Addiction
9 Doce Preocupação
Notas iniciais
— P-Pronto — ela disse, desviando o olhar. — Vai me dizer o que foi isso?
Ferrou.
— Uma mordida — apontou ele desnecessariamente.
Sentou-se na cama macia e vermelha, então jogou o peso do corpo para trás, apoiando-se nos braços com um olhar entediado. Totalmente preparado para... para…
Perguntou-se por quanto tempo mais poderia continuar mentindo para si mesmo até que ela descobrisse. O quanto ele poderia ficar repetindo que não importava se ela o achasse um monstro. Não encontrou uma resposta.
— Não isso. — Ela suspirou, aproximando-se dele. — O que aconteceu com você?
Nicholas sorriu falsamente.
— Acho que você é inteligente o suficiente para entender sozinha, madame.
— Me disseram um dia para nunca tirar conclusões precipitadas. — ela sussurrou. — Você... poderia me dizer?
— Poderia. — concordou. — Mas não quero.
— Você sabe que... Mesmo que você estivesse fazendo coisas ruins naquela noite, eu não iria ficar com medo de você, não sabe?
“Naquela noite”, notou. Então ela sabe. Com certeza, ela sabe.
— Você sabe tão bem quanto eu, não sabe? O que foi isso… Aposto que você já tem toda a teoria formada nessa sua cabeça. — ele suspirou, franzindo a testa. — É algum tipo de punição me fazer falar sobre isso? — Bom, ele tentou pensar positivo, podia ser pior.
— Só acho que... — Vivi fez uma pausa, suspirando. — Tudo bem, lá vai. Você... é um lobisomem?
Os olhos de Nicholas perderam um pouco do brilho. Bingo, pensou para si mesmo.
— Eu sou — respondeu ele num sussurro. Não tentou discutir. Não tentou explicar.
Observou bem o rosto de Vivi. Ela pareceu não ter registrado o que ele dissera. Piscou uma, duas, três vezes rapidamente. Será que ela está chocada? Ele ficou um pouco exasperado. Como ele iria lidar com isso?
— Ahh... — finalmente disse, abrindo sorriso. — Então era isso.
Ok. Definitivamente não era isso que Nicholas estava esperando. Ele tombou a cabeça para o lado, olhando-a confuso.
— Fico aliviada que ninguém esteja te maltratando — continuou ela, como uma explicação.
Mas que inferno... Os pensamentos do loiro estavam um pouco nublados.
— "Ahh... Então era isso"? — Seu tom era incrédulo, beirando o histérico. — Eu contei o segredo da minha vida. Acabei de admitir que sou a porcaria de um monstro e a senhora está aliviada que ninguém está me maltratando? — Isso era ofensivo, de alguma forma.
Ela se sentou ao lado dele, com um pequeno sorriso sereno. O loiro não pôde deixar de notar que parecia cuidadosa. Seu cheiro não mentia: ela não estava com medo ou com raiva. Seus olhos brilhavam com compreensão. Era boni... Ele apagou o pensamento antes que pudesse se concluir.
— Você queria que eu reagisse dizendo que você é um monstro e que eu nunca mais falaria com você? — Vivi piscou, olhando para ele. Inclinou a cabeça, um pouco confusa. — Ou sentisse pena de você? — Teorizou, sem deixá-lo responder. — Acho que você ficaria ofendido com isso, não é? Bem, bem... Não acho você um monstro, não, ao contrário, você é demais. E eu não vou ficar com medo de você porque uma vez por mês você se transforma num lobinho. — O riso dela tocou os ouvidos de Nicholas. — Não, não, não irei.
Ele fez beicinho. Ela me chamou de lobinho? Ele realmente esperou que tivesse ouvido errado. Aquilo parecia incrivelmente vergonhoso de ouvir.
— Eu não entendo as garotas — declarou. — Ou melhor, eu não entendo a senhora.
A garota riu, olhando para ele. Um pequeno tom rosa coloriu suas bochechas e suas emoções cheiravam a algo que Nicholas não sabia identificar, deixando-o um pouco frustrado. Ele odiava não saber.
— Certo, lobinho.
