Notas iniciais

Abriu os olhos com força, como se tivesse acordado de um pesadelo, levantou a cabeça e olhou para onde conseguiu olhar, de algum modo não conseguia mexer direito seu corpo sem sentir dor, era uma espécie de exaustão, estava quase impossibilitado de ver o que tinha do outro lado.
“O que está acontecendo? Onde eu ‘to? Meu Deus.” — pensou apertando o travesseiro. — “Jerry, respira, vai ficar tudo bem.” — da cintura para baixo tudo doía mais do que qualquer coisa, sentia como se tivesse levado facadas nas pernas.
Tocou nas partes baixas e notou que a única coisa que usava era uma cueca, pelo menos usava alguma coisa.
Respirou fundo, tomaria coragem para ver quem estaria do outro lado daquele largo objeto, e com esforço, virou para o outro lado.
Lá estava Tomas, dormindo tranquilamente ao seu lado, os cabelos pretos caíam sobre sua face bronzeada. Quase morreu.
Em menos de um segundo lembrou-se de tudo o que acontecera a noite passada, o susto/pânico foi tão grande que caiu da cama, levando o coberto em que estavam embrulhados junto, não foi uma queda agradável.
No momento se preocupou mais com o barulho do que com a dor, será que ele acordara? Prendeu a respiração em desespero.
Ficou alguns segundos parado e então espiou um pouco para ver se o maior havia ou não acordado, este havia apenas mudado de posição, estava de costas para o loiro.
Levou um susto maior ao ver as costas dele, estavam completamente arranhadas, marcas vermelhas, entretanto, o que chamava atenção era a grande tatuagem no local, uma caveira que parecia sorrir de modo assustador, os olhos tão vermelhos quanto rubis.
Nunca soubera daquilo, ficou chocado com a descoberta, como os pais dele haviam autorizado aquilo?
Seus pensamentos foram interrompidos por batidas na porta do quarto, se jogou furtivamente no chão e se enrolou no cobertor. Avistou algumas peças de Tom daquele lado e com rapidez jogou em cima dele, então calou-se, tremendo e corado, sem saber o que fazer.
— Alôôô, bom dia, flores do dia, quem estiver aí dentro, coloca a roupa e vaza, são sete da manhã, preciso arrumar a casa. — era a voz de Spike. — Se pudessem me ajudar, adoraria.
Ouviu movimentos, ele acordara. Seu corpo congelou, ele ia lembrar, ia falar que tinha “comido” Jerry e o ia zoar pelo resto da vida. O que faria? Queria morrer, explodir.
Então ouviu:
— Spike? Caralho, o que aconteceu ontem, mano? Tô só de cueca. — resmungou o adolescente ainda sonolento. — Sei que rolou um monte de coisas, mas depois da Toodles... puf, tudo escuro. Eu transei com ela?
— Há! Tá perguntando pra mim por que? Quem tá no quarto trancado é tu. — sua voz era abafada pela porta.
Como ficaram em silêncio, adivinhou que ele deveria procurar por alguém.
— Não tem ninguém aqui não. — concluiu, parecia estar se vestindo.
— Eita, porra. Se bem que vi ela saindo da festa uma da manhã, parecia meio desiludida, hahah. — deu uma leve batida na porta. — Ei, vai me ajudar?
— Tá, sem problemas. — sua voz ainda soava confusa.
Passaram-se alguns poucos minutos que mais pareceram horas até o moreno ir embora dizendo:
“Me sinto muito revigorado hoje.”
Por que seria, não?
Conseguiu respirar normalmente só quando se foram, nesse momento pegou suas roupas em busca de seu celular.
Seus olhos marejaram ao lembrar da noite anterior, apertava o celular com força enquanto digitava um número desconhecido.
“Foram cinco vezes... cinco... só não fizemos mais porquê o pessoal começou a fazer mais silêncio.” — pensou choramingando enquanto revivia cada momento, foram tomar uma ducha, riam conversando sobre o que iam fazer.
