Across The Ice Line.
7 Coachella.
Notas iniciais
Clarisse caminhava a passos largos às vezes ela não tinha noção de como as outras pessoas eram diferentes dela, pois Piper precisava quase correr para acompanhá-la. Já tinha um tempo desde que foram lançadas na estrada da calorosa Califórnia e quanto mais as duas caminhavam, mais distantes pareciam estar de qualquer pessoa viva. O sol queimava em cima delas, Piper mentalmente amaldiçoava Apollo que estava particularmente empenhado naquela tarde.
– Onde é que estão os carros? – Piper reclamou com a voz arrastada, nenhum carro havia passado por elas era como se o lugar fosse deserto ou ninguém quisesse ir pra lá.
– Alguma coisa esta errada. – Clarisse falou olhando em volta pra pequena cidade mais uma vez. O lugar era extremamente belo quando se parava pra olhar e isso essas duas haviam se esquecido de fazer, mas era como se fosse feriado e todas as lojas estavam fechadas encontraram alguns carros estacionados, mas todas as portas estavam fechadas. Vez ou outra elas avistavam uma pessoa longe e apesar de Piper querer correr e alcançá-la Clarisse sempre dizia que era melhor não. – Vamos por ali.
Elas seguiram a direção de onde tinham visto a ultima pessoa e encontraram mais lugares fechados, mas aos poucos foram esbarrando com mais gente. Um cara muito empolgado cantava uma canção sem sentido quando passou por elas de bicicleta. Clarisse o olhou, desconfiada e Piper sorriu com a cena.
– Acho que sei onde estamos. – Disse apressando o passo e realmente começando a correr dessa vez. Clarisse a seguiu ainda sem entender.
– Onde? – Gritou, mas Piper não parou de correr atrás do ciclista.
Depois de uns quinze minutos começaram a escutar uma musica vindo de muito distante, o ciclista olhou pra trás sorrindo ciente de que estava sendo seguido. Outras pessoas foram surgindo vestindo roupas excêntricas e coloridas, uma mulher dançava sozinha, mas logo o ciclista se juntou a ela. Piper sorriu mais uma vez e Clarisse ainda não entendia.
A musica ficava mais alta e a quantidade de pessoas também aumentava até Clarisse poder ver a imensa roda-gigante e ao olhar pra baixo viu que toda a cidade deveria estar naquele lugar.
– Que diabos? – Perguntou, mas Piper não a ouviu devido ao volume da musica.
Clarisse se distraiu olhando tudo ao seu redor, barracas de acampamento coloridas de todas as formas, pessoas bonitas dançando e bebendo. Devem ser assim as festas no Olimpo pensou se perguntando o que Dionísio acharia disso. Ia perguntar isso a Piper quando percebeu que ela não estava mais a seu lado, seu coração deu um salto insensato dentro de si e por um instante ela achou que tivesse perdido a garota e quando a viu algo que não sabia explicar se acalmou dentro de si, não entendia porque se importava tanto com Piper e provavelmente nunca saberia porque caiu dentro daquele portal por ela.
Piper falava com um segurança e apontava Clarisse que caminhava em direção a eles, quando chegou o cara a cumprimentou e as deixou entrar. A quantidade de pessoas era mesmo imensa e a musica irritantemente alta Clarisse odiava aquele tipo de situação, não sabia por que Piper as tinha feito entrar ali se o que queria era sair daquela cidade.
– O que esta fazendo McLean? Precisamos sair daqui. – Clarisse gritou puxando Piper pelo braço.
– Eu sei. – Piper se aproximou do ouvido de Clarisse para que não precisasse gritar como a outra. – As pessoas mais ricas do mundo estão aqui, vou arrumar pra gente um transporte.
Como ela vai fazer isso? Clarisse pensou, mas não chegou a perguntar, pois Piper começou a dançar e andar entre as pessoas. Precisava ficar de olho nela para não perdê-la o que era meio desconfortável porque Piper dançava muito bem e Clarisse não queria pensar nela daquele jeito. Elas chegaram a uma área com varias tendas particulares, Clarisse viu várias pessoas famosas, uma atriz muito bonita que pessoalmente parecia muito mais velha, um jogador de basquete agarrado a uma loira de peitos muito grandes e outras pessoas que também deviam ser famosas, mas ela não se importava com eles.
