Adão e Eva, do inferno ao paraíso, Segunda parte
7 Nascem os netos de Eva
Notas iniciais
Após trinta dias da partida de Nestor e sua família, Inês teve suas lindas gêmeas Sílvia e Maria, que nasceram ao amanhecer, dentro da piscina de casa.
Inês entrou na água, e deitou-se no fundo por cima de uma almofada de areia. Em seguida, abriu as pernas e Adão dilatou-a com a mão, para puxar com suavidade a cabecinha da primeira criança. Eva levou sua netinha para respirar, enquanto Inês subia junto para recuperar o fôlego. Imergiu novamente, e a segunda menina saiu desse útero sem esforços. Diana a tomou nos braços, e levou para a superfície, enquanto Adão puxava a placenta, a desintegrava, e emergia carregando Inês no colo.
Rama estava tão assustado, que ficou petrificado olhando suas filhas, recém-nascidas, no centro de 8 tios malucos, que as induziam a mergulhar e nadar. Resignado, ele entrou na piscina para beijar sua esposa, em seguida, beijar suas filhas, e nadar, pois, o parteiro articulava que aprender a flutuar ao nascer, era garantia de jamais ter um filho afogado.
Depois da festa na piscina, Inês sentou numa cadeira de balanço, e deu de mamar para uma menina. Eva tomou sua outra netinha nos braços e deu-lhe do seu leite abundante. Afinal, depois que Marta desmamara, Adão tomou o lugar dos seios, e eles cresceram ainda mais, pois o guloso bebia o dobro do que qualquer criança. Em todas as existências já vividas Adão sempre fora escravo desse leite materno. E como Eva sempre fizera todas suas vontades, Adão era o marido mais mimado de “Z”. Mas também era o pai mais dedicado. Antes de Inês ir para sua casinha, ele examinou-a, colocou-lhe fraldas para o sangramento, e pediu para Rama não se encostar a ela durante 24 diass. Rama tomou-a nos braços, beijou, e caminhou para sua cama gostosa, para deitarem bem juntinhos, abraçados, mas só de beijinhos como mandava o parteiro. Inês aconchegou-se entre seus braços fortes, cansada, mais feliz. No seu futuro só via uma vida perfeita. Nunca haveria um incidente os separando desta vez. E viveriam milênios fazendo apenas uma coisa, ter todos seus filhos, netos, bisnetos, enfim. Rama, que lia seus pensamentos falou-lhe:
— Só vamos receber poucos filhos, meu amor.
— Mas, por quê?
— Fomos promovidos para mundos diferentes. Só vamos ser mais uma vez uma família gigante, quando formos anjos. Um a um vão chegar à busca de nós... E depois das gêmeas crescerem, eu gostaria voltar a estudar...
— E eu?
— Pode ser ajudante de artista... Aprenda a pintar. Pronto.
— E deixá-lo ir para Escola, sozinho?
Rama riu alto desta vez. Era a primeira vez que ele nascia o homem mais belo desse mundo. Na Terra ele sempre fora moreno, e apaixonado por uma mulher deslumbrante. E Inês continuava maravilhosa. E o amava como se amam as divindades nos mundos primitivos. Ela era capaz de tudo por ele. Moreno, feio, lindo, sempre seria amado com ardor por essa mulher. Abriu a boca, entrou sua língua para afogá-la com seu ardor, pois nisso continuava sendo indiano, um homem de sangue quente que só desejava uma coisa, estar sempre agarrado a sua mulher.