O telefone chamava e seu coração apertava, por que tinha uma sensação de felicidade ao pensar naquilo? Odiava Tomas.
— Alô?
— Alô! — quase gritou, se auto repreendeu no mesmo instante. — Alô, alô, Butch, me ajuda, eu preciso muito que você me ajuda.
Butch era o seu melhor amigo, um jovem alto e extremamente branco, os cabelos tão pretos que faziam reflexos azuis por conta da tinta que usava, sempre estava com ele quando precisava, e agora era um momento.
Colocou suas roupas cuidadosamente para ninguém vê-lo ou ouvi-lo, depois sentou em um cantinho, um tanto depressivo.
Lembrou do momento em que Tom o presava contra a parede de modo prazeroso enquanto estocava em seu interior, mantinha a orelha perto de sua boca, para conseguir ouvir cada mínimo som que Jerry soltasse enquanto agarrava-se aos ombros largos dele, ele era tão forte...
Seu corpo inteiro se arrepiou e teve de conter uma ereção, não conseguia acreditar em si mesmo.
Um tempo passou e ouviu uma buzina, nesse momento abriu a janela, avistou o carro, pulou ela e saiu correndo em direção ao veículo.
Entrou desesperado e saíram em seguida, o loiro ofegava e sentia como se fosse morrer de dores, havia se forçado demais para alguém que nem conseguia andar direito.
— Butch, eu te amo, é sério, muito obrigado mesmo. — agradeceu em meio aos intervalos para respirar.
— Relaxa, não foi nada. — respondeu, sua voz era máscula de um jeito diferente, Jerry adorava isso, o relaxava de verdade. — Vamos para a minha casa ou quer que eu te deixe na sua?
— Para a sua, vou ter que mentir para a minha mãe dizendo que dormi na sua casa. — choramingou.
— Eeei... o que você fez dessa vez? Não costuma mentir para os seus pais.
— Fiz a maior merda da minha vida. — respondeu coçando o pescoço.
— Hmm, estou vendo. Dormiu com quem? Tomas?
— S—
— C-Co-Como sabe? — atropelava as palavras com o desespero.
— Os chupões. Maxilar, pescoço, ombro, onde será que tem mais? — riu entre dentes. — Como foi a maior merda da sua vida, creio que tenha sido com Tomas... E se eu tivesse ido, teria sido eu? — murmurou a última oração.
— Q- Que?! — indagou tentando esconder as marcas.
— Nada.
Não sabia onde enfiar sua cara, a vontade de explodir atingira o seu nível máximo, Butch descobrira seu segredo em menos de 2 minutos, o que falara para a sua mãe?
O louro se encolhera no banco e ficara ali durante todo o trajeto até a casa do amigo, quando chegaram, desceu do auto móvel um tanto vacilante.
— Está tão difícil de andar assim? — debochou — Quer que eu te carregue?
— Não precisa. — retrucou um tanto mais sério, como se quisesse transmitir masculinidade.
Entraram e não viram ninguém, se dirigindo logo para o quarto do maior, chegando lá, já começou a tirar a roupa, pretendia tomar um banho.
— Que putaria é esse aqui no meu quarto? Se contenha, loirinho. — disse observando todo o corpo do menor.
— Hahahah, não vai se importar se eu tomar banho, né? — riu pela primeira vez enquanto pegava até mesmo a toalha do amigo.
No instante em que se olhou no espelho, que viu cada uma das inúmeras marcas, seu coração bateu mais forte. Deveriam ter mais de 12... só na parte da frente. Virou-se de costas, mais 6.
Estava perdido em pensamentos quando ouviu:
— Caralho, ele fez o que? Usou um aspirador de pó em você?
Fechou a porta com força. Se parasse para pensar, ainda conseguia se lembrar e sentir cada beijo, cada toque, cada suspiro. Sabia como arranjara cada uma daquelas marcas.
