Across The Frontline
7 Capítulo 7 - (Des)Encontro
Notas iniciais

Passados alguns minutos, Rosalie e Emmett adentravam a mansão dos Cullen em silêncio. O trajeto até ali havia sido silencioso e calmo — de certa forma.
—Carlisle e Esme ainda não chegaram. — Emmett concluiu, diante do silêncio que se fazia do lado de dentro e da ausência do carro do casal na garagem.
—É, acho que não. — a loira concordou, andando a passos lentos na direção da escadaria — Se não se importa, vou tomar um banho antes que eles cheguem. — falou, dirigindo-se àquele que agora acomodava-se no sofá mais próximo da lareira.
—Tudo bem, fique à vontade. — sorriu, voltando a encarar o rosto de expressão melancólica ao pé da escada.
Nos minutos seguintes, Rosalie estava no banheiro da suíte que antes lhe pertencia, preparando o banho que deveria acalmar-lhe os nervos à flor da pele e os pensamentos insistentes. Vestida apenas em sua lingerie de tom bege, com os cabelos presos num coque despojado no alto da cabeça, tomou nas mãos um dos recipientes delicados com sais de banho e despejou na água morna. Observou a forma como as pequenas pedrinhas escondiam-se na espuma branca e deixando de lado o pequeno vidro, livrou-se das peças que ainda cobriam seu corpo, para então adentrar a banheira tão convidativa. Ali ficaria, provavelmente, pelos próximos vinte minutos.
No andar de baixo, concentrado no vai e vem da chama reconfortante da lareira, Emmett aguardava ansioso pela chegada dos pais — ainda que, mais precisamente, estivesse ansioso pelas notícias que os mesmos trariam, mais do que por suas presenças, propriamente dizendo. Era confortável ter o silêncio tão pleno a sua volta, juntamente com a serenidade de poder transparecer tudo o que pensava ou sentia, sem medo de ser questionado por alguém. Ele sabia que a única presente ali não o questionaria sobre nada — e esse era um ponto positivo ao extremo naquele momento.
Notando a falta de movimentação nas ruas e ali por perto, dentro da mansão, McCarty decidiu livrar-se do terno que vestia e das roupas muito sociais que o remetiam ao trabalho. Conforme Carlisle havia dito, estaria de folga pelo resto do dia — e portanto, não havia nenhum motivo para que continuasse vestindo as roupas formais no ambiente confortável e casual em que estava inserido. Sem hesitar, subiu as escadas a passos largos, dirigindo-se ao seu quarto. Logo estava fechando a porta atrás de si e jogando o terno sobre a grande cama de casal, antes de tirar os sapatos incômodos dos pés e posicioná-los nas prateleiras correspondentes. Era um grande alívio estar em casa — principalmente em tal ocasião: silêncio por toda a parte, anunciando a solidão instalando-se de forma confortável; no entanto, também era um tanto tenso e agoniante pensar que Rosalie Hale estava no quarto ao lado. Era uma hipótese muito utópica para que pudesse acreditar que um dia aconteceria.
(...)
Depois de descansar por breves minutos com o corpo estendido sobre o colchão aconchegante, o ex-soldado notou que sua camisa mais confortável encontrava-se pendurada no varal do jardim, agora aparentemente seca graças à ação do vento. Com o peito forte e o abdômen marcado à mostra, depois de confirmar a ausência da loirapor qualquer canto visível da casa, correu apressadamente até o jardim, em busca da camisa branca ali exposta, que balançava graciosamente à presença do vento. Aliviado ao tateá-la e notar que estava totalmente seca, retirou os pregadores ali colocados e vestiu-a, sem importar-se com os amassados evidentes em algumas partes. O Sol agora fraco estava tornando o clima mais frio de forma gradativa, fazendo Emmett agradecer imensamente por vestir sua blusa perfeita: o tecido fino combinado às mangas compridas era perfeito para qualquer clima.
