Adão e Eva, do inferno ao paraíso, Segunda parte
8 O despertar da dança
Notas iniciais
Foi durante um jantar, que Peter falou para seus pais que havia decidido ser bailarino de balé. Em “Z de ALPHA” havia somente mulheres dançando e ele queria incentivar os homens a rebolar e formar um grupo de dançarinos profissionais. Para isso teria que solicitar exame de Doutor em dança. Uma profissão que não existia. Adão respondeu:
— Ótimo, filho! Eu inventei o Doutorado em partos aquáticos, e daqui a pouco vão me convidar para ensinar isso na Escola de Medicina. Marta está no Ginasial e minha licença da paternidade acabou faz tempo. Está pronta para se cuidar sozinha, filha?
— Estou, pai! Podes mandar brasa! Mostra para eles o que é ser um bom parteiro...
— Obrigado, meu anjo...
Nohiki perguntou para o Peter:
— Tu não tens medo dos apelidos que vão te dar? No mínimo vai ser o de mulherzinha, e os outros vão ser bem piores...
Fernando Júnior, convidado eterno de todas as noites, retrucou:
— Se alguém falar isso de meu cunhado, você me chama, meu amor... Eu mostro o que é ser mulherzinha... Vai fundo, Peter... Conta comigo...
Inês, que sempre jantava em casa de Eva, falou a seguir:
— É isso ali, mano! E quero minhas gêmeas dançando contigo! Esses mestres de dança não sabem nada de nada...
Marta acrescentou:
— São tão ignorantes que ensinam balé com música para ouvir, nunca para dançar. Música de balé tem que acompanhar a coreografia, os movimentos do corpo, o tempo das piruetas, o ritmo de cada salto... É por isso que todos se arrebentam no chão! Quando já se viu dançar com música de câmara! E de uma caixinha de música, com péssimos acordes...
Todos a olharam de boca aberta, pois isso era uma linguagem desconhecida. Afinal, o que era música de câmara? E acordes? E como é que a Marta sabia disso tudo? Ela era a pior aluna da Escola, tinha as notas mais baixas, sequer ganhava na cavalaria, pois se perdia nas corridas pelo mato. E no Ginasial, só levava bombas. Peter ficou intrigado:
— Você está escondendo conhecimentos? Posso saber por quê?
— Porque nesta vida só quero namorar, nada de concertos, nada de treinos, nada de passar horas no piano! Quero é ser feliz!
Nohiki quase gritou:
— E EU AINDA SOU VÍRGEM! Nem dá para acreditar! Mãe, ela está transando...
Adão perguntou:
— E quem é meu futuro genro?
— Desculpa, paizinho! Eu sei que você e a mãe vão adorar ele, mas meus irmãos... Eu não quero apelidos por cima dele...
Imediatamente, Sira falou:
— Aposto que é o loiro de olhos verdes! Está sempre te olhando...
Nohiki arriscou:
— Deve ser o catador de minhocas! Ele é um moreno bem lindo! E é caidinho pela mana...
Peter voltou à carga:
— Vamos falar coisas mais interessantes! Tens que me escrever uma música para balé, só escrever! Depois os Músicos estagiários gravam para mim! Isso é trabalhar demais?
Miriam, noiva de Peter, eterna convidada dessa casa, suplicou:
— Por favor, cunhada... Imagina Peter e eu, no compasso certo, numa música linda, num palco ao ar livre... Esta cidade enlouqueceria...
Eva terminou a conversa:
— O planeta vai enlouquecer! Vão chegar às turnês pelo mundo, serão sempre convidados de honras, com banquetes para se fartar, alojamento com direito a cama, comida e roupa lavada, vão ter mordomias sem fim, sem fazer nada de nada além da dar pulinhos no palco... E a musicista pode ir junto... E o genro desconhecido também.
Marta falou:
— Ganharam! Por isso nunca falei nada! Podem me trazer um piano! Se é que existe um piano nesse Lixeiro...
Depois de um ano, durante o qual Nohiki perdeu a virgindade, e Tana veio morar em casa de Diana, para conquistar Sira, Peter e Miriam prestavam exame em frente de uma comissão de professores de balé, para obter o título de Doutor em danças.
Nesse dia, Marta sentou ao piano, e começou a tocar uma melodia suave, que ela mesma escrevera. Como acompanhamento, uma caixa de música dava os sons dos violinos, trombetas, xilofones, numa mistura de sons que parecia magia, e fora gravada por Estagiários da Lua.
