Adão e Eva, do inferno ao paraíso, Segunda parte
5 A vida perfeita e feliz (continuação)
Notas iniciais
E a pacata vida de “Z” continuava, sem sofrimentos, pois os homens não conheciam a palavra ambição, nem o descontentamento. Eram felizes com o que possuíam, compartilhavam o que sobrava, e supriam as necessidades domésticas com as próprias mãos.
E Adão e Nestor eram os homens mais felizes vivendo essa vida simples.
A cada 5 dias, levavam os guris para passear no lago.
Eva e Ana preparavam um banquete a noite anterior, e enchiam cestas de guloseimas. Viajavam de carruagem por causa das crianças. Chegando à lagoa, subiam nas barcaças de madeira, e remavam para as ilhas desse lago.
Em redor das ilhas, havia bichinhos bem parecidos com as focas da Terra, pinguins, por cima de rochas gigantes, e nas árvores milhões de pássaros cantavam, voavam, enfeitiçando o ambiente de beleza. Mas o que derretia o coração era a contemplação dos cisnes negros e brancos, que nadavam ao lado da barcaça com seus pescoços elegantes. Também havia marrecos de penas coloridas, e mergulhões.
Chegando às ilhas, Adão e Nestor corriam com os meninos pela praia, e imergiam no lago, enquanto Eva e Ana estendiam toalhas, e colocavam os manjares por cima, tampados, pois a bicharada era esperta. Sentiam o cheiro de comida de longe, e chegavam perto em busca de alguma sobra de bolo, ou casca de frutas, pois eles engoliam qualquer coisa.
Os trigêmeos não gostavam tanto assim dos bichos. Mas Caim dava de comer na boca aos pinguins, rindo às gargalhadas. Também sabia chamar as águias. Uma águia cruzava o lago, e chegava ao seu lado para comer bananas, pêssegos, e depois voltava para os picos de uma montanha, com seu voo magnífico, que entretinha a todos.
E foi assim que eles cresceram, sempre rindo, sem machucados desta vez porque a pele dos adultos e dos filhos era duríssima.
Quando Amon-rá nasceu, Caim já ia para a Escolinha Infantil. Havia abandonado as fraldas definitivamente, e com seu tamanho parecia muito mais velho do que era. Montando Belzier, ele foi um sucesso desde que chegou nesse recinto. Foi campeão de saltos e de corridas a cavalo em qualquer competição. Nos campeonatos de atletismo, era sempre o ganhador, e em saltos a longa distância foi o recorde mundial. Ele só deu fiasco quando teve que colocar as sapatilhas de balé. Passou a ser motivo de chacota, piadas, pois machucou uma perna num salto infortunado. O joelho inchou, e ficou em casa vinte dias para tratamento com argilas, gelo e pomadas.
Quando Inês nasceu, os trigêmeos iam junto com Caim para a Escolinha infantil, cada um em um unicórnio, filhotes de Belzier já crescidos. E dentro da Escola, os trigêmeos seguiram os passos de Caim, sendo recordes mundiais em saltos com cavalos. Seus únicos concorrentes eram três gurias, que corriam a cavalo como índias selvagens. Dispensavam selas, montavam sobre uma manta, e se perdiam nas pradarias, gritando. Natália pulava com o cavalo, sem jamais derrubar uma barreira. Zezé sempre chegava primeira em qualquer corrida a longa distância. E Areti fazia de tudo. Principalmente em ginástica dava saltos monumentais.
E as conversas no fim do dia, com Nestor e Ana presentes na mesa, faziam rir até sair lágrimas. Inês comia no colo de Adão, Amon-rá já se alimentava sozinho, mas Eva sempre estava ao seu lado limpando-lhe a boca, como um bebezinho. Ele era tão mimado, que pedia tudo para mãe. Eva lhe cortava o pão, colocava cremes, ou geleias, e depois punha tudo num prato com um garfo. Ele abria a boca, pegava um pedacinho, e pedia mais alguma coisa, sempre chamando atenção de Eva para tudo. Enquanto isso, os filhos maiores falavam das novidades do dia a dia. E os trigêmeos gostavam de reclamar de tudo.
— Sabe, pai, nessa Escola não se ensina nada... Eu tive que fazer 50 tijolos de barro... E eu nem quero ser construtor...
