Notas iniciais
Só depois disso, os veterinários colocaram vestimentas para mergulhos, com tanque de oxigênio. Nestor e sua família adentraram no mar junto aos velhos sereios, em busca de uma cidade perdida. Ao redor, todos os 600 filhos os acompanhavam, olhando com olhos arregalados os bichos estranhos que atravessavam o caminho. Depararam-se nessa viagem com tubarões gigantes com duas fileiras de dentes, baleias do tamanho de um quarteirão de “Z”, arraias assustadoras, que mais pareciam morcegos de asas abertas, e golfinhos. Os sereios adoraram os golfinhos. Eles gritavam, emitiam sons, e os sereios os imitavam, riam com eles, parodiavam, davam cambalhotas agarrados nas caudas, seguindo o rumo da peregrinação.

Depois de 50 dias voando em meio do espaço, Nestor devolveu a fertilidade a seu filho, entre quatro paredes, rindo de sua audácia. Sílvio ficou levemente doído, pois seus testículos incharam como balões. Areti passou a colocar compressas de gelo, cremes, e dava um suco de frutas na boquinha. Como a um bebezinho. Mas, assim que ele ficou forte, eles fizeram amor pelo canal da maternidade, na esperança de ter mais uma vez seus dois meninos.

Tudo nas suítes dessas naves invitava ao amor sem fim. Aromas, uma banheira admirável, que no fundo possuía encosto macio, e onde se podia fazer amor horas e horas, pois essa água morna batia contra o corpo, de maneira excitante.

Mas os assentos eróticos, próprios de toda cultura superior, eram os mais afrodisíacos. O casal podia adormecer cansados, extenuados, e dormiam até que o vaivém do assento os acordava, enquanto uma bandeja aparecia, descendo do teto, como adivinhando suas agonias. Sorvetes com cremes, frutas, tortas salgadas, tortas doces, que os nutriam para continuar na farra do amor sem fim.

Nas outras dependências, Miguel e Alexandre ficaram trancados em lua de mel, pois os filmes e documentários na televisão panorâmica eram tão reais, que dava a impressão de estar em meio do matagal de verdade. Os sons dos passarinhos e das águas dos rios lhes traziam seu mundo para dentro dessa suíte. E como um robô lhes colocava um jantar por baixo da porta três vezes ao dia, eles não sentiam necessidade de sair desse claustro maravilhoso para mais nada.

O comandante dessa expedição era Xixim, casada com Geninho, um demolidor de asteroides. Xixim dirigia um grupo de 50 navegadores, todos casados. Os demolidores examinavam a imensidão, destruindo os detritos e limpavam o caminho para que a nave jamais batesse contra um asteroide, ou um cometa descontrolado. E os pilotos navegavam sabiamente entre as galáxias. Faziam curvas perfeitas, se revezando num trabalho primoroso.

E Xixim nunca soube, como foi que ficou prenhe. Seu interior era diferente ao de Areti. Possuía uma vagina normal, de um ducto, que terminava no colo. E Geninho havia modificado a quantidade de espermatozoides, para não a engravidar, até que regressassem a casa. Ele estava estéril, por falta de espermatozoides. Mas, ainda assim, Xixim viu sua barriga começar a crescer assustadoramente.

No mundo de Xixim e Geninho tudo era diferente, pois “V de ALPHA” era uma sociedade superior muito evoluída, tanto na tecnologia como também nas Ciências em geral. Construíam cidades fantásticas, em cujos vãos os carros voavam pelo centro como águias, e havia barcos gigantes que percorriam os oceanos sobre as águas e embaixo delas. Os homens tinham vida eterna, jamais envelheciam, e havia duas profissões importantes. Viageiros ao serviço do comércio, e viajantes à serviço da ciência.

E esta empreitada era considerada uma excursão científica. O grupo de especialista que acompanhava essa expedição estava nessa missão para aprender. Sereios era algo que não existia em nenhum mundo superior, e Nestor era para eles um mestre. Escutavam-no com atenção, escreviam todas as descobertas, registravam em computadores para a posteridade, e escreviam teses de doutorado.