Ele paralisou. Ele tinha que ter ouvido errado. Mas tão vergonhoso como era, sabia que não tinha ouvido errado. Era a segunda vez, afinal.
— Eu não sou pequeno.
— É claro que é — exclamou risonha. — E magro. Já falei que você precisa comer outras coisas além de bacon? — ela comentou, cutucando as costelas dele.
Nicholas se contorceu, cruzando os braços, tanto para tirar a mão dela quanto por aborrecimento. Ele estava um pouco chocado ainda.
— Eu não sou tão magro. — mentiu, aborrecido.
— É sim — ela disse, implicando. Depois, suspirou. — Estou falando sério, você precisa comer outras coisas para ganhar peso.
Ele se perguntou inutilmente como a conversa sobre ser ou não um lobisomem acabou com ele ter que ganhar mais peso.
— Eu estou bem — reclamou. — Não é como se eu fosse desmaiar ou estivesse passando fome. Eu como todas as refeições, certo?
Epa. Essa foi ruim, gemeu ele em pensamentos. Na verdade, ele costumava pular refeições, alegando estar sem fome. Além do mais, especialmente por causa da lua cheia, ele estava pálido como um fantasma. Sua mentira seria pega no ato, dessa vez.
— Mas parece que você vai desmaiar. — Ela encostou-se ao ombro dele. — Cuide mais de você, Nicholas.
Ele fechou os olhos, suspirando. Podia sentir a preocupação dela vazando em ondas. Naquele momento, amaldiçoou a sua capacidade de cheirar as emoções. Como ele poderia realmente mentir se isso só a faria mais preocupada?
— Eu estou bem — repetiu. — Já passei muito, muito pior.
A verdade parecia uma opção melhor naquele momento. Talvez. Ele realmente não tinha muita certeza do que fazer agora...
— Não é como se eu tivesse passado por coisas piores que você, mas... — Ela suspirou. — Já passei por coisas terríveis, também. Não é por isso que eu deixo de comer, ou beber.
Oh, então é isso, ele inclinou a cabeça, a verdade, então. Sorriu tristemente.
— Eu não consigo. — admitiu num sussurro. — E... eu não consigo comer até me encher. — Voltou a explicar um pouco afobado. — É... é como se eu não me sentisse com fome e se eu comesse certinho, eu fosse vomitar. — Ele apertou a mão contra o estômago. — Eu não entendo o porquê.
Ele pôde sentir um cheiro doce emanando de Vivi, e observou a linguagem corporal dela. Parecia estar tentando se impedir de abraçá-lo naquele momento. Por que, no inferno, garotas gostavam tanto de abraçá-lo?
— Acho que é como eu, por mais que bote perfumes em meu corpo, ou lave a minha mão... Eu não consigo m... me sentir... limpa. — Ela disse a última palavra baixinho, como se não quisesse que ele ouvisse. — Acho que é... trauma? Uma coisa que superamos com... tempo?
Nicholas balançou a cabeça negativamente.
— Não acho que eu seja traumatizado com comida. — Ele riu baixo, mas anotou o que ela tinha dito, mentalmente. Por que ela precisava se sentir limpa? Isso o preocupou. Muito. — Eu sempre comi, bem... Qualquer coisa, se as coisas realmente apertassem… Lixo, o que quer que fosse, realmente.
As ondas de preocupação aumentaram. Observando atentamente, Vivi parecia tremer um pouco.
— Talvez... por que você comeu tanto esse lixo... que rejeita as outras coisas? — Ela não parecia muito segura disso, mas a teoria soava válida o suficiente.
— Não sei. É estranho. Mas não é como se eu tivesse com que comparar. Eu não comia mais que duas ou três vezes por semana então eu não tinha esse problema antes.
— Mas você só comia esse tipo de coisa, não é? — ela pensou. — Acho melhor... você ir à enfermaria, para saber o que é... Pode até ser uma doença, Nicholas.
— Será? — perguntou, um pouco duvidoso. Não conhecia muito de medicina.
— Sim... — Uh... Ela parece ainda mais preocupada... — Vamos lá hoje, então? Ou amanhã?
— Ah... Eu realmente preciso? — Coçou atrás da cabeça. A idéia de alguém cuidando dele era irritante.