— Rolou sadomasoquismo também? — o moreno perguntou com voz risonha.
— Cala a boca!
Entrou no chuveiro aos risos do outro, não sabia como encararia Tom dali pra frente.
Esfregou com força a esponja em seu corpo, mesmo com a dor, estava decidido em se livrar daquelas sensações. Passou cerca de 25 minutos naquela brincadeira, com o chuveiro desligado, claro, se importava com o planeta.
Quando saiu, estava só de toalha, não queria por aquelas roupas de novo.
— Butch... me empresta umas roupas, por favor... — implorou se jogando na cama, derrotado.
— Tu és um anão, minhas roupas nunca caberiam em ti. — falou observando-o calma e fixamente.
— Tem quem ter alguma coisa velha, sei lá! — reclamou, nem se importava mais com comentários sobre sua altura, as garotas ou garotos com quem tinha ficado nunca reclamaram. — E a culpa não é minha se você é apavorantemente alto.
— Hahahah, tá bom. — ironizou.
Após roupas novas vestidas, desceram para comer alguma coisa, mas antes Jerry ligou para sua mãe. Parecia desesperada, até ouvir a mentira de que o filho dormira na casa do melhor amigo, alguém que conhecia, que era calmo e confiável, nunca faria mal a ninguém.
Sentaram-se na mesa e o mais alto serviu as coisas. O loiro começou a pôr leite dentro de seu copo, entretanto em seguida empurrou para frente, desistindo de beber.
— Acho que vou ficar um tempo sem beber leite. — sua expressão era de nojo.
Demorou alguns segundos para juntar os pontos, mas quando entendeu, começou a rir, e a rir muito, segurou-se na mesa em busca de ar, chorava.
— Para! — praguejou — Isso é maldade! Não consegue imaginar como estou me sentindo?!
— Na verdade não, sabe, eu não fico liberando pros garotos que não gosto. — respondeu sem vergonha, costumava ser assim, falar o que pensava.
O pequeno se calou, queria chorar, não sabia se estava arrependido ou não com o que havia feito com o outro rapaz, o que deveria fazer? Contar para ele não parecia uma opção muito viável. Enxugou rápido uma lágrima e começou a preparar sua refeição.
— Ei, cara, desculpa, viu? Foi sem querer, juro, desculpa.
— Relaxa.
A relação dos dois era calma, então quando algo conturbado aparecia, o outro tentava rapidamente apaziguar.
Ficaram um tempo em silêncio e então voltaram a conversar, jogando conversa fora, até a hora do baixinho resolver ir embora.
Chegando na porta da frente, suava frio, entraria rápido, fugiria de olhares e correria para o seu quarto. Mas ele era um ferrado na vida. No momento em que abriu a porta, deu de cara com a mulher, que coincidentemente passava por ali. Olhou para ele.
— Querido! Bom dia! — abraçou-o com força e beijou sua cabeça em diversos lugares. — Como foi a festa? Não fez nenhuma besteira, bem como prometeu, né?
— S-S-Sim. — gaguejou nervosamente, realmente não fora educado para aquilo.
— Jerry... vamos para o seu quarto.
Pronto, ela já tinha descoberto, ele se conhecia, sabia que contaria tudo, mesmo que não quisesse. Subiram as escadas, queria fugir, tudo o que passava pela sua mente era métodos de fuga.
— Sente aqui. —indicou a cama, já sentada na mesma. — Querido, sabe que pode contar tudo para mim, já que não se sente à vontade contar essas coisas para seus irmãos. — respirou fundo — Agora, o que são essas marcas?
— Na-Nada... — pôs as mãos no pescoço, com intuito de esconder, o problema era que, quanto mais tentava esconder, mais aparecia.
— Tire a blusa.
— Não! — implorou.
— Ti-re.