Uma jovem de cabelos cacheados dançava ao lado dela com um enorme copo de bebida na mão, ela olhava Clarisse de um jeito estranho certamente ela não vestia as roupas certas pra ocasião. A garota disse oi e ofereceu a bebida a Clarisse que recusou, há alguns anos teve uma experiência ruim com uma comida oferecida por estranhos, mas a garota era insistente e começou a dançar mais perto dela, talvez fosse um monstro disfarçado de mortal para lhe confundir. Clarisse começou a ficar paranóica encarando todas as pessoas a sua volta procurando indícios de um ataque, a musica alta em sua cabeça não a deixava pensar e a garota de cabelos cacheados entrava na frente dela tampando sua visão de tudo. Quando achou que perderia a calma Piper a puxou a fazendo olhar em seus olhos.
– Clarisse você esta bem? Esta com um olhar estranho.
– Temos que sair daqui McLean, essas pessoas... – Disse percebendo a estupidez que estava prestes a dizer, as pessoas não eram monstros só eram diferentes dela, tinham uma cultura diferente e por mais que não entendesse isso tinha de ao menos respeitar.
– São estranhas? Eu sei bem vinda a Coachella. – Piper sorriu, mas Clarisse não achava graça. – Só fique perto de mim, ok? Prometo que logo sairemos daqui.
Clarisse concordou com a cabeça e decidiu parar de encarar as pessoas e focar somente em Piper, mas talvez isso não fosse seguro também, pois os movimentos que a garota fazia estavam começando a fazer com que Clarisse perdesse o foco.
Vez ou outra um cara se aproximava para dançar com Piper, ela conversava com ele por alguns instantes, mas logo os dispensava até que um pareceu realmente interessá-la. Ele tinha uma aparência um pouco mais velha, usava camisa e bermuda branca e um chapeuzinho que escondia as entradas.
A garota de cabelos cacheados estava por perto novamente, Clarisse ficava repetindo a si mesma que estava ficando paranóica, pois a garota não parecia em nada humana. Dançava de um jeito anormal sempre dando grandes goladas no copo que carregava e ele nunca parecia esvaziar. Clarisse tentava continuar prestando atenção em Piper e no cara com quem ela conversava tão empolgadamente, mas aquela garota na sua frente não permitia.
– Você esta bem? – A filha de Ares perguntou, os olhos da garota se mexiam de maneira estranha, tudo nela era estranho, não tinha como ser somente paranóia.
Clarisse tentou passar por ela até Piper, mas ela a impediu e isso fez com que ela segurasse a lança que estava atada as suas costas, o toque fez fluir energia na arma que soltou faíscas atraindo a atenção da garota de cabelos cacheados. Mortais não vêem armas feitas de bronze celestial pensou consigo mesmo antes de retirar a lança a atravessar a garota com ela.
O monstro se transformou em pó instantaneamente. Com a nevoa a favor dela os mortais não poderiam ver o que ela fez, mas acontece que eles viram. Todas as pessoas que estavam ao redor da cena se viraram para ela e todas tinham um mesmo olhar de choque. Piper abriu caminho por entre eles e viu Clarisse segurando a lança em posição defensiva.
– O que você esta fazendo? – Perguntou olhando a multidão que se aglomerava ao redor delas.
– Monstros Piper, são todos monstros. Estamos em uma maldita festa de monstros. – Grunhiu se colocando na frente da menina a fim de protegê-la, mas sabia que nem mesmo ela seria capaz de lutar contra tantos monstros.
– O que? Não... Isso não... – Piper tentou falar, mas aos poucos as pessoas que antes eram simples mortais se transformavam em criaturas horrendas e demoníacas. – Que merda. – Gemeu tirando a adaga do cinto, como desejava ter uma arma maior e mais poderosa.
– Fique atrás de mim, bonitinha. – Clarisse falou se preparando para qualquer ataque.