Naquele dia, os pais de Rama ficaram sentados na sombra, curtindo as netas, comendo uvas deliciosas, bebendo sucos que Diana lhes trazia da cozinha, e aceitaram o convite para almoçar. Depois entraram na mansão, que tinha cadeiras magníficas, em redor de uma mesa enorme. Olharam para os três jardins internos com coqueiros, flores, e onde as borboletas e os passarinhos desciam e subiam pelas claraboias. Tudo era realmente lindo. Admiraram as cortinas de algodão, as janelas gigantes de vidro grosso, os murais de metal, as esculturas, os vasos chineses, na verdade era a mansão mais linda de “Z”. Mas quando um gambá saiu de um dormitório correndo, seguido de uma pantera negra, levaram um susto. Depois, foram dois cachorros peludos, que entraram na corrida, em seguida chegou um marreco fazendo barulho com gritos altos, e se olhando com atenção, nos coqueiros havia duas cobras enroladas.
Quando Caim entrou na mansão, foi o último dos assombros. Uma águia gigante chegou sentada no ombro de Caim, e a seguir voou para ficar por cima de uma estante, onde havia um ninho de palhas. Entre uma ponta das asas e outra, essa águia tinha uns dois metros de comprimento. Era realmente assustadora. Para descontrair as apavoradas visitas, e já sentados à mesa, Adão lhes disse:
— As águias só comem ratinhos, nunca raptaram um bebê, ou criança pequena. A carne humana não faz parte da dieta delas...
— E essas cobras não são peçonhentas?
— Eram. Meus filhos lhes fizeram cirurgia. Não possuem glândulas com venenos. Estamos alimentando-as com ovos de codornas, e de vez em quando pegam um passarinho que entra voando.
— Todos seus filhos são veterinários?
— Somente os mais velhos, incluindo os trigêmeos. Mas tenho 4 filhos que não querem nada com nada... Só apreciam a dança, as corridas com cavalos, cantos no coral da escola, atletismo, e nenhum deles sabem qual é o seu talento.
Enquanto todos riam, pois Adão sempre articulava a mesma coisa, o pai de Rama falou de novo:
— Isso não o preocupa?
— Lógico que não! Um dia, eles encontram sua genialidade e darão seu exame de doutorado, como eu! Eu sequer acabei o primeiro ano de veterinária...
— Então não tem como cobrar! Aliás, eu tenho a esperança de que Rama continue estudando depois de nossas netas crescerem! Queria tanto que fosse construtor, como eu...
Diana meteu-se na conversa imediatamente:
— Meu noivo vai começar a levantar meu castelo! O senhor não gostaria de dar algumas dicas? Ele disse que vai ter 24 metros de altura, e a maquete ele mesmo fez...
— Se fosse de madeira, não tem problemas. Também daria para fazer uma parte de tijolos...
— Ele vai ser todo de pedra sobre pedra.
A gargalhada em uníssono de todos os irmãos foi vigorosa desta vez. Peter até engasgou de tanto rir. Apenas Adão ficou sério, e falou alto:
— Eu faço uma aposta que esse castelo vai ser assim mesmo! De pedras sobre pedras. Arrisco o que quiserem...
Amon-rá falou:
— Torta de morangos nunca mais! Então uma pizza com queijo derretido... Consegue fazer isso, pai?
— Só se você capinar de joelhos toda a mansão, se eu ganhar...
— Nossa, pai, pegou pesado desta vez! Ninguém mais vai apostar nada?
Paulo falou:
— Se eu ganhar, o pai ergue duas paredes de minha casa de madeiras! O negão não vai içar as pedras além dos 5 metros!
— Só se você der banho nos unicórnios, durante um mês...
Os pais de Rama mexiam a cabeça, incrédulos. Essa família não passava de piratas chegando de algum mundo muito selvagem.
Rama apareceu com Inês no colo para almoçar, e rir do susto de seus pais. Afinal, Rama nascera de uma família pacata, e todos seus irmãos estudavam medicina, construção, e havia três gênios que fabricavam motores à vapor. Rama na verdade era a ovelha negra. Era mais parecido com a família de Adão. E finalmente estava no lugar certo. Adorava Adão tanto quanto amava seu velho.