O que mais poderia fazer? Teria que contar por bem ou por mal, ela sabia da sua rivalidade entre ele e Tomas, como reagiria? Tirou o pano.
Teresa — sua mãe — olhou cada uma, tocando e empurrando algumas, para ter certeza que não eram machucados, estava anormalmente séria. Olhou suas costas, parou um tempo, o loiro ia falar, e foi nesse momento que ela lhe desferiu um tapão na cabeça.
Gemeu de dor, aquilo fora extremamente repentino.
— Não foi essa a educação que te dei! — começou a estapeá-lo, nervosa, sentia-se muito envergonhada, sua face avermelhara-se. — Quantos foram naquela maldita festa?! Quatro? Cinco?
— P-Pare, mamãe, me desculpa, desculpa! — encolhia-se na cômoda, escondendo a face. — Eu juro! Não foi na festa! F-Foi só um! — ela não parava, não via outra opção, teria que falar. — E-Eu fiz com o Butch! Quando fui para a casa dele a-acabou rolando, me perdoa!
Ela parou.
— Butch. O seu amigo Butch? — cobriu os lábios. — Nunca imaginei que ele fosse o tipo de rapaz que faria essas coisas.
— Até alguns segundos atrás você não parecia o tipo de mulher que espancaria o filho. — respondeu — O mundo dá voltas, não é mesmo?
Ela sentou-se ao seu lado ainda aparentando choque.
— Bem... er... vocês usaram preservativo?
— Sim, mamãe.
— Está tudo bem com você? Usou aquele ajudante que eu e seu pai lhe demos? — o adolescente assentiu. — Ótimo. Ele lhe machucou? Você deixou ele fazer tudo? Você sabe que se não tiver concedido antes, tempos que falar com alguém, certo?
— ‘Tá tudo ótimo, mãe! Eu ‘to bem! Você pode me deixar sozinho? — perguntou nervoso, se perguntava o que seria de sua vida.
— C-Claro, como quiser. — gaguejou levantando-se e correndo para fora do quarto.
Vendo-se sozinho, se encolheu debaixo do cobertor, quieto e agora com a dor dobrada, lembrou de algo que não queria.
“— Jerry... eu estou falando com você agora, mas depois que eu dormir, não vou lembrar de nada.
— Claro, porque você ‘tá extremamente bêbado.
— Pense pelo lado positivo, senão tivesse feito isso, não estaria aqui.
— Talvez... — admitiu envergonhado.
—Então, por favor, me lembre. — sorriu. —Tenta me lembrar, tá? Por favor, eu quero lembrar.
Respondeu ao pedido com o silêncio, não saberia o que responder, se gostaria de lembra-lo no dia seguinte.”
Enfiou a cara no travesseiro e gritou, em seguida pegou o celular, precisava contar o que tinha feito para o seu melhor amigo.
“Jerry, tudo bem?
— Não, não! Nada bem. Butch... eu...
“O que você fez dessa vez?”
— Eu... eu falei que a gente transou. — choramingou de um jeito que parecia pedir por perdão.
Não teve resposta, ele ficou calado, nada podia ser ouvido do outro lado da linha.
— M-Minha mãe estava me batendo, e eu senti que se eu falasse com quem eu tinha dormido, ela poderia me expulsar de casa durante sei lá, umas duas semanas.
Mais silêncio, até finalmente ouvir.
“Ela não falou nada?
”
— Ela... — engoliu seco — gosta de você, só ficou um pouco chocada. Mas pode relaxar, quando ela se acalmar eu vou falar a verdade.
“Tudo bem, se quiser, pode deixar assim.”
— Butch...?
O telefone foi desligado. Olhou para a tela, ele tinha desligado, a ligação não tinha caído.
Resolveu que tinha que dormir mais.
– * -
Por mais incrível que pareça, só acordou no dia seguinte, com preguiça de levantar, com fome e uma vontade de morrer ainda maior, não queria se encontrar com certas pessoas.
