Adão e Eva, do inferno ao paraíso, Segunda parte
10 O planeta das sereias (continuação)
Notas iniciais
E em todo lugar, os velhos sereios iam juntos, mostrando para eles as melhores plantas aquáticas, os melhores corais, alguns mariscos, e ajudaram a semear o chão das três cidades como jardineiros espertos.
Enquanto as cidades eram construídas, Geninho e a tripulação continuavam acampados nas Ilhas, pois eles não tinham mais trabalho a se fazer. Aproveitavam para descansar, ver os filhos correr pela praia, ou surfar com os sereios, e quando os veterinários voltavam de seus mergulhos a festa estava pronta para começar. Enquanto os mais jovens dançavam em redor da fogueira, Areti e Xixim caíam nas conversas sem fim. Geninho falava para Nestor que os “Vendedores espaciais” queriam que levasse alguma coisa importante para negociar. Desejavam incluir esse planeta na rota do comércio intergaláctico, e visitar os sereios regularmente. Trariam junto Estagiários veterinários, e coisas. Presentes. Ele queria uma lista de tudo que se poderia levar e outra lista do que deveria ser trazido para esse mundo aquático.
E essas conversas cruzavam a noite.
O que é que havia nesse mundo de bom, afinal?
Água! Ilhas desabitadas, e um mar onde havia sereios. Só isso. E eles não sabiam fazer nada. Apenas uns colar de pérolas, ou de conchas e era só.
O que é que um ser aquático necessita? De água e de mar. Mais nada. E era sempre uma conversa sem fim. Sem solução. Mas todos concordavam que o contacto humano ia ser bom. Os sereios se sentiriam parte da civilização universal. Saberiam que podiam contar com amigos que os visitariam regularmente. Além do que, eles amavam os humanos e após a partida iam sentir saudades. Iam sofrer. Iam se sentir órfãos. Haviam sido criados por humanos. Eles sabiam inclusive beijar de língua, fazer amor sem fim, coisas humanas demais.
Nestor então pediu que os robôs recolhessem amostras de tudo. Havia algas que talvez fossem medicinais, excrementos de pássaros, que podiam conter partículas para vacinas, e dava palpites de algo que não sabia. Suposições.
E os robôs foram além. Engarrafaram areias, água, pedras, pedaços de rochas, flores, plantas, seres microscópicos do fundo do mar, terra preta, terra vermelha, e guardaram para que outros especialistas o analisassem. Gênios em outras áreas do conhecimento científico, que podiam descobrir o que é que esse mundo tinha para oferecer.
Depois, Nestor perguntou para os velhos sereios o que eles gostariam de receber de presentes. Todos pediram os submarinos, com rodas para caminhar pela superfície das ilhas. Eles conseguiam ficar fora da água durante meio-dia, sem morrer, sem resecar a pele, tempo suficiente para dar um passeio terrestre. Também pediram que plantassem verduras em todas as ilhas para fazer piqueniques ao ar livre. Jardins com verduras. Como nos lagos de “Z”. Um cientista também lhes desenhou um escafandro com tanque aquático, junto a uma cadeira com rodas. Podiam colocar assim que faltasse hidrogênio para as guelras nessas incursões terrestres. E os sereios aprovaram tudo. Ia ser o máximo sair da água, percorrer o chão arenoso, sem medo de nada.
Nestor só viu felicidade para eles no futuro dessa civilização. Outros homens viriam a ensiná-los, e, num dia do futuro, esses seres percorreriam o universo de uma maneira diferente. Como seres de um mundo superior.
E pouco a pouco as três cidades submarinas ficaram prontas.
Desta vez, toda a frota de navegadores desceu com oxigênio nas costas, para ir até as profundezas do mar.
A primeira cidade que visitaram era a antiga construção que fora recuperada. Os casebres se amontoavam uns acima de outros com aberturas onde um casal ficava deitado de maneira confortável, perdido aos olhos alheios. Fora desse casebre, as flores marinhas mexiam, com seus movimentos ondulantes que pareciam uma valsa eterna. As luzes saíam de entre as rochas, de maneira indireta. Também havia assentos em meio de uma praça, com jardins, onde os mais pequeninos brincavam, e deslizavam por escorregadores, ou se penduravam em argolas.
Nas outras duas cidades havia uma luz, que indicava sua localização embaixo do mar. Uma porta redonda, com malha metálica com espaços de 30 x 30 centímetros levantavam e se podiam entrarem num túnel de 18 metros de profundidade com um diâmetro de 9 metros. No fundo, encontravam-se mais uma porta de segurança, com uma rede, por onde se entrava em espaços de um metro. Suficiente para uma pessoa. E dentro da cidade só havia água desta vez. As casas eram agrupadas uma acima de outra, em forma de árvores com um poste central que as unia a todas. No meio da cidade, encontraram outro jardim florido, objetos para crianças brincarem, e uma excentricidade. Uma ilha artificial em meio de uma bolha de ar. A bolha era de cristal grosso, e era sustentada por cabos que desciam do telhado dessa cidade submersa. A ilha era uma rocha uniforme, que flutuava no meio, unida à bolha de cristal por 4 cabos grossos.
