Notas iniciais
Quando a piscina ficou pronta, Adão abriu o cano que se alastrava embaixo da terra desde uma vertente natural. Quando ela encheu até a beirada, mergulhou e abriu a escotilha do fundo, para que a água saísse indo se esvaziar num rio. Dali para frente ela estaria sempre cheia, com águas cristalinas, puras, que dava para beber, e para se divertir ao mesmo tempo. Como Caim já sabia nadar, Eva pulou com ele no colo e afundou de vez. Fê-lo aguentar a respiração por um minuto embaixo dessa água e a seguir o levou para a superfície lentamente. O menino respirou sem medo, e Eva o arrastou para o fundo de 2 metros, mais uma vez. Nos dias seguintes, Adão o empurrava mais para baixo, até os 8 metros, e Caim imergia como um golfinho mexendo o bumbum.

Enquanto isso, no mundo dos vivos, Eva com sete meses de gravidez estava tão gorda, que os doutores a internaram. Como Adão não era médico, nem nada, não teve como contestar e reclamar. Ela foi trazida de carruagem para a cidade, colocaram-na no soro, ministraram-lhe uma dieta especial para perder peso, pois o menino era grande demais.

Todos os dias mediam o diâmetro do abdômen de Eva. E como ela continuava a aumentar a circunferência, os médicos apavorados decidiram fazer uma cesárea, para ela não se quebrar por dentro. Sem consultar ninguém, levaram Eva para a sala de cirurgia.

Quando Adão ficou sabendo que os parteiros da maternidade abriram o ventre de Eva de cima para baixo, queria surrar todos eles. Quando viu seu menino numa incubadora, sozinho, seu desejo era destruir esse hospital a patadas.

Sem saber o que fazer, sentou num banquinho do corredor, e começou a lacrimejar. Dava pena de ver. E João chegou correndo para consolar o genro.

— Calma, pois eles estão bem! Qual é o drama?

— A ignorância! Nem sabem de como fazer um parto! Não sabem nada de nada... O que vou fazer?

— Foi você que não quis estudar! Agora não tem choro, não...

— Vou ter meus outros filhos em casa! A primeira coisa que vou finalizar é essa piscina. Vou mostrar a estes incapazes como se faz um parto aquático!

— Dê exame de genialidade, filho!

— Onde?

— No Conselho Médico Lunar! Mostre para eles um parto aquático. Se eles o aprovam, vai ganhar seu título de Parteiro! E vai poder exercer a profissão. O que acha?

— Jura?

— Claro! Está cheio de homens que trabalham por conta própria! O escultor que fez suas porteiras, por exemplo. Ele só frequentou a Escolinha Infantil. E ele é considerado gênio, e tem título de “Doutor em estatuária em madeiras”. Tem seu ateliê, e envia as portas para a Prefeitura. É o trabalho dele.

Nos dias seguintes, Eva foi para a casa de Dina a se recompor, no seu antigo dormitório, que desta vez possuía uma enorme cama de casal. Para Eva não se desnutrir, Caim começou a mamar de Dina e Mariuska, pois tinha um apetite de leão e pesava uns 6 quilos.

Enquanto isso, Adão tratava a cicatriz dessa cirurgia horrorosa, 8 vezes ao dia. Limpava-a com gazes, passava o dedo, colocava uma pasta, tentando lembrar como fazia isso em vidas passadas. Depois tomava seu garoto no colo, e ia passear com ele na lagoa, onde os sereios sentavam na beirada, para ver as pessoas. E os sereios emitiam sons de felicidade, faziam mímicas, pois entendiam tudo que os homens falavam. Tomavam Caim no colo, e o arrastaram para nadar com eles, pois o menino ria feliz. Caim mergulhava, aguentava a respiração, e nadava mexendo a bundinha. Sempre nu.

Dina e Mariuska disputavam o neto, todos os dias.