Enquanto o moreno fazia seu caminho de volta até o andar de cima, a passos lentos e mãos ocupadas com os botões da camisa, Rosalie saía do quarto vestindo seu roupão branco, com os cabelos loiros pendendo úmidos pelas costas. Sua expressão era serena, mas mentalmente, ainda estava punindo a si mesma pelo esquecimento: depois de falhar em sua tarefa mais rotineira — certificar-se de que havia uma muda de roupas limpas para vestir na saída do banho — no dia menos confiável para arriscar-se em qualquer âmbito, lá estava ela: vestida num roupão de banho, pés descalços e cabelos molhados, rumo ao jardim onde possivelmente estariam suas roupas — as últimas usadas na casa dos pais, quando acabava rendendo-se à tentação de relaxar na banheira que antes usava todos os dias, longe da casa que realmente deveria chamar de sua.
Com a certeza de que mais tarde envergonharia-se do feito — e de ter perdido tanto tempo com suas repreensões mentais, quando poderia estar sendo eficiente -, Hale obrigou-se a concluir, enquanto descia os primeiros degraus da escadaria, que agora era tarde demais para lamentar-se. Para incentivar-se, confirmou, encarando o piso encantadoramente cintilante sob seus pés, que tinha uma vantagem: sentia-se agonizantemente envergonhada por ter sido traída por sua memória mergulhada demais em pensamentos melancólicos, mas por sorte aquela era a ocasião mais apropriada, se assim podia dizer: seus pais e irmãos não estavam presentes e havia conferido há pouco que Emmett estava seu quarto — ou ao menos, era no que a porta fechada a fazia acreditar.
Com os olhos vidrados nos últimos botões a serem fechados, Emmett subia as escadas apressadamente, guiando o corpo vacilante pelo canto direito. Imerso em pensamentos, perguntas e devaneios — e por último, mas não menos importante, na camisa a ser abotoada -, diferindo de maneira radical de todas as outras circunstâncias, aquela que caminhava em sua direção, tão distraída quanto o próprio, era a última que esperava encarar naquele momento — fosse por acaso ou ventura. A dona dos cabelos loiros que respingavam por todo o piso, também estava compenetrada demais em suas próprias conclusões para prestar atenção naquele que acidentalmente caminhava na mesma direção. Fosse uma jogada do destino ou apenas uma eventualidade, a distração, sem dúvidas, havia cumprido seu papel por ali: fazer escapar os sentidos, para encontrar o que era óbvio e esclarecedor. A distração, em si, não pode ser recebida: é involuntária, chega sem qualquer pedido; aí é onde se encontra o especial nela: não se pode livrar de seus efeitos: esses são os mais naturais possíveis, queira sua vítima ou não.
Num átimo, Emmett e Rosalie estavam perto demais um do outro. Os ares eram subitamente trancados nos pulmões, assim como as expressões nos rostos surpresos. As mãos dele ainda presas a um dos botões da camisa branca, enquanto as dela estavam em estado de choque, estendidas de forma firme ao lado da cintura demarcada pelo laço do roupão. A boca dela, perfeitamente avermelhada, estava entreaberta; a dele, de forma semelhante, vacilava entre fechar-se ou manter-se assim. Os olhares confusos fixados um no outro, como se sair daquele alvo fosse fazê-los desmoronar ali mesmo. Num acidente como aquele, todas as tentativas anteriores de esconder qualquer sentimento haviam sido, automaticamente, em vão.