Mas se Nestor era um gênio para eles, para Nestor a coisa era completamente diferente. Nestor possuía desta vez maquinarias magníficas para ver o esqueleto, examinar órgãos internos e escutar o coração. Havia microscópios para analisar células, e elas ainda se podiam aumentar em tamanho, em milionésimas vezes. Os enormes aparelhos pareciam brinquedos para veterinários como eles, que trabalhavam em “Z” escutando os bichos falarem. Nestor explicava para os cientistas em redor, que em seu mundo quando um elefante ficava doente, ele perguntava telepaticamente para a besta:- Onde está doendo? e o elefante respondia:- Estou com caganeira, cara! Toda a tripulação ria às gargalhadas, pensando que ele era engraçado e sem acreditar que em “Z” um veterinário se virava só com a conversa.

E a vida entre os tripulantes foi ficando cada vez mais familiar.

Os sereios eram paparicados, examinados, alimentados com ração especial. Media-se a inteligência deles com jogos simples, e suas palavras foram registradas em livros, seus cantos foram gravados em caixas metálicas, por homens de uma cultura superior, fascinados com essa aventura.

O trabalho só ficou suspenso, quando Xixim e Areti deram à luz.

Foi uma festa geral. Cinco médicos atenderam as parturientes, que tiveram os meninos, no mesmo dia, fazendo Silvio e Geninho correr de lá para cá, mostrando os recém-nascidos para todos. Duas meninas moreninhas, olhos rasgados, iguais a Xixim, e dois rapazes loiríssimos, olhos azuis, vivos retratos de Nestor e de Silvio.

Depois que os gêmeos nasceram, Areti e Xixim começaram a ficar mais íntimas, pois passaram a conversar enquanto os maridos dirigiam essa tripulação. Levavam os meninos a nadar numa piscina, ou entravam num tanque com sereios para mergulhar, pois eles adoravam os aquários. Almoçavam juntas, sentavam no colo dos maridos, enquanto os filhos eram carregados pelos tios ou pelos pilotos que apareciam nos refeitórios. Mas quando o avô Nestor chegava, seus netos eram somente para ele. Tomava os dois no colo, beijava, e os netinhos gargalhavam fazendo biquinhos, e mexendo as mãozinhas. Na verdade, Nestor estava tão feliz, mas tão feliz, que essa viagem era o barco da alegria para ele. Silvio e Areti estavam tão felizes quanto ele, pois Moisés e Adão Júnior os haviam seguido pela segunda vez, percorrendo o Universo de ponta a ponta em sua busca. E, novamente, haviam nascido como filhos das estrelas.

E os anos transcorreram lentamente.

Outras crianças nasceram de outros casais, alegrando a vida dos adultos.

Os meninos se juntavam na piscina, que ficava lotada, bagunçando como marrecos em dia quente, enquanto os pais deixavam o tempo rolar, pois a existência no meio do espaço era assim mesmo. Vivia-se uma vida dentro de uma nave, olhando para as crianças crescerem.

O gêmeo Adão Júnior começou a namorar a gêmea Marisa, numa sessão de cinema. Deu-lhe um beijo suave, tenro, enquanto Moisés repetia a receita com Ligia, algumas fileiras mais atrás. Depois, elas sentaram no colo deles, abraçaram-nos no pescoço, pois os gêmeos eram belíssimos, e elas eram apaixonadas até a alma por eles. Aliás, elas morriam de amor por eles. E os seguiam, vida após vida.

Mas Xixim era uma mãe coruja e rígida. As gêmeas iam dormir cedo, hipnotizava-as para não sair engatinhando no meio da noite, e só começou a perdê-las de vista quando assumiu novamente seu cargo. Era seu dever revisar a rota, demarcar o rumo por cima do mapa estelar, conferir nos telescópios se estava na senda correta, e Geninho adorou estar com ela novamente no batente. Assim que ela sentava em frente as lentes do telescópio, para ver as estrelas, ele sentava embaixo dela, mordendo seu cangote. Depois que ela entregava as anotações para os navegadores, Geninho a raptava para um beco qualquer, pois era um homem de apetite eterno. Idolatrava sua mulher. Adorava esses olhos rasgados, misteriosos, esse corpinho miúdo, essa cintura mínima, e como Xixim se vestia como princesa, com penteados maravilhosos, ele era um escravo, um prisioneiro de corpo e alma em tempo integral dessa mulher perfeita. Ele só a soltava quando ela o enviava para destruir meteoritos. Ele falava: — Estou indo, chefa... e se perdia rindo, como um guri, enquanto Xixim lhe enviava beijos no ar, com a mão.