Já tinha dormido o dia passado inteiro, se ainda faltasse a escola, passaria a estudar em casa. Jogou-se no chuveiro gelado para tentar acordar — quase morreu —, estava ensolarado, mas foi obrigado a pôr uma blusa de gola e manga comprida, além de ter que usa a maquiagem de Teresa para esconder o chupão do maxilar, não pôde deixar o cabelo em pé por conta de uma marca na nuca que a gola não escondia.
— Bom dia. — resmungou quando chegou à mesa.
— Bom dia! — responderam em uníssono. O irmão mais velho falou: — Estou indo para a faculdade de carro, quer que eu te deixe na escola?
— Por favor.
John era seu irmão do meio com 20 anos, se davam muito bem, mas não bem o suficiente para contar qualquer coisa sem exceções, quem era realmente próximo era o mais velho, Carl, com 26 anos, advogado, casado com uma inglesa, morava no outro país. Não se viam muito.
Após o café da manhã, fez algumas rápidas coisas e então foram para o veículo.
— Está diferente hoje, J. Por que está usando uma blusa dessas? Não sente calor
?
Cansado de tentar explicar, pegou a barra da veste e subiu, deixou o mais velho ver tudo, depois virou de costas, calado durante todo o processo. Olhou para o seu rosto, estava um pouco vermelho.
— É a vida. — anunciou colocando o cinto. — Vamos?
— Vamos.
Seu irmão parecia um pouco desconfortável, era um tanto tímido, diferente dele.
— Foi um...
— Rapaz. Butch.
Ficou ainda mais vermelho, como se o fato de ser Butch deixasse tudo muito mais bizarro, talvez todos esperassem que o moreno fosse hétero, bom, pelo o que o louro sabia ele gostava de garotas, mas os outros não podiam saber.
— Estão namorando?
— Nop. Você namorou com todas com quem transou?
— Foram duas, e sim.
— Afe, tá, desculpa. Não estamos namorando, quem sabe um dia? Até mais. — saiu logo do carro assim que chegaram. — Eu te amo.
— Também te amo.
Correu para dentro do colégio, evitando olhar para os lados, sabia que Tomas costumava ficar do lado de fora conversando com seus amigos.
Já começava a sentir calor, mesmo que ainda fosse cedo, via as pessoas com roupas frescas, algumas o cumprimentavam animadamente.
— Ah! Te achei!
Petrificou no lugar em que estava, sentiu uma forte pressão contra seus ombros, como se pulassem em cima dele, e parou. Era o seu amigo, conhecia bem aquele cumprimento.
— ... Bom dia.
— Dia! Como vai? — perguntou com um largo sorriso no rosto e a pontinha do cabelo presa em o que deveria ser um rabo de cavalo.
— Bem mal, hoje é segunda, minha família não sabe o que pensar de mim, bom, eu supero.
— Sobre esse assunto, você contou mesmo aquilo para a sua mãe? — Jerry assentiu e o outro corou um tanto. — O que... ela falou sobre os chupões?
— Nada, só ficou chocada, nem consigo imaginar o que ela pode estar pensando. — comentou. — Sinto vergonha só de pensar em qual é o novo conceito dela sobre você. Você é assim na cama, Butch?
— Depende. Hahahah, mentira. Não estou muito lembrado. Sabe, não sou igual a você, que já deve ter ficado com 20 garotas só esse ano.
— Aai, me deixa ser feliz.
— Sua felicidade é competir para poder ver quem é o melhor em qualquer coisa com o garoto que odeia e com quem transou? Estranho conceito de felicidade, realmente estranho. — indagou sério.
— Vamos... — o loiro respirou fundo — ... vamos para a sala. Cara, você tem estado muito estranho ultimamente.
Foram andando e o mais alto passou o braço pelos ombros do outro, riu como se nada tivesse acontecido.