Embora Dina tivesse um exército de filhos, Caim era seu primeiro neto. Grande, moreno como o pai e os avós, e gracejava de tudo. Era uma graça de guri

Adão sabia que tirar Eva e seu filho dessa casa ia ser difícil. Consolava-se dormindo a sesta, abraçado nela, sem fazer amor, pois ela estava toda doída. E era a primeira vez, em milhões de anos, que isso acontecia. Ficar de quarentena literalmente falando. João e Adônis não paravam de fazer piadas de sua castidade temporária. Nestor e a gangue faziam pior ainda. Chegavam à casa de Dina em bando, reclamando dessa casa pequena, exigindo para Adão terminar logo essa mansão, para poder fazer festas com todos eles dentro. Caim, de colo em colo, terminava cochilando, pois, todas as amigas casadas de Eva, queriam dar leite para ele.

No dia em que a cicatriz de Eva desapareceu, Adão colocou-a numa carruagem e partiu para casa, carregado de suprimentos. Farinhas, geleias, potes com mel, mamadeiras, pacotes de fraldas de tecidos finos, sabão de coco, bonecos de pelúcia, enfim. Do Lixeiro carregou uma cama para o filho, um ferro esquisito, e uma jaula para bebês. Também levou um saco de laranjas, do pomar da sogra, para fazer muitos sucos naturais para Eva, pois estava desidratada.

E nos dias seguintes, Adão fez tudo àquilo que prometera e jurara para João. Preparava uma sopa de legumes e levava para Eva na cama. Já se haviam passado uns 20 dias desse parto, mas Eva levantava tarde, dormia a toda hora, e não fazia nada além de dar leite para seu guri. Adão trocava as fraldas, desintegrava com um olhar as fezes do cagão, e deixava os panos de molho com sabão de coco. No fim do dia, esfregava, enxaguava, torcia e estendia ao vento. Depois de secos, os esterilizava com o ferro quente. As fraldas pequenas, do sangramento de sua mulher, Adão juntavam-nas num saquinho de papel, e enterrava no meio do mato. Eram de materiais ecologicamente corretos, de fibras que desmanchavam enterradas na terra, e enriqueciam o solo.

Eva olhava Adão fazendo tudo aos trancos, sorrindo. Ele era tão inútil nas tarefas domésticas, que ambos estavam sofrendo. A sopa era um horror. A lavação de fraldas pior ainda. Coitadinho. Beijava-o, fazia-lhe carinho, e quando Caim dormia o fazia feliz com a boca, beijando-o em todo lugar. Mas, assim que o sangramento desapareceu, retomaram a lua de mel interrompida, com dias de namoro, comidas e brincadeiras com o filho.

Mas, estavam num planeta selvagem. Pouco a pouco, a rotina do trabalho teve que voltar a suas vidas.

Adão colava tijolos vitrificados dentro dessa piscina gigante, enquanto Eva lavava as fraldas, fazia jantares deliciosos, cafés da manhã fumegantes, e faziam amor, em tempos intercalados, a toda hora. Enquanto Caim dormia, eles namoravam em qualquer lugar, pois o filho não os incomodava em nada. Ou ele mamava, ou ele dormia. Ao amanhecer Adão comia com Eva sentada no colo, pois, Eva lhe dava de comer na boca com colher. Riam, beijavam-se, pois, a felicidade era total.

Eva começou a fazer outros murais para sua casa, trabalhando numa mesa ao ar livre, quando o filho parou as mamadas. O curral do bebê foi instalado embaixo de um jacarandá florido, ao lado dela. Caim ficava sentado, brincando com lagartos, cobras, gambás, que rodeavam o curral, e faziam a alegria do filho. O tio Nestor lhe trouxe um casal de cachorrinhos do mato, lindos, que cresceram no colo de Caim. Com o tempo chegaram também duas jaguatiricas, um casal de panteras pretas, iniciando um mini zoológico para felicidade do menino. Nenhuma contaminação. Nem sequer alergias. Poder-se-ia dizer que nesse planeta os homens e as bestas eram como irmãos verdadeiros e as alergias por causa de pelos não existiam mais. Mesmo assim, Eva pingava gotinhas no pescoço dos peludos para afugentar as pulgas e os carrapatos. Apenas isso.