— Claro. — O sorriso dela era cuidadoso, mas sério. — Temos que saber o que é, afinal.
— Então... amanhã, por favor? — ele pediu, tentando adiar isso o máximo possível. — Eu estou me sentindo um pouco cansado — explicou.
Ela riu, para o alívio de Nicholas. Parecia um pouco mais relaxada agora.
— Tudo bem, amanhã.
Se sentindo um pouco perplexo com tudo, ele se esticou, de costas para Vivi, puxando uma das gavetas para pegar outra blusa de manga comprida, dessa vez preta. Ele colocou a blusa rapidamente, escondendo as marcas em suas costas, peito e braços, assim como suas bandagens.
Vivi brincou um pouco com as suas próprias mãos, inquieta.
— Se precisar de ajuda novamente, eu estou aqui. — Ela ainda estava sorrindo serenamente. Mas suas emoções eram uma confusão indecifrável.
Nicholas assentiu. Ela não quer que eu saiba que ela está preocupada? Ele decidiu jogar pelo lado seguro.
— Não te incomoda? — perguntou brevemente. A maioria das pessoas ficava incomodada com a aparência dele, cicatrizes e tudo o mais.
— Eu sinto dor. — Ela continuava com o sorriso. — Não é legal ver um... amigo machucado.
Ela tremeu um pouco o queixo. Nicholas inclinou a cabeça, os pensamentos voando para Robert, Mike e Sophie.
— Não, não é legal — concordou ele. — Bem... Acho que... Eu não sei. Estou com sono. — bocejou, e em seguida fez beicinho.
— Ah... — Ela se levantou. — Melhor que descanse, então. — Passou uma mão sobre a outra, esfregando a pele. — A... acho que eu já vou, então, Nicholas.
O loiro lançou um sorriso tranquilizador a ela.
— Ok. Vou dormir e... e... — ele gaguejou, ficando um pouco vermelho, antes de empalidecer quando um pensamento o ocorreu. — Pode... pode não dizer isso para... para Pablo, por favor? — pediu baixo. — Manter minha... "mentira"?
— Ah? — Ela corou, pelo seu cheiro, estava sentindo-se um tanto ofendida. Não iria contar para ninguém, Nicholas tinha certeza disso agora. — C-Claro.
Depois, começou a caminhar em direção a porta, abrindo-a.
— Obrigado — foi a última coisa que ele disse.
— Até amanhã — respondeu em um tom doce. E fechou.
Vivi não pensou muito sobre o fato de Nicholas ser um lobisomem. Não por falta de interesse, e sim para manter a cabeça fria. Nicholas não deixava de ser Nicholas. Lobisomem ou não, ele era ele e não havia muito que pensar sobre o fato. Sua mãe havia ensinado isso. Cada pessoa tinha suas peculiaridades e problemas, e ela não podia julgar alguém pelos dela.
A garota desceu as escadas do dormitório e voltou às mesas para se encontrar com Pablo, fez isso numa corridinha apressada. Quando avistou o garoto, sentou-se perto dele com um pequeno sorriso.
— O... oi, Pablo. — gaguejou timidamente. Por um segundo, amaldiçoou sua insegurança em falar com seu amigo. Ela não queria ficar gaguejando o tempo todo.
O garoto parecia no mundo da lua, então pulou de susto e surpresa quando Vivi o retirou de seus pensamentos. Deu um sorriso um pouco nervoso, mas amigável.
— Oh, Vivi! — Ele inclinou a cabeça, com um ar preocupado. — Como está o senhor Não-Quero-Ir-Para-A-Enfermaria? — Seu tom era risonho, mas Vivi notou a tensão escondida.
Ela riu um pouco. Era um bom apelido.
— Ele está dormindo. Disse que estava cansado.
Pablo suspirou, parecendo aliviado.
— Bem, pelo menos isso... Eu... eu não sabia que o Nicholas tinha um problema de automutilação... Você sabia? — Olhou para ela com os olhos repletos de confusão.
Vivi balançou a cabeça negativamente.
— N-Não... — Se sentiu nervosa por estar escondendo a verdade de um amigo.
