Por cima cobriram com uma pasta, que deixou esse chão de cimento colorido e maravilhoso. Nos quadrados de terra para os jardins internos colocaram finíssimos tubos para filtrar chuvas e humidade, e um esqueleto de madeira para fixar os vidros. Depois deixaram uma pilha de uns 400 tijolos, para Adão começar a levantar as paredes.

Quando Adão e Nestor chegaram com o caminhão carregado de caixas, a gangue ajudou a colocar tudo dentro das duas casas pré-fabricadas, sem fazer perguntas.

E a seguir, a mágica aconteceu.

Ana e Eva mostravam que a casa estava pronta, pois havia camas infláveis, por cima de armação firme, a 40 cm acima do chão. Armários de plastonita, que se aparelhavam seguindo um plano com desenhos. Mesas, cadeiras e poltronas que se adaptavam, e Televisão. Também acarretaram geladeiras, lava-louças, micro-ondas, fornilhos para parede, fogão com forno de 6 bocas. Só que ninguém entendia como funcionavam.

Adão leu as instruções: — Pense no fogo, e ele acenderá! — Pense em parar o fogo e ele se apagará! Todos riam em coro. Nestor falou: — Que se faça a luz, fogo, acende-te fogo! E uma chama saiu de uma boca na altura de 5 centímetros. Depois gritavam para geladeira: — Esfria, esfria! Para uma maquininha, que parecia um homenzinho anão, bem pequeno: -Limpa, limpa! E ela limpava o chão com um paninho.

Por último, giraram um botão na televisão, e viram um documentário em idioma estranho. Procuraram outros canais, e era a mesma coisa. Canais de outros mundos, de outras Galáxias, pois em “Z de ALPHA” não havia estúdio de TV, nem de rádio. E nas Escolas Profissionalizantes essas matérias tecnológicas não existiam. Aliás, sequer havia eletricidade em “Z”. Todas as luzes caseiras eram lampiões, dentro de vidros coloridos, que funcionavam com pavios embebidos em álcool.

Nos dias seguintes, chegaram ao lugar as famílias dos noivos. Como mandava a Lei da Paternidade responsável. Era um dever nesse mundo autorizar o casamento, só depois dos filhos de seus filhos terem um lar. Enquanto Adão mostrava para João seu esforço em dar para Eva um palacete, João falava que seu neto não ia nascer no meio do mato. No dia em que viesse ao mundo, Eva ficaria na sua casa fazendo o resguardo médico. Adão o abraçava, acalmava, ria com ele, e jurava que Eva ia ter todo o conforto que merecia, e que iam fazer tijolos, todos os dias, pois ambos foram dispensados da Escola. Mostrou para ele uma montanha de argila, outra de areias, e um forno de cerâmica, pronto para queimar tijolos diariamente. Também lhe mostrou um ateliê ao ar livre, com um toldo, junto a uma barraca cheia de materiais para sua esposa artista.

João perguntou:

— Não estará pensando fazer minha menina trabalhar. Mulher grávida neste mundo recebe comida na boquinha...

— Nada disso, sogro... Ela só vai ajudar decorar a casa... Você sabe como artista é, não se pode reprimir a criatividade...

João preferiu rir. Conhecia seus genros cara de pau, desde outros carnavais...

No dia do casamento duplo, a farra foi na casa de Dina.

Os recém-casados ganharam panelas de vidros, panelas de cerâmicas vitrificadas com desenhos maravilhosos, pratos de porcelana, copos de cristais, talheres de ouro e de prata, toalhas de mesa bordadas com beirada em crochê, roupas de cama, de um tecido que não necessitava passar, e toalhas para banho e banheiro macias, e um tapete para o chão, com figuras tão lindas, que Ana decidiu colocar na parede, para decorar o ambiente.

Para fazer a festa Dina pediu ajuda a suas amigas com a comida, e todas trouxeram alguma coisa, que foi se enfileirado em mesas fora de casa. Era uma quermesse na verdade. Pratos frios com tortas salgadas, bolos de frutas, bolachas decoradas com arte, compotas de doces, sobremesas com frutas. O que mais havia eram frutas, em arranjos lindos.