Piper gemeu novamente, era obvio que estava com medo, mas como não estaria? Eles eram milhares e elas somente duas e uma delas nunca havia visto um monstro até alguns dias atrás.
No momento em que o primeiro deles avançou Piper achou que fosse morrer, ela se encolheu e fechou os olhos esperando pelo golpe, mas só o que sentiu foi a energia que saia de Clarisse enquanto ela os derrubava um a um. Clarisse era mais forte que eles, mais rápida que eles e tinha uma lança elétrica, os monstros atacavam com o corpo, garras e dentes e isso era uma desvantagem, mas acontece que eles estavam por todos os lados.
Um deles segurou o braço de Piper e sem que ela conseguisse reagir ele começou a arrastá-la para o meio da multidão, ela gritou, mas Clarisse estava muito ocupada para ouvi-la. Ela se lembrou da adaga no momento em que ele apontou as enormes unhas/garras para o peito dela, um segundo depois virou poeira, mas agora ela estava sozinha no meio de mais centenas.
– Por favor, não me machuquem. – Disse com a voz mais firme que conseguiu esperando que sua mãe onde queira que estivesse pudesse escutá-la. Talvez tenha funcionado, pois os monstros que estavam ao redor dela não a atacaram, eles olhavam uns para os outros confusos, mas não encostaram nela. – Machuquem os monstros. – Ela falou temendo que eles rissem dela e a matassem, nunca tinha usado o charme em um monstro.
Uma enorme confusão se formou quando monstros começaram a atacar outros monstros, ninguém mais sabia quem era amigo e quem era inimigo, mas ainda assim as chances de elas sobreviverem eram poucas.
Uma dezena de monstros foi arremessada ao ar de uma só vez em algum lugar perto de onde Piper estava e uma agitação enorme começou a acontecer lá. A garota correu até o local crente de que encontraria Clarisse fazendo o que mais gostava de fazer, mas pra sua surpresa não era ela. Um enorme cão negro que tinha os pelos semelhantes a uma fumaça escura estava causando o caos entre os monstros que tentavam acertá-lo sem sucesso. Ele se divertia atropelando monstros e os pisoteando, ao redor dele vários esqueletos vestindo armaduras e uniformes militares também se juntavam a briga. Piper olhou ao redor procurando pelo ciclope que a tinha jogado naquela cidade infernal, mas não viu nem sinal dele, na verdade os esqueletos estavam lutando ao lado dela.
Um grito de guerra impulsionava os esqueletos a atacarem e ela avistou o garoto todo vestido de preto ao lado do enorme cão infernal. Ele era muito pálido e magro com cabelos pretos como as suas roupas e também usava uma espada preta, era mais novo do que ela, mas certamente mais corajoso. Ele a viu e foi até ela.
– Onde esta a Clarisse? – Perguntou, mas Piper não sabia onde ela estava. – Temos de encontrá-la, ok? Não podemos deixar que ela passe dos limites.
Piper não entender o que ele quis dizer, mas entendeu que precisava encontrar Clarisse o mais rápido possível, pelo tom de voz que ele usava o assunto era sério.
Encontraram a filha de Ares brilhando entre os monstros, não só porque ela os estava estraçalhando, mas porque realmente brilhava. Piper nunca tinha visto nada como aquilo, ela se movia com tanta perfeição envolta em um tipo de névoa vermelha, seus braços, suas pernas trabalhavam em sincronia. Diziam que a guerra era uma arte e Piper não duvidava que Clarisse fosse a melhor artista que existia.
– Precisamos Pará-la. – Nico disse aflito.
– O que? Porque? Vamos morrer se ela parar de lutar.
– Ela vai morrer se continuar lutando. – Piper não entendeu o porque, mas soube que o garoto dizia a verdade, ele tinha um olhar melancólico. – Faça ela parar, use o seu poder.
Nico voltou a se juntar a luta deixando Piper sozinha com a missão de tirar Clarisse de uma briga, como ela conseguiria aquilo? Ela não tinha a menor idéia.