As pálpebras pálidas dela, antes paralisadas, agora ameaçavam fechar-se, vacilando entre o piscar leve dos olhos ou a permanência deles abertos, contribuindo para a expressão estarrecida que ainda mantinha-se — embora agora ambos os rostos suavizassem de forma progressiva. Ele, por sua vez, liberava lentamente o ar preso nos pulmões, como se evitasse fazer qualquer movimento brusco. Os rostos ainda muito próximos, agora faziam ambos os olhares cruzarem inevitavelmente os demais detalhes um do outro. Rosalie mantinha o olhar fixo no filtro labial expressivamente marcado do ex-soldado — a curvatura da pequena depressão entre seu nariz e boca faziam com que fosse difícil não desviar atenção para a boca levemente rosada abaixo -, enquanto o mesmo matinha os olhos oceânicos fixos na boca avermelhada à sua frente. Os olhos cor de mel cruzaram os azuis, lentamente aprofundando-se neles, como se atribuíssem ao mesmo toda a confiança e sentimentos que levavam consigo. A mão de linhas marcadas tocou levemente a mão delicada da loira, firmando-a ali depois de seu perceptível consentimento. Ao mesmo tempo que as mãos se entrelaçavam, os rostos se aproximavam, fazendo a distância anterior parecer sequer ter existido em algum momento. Ao encontro dos lábios — ato que parecia tão distante e surreal quanto a mera estadia dos envolvidos no mesmo ambiente -, algo pareceu certo demais para que houvesse um distanciamento de qualquer parte. Era como se todos os fios se desconectassem em ambas as mentes, causando um apagão que, finalmente, permitia sentir o real e intenso das sensações. Era a brecha da razão para o coração. E ali, onde cada um representava um desses elementos, era a brecha para sentir o que o caos tão presente bloqueava há muito tempo.
Depois de alguns segundos, quando a mão livre de Emmett desvencilhou-se dos cabelos loiros encaixados entre seus dedos, que cuidadosamente agarravam-se aos mesmos no segundo anterior, ambos respiraram de forma profunda, enquanto encaravam um ao outro. Rosalie, com a boca parcialmente aberta, focada nos olhos claros que a prendiam de forma indescritível, tentava formular alguma explicação plausível para o ocorrido. Agora sua mente estava de volta à ativa: a luz já havia voltado e trazido consigo pontos ligados muito firmemente, juntamente a outros totalmente desconectados, como aparelhos que se quebram depois de tempestades. Era difícil demais achar qualquer coisa conexa para dizer, como se tivesse aprendido todas as palavras de seu vocabulário há pouco e elas estivessem misturadas demais para escolher qualquer uma.
—Eu... — tentou explicar-se, tirando o foco, com dificuldade, dos olhos à sua frente — Eu não vi você no caminho, me desculpe. — sorriu com o canto direito da boca, tentando descontrair a situação — Sabe, eu estava muito apressada indo pegar uma muda de roupas lá fora. — deu de ombros, antes de fazer menção de continuar falando nervosamente e ser interrompida.
—Tudo bem. — o moreno sorriu, levantando as sobrancelhas ao maneio de cabeça positivo, sinalizando que havia entendido — Quer que eu pegue suas roupas? — ofereceu, observando que ela ainda estava vestida num roupão de banho — Acredito ter visto algumas quando fui buscar essa camisa por lá. Eu posso pegar se preferir, já que ainda está de roupão e Carlisle e Esme podem chegar a qualquer momento.
—Se não se importar... — sorriu — Bem, seria uma grande gentileza da sua parte. — deu de ombros, convencendo a si mesma de que ele tinha razão sobre a possível chegada dos pais.
—Então a senhorita terá o prazer de receber um ato de gentileza hoje. — disse, divertido, ignorando o fato de que tinha se referido a ela como "senhorita", quando deveria ter usado aquele que se refere à mulheres casadas. Se antes já ignorava de forma comedida a relação de Rosalie e Royce, agora o fazia por completo.
(...)