Miriam apareceu vestida de branco, com passinhos curtinhos, braços em cruz, ao compasso maravilhoso da música. Em seguida, entrou Peter pulando, e pulando, dando voltas, com seu corpo perfeito, peito nu, numa calça justa que deixava adivinhar o tamanho do membro. Depois, Miriam pulou por cima dele, deram voltas e mais voltas, com ela agarrada de pernas para cima, de pernas para o lado, mais pareciam piruetas de ginástica, mas que ao compasso da música arrepiava a todos.
Como todos os irmãos estavam presentes, junto com os amigos da gangue, os avós Dina e João, os irmãos de Eva, Adônis e Mariuska, Tatiana e Perci, Fernando e Mônica, a família de Miriam, sentados num canto, o fim dessa dança foi apoteótico. A turma assobiava, gritava, e Eva se imaginava aquilo em meio do povo.
Os mestres da comissão julgadora os abraçaram emocionados, e imediatamente lhes deram autorização para o que quisessem. Podiam escolher crianças para dançar, treinar nas Escolas, ocupar os palcos, pois ter um corpo de balé era um sonho de muitos anos. E Peter e Miriam imediatamente ganharam uma medalha de ouro no peito, com a figura símbolo dessa escola, e no verso escritas as palavras: Doutor em danças.
No resto do dia, a festa foi em casa de Eva. A gangue pedia para Peter ensinar a dar piruetas, e depois caíam na piscina como palhaços. As crianças riam às gargalhadas, pois alguns deles já carregavam um guri no colo.
Nos meses seguintes Peter e Miriam se dedicaram a selecionar alunos com talento.
A maioria mulheres, mas conseguiram três rapazes sem medo de receber apelidos. Marta lhes compôs um balé com duração de uma hora, com dois intervalos, para mudar roupas e cenários. Marta pediu ajuda a Eva para desenhar os figurinos, e Eva deu seus desenhos de moda, para costurar, a cada mãe que tinha um filho dançarino. E Eva, logicamente, pintou os pano de fundo para a encenação no palco. Três paisagens diferentes. Uma de uma cidade cheia de edifícios modernos, outra era uma paisagem entre nuvens, espacial, e a última era de um matagal verde.
Pela sua vez, o Prefeito Alain lhes construiu um palco ao ar livre, para que a cidade inteira apreciara o espetáculo. E para dar mais realce a essa noite, pediu aos Estagiários instalar televisores em todas as praças, de todas as cidades de “Z”, e um satélite de retransmissão direta, para que o mundo os visse dançar. Os Estagiários fizeram mais do que isso. Trouxeram um conjunto de luzes para cenários, com 30 focos de cores diferentes. Essas luzes trabalhavam com uma bateria, que nunca esgotaria, pois se nutria do ar. Ensinaram a Peter o funcionamento, e Peter pediu socorro aos irmãos para o manejo delas. Paulo e Jesus aprenderam rápido, e as manusearam na perfeição. Peter fez o ensaio geral na Escola, só para os mestres de danças, e eufórico marcou o dia do debute.
E nessa noite magnífica, todas as pessoas da cidade sentaram no chão, para ver o primeiro espetáculo de danças ao ar livre. Finalmente o mundo de “Z” conheceria o balé que seus filhos estudavam na Escolinha infantil, pois nunca ninguém entendeu para que servisse aquilo. O Prefeito Alain nunca ficou tão famoso, pois ele falou antes e depois desse espetáculo acontecer. Marta dera-lhe uma lenda escrita, com a história do show: — O primeiro ato mostraria um casal de apaixonados, que morria com juras eternas, num outro planeta. O segundo ato quando eles que se perdiam pelo Universo. E finalmente, no último ato, se mostrava quando se reencontravam, no mundo de “Z” -. Nesse último ato entrariam os menores vestidos de passarinhos, boizinhos, leõezinhos, avestruzes, que assinalavam as características desse mundo.
Marta também conseguiu que dez colegas do Ginasial a acompanhassem no concerto para balé, dispensando a caixa de música desta vez. Amigos que já sabiam ler uma partitura, e fazer abrolhar os sons dos instrumentos. Um timbale, três violões, um violoncelo e cinco flautas. Seu amor secreto, Stanislav, era o violoncelista. Todos sentaram na parte baixa do palco, sem partituras, pois já sabiam a melodia de cor. A um sinal da Marta, o show começou. Como os Estagiários também lhes colocaram receptores de sons, a música invadiu todo o centro da cidade.