Quando a piscina ficou pronta, Adão abriu o cano que se alastrava embaixo da terra desde uma vertente natural. Quando ela encheu até a beirada, mergulhou e abriu a escotilha do fundo, para que a água saísse indo se esvaziar num rio. Dali para frente ela estaria sempre cheia, com águas cristalinas, puras, que dava para beber, e para se divertir ao mesmo tempo.

Como Caim já sabia nadar, Eva pulou com ele no colo e afundou de vez. Fê-lo aguentar a respiração por um minuto embaixo dessa água e a seguir o levou para a superfície lentamente. O menino respirou sem medo, e Eva o arrastou para o fundo de 2 metros, mais uma vez. Nos dias seguintes, Adão o empurrava mais para baixo, até os 8 metros, e Caim imergia como um golfinho mexendo o bumbum. No fim dessas aulas de mergulho Eva o recebia com uma mamadeira de leite de cabra com maisena, sentada na beira da piscina, enquanto Adão aproveitava para repartir milho às galinhas, que apareceram do nada, frutas para Belzier, e colocava bananas penduradas de 6 árvores para uns macaquinhos bem pequeninos. No fim da tarde, o filho era levado para sua cama, com grades altas, para ele nunca sair dali. Adão também fechava portas, janelas, dessa casa minúscula, com medo dele fugir engatinhando para o mato escuro.

E a doce rotina de suas vidas se alastrou maravilhosa, pois assim que a gangue soube que a piscina estava pronta, invadiam-na a toda hora, sem pedir licenças. Organizavam-se piquenique, competição de mergulhos, e vê-los nadando, ou, comendo, era algo que acontecia todos os dias. Caim nadava na piscina com as visitas até o entardecer, pois já sabia entrar e sair dela engatinhando. Ao anoitecer, jantava em meio de todos, pois Caim já comia e dormia que nem leãozinho.

De vez em quando os amigos ajudavam Adão com as paredes dessa casa.

Quando ficavam a sós, Eva então cuidava do cansado marido. Massagens nas costas, muitos beijos ardentes, e o fazia feliz. Deitavam na cama entrelaçados até o dia seguinte, para reiniciar a gostosa rotina desde o amanhecer.

Uma noite, Eva teve uma inspiração:

— Quantos murais ainda temos, meu amor?

— Vinte! Quer trocá-los?

—Por trabalho! Fale para os amigos da cidade que quem levantar uma parede ganha um mural, quem coloca as portas, mais um! O que acha?

— Que você é meu gênio! Vai ser moleza...

Antes de Eva ganhar seu segundo filho, eles já estavam vivendo dentro da mansão, que ficara realmente linda.

Nos dias subsequentes Adão carregou do Lixeiro e dos armazéns da Prefeitura, tudo que achou. Camas de madeiras, todas entalhadas à mão, estantes de “plastonita” — chegada de outros mundos — cadeiras altas de madeira pintada, sofás macios recheados de algodão, mesas pequenas, almofadas, cobertores de lã e de linhagem, cortinas de algodão, e com ajuda do sogro fez uma mesa para 20 pessoas, que colocou na sala principal, em frente às janelas que davam para a piscina.

A pequena casinha, ao lado, passou a ser definitivamente o ateliê da artista. Ficaram dentro dela as ferramentas, os maçaricos, estantes de plastonita, para continuar trabalhando, quando fosse possível. O forno de cerâmica entrou junto, para ficar no dormitório. E a barraca externa foi desintegrada.

Antes desse segundo filho nascer, Adão já possuía título de “Doutor em partos aquáticos” e Nestor, seu irmão, era um veterinário formado, ao igual que todos seus amigos da gangue. Mas, porém, com tanta hesitação de deixar esse lugar maravilhoso, Eva começou a dar à luz prematuramente. E ver o nascimento do segundo filho de Eva, dentro da piscina, acordou essa cidade. Através da telepatia a notícia cruzou esse mundo em poucos minutos.

E o parto começou.