Depois do almoço, Rama beijou seus pais, prometeu lhes levar as meninas a cada 15 dias, e lembrou-lhes que ainda estava em Lua de mel. A seguir carregou Inês nos braços, para se fechar na sua linda casinha. Rama trocou as fraldas das meninas, desintegrou as fezes, deixou-as de molho, pois só as colocaria na máquina no dia seguinte. Em seguida as hipnotizou, para acordarem ao raiar do Sol, deitadas em dois berços ao lado de sua cama. E feliz, se enfiou na cama, abraçado em sua mulher. Ela beijou-o com ardor, e o acariciou com doçura. Ele estava tão delicado. Tão maravilhoso. E Inês estava feliz. Nesta vida presente Rama só queria morrer velho e abraçado em sua mulher.
E o tempo rolou, na doce rotina do amor a toda hora. De Eva com Adão, de Rama com Inês.
Ao entardecer, Adão lhes dava um berro, pois tinham que obedecer a ordens médicas, e trazer as meninas para nadar. Mas isso era motivo de festa. Era no tempo que a galera regressava da Escolinha, da Universidade e do Ginasial. Alguns caíam na água vestidos, gargalhando, outros corriam a tirar as roupas, e mergulhavam de calcinhas.
Na hora do jantar, Eva lhes preparava um banquete.
Conversavam, davam risadas, e faziam planos para o futuro. E como existia uma aposta, o castelo era o tema principal. Aruma havia juntado tantas pedras, mas tantas, e ele as estavam cortando, e separando em grupos. Havia as quadradas, as retangulares, aquelas de forma piramidais, pequeninas, e muitas escadas. Enormes escadas feitas na medida, por gênios em metais. E como Aruma estava regularmente nessa mesa, as piadas sobre o castelo eram constantes. Ele ria junto, pois era um homem de excelente humor, e Adão o amava como mais um filho.
Antes de regressar para casa em seu cavalo negro, Aruma dava uma volta pelo mato com Diana para namorar. Sentavam em meio dos jardins, numa rede que balançava gostoso, se beijando, trocando as línguas, em encontros curtos, pois Diana devia dormir cedo. Aruma suspirava resignado, pois enquanto fossem noivos a vida seria assim mesmo. Como mandava o ensinamento da paternidade responsável, “o amor eterno” nesse mundo só aconteciam depois do casamento.
Num dia qualquer, depois que os Estagiários da Lua acabaram o fundamento do Castelo, Aruma se posicionou em frente às pedras, e uma a uma elas voaram pelo ar, através da psicosinesse. Entre cada andar, colocava as madeiras que faziam o papel de lajes, deixando uma abertura para uma escada que se encostava às paredes, unindo todos os andares. Finalmente, cobriu o último andar com lajes de concreto. Em seguida, isolou com piche grosso, e desenhou um jardim. Colocou pedras para caminhar e em seguida terra úmida para as plantas Terra vermelha que voou para cima com psicosinesse, como um rio de lama. Aplanou tudo, trouxe as mudas de capim e de flores, e colocou arbustos pequenos em cada canto. E por último, levantou as 4 torres.
Nos dias seguintes, ele foi ao Lixeiro da cidade, para mobiliar seu castelo por dentro. Carregou tudo que necessitava sobre um caminhão, e quando chegou ao castelão, os móveis voaram, mais uma vez através da psicosinesse, adentraram pelas janelas, e se posicionaram nos seus lugares. Só então elevou as ondas telepáticas e chamou sua amada para conhecer a sua residência.
Quando Diana chegou a conhecer seu lar, Aruma tomou-a nos braços e subiu as escadas com ela até a ponta mais alta de uma torre. Sentou-a no colo, e pediu para casar imediatamente e encher isso tudo com filhos e netos. Ela pediu para que entrasse na longa passagem da maternidade, pois desejava engravidar, naquele encontro. Quando levou Diana para casa no fim do dia, Aruma Júnior já estava dentro do ventre de sua mãe.