Os noivos dançaram, ao som dos batuques, pois tanto os irmãos de Eva e Ana, como a gangue, eram excelentes músicos. Inventavam ritmos, e as pessoas mexiam o corpo. Pareciam índios em meio da selva se preparando para um ritual sagrado. Mas era um espetáculo adorável.

Antes do Sol desaparecer no horizonte, os noivos subiram nos unicórnios e abandonaram a festa. Entraram na trilha do mato em direção às casinhas na beira do lago e chegaram lá no último suspiro de luz. Acenderam os lampiões externos, depois os internos, rindo sem parar, pois, a luz da Lua estava nos dias mais fracos e o negrume os envolvia. Só agora percebiam que estavam em meio do mato, sozinhos, como mais uns animaizinhos. Belzier e sua fêmea deram uma corrida para o mato fechado, para festejar o novo lar.

E a vida de namoro e mais nada começou.

Eva falava, entre beijos, que pensava seguir os passos da mãe. Seria uma coelha. E como uma coelha grudou em Adão por cima desse colchão, cujo balanço era afrodisíaco. Depois de inflado com ar, molas invisíveis se formaram dentro dele, que poupavam o cansaço do amor

Na casinha dos vizinhos, Ana e Nestor faziam coisa similar. Nestor fez um roteiro em cada canto dessa casa. Começaram a namorar no chão da sala por cima de uma alfombra macia. O segundo lugar foi o banheiro. O vaso sanitário tinha tampa, era de cerâmica, e firme para sentar nele com a mulher. Depois foi no chão desse banheiro, depois dentro da banheira, e por último por cima de tudo. Da geladeira, do fogão, que também possuía tampa, da pia de cozinha, da mesa, de cada cadeira, enfim

Mas Ana e Nestor não estavam dispensados da Escola de veterinária. Só receberam uma licença de 50 dias para Lua de mel. Depois disso, tiveram que regressar aos estudos.

Enquanto os vizinhos Nestor e Ana voltaram ao aprendizado, Adão colocou os primeiros tijolos, trabalhando à tarde, quando o ambiente começava a refrescar. Eva começou então a entalhar uma prancha de cobre. Colocou-a numa mesa, fora de casa, sobre toalhas macias, e com um martelo e vários cinzéis pontudos começou a dar batidas para deformar a placa com figuras em altos relevos.

E o tempo começou a marcar uma nova etapa na vida dos irmãos.

Enquanto Adão virava construtor de mansão, Nestor controlava a natalidade no mundo selvagem. Abria os testículos dos bichos machos, colocava um fio neles, para nunca mais gerarem filhotes. Mas a orgia sexual continuava a mesma. Coelhos então, depois de estéreis, pareciam ainda mais tarados.

Voltavam para casa sem pressa, no unicórnio Belzier, pois a fêmea dele carregava o primeiro filhote na barriga, depois que Nestor lhe devolveu a fertilidade. Ana sentava junto com ele, e chegavam em casa ao anoitecer. Sentava num sofá gostoso a comer meia dúzia de bananas, uvas, e depois caíam na cama, colados, pois tudo nesta vida era fantástico. Estavam sempre unidos que nem lesmas.

A cada 5 dias os vizinhos Adão e Nestor se juntavam, para trabalhar. Era a vez de Eva e Ana fazer pão, bolos, cucas, bolachas, macarrão, que guardavam na geladeira para não estragar durante os dias seguintes. Depois recolhiam alfaces, tomates, cenouras, pimentões, que lavavam, depositavam na parte debaixo, calculando para ter saladas frescas todos os dias. Seus maridos cuidavam da horta. Colocavam estrumes, folhas secas, e plantavam mudas de tudo, para que nunca faltasse a verdura farta. Também Adão e Nestor plantaram um pomar. Enorme. Fileiras de mudas com todas as mais deliciosas frutas desse mundo, tanto para eles, quanto para a bicharada. E as farinhas, bem, isso sempre vinha da cidade com as visitas. Principalmente com João, que carregava uma carreta com alimentos, para que nada faltasse a suas filhinhas.