— E essas aulas de balé, mano? Só as mulheres sabem bailar isso... Não tem um macho que não se espatife no chão...
E Adão perguntava:
— Mas deve ter três dançarinas que fazem vocês babar... Ah? Não tem três gurias lindas? Contem a verdade para mim...
— Tem... Mas são loucas... A Areti tem um soco, pai, ela já machucou o nariz de três guris que tentaram dar-lhe um beijo... O último teve que fazer cirurgia plástica na Lua.
Eva e Ana riam tanto que choravam. O guardanapo nunca limpou tantas lágrimas.
Adão lhes perguntou mais uma vez:
— E as outras duas loucas, como é que são?
— Pateiam como os cavalos... Mais parecem éguas...
Nestor gracejava mais alto ainda. Dava gargalhadas gostosas. Adão incrédulo mexia a cabeça, e voltava a dizer:
— Sabe, filhos... Na verdade, elas são guerreiras intergalácticas, não desta vida, mas da vida anterior... São lutadoras. Soldados.
— Sério, pai? E nós, o que fomos?
— Guerreiros! Vocês já se conhecem... Foram amigos... Estavam juntos na mesma guerra nesse passado...
Miguel falou:
— Nossa! Eu gosto da Natália, pai, mas e se ela me dá uma surra? O que eu faço?
— Dá nada... Imagina... Convida-a dar um passeio no unicórnio... Vai dar certo...
Sílvio gritou de olhos arregalados:
— Então eu fico com a lutadora Areti... Ela é a mais linda das três...
Alexandre falou:
— Ainda bem, pois a Zezé é minha... E eu surro o danado que tente olhar para ela...
Caim, que estava sempre mais caladão ultimamente, lhes falou:
—Então, eu vou contar um segredo! Eu estou noivo! Você sabe fazer anel de noivado, mãe?
E Adão com Nestor ria e gracejava, pois, seus garotos eram retratos fiéis, deles mesmos.
No dia seguinte, Areti estava correndo a cavalo em meio do mato, longe dos olhares dos mestres, quando Sílvio lhe cruzou o caminho. Nesta vida Areti nascera com seus olhos lilás da encarnação anterior, mas seus cabelos eram castanhos, e a pele branca. Olhou para Sílvio e seu coração disparou de vez. Aceitou sentar com ele no unicórnio e se deixou seduzir. Primeiro, foi um beijo longo, suave, delicioso, depois um abraço apertado, e o pedido de noivado, pois eram pequenos demais para casar.
Natália viu o descarado do Miguel olhando para ela dançar, com cara de imbecil. Só faltava ele babar de verdade. Mexeu o corpo com sadismo, pulou, deu cambalhotas, e quando as aulas de balé terminaram, foi tomar banho. Mas no corredor, ele lhe cortou o passo, abraçou forte e deu-lhe um beijo de surpresa. Ela gostou tanto que se esqueceu do banho, e voltou para casa no unicórnio dele. Sentada de lado, para não parar de beijar.
Alessandro caminhou ao encontro de Zezé assim que chegou nessa Escola. Tomou sua mão, beijou, e pediu para que ela fosse sua noiva. Ela, que era apaixonada até a alma por ele, desde o primeiro dia que entrou nessa escola, deu-lhe um beijo suave na mesma mão, enquanto falava que sim. Ele abraçou-a, com um beijo macio na boca, e ficaram ali, até que os mestres os mandaram se separar, pois eram pequenos demais para essas coisas. Rindo, Alessandro invitou-a ir para casa no seu unicórnio.
Dali para frente, os quatro noivos saíam dessa Escola, cada casal num unicórnio, com as noivas os beijando durante todo o trajeto, até chegar perto da mansão, que ficava na metade do caminho. Só então as gurias sentavam nas suas éguas, e se pediam ao galope rumo à cidade, como índias selvagens. Todos com um anel de ouro no dedo, feito por Eva.
Como os trigêmeos e Caim eram filhos de Adão, e sobrinhos de Nestor, foram levados direto para a Lua e os esterilizaram, sem sequer se preocupar pela ascendência. Filho de peixe, peixinho é! Falavam os mestres. E mexiam a cabeça com resignação.