Ao meio dia do dia seguinte, Aruma convidou seu sogro para ver o castelo, e para que cobrasse as apostas.
Adão com sua neta Maria no colo, Eva com Sílvia, e com todos os filhos em redor chegaram numa carruagem, para ver esse castelo realizado em apenas UM dia de trabalho. Adão ria dele mesmo, da sua construção cujos tijolos grudaram um a um durante alguns anos.
Na parte baixa, Aruma instalara o seu Consultório veterinário. No segundo andar, havia uma sala gigante, com poltronas, almofadas espalhadas no chão, uma mesa redonda com 8 cadeiras e uma cozinha adjunta. No terceiro andar, estavam as duas suítes dos meninos, que era o número de filhinhos que desejavam ter. No quarto andar, havia a suíte do casal, com uma cama gigante, uma banheira de madeira, enorme, redonda, mais parecia uma piscina dentro de casa, com uma alfombra peluda no chão, almofadas espalhadas por cima dela, e um guarda-roupa rústico.
O último andar era ao ar livre, com jardins, cadeiras, mesinhas, e um paredão alto com janelas pequenas para ver o mato. Bem pequeninhos para evitar quedas de crianças. Em cada ponta desse Castelo, havia uma torre redonda com escada caracol interna, por onde se subia e se chegava à altura das copas das árvores. Dava para ter uma miragem diferente desse mundo. Em cada torre, havia três cadeiras confortáveis, para observação da natureza.
Como Aruma se negou a explicar para seus cunhados como fizera tudo isso, Adão riu às gargalhadas, pois os perdedores iam ter que pagar as apostas, a partir desse dia. Depois voltaram para casa, enquanto outras pessoas chegavam para conhecer o castelo. Mestres da Escola de Construção, professores do Ginasial, da Escolinha Infantil, cientistas da Lua, e até o Prefeito Alain, pois a família de Adão sempre o surpreendia. Durante um mês, esse castelo não parou de receber visitas de pessoas curiosas, que não acreditavam que as pedras podiam se posicionar matematicamente, uma acima da outra, sem nenhum tipo de argamassa.
Especialmente os pedreiros, que levitavam pedras das encostas das montanhas, não acreditavam que se podiam cortar e alinhar tantas pedras assim.
Frente a esse prodígio da construção civil, o Prefeito Alain não sabia se pedia para Aruma ensinar construção na Universidade, ou deixava que Aruma cuidasse da bicharada. Afinal, Aruma e Diana estavam recém-formados, com as mais altas qualificações dessa Universidade de Veterinária. Eles eram tão bons, que podiam perambular em meio de um ninho de cobras sem receber nenhuma mordida. Os bichos os obedeciam e reverenciavam como dois deuses da natureza.
No dia do casamento, Diana já mostrava uma barriga volumosa.
A festa foi na mansão de Adão, onde os noivos assinaram um livro, e juraram que se amariam por toda a vida, rodeados pela família e os amigos. No fim da festa subiram numa carruagem puxada por cavalos, com três luminárias com velas acesas, e cruzaram o mato.
Longe dos olhos da família, Diana sentou no colo do marido para fazer amor, deixando a responsabilidade do caminho para o cavalo, poiso bicho sabia olhar na escuridão sem se perder. Aruma nesta vida havia nascido um moreno escuro tão belo, mas tão belo, que Diana só de olhar para ele ficava transtornada de desejos. Como ela nascera igual que sempre, uma deusa do universo, Aruma seria nesta vida mais uma vez um pau mandado como falavam os cunhados. Rastejaria atrás dela, onde quer que ela fosse, prisioneiro eterno de sua beleza deslumbrante.