Eva foi deitada sobre uma almofada de areia, numa profundidade de três metros embaixo dessa água. Eva aguentou a respiração e empurrou com forças. Adão dilatou essa vagina com um olhar, entrou seu braço e puxou uma cabecinha com delicadeza. Recebeu o menino, cortou o cordão, e deu para sua cunhada Tatiana fazê-lo respirar na superfície dessa piscina, enquanto Adão já estava puxando mais um menino, com Perci pronto para ajudar em tudo.

Nestor e Ana, sentados na beirada, junto com os amigos da gangue, pareciam que estavam em dia de festa. Quando Sílvio apareceu chacoalhando que nem patinho, e sorriu para o público, Ana ficou branca, ao ponto de desmaio. Depois emergiu Alexandre, como um sereio, e por último Miguel, olhando curioso para os humanos que aplaudiam em coro. Sílvio era o retrato vivo de Nestor, loiríssimo, olhos azuis como a água dessa piscina cristalina. Miguel e Alexandre eram iguais a Adão, e aos avós Adônis e João, luzindo apenas os olhos azuis de Nestor.

Enquanto João e Adônis mergulhavam de cabeça para disputar os netos Alexandre e Miguel, gritando aos berros: — São iguaizinhos a mim! Nestor começou a chorar. Ana escondeu a cara, abraçada nele, formando um casal que choramingava e lacrimejava, sem que ninguém entendesse o motivo. Eva saiu nadando, respirando forte para recuperar o fôlego, e foi abraçá-la, tentando acalmá-la, ao lado de Adão, que lhes trouxe Sílvio nos braços:

— Calma, irmãzinha! Vão ser de nós quatro! Vamos, te alegra... Eles nos seguiram, por algum motivo...

Adão deu Sílvio para Ana e se abraçou a Nestor, sem falar nada. Como Ana tinha leite de sobra, pois Nestor mamava dela, desde que casaram, puxou um seio e deu de mamar para Sílvio, enquanto tentava parar o choro. Eva sentou ao seu lado para receber Alexandre, e para que mamasse dela. Dina apareceu pingando de água com Miguel e deu seu peito para o neto. As três mulheres ficaram lado a lado, sentadas na beira da piscina, pés dentro dessa água, alimentando os recém-nascidos, enquanto as pessoas ainda riam, aplaudiam, e festejavam o tremendo acontecimento. Só de médicos e enfermeiros havia chegado ao galope uns 40. O hospital da cidade estava totalmente sozinho. Nos últimos tempos só tiveram três partos, de meninas que já estavam em casa.

Ninguém teve pressa em desocupar o lugar.

Dina e Tatiana distribuíram petiscos, sucos de frutas, pois ninguém dava sinal de ir embora, e a gangue começou a alegrar o encontro com os batuques. Parecia uma festa de índio, num ritual sagrado.

Tarde da noite, Ana levou os três meninos para sua casa. Desta maneira, os trigêmeos cresceram indo e saindo da casa dos “tios”, que os amavam tanto quanto seus pais. Ana dava-lhes de mamar quando bem menores, depois lhes fazia purês de verduras, sucos, e tortas de frutas com cremes, que eles adoravam.

Ana e Nestor passaram a jantar na casa de Adão, juntando definitivamente as panelas. Ana e Eva se revezavam na cozinha, pois a família agora tinha 6 homens. E toda mulher sabe que homem come muito. Nestor também conseguiu uma licença de paternidade com o Prefeito Alain, alegando que Adão era incapaz de criar quatro filhos de uma vez. E Alain deu-lhe um ano de licença, para curtir os sobrinhos.

Desta maneira, os trigêmeos cresceram brincando com Caim, seus tios, seus pais, sempre rindo, correndo, pois nessa mansão não havia mais perigo de fugas para o mato.

E a rotina continuou maravilhosa, sem nada que perturbasse a felicidade de Adão e sua família.

Cedo de manhã Eva colocava as frutas na batedeira e fazia cinco litros de sucos. A massa do pão fazia-a de noite, antes de ir para cama. De manhã, colocava as formas no forno grande, e distribuía a massa para bolo, que também as batia a noite anterior, no forno embutido na parede. Eva também preparava chás fumegantes, e os meninos comiam e bebiam de tudo, pois tiveram fome de leões desde pequeninos. Caim consumia uma cuca de banana todos os dias. Ana se juntava ao desjejum trazendo o que os meninos mais gostavam de comer, e dava na boca a quem estivesse mais perto.