Como no espaço o tempo real não existe, o Planeta de cor verde esmeralda ficou em frente das janelas dessa nave, devagarzinho, quando os adolescentes Adão e Moisés estavam perdidos no matagal da horta, namorando suas noivas.

Entraram na atmosfera desse mundo em velocidade lenta, procurando as Ilhas maiores, pois os continentes não existiam mais. Os pilotos desceram as naves, enquanto os aquários começaram a serem removidos por cima de plataformas flutuantes. Foram levitados como uma folha ao vento, por Geninho e os demolidores, saindo dessa nave lentamente, chegando perto dessa água, e descendo em meio às ondas. Em seguida, os aquários foram desintegrados. Todos os sereios foram arrastados com força para as profundezas, como sugados por uma mãe com um abraço caloroso.

As primeiras horas foram de folia plena entre os sereios, pois o mar era excitante. Batiam contra as ondas, surfavam nelas, davam cambalhotas, era uma festa sem fim. Os tripulantes, junto com as crianças, tiraram a roupa e caíram no mar junto com eles, pois ver a natureza depois de anos fechados numa nave, era uma delícia. Bastante creme hidratante, principalmente nos menores, para suportar esse choque violento contra o ar e a luz do Sol.

Depois da festa no mar, Nestor pediu aos sereios ficar perto da praia durante à noite, e montou um acampamento com lonas, camas infláveis, e por último fez a fogueira. As mulheres tiveram que dançar e os homens também, e desde o mar os sereios os acompanhavam batendo palmas, com o faziam durante as festas, nas casas onde cresceram.

Nestor e seus filhos deixaram os sereios ficar nessa praia durante muitos dias. Examinaram-lhes a pele, periodicamente, pois haviam crescido em águas doces de um lago. Procuraram anomalias, examinaram as guelras, garganta, em busca de infecção, mais eles estavam adaptados. O sal não lhes fazia dano algum. Ao contrario, a pele estava mais dura, os olhos com um cristalino limpo como nunca, e os cabelos das mulheres brilhavam ao Sol quais enfeitados com luzes. Alem do mais, as algas marinhas estavam ali pertinho, ondulando entre rochas, com uns banquetes deliciosos. Xixim fez um ensopado dessas algas com batatas, cenouras, cebolas, alhos e ovo mexido, que todo mundo adorou. E os sereios as comeram ao natural. Rindo felizes.

Só depois disso, os veterinários colocaram vestimentas para mergulhos, com tanque de oxigênio. Nestor e sua família adentraram no mar junto aos velhos sereios, em busca de uma cidade perdida. Ao redor, todos os 600 filhos os acompanhavam, olhando com olhos arregalados os bichos estranhos que atravessavam o caminho. Depararam-se nessa viagem com tubarões gigantes com duas fileiras de dentes, baleias do tamanho de um quarteirão de “Z”, arraias assustadoras, que mais pareciam morcegos de asas abertas, e golfinhos. Os sereios adoraram os golfinhos. Eles gritavam, emitiam sons, e os sereios os imitavam, riam com eles, parodiavam, davam cambalhotas agarrados nas caudas, seguindo o rumo da peregrinação.

Do ar, uma pequena nave dirigida por 5 pilotos os acompanhava, rastreando a vida submersa, em busca de algum indício de vida de outros sereios.

Finalmente, Nestor e sua família chegaram às ruínas de uma antiga civilização. Uma cidade que outrora fora magnífica, com castelos de rochas, jardins de anêmonas, casas pequenas, onde os sereios adultos se perdiam dos olhares alheios, para gerar seus filhos.

Em meio da cidade, estava uma coluna de pedras cuja altura atingia a superfície. Lá em cima havia uma pequena ilha, com grandes pedras, onde os sereios tomavam Sol, namoravam, cantavam, e brincavam no meio das ondas.

Cansados, todos eles regressaram novamente para descanso.