Como todo casal que ficava grávido era dispensado do trabalho, eles passaram a viver fazendo apenas uma coisa, amor, amor e amor, em todo lugar desse lindo castelo. Mas o preferido de Diana era a torre leste, onde se podia ver o Sol nascente. Ela sentava no colo do marido, e pouco a pouco o céu se enchia de cores vibrantes, enquanto a fumaça da umidade matinal subia, e eles ficavam em meio de nuvens cor de rosa. Parecia que estavam voando, pois tudo desaparecia dentro da névoa do alvorecer. Eram minutos mágicos. Depois, o calor sufocava. Tiravam as roupas, e desciam até o jardim do terraço, onde ficavam nus, por cima da grama verde, fazendo amor ao ar livre até que o calor os desidratava. Diana corria para se enfiar na banheira, enquanto Aruma preparava o café da manhã, e levava para a suíte.
Aruma Júnior nasceu na piscina de Adão, gordão, moreno escuro, forte, retrato vivo do pai. As gêmeas de Inês se encarregaram de dar as boas-vindas ao primo, mergulhando com ele, brincando junto, pois ele as amou desde o dia em que nasceu. Principalmente Maria, de cabelos bem encaracolados, morena, que lhe dava beijos e mais beijos. Ele era tão gigante, que Diana foi mãe do maior filho dessa cidade, depois de Caim.
Depois desse parto, Adão deitou-a numa cama com pernas para cima, fez sua infusão miraculosa para deter hemorragias, e Aruma lhe deu sopinhas na boca durante três dias. Enquanto Diana descansava, Aruma Júnior mamava de Eva, de Inês, as quais o carregavam no colo por pouco tempo. O recém-nascido era propriedade do pai. Aruma trouxera do Lixeiro uma sacola para bebês, e o carregava dia todo pendurado no peito.
Enquanto Aruma Júnior roubava a atenção dos avós, dos bisavôs, dos tios, e das primas, Paulo e Jesus terminavam suas casinhas de madeira. Contavam para a família que elas possuíam uma suíte para casados, uma sala com uma mesa e cozinha, e variadas suítes para os filhos. Jesus construíra três quartos e Paulo cinco. Paulo teria novamente seus dez filhos, mas que eles dormiriam em camas duplas. A localização das duas casas estava numa ilha, em meio do lago, onde pensavam viver com o mínimo de roupas. Visitariam seus pacientes bichos através do rio, numa barcaça velha, ou, chamariam a bicharada para essa ilha. Jesus afirmava que os animais eram inteligentes e se consultariam em casa. Aruma falava a mesma coisa, dando a razão aos cunhados. No castelo, ele tinha que atender bichos que chegavam sozinhos, fazendo grasnidos desesperados na porta. Os que sabiam voar entravam direto no consultório e sua casa estava invadida de águias doentes. Ele mal ia para as montanhas.
Mas o próximo a se casar foi Amon-rá.
Ele levantou uma casa maravilhosa com 6 suítes, toda de tijolos à vista, onde ele foi o que menos trabalhou. Desde que começara seu noivado, tomou o costume de carregar do Lixeiro obras de arte, e depois entrava no ateliê de Eva em busca de algumas sobras de materiais. Colava pedaços de pranchas de ouro, ou de prata, pedras, depois pedia para Eva pintar uma flor, ou um detalhe, e a seguir negociava com todo mundo. Nessa altura da vida, uma invenção de Eva era disputadíssima. E como ela era a única que sabia usar o metal, Amon-rá convenceu muita gente que os produtos artísticos eram de sua mãe.
Como Adão adorava escultura, ajudou Amon-rá a levantar duas estatuárias gigantes no meio da cidade, com sucata de troncos, recolhidos no mato, dando a forma de um rinoceronte e de uma girafa. Depois de acabadas, deram um jato de tinta dourada, que deixou o povo inteiro de boca aberta. Ficaram tão lindas, que depois disso para Amon-rá negociar ficou fácil. Estagiários traziam o que Amon-rá pedisse em troca de uma escultura sua. Amigos levantavam paredes, traziam portas, janelas, faziam o telhado, tudo em troca de uma escultura de troncos velhos e torcidos, para colocar em frente de casa, ou no jardim, ou em meio de uma praça.