Os amigos da gangue também chegavam para visitá-los com iguarias. Sentavam debaixo da sombra das árvores milenares, toalha no chão, a petiscar, rir, sem fazer planos para nada. Todos os homens nesta vida só queriam fazer uma coisa: — amar sua mulher! E davam beijos nas namoradas, pois ainda estavam solteiros. Só de pensar que havia que construir uma casa, tirava a excitação pelo casório. Para cúmulo as casas pré-fabricadas sumiram do Lixeiro na corrida, e as grandes barracas também.

No fim da tarde a gangue improvisava sons com tambores, flautas, também tocavam berimbaus, balalaicas, que eram os instrumentos que havia no Lixeiro. Dançavam imitando macacos, ou faziam passos de balé, lembrando-se dos tempos da Escolinha infantil.

Outras vezes, todos juntos iam acampar na beira dessa lagoa. As mulheres pulavam na água de calcinha e sutiã e os machos só de cuecas. Nadavam, ou jogavam com uma bola correndo pela areia, numa competição onde faziam gols entre duas pedras.

Como a construção da mansão de Adão era lenta e demorada, às vezes os amigos ajudavam a colar tijolos, ou traziam uma porta de algum lugar, uma janela, um vidro, sempre gargalhando, pois ia parecer uma favela gigante em lugar de mansão. Eva mostrava seus murais de metal, que estava fazendo com calma. Todos os amigos só davam elogios.

Quando um Estagiário da Lua ficou estátua admirando um mural de Eva, Adão percebeu que ele estava adorando-o.

— O que foi? Minha mulher é gênia em artes, sabias?

— Claro que ela é! Este aqui dá para trocar com oito portas, entalhadas a mão, e esse outro lá, dá para conseguir quatro vidraças gigantes para fazer um jardim interno...

— Prefiro 800 tijolos! E as portas!

— Fechado!

Quando Eva ouviu tudo isso, pediu para Adão trazer pranchas de bronze e de prata, tesouras para cortar metal, luvas, uma máscara, e um teco-teco com soldas, para derreter ligas metálicas.

Em seguida, fez uns desenhos, para fazer mais um mural, o mais rápido possível. Nada de alto-relevo, que demorava muito. Colou cobre sobre bronze, prata sobre cobre, colocou pedras, polidas e brutas, e finalmente pintou com seus esmaltes algumas figuras e deu o toque final com um verniz brilhante.

Quando o Estagiário voltou com tudo que havia prometido, Adão mostrou-lhe a arte nova de sua esposa. Cinco murais enfileirados embaixo do Sol.

— Nossa! Nunca vi nada mais lindo! O que queres em troca?

— Tenho uma lista...

Notas finais
E Adônis deu a maior bronca no filho durante um almoço: — Seu irresponsável! Sabe o que você fez? — Sei! Vamos viver numa barraca na beira do rio, depois do casório... — Nenhum homem faz isso neste mundo... Eu tive que construir esta casa enquanto sua mãe engordava na habitação de minha sogra... Foi um inferno! Ficamos separados e depois que vocês dois nasceram, eu virei um lavadeiro de fraldas, seus cagões! Nestor começou a rir tanto que saíam lágrimas dos olhos. Adão tentava conter a ironia. — Acham engraçado? Eu proíbo que Eva viva numa barraca. Você tem que levantar uma casa para ela, com o mínimo de dois quartos. E comece amanhã! — Mas pai... Eu vou construir um palácio para minha mulher! Só que com calma, nada de precipitação... A barraca fica como primeira opção... Eu quero namorar, pai... Não vou ficar erguendo domicílio nenhum... — Ah, é? Acha que seus cunhados vão deixar? Ah?... Fala isso para eles, vai... Fala... Tem uns 8 machos que carregam árvores de meia tonelada, no colinho... Vai encarar essa? — Nossa! Estou dando início ao espanto... Estou ficando assustado...