— É porquê gosto de você, e talvez assim você pare de fazer essas coisas desnecessárias. — sorriu entre dentes de novo.
– * -
Quando Tomas entrara na sala, Jerry encarou a parede, só para ter certeza que seus olhos não e encontrariam, passado 1 minuto — tempo que estipulou ser o suficiente para o rapaz chegar em sua cadeira — voltou a olhar para a frente.
Lá estava ele.
Jogou-se levemente pra traz com o susto, os olhos verdes brilhantes o encaravam arduamente.
— Você foi na festa? Não lembro de quase nada, porque estava muito bêbado.
Não sabia o que falar, seu corpo começou a esquentar, sua face ardia, sentia-se indefeso de um jeito assustador. “Fala logo!”, foi o que disse para “acorda-lo”.
— Fui! Eu fui sim. — respondeu, seu olhar escapou até o melhor amigo do outro lado da sala, ele o observava.
— A gente não fez nenhuma merda, né? Só pra ter certeza. — “não” — Ai, que ótima, valei, e, cara, qual é a dessa blusa? Tá mais idiota que o normal?
— Sai daqui, seu escroto. — empurrou sua cocha com o pé, se esforçara muito para dizer aquilo.
— E o cabelo, não tá em pé? Que loucura. — riu mexendo com o outro — Mas, sério, não sabe nada que eu possa ter feito na festa não? Eu tenho a impressão de que foi a melhor noite da minha vida, tento imaginar o porquê...
Aquilo era mesmo real? Segurou a gola da camisa com força, ia lhe contar, entretanto desistiu no último segundo. Queria contar, mas como conseguiria fizer algo tão vergonhoso para alguém como ele? Alguém nojento, chato e irritante com ele. Por quê? Por quê seu coração batia forte querendo beijá-lo de novo?
— J-Já falei que não! — olhou para suas pernas ao falar aquilo, pois notou que o que mais queria era contar tudo para ele.
Era brincadeira, né? Uma noite juntos foi capaz de fazer Jerry se apaixonar daquele jeito? Impossível de acreditar.
Então seus pensamentos foram interrompidos por um comunicado.
— Pessoal, o que estão esperando? Agora é Educação Física.
Pulou da cadeira empurrando Tomas, achou super esquisito o horário ter mudado do nado, contanto, tirando os dois de perto um do outro, estava maravilhoso.
Foi logo para a quadra, encontrou seu professor lá.
— Bom dia, J. — cumprimentou o homem só com a cabeça. —Educado como sempre... bom, na festa, não fez nenhuma besteira, fez?
— Claro que não!
— Então por que não vai fazer aula?
— N-Não estou me sentindo bem. — se colocasse a roupa da respectiva aula, todos veriam os chupões, isso não seria legal. — Por favor, me deixe apenas assistir. —implorou
— AH! Tá, tudo bem! — nem tentou mais argumentar, apenas pôs o apito na boca e soprou com força, fazendo assim um barulho estrondoso. — ‘Bora, galera, não tenho o dia todo! Todos aqui em um minuto, estamos entendidos? — gritou para os vestiários ouvirem.
O baixinho viu o moreno chegando com seus amigos, pareciam uma gangue ou algo parecido, observou-o bem, até ver aquilo, uma forte marca roxa no fim do pescoço de Tom, extremamente chamativa, como não vira antes? E por que ele não tinha medo de mostrar aquilo?
Colocou as mãos no pescoço, como se lhe fossem arrancar a blusa, ficou sem jeito. Franklin observou seu rosto corar aos poucos, estranhou e então olhou para o moreno. Observou bem a marca.
— Hoje vamos jogar vôlei, meninas para um lado e meninos do outro, vou fazer os times. — explicou calmamente. — Andem, andem.
Seu professor era rígido, mas um homem muito bom e carismático, sempre tentava ajudar os outros.