E foi durante esse tempo também que quatro velhos amigos se reencontraram.
Quando Fernando e Mônica souberam do noivado de Noemi, encontrar Adão ficou fácil. Chegaram à mansão num fim de semana, gritando alto:
— Cadê os pôneis? As tartarugas? Os peixinhos? Cadê o sem-vergonha de Adão?
Eva saiu correndo, braços abertos, pois lembrou como num raio de Mônica, sua antiga amiga, com a qual cruzara o Universo numa nave espacial, onde estavam somente eles quatro. Ficaram abraçadas, comovidas, pois Eva nem sabia se eles estariam, ou não, nesse mundo. Fernando e Adão foram mais discretos, pois se Adão chorasse na frente dos seus filhos baderneiros, iam rir na sua cara o resto da vida. Entraram abraçados em casa, felizes, pois havia tanta coisa para ser contada.
Enquanto os velhos amigos conversavam espalhados nas poltronas, Amon-rá levava Noemi para ver um pônei recém-nascido, lindinho, e Nohiki invitava Fernando Júnior para entrar na piscina. Ela deu um mergulho, puxou-o pelos pés para as profundidades, e deu-lhe um beijo aquático. Depois, foi tudo bagunça. Miriam, que era a namorada de Peter, com as cunhadas Sira e Marta começaram a jogar bola, formando duas equipes. Era algo assim como polo aquático. Quem marcava mais gols, ganhava. Como Fernando Júnior era gigante, ficou de goleiro. Cada vez que caía de lado para pegar a bola levantava água como um chafariz. E as risadas eram gerais.
Depois desse dia, para Fernando Júnior começar a namorar ficou fácil. Adão e Fernando se perdiam em conversas sem fim, seus cunhados invadiam a piscina, e Nohiki se perdia com ele por cima de um unicórnio pelo matagal. Ela sentava na frente, ele atrás, e namoravam até que sentiam os berros de alguém chamando-os. Como nunca levaram bronca de seus pais por causa disso, cresceram namorando nos fins de semana, percorrendo um mato que era mágico. Se podia subir numa árvore, sentar nos galhos fortes, onde Nohiki sentava no colo. Fernando Júnior a beijava, acariciava-a, apaixonado até a alma. E Nohiki, só tinha olhos para ele. Mas, por causa da paternidade responsável, ela sempre foi apenas beijada.
Marta, porém, perdeu a virgindade antes de Nohiki.
Enquanto cavalgava numa corrida, de regresso para casa, seu cavalo desviou o caminho, sozinho, entrou na mata virgem, parou em seco, e ela voou pelo ar. Um adolescente careca, pois não tinha nenhum cabelinho sequer na cabeça, recebeu-a nos braços, lhe deu um beijo de língua, e em seguida abraçou-a com força de urso. Marta ficou presa contra uma árvore, sem saber o que fazer. Ele a olhou nos olhos e perguntou: — Quer ser minha mulher pela eternidade? E deu-lhe mais um beijo, para ela se lembrar da vida anterior. Marta não lembrou nada de nada, mas adorou os beijos, a língua na sua boca, e perdeu a santidade sem saber como.
Durante o resto dos anos, ela sempre sumia nas competições a cavalo. Os mestres mudavam seu animal, a sentavam sobre bestas adestradas, mas ela sempre se perdia. Como nunca a viram beijando ninguém, o namoro secreto foi clandestino até para Eva.
Na intimidade, Eva contava para Adão que tinha certeza de que Marta não era mais virgem, mas ela não contava nada de nada. Adão ria, e pedia para deixar rolar. Se ela engravidasse, ele ajudava a seu genro erguer uma casa, ou, melhor, pedia para Aruma levantar uma casa de pedra sobre pedra para eles. Estavam no mundo dos apaixonados. Então, para que se preocupar?