E a dança inundou o palco, embaixo de luzes que mudavam de cor, e pessoas que corriam, pulavam, giravam o corpo, se transformando na coisa mais maravilhosa que esse povo visse em toda uma vida. Teve homens que choraram impressionados. Principalmente quem tinha um filho no palco. Quando o balé terminou, Eva e Adão não choraram desta vez. Sabiam do talento de seus filhos. Jesus e Paulo foram arrastados para o palco, para as pessoas soubessem que eles eram os gênios da luz. Depois, Peter envolveu Marta e os músicos, para que o povo entendesse que um balé era composto de muitas coisas.
Pouco a pouco, as pessoas se acalmaram, e voltaram para casa.
Alain preparara um banquete para os familiares dos dançarinos, que foi realizado dentro do salão da Prefeitura. Uma fileira de mesas com pãezinhos, queijos cortadinhos bem pequeninhos, bolos, e mais bolos, de todos os tamanhos, dispersos entre arranjos de frutas, esperava os convidados. E como os bailarinos estavam famintos e os músicos também, atacaram o banquete, sempre rodeados de pessoas que faziam perguntas. Afinal Alain havia invitado 30 Prefeitos de cidades vizinhas.
Foi a vez de Adão e Eva receberem os abraços das pessoas com orgulho. E dissimuladamente, somente Eva e Adão conheceram o genro Estanislau, que era careca. O único homem desse mundo, sem nenhum cabelinho sequer. Marta ao seu lado estava radiante. Como sua mãe falara, o planeta enlouqueceu. Peter estava sendo convidado, pelos Prefeitos das outras cidades, para bailar mais ou menos durante uns 2000 anos. E acrescentava que o convite incluía casa, comida e roupas novas.
Como Peter e Miriam não eram casados, depois daquele dia todos os homens solteiros de Z se apaixonaram perdidamente por Miriam, depois de vê-la na televisão. E todas as mulheres solteiras se apaixonaram por Peter.
Nos primeiros dias depois desse show, Peter recebeu 200 cartas de amor, de várias cidades de “Z” enquanto Miriam recebia em casa umas 2.000.
Depois eram tantas, que nem dava para ler. Peter as desintegrava assim que o carteiro as levava de caminhão e as descarregava defronte à mansão.
O que é que iam fazer? Peter falava para seu pai que estava num atalho sem saída. Se continuassem solteiros, as cartas choveriam para sempre. Se casassem teriam que interromper tudo para construir uma casa, por causa da lei da paternidade responsável.
Mas a mãe Eva deu-lhes a solução.
As suítes de Jesus e Paulo estavam vazias. Era só carregar tudo o que havia em seu ateliê para lá, e depois limpar sua casinha. Eles podiam colocar cortinas novas, encerar o chão, ou pintar por fora e por dentro. Ela ia ficar bem lindinha.
E num fim de semana, quem chegava de visita nessa mansão recebia uma vassoura, ou uma escova de mão, pois esse ateliê era uma bagunça. Havia tantas tralhas, pois Eva falava que tudo era útil e não poderiam desintegrar nada. Estavam as caixas com pincéis, caixas com tintas, caixas com esmaltes para cerâmicas, esmaltes para metais, pedras para esculpir, madeiras para entalhar, caixas de sucata de metal, placas de metais, estantes abarrotadas de latinhas com coisas dentro delas, e pedrinhas. Caixas de pedregulhos que usava para decorar os murais. Também estava o torno de cerâmica, o forno, que pesava meia tonelada, as estantes com cumbucas de argila, era uma quantidade de materiais, que não tinha fim. A única coisa que não estava mais ali era a lavadora de roupas, pois Inês a levara para sua casa antes das gêmeas nascerem.
Aruma se encarregou de fazer voar o forno de cerâmica com psicosinesse. Também levitou o torno, a mesa de trabalho, e duas estantes. Atrás dele, as gêmeas e Aruma Júnior aplaudiam, e falavam que ele era mágico. Agora, quem raspou o chão, para puxar a sujeira dessas madeiras, foram os bailarinos. Peter colocou uma palha de aço embaixo do pé e começou a raspar e raspar até ver a cor desse chão. Em seguida, Miriam depositou cera vermelha, em duas camadas, e por último o robozinho de Eva passou um paninho para tirar o brilho.