Enquanto falava quem era time “1” e time “2”, Jerry olhou fixamente para a marca, teria sido ele o causador daquilo? Seu estomago revirou, estava ficando enjoado de verdade.
Garotos primeiro, o jogo ia começar.
Os garotos preferiam basquete, mas ainda assim conseguiam ser melhores que as garotas, que tinham medo da bola na maioria das vezes.
Tom era muito bom fazendo esportes, não era à toa que era tão forte, Butch também era bom, mas era melhor nos estudos mesmo. Adorava vôlei, sentia que era um dos melhores esportes do mundo, era uma pena não poder jogar.
Passados vários minutos, os rapazes suavam por conta da competitividade, ofegavam com as testas molhadas. Era hora do saque.
Era Mark, um garoto muito forte da sua sala, seus braços davam medo. Jogou a bola no alto, ia sacar por cima, seu olhar ameaçador encarou o objeto no ar, pegou impulso e pulou, deu uma —por falta de palavra melhor — porrada nele. Uma porrada muito forte.
Obviamente foi fora, e na direção do menor, que a olhava atentamente, observou-a se aproximar e fez uma manchete para o alto, não para a frente, em seguida pegou.
— Boa pegada, Jerry, agora dê a bola para Tomas, por favor, ele é o próximo a sacar. Ordenou o homem.
Levantou-se com um sorriso no rosto, sim, com certeza ia jogar para ele. Jogou no ar, levantou a mão e bateu, direto no rosto do maior.
O professor estava tão concentrado olhando para o seu jovem aluno que nem viu o outro ser acertado no nariz e cair no chão ajoelhado, isso porque viu a blusa de Jerry levantar consideravelmente e viu os círculos. Seria possível?
— Filho da puta! — gritou com as mãos no nariz. Só nesse momento que o homem virou-se para ver o que tinha acontecido.
— O que houve?! — parecia que finalmente estava prestando atenção, só que na verdade tentava olhar para o pescoço do rapaz.
Correu até o aluno, o nariz dele sangrava muito, olhou para o louro do outro lado, fazia uma expressão de profunda dor enquanto segurava o ombro direito.
— Acho que desloquei meu ombro....
– * -
E no fim, lá estavam eles, os três homens e a enfermeira tentando convencer J a tirar a camisa. Tomas estava com a cabeça pra cima, sem conseguir conter as lágrimas por conta da dor, Franklin observava o pescoço do garoto machucado.
— Garoto, tenho certeza que se tivesse realmente deslocado seu ombro, estaria gritando e esperneando, do jeito que vocês homens são...
— Sarah... — o homem de cabelos louros já grisalhos repreendeu a mulher.
— O que? Estou apenas falando a verdade. Bom, se o garoto não quer nem tirar a camisa para eu ver o que aconteceu e passar algum creme para melhorar, não posso fazer nada. — resmungou voltando o olhar para o outro “paciente” — Não quebrou nada, apenas machucou um pouco.
— Um pouco?! — olhou para ela, o sangue voltou a escorrer. — Vocês deveriam suspender ele!
— Eu já falei que foi sem querer, merda! — protestou — Eu bati a bola de mal jeito, por isso foi no seu rosto! — mentia, mas agora que também estava machucado, tinha que dar uma boa desculpa.
— PAREM DE BRIGAR! — o professor gritou com raiva. — Jerry! Coopere! Deixe a enfermeira Sarah fazer o trabalho dela e tire logo essa droga de blusa! — dessa vez estava mandando, não pedindo.
Seu rosto avermelhou-se, olhou para o colega timidamente, não queria fazer aquilo na frente dele.
— E-Eu posso fazer isso atrás de uma cortina? — sussurrou levantando-se e indo mais para longe. Viu Tom fazer uma careta enquanto se escondia.
Sarah sentou-se em uma cadeira na frente dele e esperou com os braços cruzados. Olhou para o lado, acanhado tirou a blusa, logo ouviu uma exclamação sair da boca dela.