Lavar fraldas para 4 bebês, passou a ser a coisa mais pesada na vida de Adão. Embora Caim já sentasse na patente, Eva insistia nas fraldas. E Adão concordava. Ele corria por cima de Belzier, tempo todo, e sempre terminava sujando as fraldas.

Por esse motivo, Ana e Nestor ajudavam bastante desta vez. Mas como a barriga de Eva estava gigantesca novamente, Ana ria, para não chorar, pois depois seria um batalhão de filhos e uma montanha de fraldas para lavar.

Mas, antes de Amon-rá nascer, Eva recebeu um dia, de surpresa, a visita do Prefeito Alain na sua casa. O Prefeito começou a elogiar sua arte, seus murais na parede, seus tijolos esmaltados, falando que um gênio igual a ela, não havia em nenhuma cidade de “Z”.

Eva o convidou para jantar, e na mesa a conversa foi mais longe.

— Sabe, Eva, uma mulher como você está dispensada de trabalhar e seu marido também, e eu dei licença a sua irmã e seu marido, pois neste mundo cuidar de um filho é nossa obrigação principal...

Eva o interrompeu, dizendo:

— Pode me pedir qualquer coisa, se eu receber em troca, uma lavadora de roupas para 20 quilos de agasalhados...

— Mas isso existe?

— Mas logicamente... Peça para os Vendedores espaciais...

— Mas isso e ótimo! Eu sempre tive tanta pena das mães lavando roupa suja no rio...

— Quantos murais o senhor quer?

— Nenhum... Só vou lhe pedir que ensine sua arte para 30 meninos inteligentes... Só isso...

— Menores não servem. Tem que ser adultos... É perigoso lidar com fogo...

— Fogo? Mas que fogo?

— Maçarico... Tem que usar máscaras para soldas, luvas grossas, ligas metálicas, alicates, martelos, só gente forte pode fazer isso...

— Mas que contrariedade! Os machos deste mundo só gostam de trabalho bruto... Adão deu uma ideia:

— Estagiários! Eles são curiosos... Ofereça cursos para eles, Alain...

— Mas vão querer os murais para eles... O que eu quero é trocar esses painéis por milhares de coisas. O Lixeiro ficou quase vazio... Apenas sobraram umas caixas de cerâmicas azuis, esculturas verdes, muito velhas, que ninguém quer...

Eva quase pulou de sua cadeira. Olhou para Adão e gritou:

— Antiguidades! Amor, você tem que ir lá! Devem ser antiguidades... Você traz para mim? E eu vou fazer um mural para a Prefeitura, a cada 20 dias... Está bem para você?

— Ótimo! Obrigado! Obrigado, pelas mães que lavam roupas...

No dia seguinte, Adão e Nestor traziam do Lixeiro os mais lindos baús do Universo, abarrotados de antiquíssimas peças da Terra, principalmente da China. Havia um Buda de jade verde, enorme, de uns 50 quilos, porcelanas translúcidas da Dinastia Ming, esculturas de mármores da Ilha de Creta, baús de nácar da Índia, um relógio estilo rococó, de ouro, figuras em marfim, e uma escultura de vidro azul, de 1 metro de altura, no estilo moderno. Um tesouro enviado numa cápsula espacial, por homens das cidades subterrâneas, antes de abandonar a Terra.

Eva chorou de emoção. Limpou tudo com álcool, e os fez levitar aos seus lugares. Só não sabiam o que fazer com o relógio, pois nesse planeta nenhum homem contava as horas. Mesmo assim Adão pendurou-o na parede da cozinha, e o fez funcionar para tirar uma dúvida. Quanto tempo demorava em dar a volta completa, desde o Sol do amanhecer até o Sol do entardecer? E ele deu duas voltas e meia. Concluiu que comparado a Terra, o dia tinha cento e vinte horas.