***
Clarisse tentou parar ela sabia que estava perdendo o controle sobre seu corpo, sabia que o que estava acontecendo era exatamente o que a loba havia lhe avisado que aconteceria, mas ela não lhe deu ouvidos. Todas as vezes que estava sobre o efeito da benção de Ares Clarisse não sentia nenhum tipo de dor, nenhum cansaço, nada e por isso entrou em pânico quando sua cabeça começou a doer como se algo muito forte a tivesse acertado, mas os monstros não conseguiam nem ao menos chegarem perto o suficiente dela para a acertarem. Ao menos aquilo a fez parar, mas a dor era tanta que ela achou que morreria ali mesmo.
Escutou a voz de Piper gritando seu nome na sua cabeça, mas não a via, tudo o que ela via era uma mancha vermelha.
Caiu de joelhos no chão segurando a própria cabeça com as mãos que brilhavam intensamente da mesma maneira que no sonho que tivera onde a versão romana do pai lhe dizia que não podia lhe ajudar.
Nesse mesmo momento Piper correu até ela segurando suas mãos visivelmente sem saber o que fazer, a loba havia dito algo sobre a filha de Afrodite, mas Clarisse nem ao menos sabia se essa garota era Piper, podia ser qualquer outra. A menina dizia coisas que Clarisse não conseguia entender quando ela fez algo que nem em um milhão de anos ela esperaria.
Piper a beijou.
Clarisse fechou os olhos sentindo o poder de aquele beijo lhe devolver a sanidade. Um choque percorreu seu corpo e não havia mais dor. Os lábios dela eram suaves e delicados, tinham um gosto que Clarisse nunca havia sentido antes e o que era pra ter sido só um selinho se tornou um beijo profundo e intenso. Suas línguas se encontraram tirando Clarisse do chão, seus olhos estavam fechados, mas não importava ela não queria precisar enxergar nada. Todo o resto do mundo parecia sem importância naquele momento, não havia guerra a ser travada nem mesmo maldição a ser enfrentada só o que Clarisse pensava era em como conseguiria viver depois que aquele beijo acabasse. Talvez fosse o charme se manifestando, mas Clarisse já havia beijado filhas de Afrodite antes e então ou aquela garota era muito poderosa ou Clarisse La Rue estava completamente apaixonada por ela.
Piper agiu num momento de desespero, o tom urgente na voz de Nico a fez entrar em pânico e o charme não estava funcionando, Clarisse nem ao menos a estava ouvindo e ela tinha de tentar alguma coisa mesmo sem saber se funcionaria. Clarisse havia parado de surtar e estava voltando ao normal. Ela sabia que seu poder era grande, mas não imaginou que fosse tanto e o pior em tudo não imaginou que fosse gostar tanto de beijar a garota.
Quando elas se separaram Clarisse estava em choque. Ela ainda continuou de olhos fechados durante alguns segundos, talvez pra se certificar de que estava bem ou talvez porque queria manter aquele gosto em si por mais um tempo. Piper a olhou apreensiva não sabia qual seria a reação da garota e ficou esperando que ela abrisse os olhos e gritasse com ela, mas Clarisse não o fez, na verdade ela também fez algo que Piper não esperava.
– Obrigada. – Disse abrindo os olhos lentamente. Ela suspirou e então se levantou ajudando Piper a também se levantar.
Piper puxou Clarisse abrindo caminho por entre os monstros ordenando que eles atacassem a si mesmos até chegarem a Nico. Ele olhou aliviado para ela.
– Precisamos sair daqui. – Disse ele, mas não disse para nenhuma delas e sim para o enorme cão que as acompanhava.
– Ah não, isso de novo não. – Clarisse murmurou.
Nico subiu nas costas do cachorro esperando que elas se juntassem a ele, Piper foi relutantemente, se Clarisse não gostava do que estava por vir ela podia apostar que também não gostaria. Os monstros tentaram impedi-los de partir, mas não conseguiram o cão infernal de Nico tomou impulso correndo com os três em cima de si por entre os monstros e então tudo ficou escuro. Piper procurou a mão de Clarisse e a apertou, elas deixaram a guerra pra trás, mas um verdadeiro caos começava a se formar dentro do coração da garota e ela percebeu que nunca tinha se sentido daquela forma antes nem mesmo quando estava com Jason.
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