Quando Amon-rá e Noemi casaram, essa mansão estava tão cheia de gente, pois os filhos casados trouxeram suas famílias. Aruma convidou uma tia, que vivia numa outra cidade, e tinha filhos gigantes, muito parecidos com Aruma Júnior. Morenos altos, ombros largos, fortes e lindíssimos.
E foi ali que Sira perdeu a fala. Quase se esqueceu de respirar. Tana, um mastodonte com cabelos soltos ao vento, um cinto na testa, como um índio de uma tribo de outro mundo, a olhou como quem dissesse: — Esta mulher é minha! Sentou ao seu lado tempo todo, contando das maravilhas que havia nessa outra cidade onde ele vivia. Sira não viu nada desse casamento. Sequer quando os noivos fizeram o juramento, dançaram, nem quando cortaram um bolo gigante para os convidados.
Quando os badulaques da gangue começaram a tocar, Tana se juntou à banda, pois nisso ele era craque. Tocava os tambores como ninguém. Arrepiava a alma ouvir seus sons. E as pessoas foram ao delírio. Dançaram, e dançaram, com Sira olhando para esse homem maravilhoso, que chegara a roubar seu coração.
Amon-rá foi o único filho de Adão que casou virgem.
Entrou na sua casa com a noiva nos braços, estendeu-a sobre uma cama gigante, e começou a beijar cada centímetro desse corpo, enquanto puxava esse vestido e olhava para os seios maravilhosos. Ficaram na cama frente a frente, boca com boca, carícias suaves, palavras ardentes, se conhecendo mutuamente aos poucos. Depois o vício do amor tomou conta. Como todos recém-casados, podiam ficar em casa cinco meses sem trabalhar. E ficaram nessa cama o tempo todo, pois Amon-rá tinha uma despensa cheia suprimentos e cinco geladeiras com comidas congeladas.
Depois dessa lua de mel, ele tinha dois trabalhos o esperando na Prefeitura. Cinicamente Amon-rá perguntou para o prefeito Alain:
— Quantas esculturas o senhor quer?
— Três a cada Lua cheia, seriam ótimas. Eu posso trocar com os vendedores espaciais por alguma coisa nova. O que o senhor sugere?
— Hum... Instrumentos de música... Solicite uma orquestra completa...
— Que boa ideia! Então vai trabalhar como escultor em lugar de veterinário?
— Estou com uma jorrada de cavalos em redor de casa, além de meus pôneis... Eles estão se reproduzindo muito e vão virar manada. Estou cuidando dos partos, infecções de parasitas, dou banhos, é bastante trabalho...
— Então, uma escultura seria boa para mim... Assim pode também atender seus cavalinhos...
— Legal! Combinado! E não se esqueça de solicitar Estagiários que sejam músicos!
— Mas, para que seriam?
— Ensinar a tocar os instrumentos, ou então, vão ser tratados como batuques...
E o Prefeito começou a gargalhar. Na verdade, o único que os homens desse mundo sabiam de música orquestrada, era que ela existia, pois, as melodias saíam de uma caixa metálica. Agora como se obtinham aqueles sons, ou, como eram esses instrumentos, isso ninguém sabia. Por esse motivo os meninos só aprendiam a tocar os tambores na Escolinha Infantil, e os mestres de balé faziam os meninos dançar com as caixas de música funcionando alto.
Quarenta dias depois do casamento de Amon-rá, Jesus e Paulo levaram as noivas Malaqui e Paulina para a Prefeitura, num dia qualquer, e assinaram os livros. A seguir fizeram o juramento da paternidade responsável, e se mudaram para a Ilha.