Em dias seguintes, para reiniciar a busca, os pilotos trouxeram uma nave para Nestor. Era um submarino, com duas cabines. A cabine da frente possuía ar, enquanto a cabine posterior era sem janelas, com a água do mar entrando e saindo. Nestor sentou na frente junto aos pilotos, e o casal de velhos sereios sentou atrás, desta vez a fêmea sentada no colo do macho. Ambos estavam tão felizes que se beijavam o tempo todo. Era um sonho. De volta em casa, reconhecendo cada lugar desse mundo aquático.

Ana e seus filhos ficaram na praia nadando, mergulhando, catando pérolas brancas de ostras gigantes, com os 600 sereios jovens, enquanto Nestor percorria as profundezas do mar sozinho desta vez. E a viagem ia ser longa, pois esse mar era sem fim. Um oceano só, tomando conta de todo o planeta.

E a festa nessa praia reinou!

Natália e Zezé tocavam tambores ao entardecer, Ana e Areti rebolavam, Xixim as imitava, Marisa e Lígia mexiam os ombros, e riam até engasgar, e Adão Júnior e Moisés batiam palmas. Os sereios saíam da água para cantar, bater palmas, pois adoravam fazer festas com os humanos. Afinal, tinha aqueles que eram filhos da gangue. Os piores pais do mundo. Só deram maus exemplos para os sereios.

Quando Silvio e seus irmãos ficavam cansados dessa vida selvagem, subiam para a nave pelo raio branco, sempre aceso, como um elevador que catava os pilotos. Dentro da suíte caíam na cama, dormiam, e nos dias seguintes desciam na ilha para correr pela praia como crianças. Mergulhavam, gritavam para os sereios perguntando se havia algum doente, e quando chegava alguém o examinavam, medicavam, sempre rindo, pois os sereios contavam histórias engraçadas. As feridas eram porque um caranguejo os mordera na bunda, ou um molusco fechou quando estavam puxando pérolas, e tinha os que lutavam contra os tubarões.

Xixim e Geninho olhavam para Ana de longe, costurando feridas, ou para Natália numa competição de surf, com sereios tão baderneiros quanto os humanos. Quando Natália caía no meio das ondas, os sereios a resgatavam e levavam para a praia, e a faziam expelir água dos pulmões. A respiração boca a boca era comum, e só parava quando Miguel chegava para dar bronca.

E o marido Geninho foi pouco a pouco esquecendo que isso era uma viagem científica e entrou junto na brincadeira. Trouxe da nave barcaças de remo, pranchas com motor, motos aquáticas, pranchas de Wind surf, boias, coletes salva vidas, iates, e entrou no mar com as filhas, os genros e os amigos. Afinal, havia 600 sereios cuidando dos humanos desta vez, para que ninguém se afogasse em meio das ondas. Os homens só gritavam: — Cuidado com a respiração boca a boca, pois sou ciumento...

Nestor demorou em voltar, pois esse mundo era gigante.

Trouxeram junto com eles 5 colônias perdidas de sereios, velhos que não procriavam mais, e que esperavam morrer como os últimos espécimes de uma raça submarina em extinção. Eles eram enrugados, cabelos bem brancos, falavam uma língua que ninguém entendia, mas dava para adivinhar que uma vez no passado, humanoides desse mundo os comeram como peixes, aos milhares.

Mas todos esses homens carnívoros estavam extintos. O mais incrível é que nunca souberam o motivo da morte em massa da humanidade. Parece que uma toxina dos sereios os disseminou, numa batalha onde não houve vencedores.

Desta vez, Geninho desceu todos os aparelhos médicos para essa ilha e um tradutor de línguas mortas. Um medalhão que Nestor e seus rapazes penduraram no peito, junto aos sereios mais adultos. Enquanto isso as mulheres veterinárias estudavam com o estetoscópio todos esses velhinhos aquáticos.

Aos sereios impotentes, Miguel lhes injetou uma medicação afrodisíaca, que devolvia a energia da libido. Alessandro lhes trocou seus cristalinos cheios de cataratas por uma lente especial, numa cirurgia rápida, ajudado pelo Sílvio que os anestesiava. Ana iniciou uma dieta alimentar, que deviam comer todos os dias. Uma colher de mel de abelhas enriquecida com afrodisíacos, pimentas, cebolas, pimentões, tomates. Enquanto isso, Zezé e Natália lhes passavam cremes no corpo para fortalecer a pele e Areti os tratava como crianças. Ela lhes fazia massagens de relaxamentos, acupuntura, contando-lhes que todos eles haviam cruzado o Universo para ajudá-los.