A tarde havia passado rapidamente. Agora, Esme e Carlisle já estavam em casa e no entanto, já que os dois haviam retirado-se para o banho, o silêncio presente fazia parecer que ainda eram apenas Rosalie e Emmett na casa. Os dois encontravam-se na sala de estar, cada qual com seu afazer: a loira lia um livro, aconchegada em um dos sofás laterais, coberta por uma manta azul-bebê que, junto ao fogo da lareira, aquecia consideravelmente as pernas e pés frios. Ele, por sua vez, tomava uma xícara do cappuccino quente que havia feito manualmente, conforme havia aprendido com sua mãe quando criança, enquanto observava a movimentação nas ruas por uma fresta da janela da frente.
Mais cedo, com a chegada dos pais, os dois que ocupavam-se na sala de estar haviam sido atualizados sobre o andamento da perícia na casa de Rosalie: o processo ainda era lento — visto que aquele era um trabalho meticuloso, que exigia muita atenção e cuidado da parte dos profissionais envolvidos -, mas estava caminhando dentro dos conformes. De acordo com o andamento das coisas, a saída dos resultados, conjuntamente com a declaração final por parte da polícia, deveria levar de oito a quinze dias para ser divulgada.
Agora, com a noite batendo fria pelas grandes janelas de toda a casa, todos os Cullen estavam reunidos na sala de jantar, fazendo sua última refeição do dia. Dentre todos os inconvenientes que aquele dia havia trazido, estava o impacto descomunal que os acontecimentos haviam tido sobre toda a família: o conjunto comumente alegre de vozes e rostos, que hoje estava presente em silêncio, parecia sofrer na mesma intensidade de Rosalie, como se tomassem sua posição para si próprios. De fato, a mudança automática daquilo que lhes era costumeiro indicava a grande união e empatia da família de uns para com os outros, mas o cenário perceptivelmente estranho à todos os presentes tornava o clima delicado demais para que qualquer um arriscasse qualquer palavra ou ação que viesse a, possivelmente, tornar o ambiente mais leve.
—O jantar estava ótimo. — Edward sorriu, agradecendo da forma costumeira.
—Catherine fez a maior parte, eu só adicionei alguns temperos à gosto. — Esme sorriu, lançando um olhar afetuoso àquela que havia feito a refeição.
—Não foi nada demais. — a senhora de olhos castanhos sorriu, fitando brevemente a todos ali — Eu cuidarei da louça, fiquem despreocupados. — ela fez menção de levantar-se, mas foi interrompida por Esme.
—Trate de sentar-se e terminar sua refeição, madame. — a mulher de olhos gentis ordenou de forma carinhosa, levantando-se antes daquela que havia feito menção do mesmo — Cada um cuidará de sua louça, podemos fazer isso. Certo, família?
—Com toda a certeza. — Carlisle levantou-se sorrindo, levando seu prato vazio para a cozinha.
—Além do mais, — Emmett começou — a senhora com certeza está centenas de vezes mais cansada do que todos nós. — o moreno sorriu, evidenciando as covinhas cativantes nas bochechas lisas, mandando em seguida uma piscadela brincalhona à Catherine, que como sempre, sentiu-se agraciada pelo carinho com que era tratada na família.
Em poucos minutos, todos haviam terminado seus respectivos pratos, e conforme o combinado, cada um havia lavado, secado e guardado seus próprios pratos e talheres. Como uma família nobre, que dispunha de imensos privilégios, os Cullen praticavam ações que outras famílias de sua mesma classe certamente não compreenderiam — como aquela, por exemplo, de exercer as funções designadas ao funcionário da casa, ainda que por breves vezes. Embora fossem constantemente questionados, isso não era, de maneira alguma, uma preocupação para qualquer um dos mesmos, uma vez que ali consideravam-se primeiramente os princípios com os quais haviam crescido repassando uns para os outros — e como um dos mais simples e óbvios, ao qual toda família deveria acatar, estava aquele que colocava que todos deveriam dispor de direitos iguais, independentemente de qualquer diferença entre um e outro, e que dessa forma, deveriam ser tratados de forma justa e gentil, como lhes era de direito. Ainda que fizessem o símbolo da família tradicional, que compunha a maioria privilegiada — brancos, heterossexuais e nobres — os Cullen recusavam-se a ter ou aceitar qualquer preconceito — e era tal traço que os fazia tão queridos até e principalmente pelas minorias.