Quando a lavadora chegou num caminhão da Prefeitura, Eva voltou a choramingar. Parecia uma obra de arte. Enfeitada com figuras, altos-relevos, e uma tampa translúcida. Ela foi acomodada na casinha pré-fabricada, no lugar do antigo fogão da cozinha, ligada a um tanque na parte de fora. A água entrava limpa, saía suja, pois dentro desse tanque a água se limpava e purificava sozinha. O tanque possuía paredes ionizadas que se alimentavam de sujeiras, e tinha uma vida útil de mil anos. E nenhum sabão era usado. A sujeira desaparecia nessa água como mágica.

Ana e Eva inauguraram essa tecnologia de outro mundo com 30 fraldas sujas. Elas desintegraram os cocôs, enxaguaram um pouco, e colocaram dentro. Depois de meia hora, conforme o relógio, elas estavam brancas, desinfetadas, quase secas.

Alain nunca foi tão abraçado e beijado por tanta gente.

E a doce rotina, da vida perfeita, continuou seu rumo.

Eva olhava em redor, e pensava com ela mesma, que realmente estava em meio da felicidade plena. Seu homem, mais apaixonado dela do que nunca, sempre a ajudando em tudo, principalmente nos cuidados dos filhos. E seus meninos eram a coisa mais linda desse mundo. Ela os adorava. Caim corria pela mansão sem descanso, e os trigêmeos engatinhavam atrás de um marreco, ou de um sapo, ou uma galinha, uma pantera negra, livres como os próprios bichos. Afinal, dentro dessa linda mansão, além das cerâmicas maravilhosas da China, havia muitos animais, que entravam e saíam fazendo a delícia dos garotos. De vez em quando, Belzier se deitava no chão, no meio da sala de visitas, e os quatro irmãos subiam nele, se agarrando um nos outros. Ele se levantava com cuidado, para não deixar as crianças cair e se machucarem. Dava uma volta pelos jardins trotando, até que perdiam o interesse e se jogavam um a um, de um salto, para o chão.

Enquanto os meninos se divertiam aos cuidados de Adão, Eva fazia as soldas dos murais, num trabalho que durava pouco tempo. Quando a Prefeitura recolhia as doações, de casa em casa, Eva entregava seu trabalho para os recolhedores que sempre falavam: — Nossa, que coisa mais linda! Desta maneira, todos os depósitos da Prefeitura ficavam cheios no fim do dia. Ficavam neles as roupas tecidas com crochê, ou tricô, os sapatos, na maioria sandálias, vidros com mel, e as geleias de frutas. Junto a tudo isso estavam as portas esculpidas à mão, os utensílios de argila e de madeiras, os móveis rústicos de cedro entalhados, sofás macios, almofadas, espelhos com molduras decoradas com conchas, ou flores de sementes.

Quando os Vendedores espaciais chegavam à Lua desse mundo, desciam a examinar todos os armazéns desse planeta, cidade por cidade. A seguir recolhiam o que havia de mais belo. Dessa cidade levavam todas as portas entalhadas, pinturas com paisagens, todos os murais de Eva, e os frascos com mel, pois era o que os homens de outras Galáxias recebiam com entusiasmo. Em troca, enchiam o Lixeiro com casas pré-fabricadas de “plastonita”, armários desmontáveis do mesmo material, máquinas de lavar roupa, geladeiras, liquidificadores, fornos embutidos, utensílios para o lar em geral.

Notas finais
No dia seguinte, Adão e Nestor traziam do Lixeiro os mais lindos baús do Universo, abarrotados de antiquíssimas peças da Terra, principalmente da China. Havia um Buda de jade verde, enorme, de uns 50 quilos, porcelanas translúcidas da Dinastia Ming, esculturas de mármores da Ilha de Creta, baús de nácar da Índia, um relógio estilo rococó, de ouro, figuras em marfim, e uma escultura de vidro azul, de 1 metro de altura, no estilo moderno. Um tesouro enviado numa cápsula espacial, por homens das cidades subterrâneas, antes de abandonar a Terra.