— Oh. — colocou as mãos na frente dos lábios. — Está tudo bem com o seu corpo?
— E-Eu to ótimo! Só vê o que o meu braço tem, por favor! — implorou olhando para o ombro, estava inchado e vermelho.
— O que houve? — o professor abriu a cortina para o que estava acontecendo, parou um tempo, como se contasse quantas marcas haviam. — Q-Quem fez isso?
Olhou para o lado novamente, calado e mais vermelho ainda. Franklin virou para trás olhando para o rapaz machucado.
— Tomas, onde conseguiu essa marca?
— Que?
— No pescoço, onde conseguiu isso? — repetiu.
— Não sei, professor Franklin, só sei que aconteceu durante uma festa, hahaha. — riu vitorioso, como se aquilo fosse um prêmio.
A morena não tinha percebido, então não desconfiou de nada, completamente o contrário do colega de trabalho que alternava os olhares dentro e fora da cortina branca.
Enquanto recebia uma massagem no ombro direito, com a mão esquerda escondia o rosto com o travesseiro, parte por vergonha, parte por dor, parte para evitar fazer barulhos.
— Bom, talvez tenha deslocado, só que voltou ao normal em seguida, se você ainda consegue mexer, é porquê tá tudo bem. Só evite mover muito. Na verdade, é melhor manter-se em repouso, acho que o melhor a fazer é os dois voltarem pra casa.
— Eu ‘to ótimo, posso ficar na escola! — falaram em uníssono, ninguém queria perder treino.
— Olha o estado de vocês, como querem fazer qualquer coisa com esses problemas? Vocês são realmente garotos diferentes. — reclamou suspirando. — Está assim por causa do seu treino, não é, rapaz? Vai mesmo mostrar para os outros as suas marcas?
Verdade, sua roupa, querendo ou não, ia mostrar os roxos aos outros garotos. Só que parou para pensar, Tom não tinha acabado de se gabar daquilo? Ele poderia fazer o mesmo.
— Quer saber? Foda-se. — levantou da cama com a blusa na mão. — Desculpa aí, enfermeira Sarah, isso não foi para você. — andou e passou sem camisa na frente de Tomas. — Vou para a sala antes de perder muita matéria.
E “vazou”, colocando a blusa. Os três restantes entreolharam-se mudos, o adolescente não sabia direito sobre o que achar daquilo que tinha visto. Engoliu em seco, olhou para os responsáveis e falou:
— Também vou indo! — saiu correndo da enfermaria, tentando alcançar o outro. — Jerry, espera aí, seu escroto!
— Vai se foder! — gritou bagunçando os cabelos de maneira revoltosa.
— Eu vou TE foder se não olhar pra mim! — praguejou alcançando-o e o puxando pelo ombro que não estava ferido. — Qual é a s—
Calou-se ao olhar nos olhos dele e os ver marejados, o rosto demostrando profundo embaraço e arrependimento, os lábios comprimidos.
— Q-Que cara é essa? — perguntou sem graça. — Não faça essa cara justo quando eu quero te dar um soco pelo o que fez comigo! — reclamou desviando o olhar de modo não muito discreto. — Me conta aonde arranjou todas essas marcas... — sussurrou curioso.
— Não ‘to a fim de contar. — embolou-se com as palavras. Por quê queria saber? Por quê a curiosidade se sequer lembrava pelo o que tinham passado? Não se lembrava de absolutamente nada, então qual era o motivo de ter ficado sem graça, ter desviado o olhar e feito aquela pergunta? — Como pôde me pedir para te lembrar de algo como aquilo? — falou baixo, como para si mesmo.
— Ahn?
— Nada! Pode muito bem descobrir sozinho! — gritou dando-lhe as costas e se pondo a andar apressadamente, quase correndo.
Chegou na sala ofegando, no fim, acabou apostando uma corrida com Tomas, que terminara como sempre em empate.
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