Os sereios senis pouco a pouco ficaram mais lindos e felizes.

Outros sereios em redor se encarregaram de lhes ensinar outras coisas. Dar beijos com língua, e a sereia mãe levou as mulheres para um lugar longe, e lhes ensinou a beijar. As velhas riam. Como o tradutor de línguas traduzia as conversas, falar sobre amor as trouxe de volta à vida.

Nos dias subsequentes, essa ilha e suas praias foram tomadas pela loucura.

Nestor e seus filhos devolveram a fertilidade a uns 100 sereios jovens e cheios de energias, que queriam ter filhos. Nestor explicava que iam ter que carregar as crianças no colo de dia e de noite, pois os tubarões iam estar sempre perto. E Ana desenhou um carregador de bebê para sereio. Os robôs correram a costurá-los, com tecidos artificiais, que não apodreciam dentro da água. Para ajudar na empreitada, Xixim e os pilotos lançaram redes de proteção em redor dessa cidade submersa, para que nenhum tubarão devorasse os filhotes. As baleias que nadavam perto da ilha as içaram no ar, e levaram para muito longe.

Dali em diante Nestor examinava as sereias grávidas que chegavam à Ilha enquanto Sílvio, Miguel e Alessandro mergulhavam com suas esposas em busca de outras sereias grávidas, para ver se estavam passando bem. Quando todas elas deram à luz, Nestor também estava mergulhando, pois elas quiseram ter seus filhos na cidade submersa.

E foi durante o nascimento desses sereios pequeninhos, que uma nave inter-espacial vinda de “A de BETHA” chegou nesse mundo, surpreendendo a todos.

Ela posou numa outra ilha, e vieram pelo mar, ao encontro de Xixim num barco pequeninho. O Comandante dessa outra missão era Moisés Beto, com sua esposa Séfora Bela, com a incumbência de erigir uma cidade submersa para esses sereios, que os protegessem de todos os bichos matadores do mar. Junto com eles chegaram 10.000 construtores de “I de BETHA”, com material pronto para essa missão.

A seguir, Moisés Beto mostrou a maquete para Xixim e Geninho, que a acharam maravilhosa. Era uma maravilha da engenharia de um mundo superior. Em seguida, Xixim convidou Moisés Beto e Séfora Bela para mergulhar, para conhecer os veterinários que cuidavam dos filhotes, e dar parturientes no fundo do mar.

Nestor viu Moises Beto de longe, e se disse a si mesmo — eu o conheço... Mas deixou o interrogatório para mais tarde, e mostrou para ele a cidade destruída, com certeza por humanos ambiciosos, num passado muito distante. Como estavam em correntes quentes, as baleias eram escassas nesse lugar, mas os tubarões eram milhares. Todos eles se debatendo contra as redes de proteção, numa tentativa em vão, de comer os bebês.

Uma vez fora do mar, os construtores mostraram para Nestor a maquete explicando que desejavam cavar uns cinco mil metros embaixo da superfície do mar, abrir um buraco como em Atlântida, cheio de água salgada desta vez, e tampar a entrada com malhas de aço, por onde só entraria peixe pequeno. Plantariam tudo que os sereios comiam dentro dessa cidade, e as casas seriam como as dessa cidade destruída. Iguais. Pedras e rochas formando pequenos casebres submarinos. Em redor das casas, se colocariam plantas, flores, como um jardim embaixo do mar.

Nestor disse que o perigo era iminente quando nasciam os filhinhos. Como adultos, eles se defendiam bem de um tubarão, portanto, pediu para recuperar também a antiga urbe, e iluminá-la com focos de luz.

Outro construtor, ao lado deles, falou que uma cidade como Atlântida seria pequenina para eles, melhor era construir duas. Nestor não se conteve na sua curiosidade e lhes perguntou:

— Vocês estudaram sobre Atlântida, onde? Na biblioteca da Universidade?

Um engenheiro alto, musculoso, moreno, respondeu-lhe:

— Eu sou Abel, fui eu que a construí. Por quê?

— Eu sou Nestor, o irmão de Adão... Depois da destruição de Atlântida, os desalojados e flagelados foram todos para meu planeta a estudar...