Nestor entrou nadando nessa bolha, puxou o aparelho das costas, e sentiu o mais puro oxigênio de sua vida. Extraído do mar por um sistema parecido ao do seu tanque. Era como estar ao ar livre, mas desta vez dentro do mar. Algo brilhante da engenharia de um mundo superior.
Mas o melhor de tudo era ver a felicidade dos sereios, desde os mais velhos até os mais jovens. Nessas cidades embaixo da superfície do mar estariam protegidos dos predadores, e nada lhes faltaria para viver. Havia algas comestíveis em todo lugar. Mariscos, caranguejos, e milhares de peixinhos pequeninhos.
E para inaugurar tudo isso, os veterinários devolveram a fertilidade a todos os machos que faltavam. Quatrocentos sereios, metade homem e metade fêmea, escolheram suas casas e as inauguraram engravidando. Depois, mostravam a barriga inflando, crescendo, enquanto os homens esperavam pelos nascimentos com ansiedade.
No dia em que os 24.000 sereios bebês nasceram, todos os humanos estavam nas duas cidades olhando para o maior fenômeno do Universo. Filhinhos de 5 centímetros formavam cardumes em redor de seus pais, como nuvens coloridas, nadando em busca de uma plantinha para mordiscar. Depois, ficavam em redor dos pais, amontoados, alguns por cima deles, olhos arregalados, olhando para os humanos.
Nos dias subsequentes, Nestor ensinou a todos os sereios machos a vasectomia, e o controle da natalidade. Para a vasectomia havia que cortar um canal interno, por onde os espermatozoides se juntavam ao líquido seminal. Explicava também que no passado o controle na natalidade acontecia porque eram comidos por tubarões aos milhares. Mas, agora, protegidos, a superpopulação ia lotar as cidades.
Partir desse mundo foi a parte mais difícil e sofrida dessa viagem.
Moisés Beto marcou a rota de regresso, onde poderiam viajar com todas as naves acopladas, até chegar na “Constelação dos pinguins”. Em seguida, teriam que se separar. Moisés dava um giro com destino a seu mundo enquanto Xixim seguia reto e levava os veterinários para “Z”.
Mas antes de partirem, Moisés e Adão Júnior casaram com Ligia e Marisa, numa ilha rodeada de pessoas e de sereios.
Quem os casou foi Moisés Beto. Já que ele fora Profeta um dia, devia se lembrar das palavras sagradas. Nestor ria só de pensar nisso. Moisés Beto ficou sério, com seu medalhão de ouro no peito, ouviu o juramento dos noivos, de fidelidade mútua, e de viver no lugar que fosse. Em qualquer mundo que escolhessem, sempre teriam que respeitar as sagradas palavras dessa promessa realizadas em frente dessas testemunhas.
Foi uma noite maravilhosa, onde Areti chorava e Xixim lacrimejava muito mais ainda. E nenhuma das duas tinha coragem de perguntar aos filhos onde é que eles iam continuar a viver. Com a mãe Areti em “Z”, ou com a mãe Xixim em “V”.
Geninho filmou o casamento, e depois filmou os sereios cantando ao luar, numa festa que terminou ao amanhecer.
Todos partiram chorando. As lágrimas dos sereios desta vez não se enxergavam, pois estavam molhados dentro do mar.
Durante o regresso Geninho fez um documentário dessa viagem. Moisés Beto falou um discurso para Adão, pois Moisés Beto nesta vida era gênio, e sabia as línguas de todas as Galáxias. Abel ao lado dele falou com tradutor de idiomas. Fizeram um breve relatório de suas vidas, e enviaram um abraço para a família. Suas esposas falaram para Eva, e enviaram beijos com a mão.
Esses vídeos foram copiados para todos os navegadores. Cada um levaria para seu mundo, se bem que no futuro nada impedia de se visitarem uns aos outros de vez em quando.
Xixim falava que ela iria a “Z” regularmente ver Areti, pois nesta vida seu destino era percorrer a imensidão. Junto com Geninho pretendiam viver a eternidade viajando. Se bem que no espaço o tempo não existia. Xixim falava para Nestor que assim que chegasse a casa, não ficasse assustado de encontrar a família muito mais velha do que ele.
Mas coisas inesperadas vieram a acontecer.
Numa conversa de pai para filho, Sílvio perguntou a Nestor se ele sofreria muito se o deixasse. E Nestor respondeu-lhe:
— Vou sofrer que nem cão sarnento! Mas pode ir! Vai com meus netos para “V de ALPHA”. Mas promete me visitar de vez em quando...
— VOU! Até que fiquemos bem velhinhos! Vou chegar sempre por lá... Vou ter que mudar de profissão...
— Isso! Seja um ótimo e convincente Vendedor espacial!
Depois riram juntos, para matar a dor da separação...
Fale com o autor