Jesus e Paulo nasceram gêmeos novamente, mas completamente diferentes um do outro. Jesus tinha olhos azuis como os trigêmeos, cabelos castanhos claros, e Paulo nasceu moreno como Adão, Caim, Amon-rá, Alessandro e Miguel.
Diana nasceu enquanto os gêmeos cumpriam um ano de vida. Eva nem pôde fazer a festinha de aniversário, pois sentiu as dores do parto antes do tempo, ao cair do Sol.
Adão entrou os dedos na sua vagina, para fazer exame ginecológico, e a abriu totalmente para encurtar as dores. Depois a carregou para a piscina, quase escurecendo, e assim que Eva deitou no fundo Diana saiu desse útero que nem peixinho, grandona, loiríssima, mais linda do que nunca. Quando a reconheceram, Eva chorava, sem acreditar. Diana havia desprezado as alturas para vir nascerem deles, como os trigêmeos de Ana. Adão também derramou uma lágrima. Diana era loira como Nestor, mas no caráter era idêntica a Adão. Séria, gênio em medicina, inteligentíssima, e uma imbatível lutadora de espadas.
Nadando na piscina, Eva perguntou para Adão:
— O que será que aconteceu com Diana, Areti e os trigêmeos? Como foram perder o caminho para as alturas?
— Erraram nada! Um malandro os enganou, e trouxe para cá a todos com um papo furado! Só para viver mais uma vez com as irmãzinhas...
Com Diana no colo, foram para o dormitório dos gêmeos, e olharam para eles. Depois chegaram Amon-rá, Inês, os trigêmeos e Caim. Eva perguntou para todos:
— Qual de todos vocês a trouxe para cá?
Inês apontou o dedo para Amon-rá, ao lado...
Adão o tomou no colo, deu um beijo, e lhe disse:
— Filho, pode me pedir o que quiser, pois não há nada que eu não faça por você...
— Hum... Torta de morangos, só para mim...
— Mas eu nem sei cozinhar...
— Por isso mesmo! Queremos dar umas boas risadas com os manos...
Depois a alegria foi geral.
Ana e Nestor chegaram para ver o que estava acontecendo, e viram a Diana maravilhosa, rodeada de irmãos, rindo para a plateia. Ana a tomou no colo, e se ofereceu para cuidar dela essa noite. Eva estava cansada, pois dilatara muito, e estava com duas fraldas entre as pernas, sangrando abundantemente.
Adão saiu para o mato em busca de ervas, preparou um remédio natural fortíssimo para Eva beber, colocou-lhe cataplasmas de argila no ventre, para puxar o calor interno, e a deitou de pernas para cima. Cheia de almofadas. Em redor, todos os filhos a cercaram, falando que nem papagaios, beijando-a, e perguntando quantos meninos faltavam para nascer.
Quando Adão disse que ao todo iam ser 13, eles riram em coro. Foram dormir tarde, e no dia seguinte somente os trigêmeos foram para a Escola. Caim e Amon-rá ficaram curtindo a recém-nascida, com seus irmãozinhos menores, enquanto Adão na cozinha fazia uma torta, com Ana ao lado dando instruções, e os filhos rindo sem parar. Tomaram o café juntos, e deixaram a festa dos gêmeos para o fim de semana, quando a mansão lotava por si só.
Para a festa de aniversário dos gêmeos chegavam a gangue de Nestor, a família de Eva, que era um batalhão, Adônis e Mariuska, Tatiana com Perci, pois essa mansão era o único lugar onde não ficavam apinhados. Como todos traziam alguma coisa preparada de casa, Ana só preparou uma torta gigante, que foi colocada na mesa, fora de casa, embaixo de uma parreira que começava a dar uvas gordas e suculentas.
Cantaram para Paulo e Jesus: — Parabéns para vocês... e em seguida, eles receberam os presentes. Bonecos de panos, carrinhos de madeiras, boliches, e uma máquina que emitia sons eletrônicos.
Ao cair à noite, Eva estava melhor.
Adão examinou-a, e prometeu um ano de descanso para ela se recompor, e ter os filhos que faltavam. Deitou abraçado nela, beijando seu pescoço, sussurrando na orelha o quanto a amava, e o quanto estava adorando ter, mais uma vez, todos seus guris. Seus filhos da Pré-história da Terra, nascidos milhões de anos atrás, e que se perderam deles com o passar dos milênios. E agora, “00” estava cumprindo sua promessa. Enviando-lhe todos, um a um, para ser um bando, como no início. Como convidados especiais, haviam chegado seus sobrinhos. Eva entrou a língua na sua boca, pois Adão ia começar a chorar emocionado, pois ele amava seus garotos.