No fim do dia, a casinha estava pronta para morar.
Peter caiu na piscina, cansado como nunca, enquanto dentro da mansão, Adão e seus garotos tentavam colocar os materiais da artista no seu lugar. Para compensar, Eva, com ajuda das mulheres da família, fez uma torta de abacaxis com cremes e coco ralado por cima, cinco pizzas de queijo com tomate e manjericão, tortas de maçãs, de morangos, de damascos, uvas, peras, e bules de chá com ervas aromáticas.
Para descontrair, quando estavam todos na mesa, Peter falava de seu giro pelo mundo e perguntava quem desejava ir junto. Marta havia gravado o concerto para ficar em casa. Jesus e Paulo eram veterinários e estavam cheios de trabalhos. Mas ainda ficavam as irmãs Sira e Nohiki. Elas bem que podiam ir junto e preparar as luzes do palco. E podiam levar os namorados.
Nohiki falou:
— Estou fora! Vou engravidar para não trabalhar em nada de nada...
Sira imediatamente articulou:
— Não conta comigo! Vou fazer a mesma coisa! Quero a licença-maternidade o antes possível...
Peter retrucou:
— E se não engravidarem? Sabem o que as espera? Ah? Nunca falou para elas, pai?
— Não! Sempre achei que estariam prenhes antes de terminar o Ginasial!
Enquanto os homens falavam, Eva ria até sair lágrimas. Diana também. Malaqui e Paulina seguravam o riso, pois as cunhadas estavam ficando apavoradas. Inês mexia a cabeça. Coitadinhas de suas maninhas. A turma de baderneiros não perdia ocasião para rir à custa delas.
Peter voltou à carga:
— O Ginasial está acabando! Vão ter que estudar uma profissão, ou, dar exame de genialidade em algum talento. Ou, sabem o quê? Ah?
Marta raciocinou para ele:
— O que pode haver de tão terrível assim? Fala logo, para que tanto mistério, cara!
— Vão ter que trabalhar! Hum... Temos para que escolham: recolher trigo, ralar mandioca, descascar o feijão, catar batatas, cortar cana de açúcar, recolher banana, ralar coco, o que mais tem, pai?
Marta falou na hora:
— Eu vou contigo nessa viagem! E todos meus músicos vão junto comigo...
Rama falou, com sua voz de pregador de multidões:
— Não seja cruel, cunhado! Eu tenho fé que no Lixeiro deve ter alguma coisa que elas saibam imitar... É só ir lá, pesquisar, fazer igual mais diferente, e mostrar para o Prefeito Alain. Com ajuda de minha sogra, elas inventam qualquer coisa bem linda, para trabalhar em casa...
Jesus, Paulo e Amon-rá riam aos berros. Eles faziam comentários entre eles, e gracejavam. Nohiki tinha uns 40 dias para descobrir um talento, ou então, ia cortar cana, ou puxar batata do chão. Fernando Júnior, que estava se preparando para estudar a profissão de lenhador, consolava-a:
— Não os escute, meu amor! Eu a acompanho para o Lixeiro... Eu sei que você é gênio... Tenho certeza que vai fazer algo tão lindo, que eles vão negociar para ter. E vamos cobrar caro na troca...
A seguir, a conversa tomou outros rumos. Tana estava se formando como Pedreiro, e estava marcando o território para fazer uma linda casinha de pedras e Aruma se oferecia para ajudar seu sobrinho. Tudo pela felicidade de Sira que com certeza não tinha nenhuma manha artística.
Depois, foram por cima de Marta. Afinal, o que é que o “namorado secreto” tinha de tão estranho? Afinal, nesse planeta havia gente bem esquisita. Marta falou bem corajosa:
— Eu conto quem é, mas se alguém rir vai levar soco! Estou avisando! Nada de piadinhas... Eu vou bater...
Jesus perguntou:
— Será que é o cabeça de coco?
— Sabia! Sabia que ele tinha apelidos! Sabia! E o soco tu vais levar... Ah, vais levar...
Sira abraçou Marta, tentando aguentar o riso, enquanto as gargalhadas dos irmãos eram gerais. O careca, ou, Cabeça de coco, ou, Pista de mosquitos, e outros apelidos engraçados, já era membro dessa família, e ninguém sabia até esse dia.
Eva e Adão olhavam tudo, secando as lágrimas. Seus filhos sempre os divertiam.