— Puxa, quero dizer... — Pablo coçou a cabeça um tanto agitado. — Faz sentido já que ele passou por coisas pesadas, mas... — Ele suspirou, parecendo chateado. — Sem querer julgar, mas do jeito que ele é, eu nunca teria suspeitado se eu não tivesse visto! Mesmo assim, não poderia ser outra pessoa? — falou parecendo sério. — Você acha que ele disse a verdade?
— A... acho que sim. — Ela olhava para o chão. Não entendia muito bem por que tinha que esconder isso de Pablo. Claro, era um grande segredo e tudo, mas eles eram amigos... O olhar de Nicholas quando ele fez o pedido passou por sua cabeça. Ela tomou coragem disso, de ajudar seu amigo em necessidade, mesmo que ela não entendesse qual era essa necessidade, na verdade. — Sim, sim, disse.
O latino americano deu um suspirou e caiu de volta no assento.
— Pelo menos a gente podia levá-lo na Pomfrey. Eu sei que ele é cabeça dura, mas não custa tentar... Eu quero ajudar ele, Vivi, mas pela atitude ele não quer a ajuda de ninguém! Você não se vira pelo mundo completamente sozinho!
— Sim... — Ela suspirou. — Eu sei. Ele vai... Temos que conversar bem com ele antes, mas ele aceita. — Riu. — Espero.
— Eu acho que a gente precisaria de uma mãozinha para levá-lo lá... Alguém em mente?
— Ah-h... — Ela olhou para os lados. — Talvez o Edward? Talvez... Mas acho que não daria. — Suspirou. — Vamos ver.
— Mais ajuda... Alguém mais "forte? — Ele fez uma pausa pensativa.
— Forte? — perguntou Vivi, confusa.
— Hey, o Nicholas pode ser magricelo, mas quando quer ser forte ele é. — Pablo olhou com uma cara ridiculamente séria para ela.
Ambos ficaram em silêncio por alguns segundos, procurando quem seria a pessoa certa para chamarem.
— Ah! — o garoto exclamou assustando Vivi. — Eu conheço alguém que pode ajudar! — Seus olhos brilhavam de animação e inocência, apesar de que os dois estavam planejando sequestrar um amigo para levá-lo à Madame Pomfrey.
— Quem? — Vivi piscou, com curiosidade. Apoiou a cabeça sobre uma das mãos, com um pequeno sorriso.
— Lembra no trem que eu falei que era pra eu chegar com uma amiga comigo da minha terra natal? Ela é forte e mais velha! Quem sabe ela tenha algum truque na manga que pode ajudar a gente com ele? — teorizou. — Aliás, vocês não a conheceram, né?
— Acho que no dia em que nos conhecemos... você falou dela. — Ela ficou pensativa, então finalmente percebeu o que ele queria dizer. — M... Mas espera... Você planeja levar o Nicholas a força para lá?
— Nah, eu não. Mas ter Jazz do lado é uma maneira de prevenir que ele não fuja da gente. — Ele riu. — Ela era boa no ringue lá em casa, só espero que a gente não tenha exatamente que usar força bruta... — disse com um tom levemente preocupado
Vivi riu, Pablo era realmente divertido, às vezes.
— Não seria bom... — disse, pensando. — Mas ela é mais forte que ele? — perguntou surpresa.
— Tá brincando? Ela tinha dois apelidos em casa. El Grande Lobo Malo ou “O Grande Lobo Mau” e "A Ursa". Sério nunca fique numa briga de mano a mano com ela... É derrota certa. — Ele riu baixo. — Mas não se preocupe, ela não é agressiva nem nada.
Vivi pareceu um pouco assustada, no entanto achou divertido.
— Certo, então vamos levá-lo amanhã para a enfermaria.
— Eu chamo o Eddie e a Jazz amanhã, então.
— Tudo bem. — Ela se espreguiçou. — Combinado.
O dia seguinte seria difícil, com o cabeça-dura do Nicholas para levar... Mas Vivi estava feliz. Um pouco. Pelo menos, Nicholas estava se abrindo um pouco mais para eles.
Ele sempre parecia esconder tudo, e lidar com tudo. Ela não queria que fosse assim.
Ela queria que ele confiasse mais neles.
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