Enquanto Diana crescia, a doce rotina tomava conta, mais uma vez.
Amon-rá e Inês começaram a ir à Escolinha, junto com os irmãos mais velhos, num cavalinho menor. Ficavam em casa Jesus e Paulo que eram meninos menos arteiros. Preferiam estudar formigas, minhocas, de preferência no jardim de casa. Também gostavam de entrar juntos no ateliê de Eva, pintar figuras em papel, desenhar, com Diana sentada no curral para bebê, em meio dessa casa pequena. Eva e Adão cortavam os metais, armavam o mural, e Eva fazia a solda sozinha, quando os menores passeavam com Adão, ou nadavam na piscina.
Aliás, foi nesse ateliê que Eva engravidou de Nohiki.
Num dia em que Ana levou os três menores para passear na Ilha, de barco, Eva sentou no ateliê para pintar um ramo de violetas e terminar seu mural. Adão sentou embaixo dela, começou a acariciar, suavemente, para ela não tremer nas pinceladas. Quando Eva deu por finalizado seu trabalho, entraram na piscina. Como não havia nenhum ser humano, nem sequer um bicho os olhando, caíram nus nessa água, e ambos ficaram o resto do dia namorando, pois Eva mergulhava com Adão agarrado nela, como um sapo, o tempo todo. Ficavam respirando em pê, na parte baixa, bebiam dessa mesma água, comiam uma fruta, e assim que recuperavam as forças, Eva ia para as profundezas com seu homem-sapo agarrado de pernas e braços nas suas costas.
Quando sentiram a família galopando no mato, Eva colocou sua calcinha e sutiã, Adão uma cueca, e os filhos pularam com roupas e tudo. Todos rindo, gargalhando, falando ao mesmo tempo, contando as novidades do dia.
Nos anos seguintes, nasceram Nohiki, Peter, Sira, e Marta, com diferença de um ano entre cada um. Depois dessa última filha, Adão pediu a Nestor que lhe fizesse uma cirurgia de esterilidade.
— Mas eu só sei esterilizar animais, mano...
— E qual a diferença? Ah? Nenhuma. E o João também quer. Ele detesta a vagina curta. Que nem eu!
— Mas ninguém pode saber! Ou perco minha profissão! Ainda bem que aqui não tem cadeias... Em outro mundo selvagem, eu seria preso...
Depois os anos transcorreram na doce rotina.
Uma a uma as crianças foram sendo promovidas para cursos superiores, e Marta um dia foi levada para Escolinha Infantil, entre todos os irmãos. Peter sentou-a junto dele, no seu unicórnio, pois a caçulinha era a mimada de Adão. Devia cuidar dela para não se machucar. Nem parecia que havia outras filhas. Já Nohiki e Sira entravam na mata como índias selvagens ao galope, por cima de Belzier e sua fêmea, seguidas pelos irmãos mais velhos.
Eva saía da cama cedo para dar café aos meninos e colocá-los nos cavalos e nos unicórnios, e olhar se perderem com rumo às escolas. Os mais velhos para a cidade, os menores para Escolinha Infantil. Voltava para essa cama com um café suculento, e Adão abria os olhos para essa miragem maravilhosa: a bandeja com comidas. Enquanto ele bebia sucos de frutas, pão recém-saído do forno, cucas, ovos cozidos, Eva enchia a banheira de água. Depois entrava a se refrescar. Adão logo entrava junto, sentava junto dela, e o chamego começava imediatamente. Depois, cansados de tanto se amarem, dormiam mais uma vez.
Era um paraíso perfeito.
No fim do dia, Eva preparava a janta e recebia a filharada.