Enquanto Peter convidava seus sogros para conhecer a casa que seria o lar deles e dos netinhos, Nohiki entrava no Lixeiro para abrir caixas com porcelanas, cerâmicas vitrificadas, e cristais. Também entraram nos depósitos da Prefeitura, em busca de algo mais simples para imitar. Encontraram bandejas, cestos, pratos, panelas, e bonecos, que chegavam de outras cidades. E depois de examinar tudo, se foi escolhendo de tudo um pouco. Uma boneca maravilhosa, com rosto de cerâmica e corpo de pano. Depois cestos de fibras vegetais. E por último pegaram pratos decorativos, para as paredes, com fibras entrelaçadas. Também levaram chapéus de palhas, flores de papel, flores de panos, flores de madeiras, e até flores de conchas.
Quando Eva viu tudo aquilo, ela pensou com tristeza. Nohiki não ia conseguir fazer nada disso. Estudou os pratos decorativos com fibras e teve uma inspiração. Pediu para Fernando Júnior procurar no mato por essas fibras e uma resina bem grudenta. Fernando Júnior perguntou para mestres da Escola, e perdido entre o matagal conseguiu encontrar 5 fibras para entrelaçar e uma goma que pingava de árvores milenares.
Depois disso Eva ensinou Nohiki a fazer moldes de gesso. Eva modelou no torno quatro pratos de argila, colocou de cabeça para baixo, e mostrou a filha como misturar água ao gesso, colocar por cima, e esperar que secassem. Fizeram uns 40 moldes. Dava para fazer 10 jogos, cada um com quatro pratos em tamanhos em escala. Um para o pão, outro para sopas, um para a salada, e o prato fundo.
Difícil foi trançar as fibras. Elas cortavam os dedos. Passaram a usar luvas, e molharam as fibras com água quente para amolecer. Depois trançaram quadrados de todos os tamanhos. Eva passou cera de abelhas nos moldes de gesso, e colocou a primeira camada de resina com pincel, em seguida as fibras trançadas, novamente a resina vegetal, outra camada de fibras, mais outra camada de resina, até ficarem grossos e firmes. Depois de secas, tiraram-nas dos moldes com facilidade, cortaram as sobras com tesouras, nos contornos passaram uma lixa, resina com pincel, e foram colocando-as ao Sol para ganhar firmeza e brilho.
Foi a vez de Nohiki pintar. Como ela sabia fazer flores bem lindas, só tinha que fazer a mesma flor em cada conjunto. Eva lhe ensinou a desenhar em papel translúcido, e passar as flores com carbono. Depois que as tintas secaram, o conjunto estava acabado, e apropriado para uso doméstico. As tintas eram a base de resinas comestíveis, inofensivas à saúde das pessoas.
Finalmente Eva ensinou a filha a fazer caixas de papéis grossos, onde colocaram um conjunto de 4 pratos. Finalmente, uma fita cor vermelha, deu o toque final. O conjunto de pratos ficara pronto para dar de presente, e enfeitar qualquer cozinha desse mundo, ou de outro planeta.
Quando Nohiki chegou à Prefeitura com 5 caixas, Alain as abriu com curiosidade. Os filhos de Eva sempre o surpreendiam. O que seria desta vez? Viu os 5 conjuntos de pratos e falou:
— Mas, que coisa mais linda! Como é que você fez isso? Eu nunca vi nada tão maravilhoso!
— São fibras vegetais com resinas e tintas comestíveis. Pode tomar sopa, que elas não vão entortar. Aguentam muito bem o calor...
— Quantos conjugados me podem fazer a cada Lua cheia?
— Hum! Dá tanto trabalho, senhor Prefeito, mas eu lhe faço quatro conjuntos a cada Lua cheia. Aceita?
— Excelente, filha! Dê um abraço na sua mãe...
— Vou dar! Ela também gosta muito do senhor...
— E eu adoro! Amo! Com apenas um mural dela eu consigo 5 lavadoras de roupas...
— Nossa! Os caras desses outros mundos são bem bobinhos...
— Nada disso, minha querida, eles são cultíssimos, e a arte para eles não tem preço. Não me estranharia se escolhem seus lindos pratos... E o que é que estará faltando, para eu pedir?... Alguma ideia?
— Arroz...
— E o que é isso?
— Um grão bem gostoso... Ele é como o milho, mas ele é branco e pequenino e se planta em lugares com muita umidade...
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