Às vinte e uma horas e trinta e três minutos, seis dos sete membros que preenchiam os quartos já estavam em seus respectivos, contribuindo para o silêncio em todos os cantos da mansão. Rosalie, agora vestida em sua camisola de seda, com o roupão cobrindo os ombros desnudos, encontrava-se na sacada do quarto, distraindo-se com a paisagem e com o vento que lhe soprava os cabelos, tentando desfazer-se de toda a inquietude que não estava lhe permitindo pegar no sono naquela noite. O perfume doce que estava propositalmente impregnado em seu pescoço, espalhava-se pelos arredores, conforme o vento soprava naquela direção. Uma das coisas com que ocupava sua cabeça no momento era com o falso imaginário de que apenas ela mesma sentia seu aroma doce e agradável agora, já que pensava não haver mais ninguém por perto para acompanhá-la nessa tarefa involuntária.
No jardim, logo abaixo da janela da loira, estava o ex-soldado, concentrado no cheiro de grama molhada que o céu que previa chuva acentuava. Conforme sabia, Rosalie estava no quarto com o qual estava estrategicamente alinhado, e aquilo o fazia repensar sobre todas as coisas que haviam acontecido entre eles, até então. Num flash, lembrou-se do primeiro dia em que avistou o rosto angelical da dona dos seus pensamentos mais frequentes: o dia em que chegou na casa que agora podia chamar de sua também.
Flashback on
A neve caía sem qualquer intervalo, torrencialmente, acumulando-se em grandes montes brancos e gelados pelos cantos da movimentada Seattle. Carlisle andava agasalhado pelas ruas frias, voltando da associação local que havia sido organizada para distribuir comida e agasalhos aos mais pobres e moradores de rua. Sentindo seu coração aquecer-se com a ação voluntária realizada há pouco, o homem de cabelos loiros sorriu por detrás do cachecol grosso e com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco preto, continuou no caminho para casa.
Ainda haviam pessoas pelas ruas — como aquelas que há pouco haviam conseguido um tanto de comida e aconchego -, mas confortava ao patriarca da família Cullen ver que, ao menos por ali, a maior parte das pessoas havia sido beneficiada com a boa ação da qual ele havia participado com gosto. Como se o universo conspirasse para mostrar-lhe outro lado da triste realidade, insistindo para que não se conformasse com tal, Carlisle avistou, com os olhos semicerrados em consequência do frio, um corpo grande sentado, recostado na parede de tijolos escuros que delimitava a esquina mais próxima. Aproximando-se pôde ver a farda surrada que o distinguia da maioria, com o nome do mesmo bordado ali: "Emmett D. McCarty". As pequenas malas identificadas com o símbolo das forças armadas norte-americanas indicavam que aquele que ali estava ainda deveria ter, ao menos, alguns itens pessoais.
—Com licença...? — o homem loiro pediu, aproximando-se da forma menos invasiva possível. O outro, com a barba por fazer e os cabelos escuros descuidados, apenas assentiu com um maneio de cabeça — Muito prazer, Carlisle Cullen. — estendeu a mão direita, oferecendo-a para um cumprimento.
—Emmett McCarty. — o ex-soldado ajeitou a postura na parede, cumprimentando aquele à sua frente.
—Você não foi até a distribuição de alimentos e agasalhos, não é? — olhou os olhos azuis melancólicos do outro, sentindo por tudo que provavelmente já havia passado.
—Não, senhor. — respondeu, abaixando a cabeça, como um soldado que responde ao seu superior. Carlisle sentiu-se imediatamente afetado por qualquer que fosse a história daquele rapaz. Não era como se pudesse explicar, era diferente de todo e qualquer sentimento ou linha de pensamento explicativa; era como se, como acontecia com certa frequência com o homem de olhos cor de mel, ele estivesse no lugar certo, na hora certa, com a pessoa certa. Era como se tudo tivesse levado àquele encontro, com a finalidade de completar algo que antes parecia tão inexplicavelmente incompleto.