Era uma fileira para beijar, abraçar, começando com os menores. Amon-rá subia nos ombros de Adão quando era pequeno, e depois deu o lugar para Peter. Peter entrava em casa nos ombros do pai, e Sira, Nohiki, Diana, Marta e Inês se abraçavam na mãe, agarradas, rindo, caminhando com dificuldades. Adão se jogava em alguma almofada, onde seus machos gostavam de cair por cima, como quem luta em grupo. Os gêmeos Jesus e Paulo, Amon-rá e Peter davam socos no pai, sem dó, rebolavam gargalhando, pois amavam Adão com paixão. Caim chegava a casa por último. Ele tinha que acompanhar Délia para casa. E como era uma viagem só para namorar, ele entrava assobiando e sorrindo, e se juntava a bagunça brincando com os irmãozinhos. Os trigêmeos preferiam cair por cima do tio Nestor. Assim que ele entrava na mansão imitavam socos de boxe, os quatro rolavam pelo chão como guris, e Ana os observavam sempre com olhos úmidos. No fundo, eles os amavam como pais verdadeiros.
No dia em que a caçulinha Marta fez 7 anos de idade, Caim estava transformado em veterinário. Foi também durante esse ano que ele começou a construir sua moradia para poder casar. Com a ajuda dos tios, filhos de João, levantaram uma casa de madeira, de dois andares, aconchegante, a uns três quilômetros da mansão. Fez um cercado, com portão firme, para que seus filhos não saíssem para o mato. Limpou o chão, plantou uma grama fina, para seus filhinhos engatinharem sem machucar os joelhos.
Mas Caim casou com Délia e não teve filhos, pois ele continuou com sua esterilidade por muitos anos. Igual a Adão, gostava de namorar sua mulher o tempo todo. A grama sobrou para ele se estender nu ao Sol, com uma mulher abraçada por cima dele, pois ambos adoravam fazer amor ao ar livre. Caim fechava os portões, tirava a roupa, e ficavam sozinhos, num jardim florido, com uma grama macia que servia de colchão. Faziam amor olhando as estrelas da noite, ou, embaixo do Sol ardente, ou, embaixo de chuva. Entravam em casa rindo, onde uma banheira de água quente os recebia. Como Caim trabalhava com sua mulher, eles só se separavam por causa das águias.
Quando um grito com telepatia chegava ao seu ouvido, Caim ia para Prefeitura para ver seu calendário de atividades. Os Estagiários da Lua enviavam bilhetes para o Prefeito Alain, dando o lugar das montanhas onde havia águias na beira da morte, junto a um mapa para se guiar entre o mato. Délia era a assistente de seu marido, mas, na verdade, ela não fazia nada. Só recolhia os bilhetes para o marido com o Prefeito Alain, e os medicamentos nas lojas da Prefeitura, enquanto Caim selecionava os instrumentos cirúrgicos, e os suprimentos para um camping em meio do nada. Cavalgavam pelo mato, corriam, pulavam, e namoravam onde dava, durante dias longos, dependendo do lugar das cordilheiras.
Quando atingiam o fim do caminho, armavam uma barraca.
Ao raiar o Sol, Caim escalava as montanhas com cordas para examinar os ninhos com as águias doentes. Como eram arredias, elas morriam infestadas de parasitas, ou cegas, ou de fome com os bicos quebrados. Caim tratava-as nos mesmos ninhos. Fazia transplante de bicos, passava remédios nas penas contra parasitas, e fazia cirurgias nos olhos. Depois descia a montanha, num trabalho que ele adorava.
Ficavam acampados uns dias, para ver o andamento das cirurgias. Caim as examinava diariamente, passava-lhe cremes, pingava gotas nos olhos, e lhes dava de comer na boca com muito carinho. Nunca uma águia lhe deu sequer uma bicada.
No regresso visitavam Adão, e os pais de Délia, pois a família era a paixão da vida deles. Amavam a todos. Principalmente os irmãozinhos de Caim, que formavam um batalhão barulhento, sempre rindo, sempre se abraçando, na verdade, a mansão parecia uma Escolinha infantil. Nada faltava ali dentro. Cavalos em redor, unicórnios brancos, magníficos, vacas pastando, cabras, pacas, galinhas aos milhares, patos que caíam na piscina a nadar junto com os piás, era uma mistura de Escolinha e Zoológico.
Caim dormia em casa de seus pais, tarde da noite, depois de longas conversas na mesa, rindo das novidades de seus irmãozinhos. Saíam da cama ao meio-dia, caíam na piscina para se refrescar, almoçavam, e partiam para casa. E retomavam a rotina de namorar a todo o momento, pois a Prefeitura os chamaria com telepatia quando necessitassem de seu serviço.
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