Desta vez a Prefeitura teve que pedir aos Estagiários da Lua descer um barco grande, para cruzar as mobílias dos recém-casados. Jesus levou sua cama e seu armário, entalhados a mão com grande arte, e Paulo fez a mesma coisa. Paulina levou de casa uma mesa e seis cadeiras altas. Malaqui carregou com cortinas, lençóis bordados, toalhas tricotadas, uma geladeira, e uma máquina de lavar roupas. Do Lixeiro pegaram obras de arte, pois as havia aos montes desta vez. Eram pinturas, esculturas, jarras de argila vitrificada, e murais tecidos com fibras de lã e de algodão. Parecia que o mundo estava entrando da senda da arte para valer. Também escolheram panelas de ferro e utensílios variados de argila escura.
Para cozinhar, os gêmeos fizeram fogões com tijolos, para acender com lenha. Duas bocas para as panelas, com um forno, igual ao fogão da avó Dina, que fazia o melhor pão da cidade.
Aruma e Caim ajudaram na mudança. Colocaram os artefatos no caminhão, levitaram-nos para o navio, e descarregaram tudo na Ilha.
E quando as duas casas estavam lindas, decoradas, convidaram as famílias e os amigos para uma festa na ilha, até o amanhecer do dia seguinte. Todos levaram comidas prontas e barracas para pernoitar. Malaqui e Paulina prepararam uns 10 bolos diferentes, que colocaram numa mesa ao ar livre, junto a jarras com sucos.
Eva fez no seu ateliê pratos vitrificados, maravilhosos, e levou como presente de casamento. Amon-rá uma escultura de metal para colocar entre as rochas, em forma de sereia, e os amigos levaram cestos de vime, copo de vidros, jarras, e até fraldas para os futuros bebês.
O som dos batuques começou nas areias, com a gangue rodeada de focas, pinguins, marrecos, cisnes, papagaios, pois essa ilha era realmente paradisíaca. Jesus acendeu uma fogueira ao entardecer, e as mulheres bambolearam para os homens. Depois os homens rebolaram para elas, enquanto as esposas gritavam: — Mexe, meu gostosão... ou, — É isso ali, meu nego... pois as mulheres da gangue eram todas escandalosas.
Ao cair da noite, alguns se perderam nas suas barracas a namorar, já outros decidiram dar um passeio, pois havia uma Lua cheia esplendorosa. Adão e Eva sentaram abraçados numa rocha, olhando para o caminho prateado no lago, com os bichos em redor adormecidos. Beijaram-se, olharam ao redor para ver se havia alguém por perto. Como estavam sozinhos, ela sentou no seu colo. Ficaram abraçados, grudados, beijando-se ao luar, cheirando o aroma da natureza. Quando os raios do Sol começaram a clarear o dia seguinte, Eva levantou-se e caiu nas águas do lago. Adão foi atrás. Nadaram até ficar bem longe dos amigos, e fizeram amor por cima de uma rocha em meio das águas.
Foram os últimos a ir embora dessa ilha encantada.
Beijaram os filhos, as noras, subiram numa barcaça com remos, e cruzaram o lago, de regresso para casa.
Ao anoitecer, os gêmeos acenderam mais uma vez a fogueira na praia, fazendo planos para o futuro. Visitariam as famílias a cada quinze dias.
Jesus estendeu-se de costas, no colo de Malaqui, e ela imediatamente começou a acariciar seus lindos cabelos. Castanhos claríssimos, longos, que o faziam o homem mais fascinante desse mundo.
Jesus perguntou para Paulo:
— Me diz, mano, o que é que fizemos de tão bom nas vidas passadas, para merecer este paraíso encantado nesta vida, este luar, isto tudo?
— Sei lá! Que eu saiba não fomos guerreiros famosos, nem cientistas eminentes, nem gênios de nada.
— Então deve ser sorte. Sorte de ter pais inteligentes...
— Deve ser isso mesmo! Nós não passamos de “desconhecidos universais” ...
— Pior! Homenzinhos bons em nada de nada...
Malaqui e Paulina riam às gargalhadas. Depois os beijavam, acariciavam, enquanto o som dos bichos e o vento do lago entoavam em redor, uma melodia divina.
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