—Vamos, venha comigo. — o mais velho levantou-se, oferecendo a mão para levantar aquele que estava sentado.
—Com todo o respeito, senhor, mas nós mal nos conhecemos. — ofereceu um olhar expressivo, vacilante entre o medo e a confiança que já sentia naquele que lhe estendia a mão.
—Embora lhe dê razão, garoto, eu não lhe farei mal algum. — sorriu, abaixando-se na altura do outro novamente — Tem a minha palavra. — ergueu a mão novamente, oferecendo-a à Emmett.
O ex-soldado aceitou o cumprimento, confiando na sua intuição sobre o homem que o oferecia. Levantou-se com dificuldade, por conta da fraqueza que lhe enfraquecia os ossos e músculos.
—Para onde vamos? — hesitou, enquanto esforçava-se para pegar as malas no chão.
—Vamos até a minha casa e lá você pode tomar banho, ter uma refeição decente e acomodar-se enquanto achar necessário. — sorriu, ajudando o rapaz com as malas. Esse ainda parecia não acreditar no que ouvia, com a expressão estática e intraduzível. Só o mesmo sabia o quanto havia esperado por um milagre como aquele, no qual a vida quase o havia convencido a desacreditar. Finalmente, era o seu dia. Como os outros diziam, era o dia do seu milagre de Natal.
Flashback off
Por algum motivo desconhecido ao seu íntimo, a mente do ex-soldado o havia feito limitar-se nas lembranças, fazendo com que essas estacionassem no momento em que recordava-se da primeira ida até a mansão Cullen, acompanhado por Carlisle. Ignorando tal hesitação, voltou a focar os pensamentos nos acontecimentos recentes que envolviam a mulher no quarto acima. Levantando-se da forma mais cautelosa possível, caminhou até o local no jardim onde conseguia uma melhor visão da janela de Rosalie. Ali sentou-se novamente, fixando os olhos nas portas francesas, agora sentindo-se estranhamente atraído pela linha do tempo que envolvia os dois.
Hale, por sua vez, estava do lado de dentro do quarto. Havia fechado as janelas/portas que davam para a varanda, deixando apenas as cortinas suspensas, por conta do vento que gostava de sentir sutilmente durante a madrugada. Ainda que a cama estivesse pronta para sua noite de sono e extremamente convidativa, como atualmente havia admitido a si mesma, reconhecendo o dia cansativo pelo qual havia passado, a loira ainda encontrava-se parada atrás das portas de arcos arredondados e aparência rústica. Por um dos lados envidraçados, alcançou a figura cansada de Emmett no jardim. Enquanto os pensamentos rodavam em sua cabeça, embaralhando-se de forma caótica entre os neurônios exaustos, encontrou os olhos do mesmo parados na sua direção. Quando os olhares se cruzaram — dessa vez a uma distância razoável -, a rotineira colisão do azul oceânico com os olhos cor de mel fez ambos os rostos corarem, arrancando sorrisos inocentes dos dois adultos que ali identificavam-se mais como adolescentes separados por qualquer regra ou limite do destino. No instante em que um fixou-se no outro, os pensamentos silenciaram-se por segundos, e foi então que a lamentação íntima das mentes conturbadas libertou-se para a noite fria:
—Quem me dera ter conhecido-te antes dele. — os suspiros pesados esvaíram-se junto ao vento apressado, depois de referirem-se àquele que, com a colaboração de outros fatores, nunca deixava de contribuir para a distância incômoda entre os dois amantes, que feito as imensidões azuis chamadas de oceanos, encontravam-se e constantemente colidiam um com o outro, sem nunca, entretanto, unirem-se de fato.
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