— Puxa, cara... E a gente nunca se conheceu... Dá-me um abraço... E como está Adão?

— Cheio de filhos... Nesta encarnação teve até os meus... Nesta vida presente, eu sou tio-pai de meus trigêmeos.

Moisés Beto perguntou:

— Não estarão falando de Adão da Terra? Adão e Eva?

Abel respondeu:

— Claro! Mas, como é que tu sabes dele?

— Eu era aluno de Lemúria, quando a cidade sucumbiu nesse terremoto terrível, e na minha segunda reencarnação na Terra eu fui o Profeta Moisés!

Abel e Nestor perguntaram o que significava ser Profeta. E Moisés Beto demorou mais ou menos uma hora contando de seu ministério. Depois pensou em Zaratustra, seu melhor amigo, lembrou-se do mestre Abraão, e falou que sentia tanto não ter conhecido os Profetas Jesus e Paulo.

Sílvio, Miguel e Alessandro, com as esposas ao lado, caíram na gargalhada em coro. Depois, lhe perguntaram se conhecera Amon-rá. Quando Abel lhes contou que ele fora Rei do Egito, riram ainda mais alto. Não lembravam mais disso. Abel contava que Areti, a irmã caçula, nascera em meio de escravas egípcias, e quando Amon-rá casou com sua mulher, ele chegou a Lemúria vestido de faraó. Abel não poupava detalhes dessa vida passada vivida na Terra, fazendo rir todo mundo, pois o passado tem o poder do esquecimento, e cada vez que se trai para o presente, ele vem cheio de lembranças doces e felizes.

Depois os trigêmeos perguntaram por Inês, Sira, Diana, Peter, e Abel só não soube dizer quem é que era a Sira. Areti olhou para Abel e lhe perguntou se a reconhecia.

— Não, você estava lá?

— Claro... Eu sou Areti...

Abel abraçou-a emocionado, quase chorando.

Contou-lhe que ela fora bem negra, e que um dia saiu atrás de seu primo Sílvio, para o mundo de Nestor. Só então percebeu que Sílvio estava ao seu lado, rindo fazia tempo, junto a Zezé e Natália, filhas da África. Ele os abraçou a todos, emocionadíssimo, pois a surpresa estava sendo incrível. Se reencontrar no outro lado do Universo, após milênios, era demais para seu coração. Eram pequenas surpresas que “00” lá no alto gostava de dar aos amigos que se amavam de verdade.

O último a entrar na conversa fora Geninho, que ouvia tudo com atenção. Sílvio era Sílvio? Seu comandante de guerra? Areti era Areti? A viúva de Sílvio? Nestor lhes disse que eles haviam ido para uma guerra. Onde, não sabia dizer. Mas para Geninho tudo se encaixava, como uma miragem. O amor de Adão Júnior e Moisés pelas gêmeas. Era lógico. Todos eles estiveram na mesma guerra, e agora “00” os estava juntando, mais uma vez, para os gêmeos continuar a vida juntos as mesmas esposas.

Geninho abraçou Sílvio e chorou que nem guri. Xixim abraçou Areti, enquanto as lágrimas escorriam. Ela até desfez sua maquiagem.

Depois Geninho contava para todos que Sílvio havia caído morto decapitado, e que Areti havia tomado seu lugar, guiando os guerreiros à vitória final. Depois, foi tudo bagunça. Geninho era o único que lembrava detalhes dessa guerra terrível de vidas anteriores. Miguel nem sabia que fora viúvo, e que chorara que nem guri pela Natália. E todos os detalhes os faziam rir, ou chorar, como uma família que se junta mais uma vez para matar saudades.

Depois de dias de conversa, a construção das cidades começou.

Notas finais
O último a entrar na conversa fora Geninho, que ouvia tudo com atenção. Sílvio era Sílvio? Seu comandante de guerra? Areti era Areti? A viúva de Sílvio? Nestor lhes disse que eles haviam ido para uma guerra. Onde, não sabia dizer. Mas para Geninho tudo se encaixava, como uma miragem. O amor de Adão Júnior e Moisés pelas gêmeas. Era lógico. Todos eles estiveram na mesma guerra, e agora “00” os estava juntando, mais uma vez, para os gêmeos continuar a vida juntos as mesmas esposas.