Across The Frontline

8 Capítulo 8 - Notificação


Notas iniciais
Boa leitura!

Na manhã seguinte, as paredes de tom rosê do quarto de Rosalie eram iluminadas pelo Sol fraco que espreitava pelas frestas da janela rústica. A loira tinha o corpo confortavelmente disperso pela grande cama de casal, enrolado por entre o edredom usual, com as mechas dos cabelos tornando-se douradas ao toque da luz solar. As pálpebras trêmulas, ainda fechadas, indicavam o despertar recente interrompido pela moleza, que a fazia mantê-las como estavam.

Do outro lado da porta, os passos apressados dos três irmãos ecoavam, indicando que o horário de trabalho se aproximava. Emmett, vestindo o terno preto usual, a camisa no tom gelo e a gravata azul marinho, calçando os sapatos pretos rotineiros, carregava sua maleta na mão direita, enquanto encaminhava-se para a escadaria. No seu encalço, Jasper mantinha os olhos nos sapatos do irmão, como quem concentra-se em certo pensamento ou memória. Vestia um terno cinza, camisa social branca e gravata também azul marinho. Atrás do loiro, Edward andava calmamente, seguindo o ritmo do irmão à sua frente. Vestia um terno no tom grafite, camisa social branca e gravata preta. Nos pés, sapatos de couro preto bem engraxados, reluzindo em certos pontos ao toque da luz.

Dentro do quarto, Rosalie ainda preparava-se com lentidão para começar o dia devidamente. Vestia agora uma de suas peças favoritas: calças pretas de cintura alta, justas ali e folgadas no restante do comprimento, combinando-as com uma de suas blusas no estilo social, colocadas por dentro da calça, de gola grossa e botões, na cor azul bebê. Nos pés, os saltos em bege claro aumentavam sua altura em quatro ou cinco centímetros.

Depois de ter a cama parcialmente feita, os cabelos penteados presos num coque firme, com uma mecha de espessura média pendendo propositalmente pelo ombro direito e os lábios naturalmente rosados coloridos pelo tom nude discreto, a loira finalmente abria a porta do quarto, colocando-se para fora desse em alguns milésimos de segundo. A escadaria que a esperava fora muito bem recebida pelos passos leves e graciosos que provocavam estalos ao toque dos saltos altos no piso reluzente — esses que certamente chamavam a atenção de algum par de ouvidos atentos em particular na sala de jantar.

—Bom dia! — a voz doce sobressaiu-se entre as outras presentes, adentrando o ambiente de forma extrovertida.

—Bom dia, filha. — Carlisle e Esme disseram em uníssono, sorrindo, sentados à mesa nos lugares habituais. Emmett, de onde estava, sussurrou seu cumprimento, atento ao café que lhe era servido.

—Rosalie animada? — Edward brincou, mostrando o sorriso de dentes perfeitos seguido de uma breve risada divertida. A loira, por sua vez, arqueou uma das sobrancelhas em meio a um sorriso suave, respondendo com mesmo tom à brincadeira do irmão.

Curiosa pela expressão silenciosa do moreno que atraia olhares seus do outro lado da mesa, sentou-se e uma das cadeiras à sua frente e passou a observá-lo discretamente, dando atenção para um comentário ou outro que era feito à sua volta. Jasper, até então compenetrado na refeição leve e confortável no silêncio em que mergulhava seus pensamentos e ações, levantou-se sutilmente da mesa, sorrindo quase que involuntariamente enquanto posicionava a cadeira como essa inicialmente estava, atraindo certa atenção de Emmett e Rosalie.

—Parece que todos escolhemos azul hoje. — brincou, referindo-se à cor das gravatas dele e de Emmett, e à cor das camisas de Rosalie e de Carlisle.

—Soa ótimo para mim. — o mais velho sorriu, atentando o olhar satisfeito para a camisa que vestia.

—Para mim também. — a filha do meio opinou, sorrindo abertamente — Eu gosto de azul. — lançou um olhar sugestivo à Emmett, que imediatamente fixou os olhos azuis intensos nos dela, seguidos de um sorriso terno que agitou a felicidade inocente que formava-se no interior do lado esquerdo do peito da loira.

(...)

Algumas horas mais tarde, quando os homens já haviam se retirado para seus respectivos trabalhos, mãe e filha distraíam-se no jardim, sentadas na grama macia e bem aparada. Ora encarando o Sol fraco, ora concentrando-se no aparar dos espinhos das flores recolhidas, Rosalie aliviava-se da agonia, respirando o ar puro que a cercava, esquecendo-se, por vezes, da visita que faria à Royce ainda naquele dia.

Ao soar da campainha, tanto Esme quanto a filha foram surpreendidas. Lentamente, a loira levantou-se, anunciando silenciosamente que iria atender. Com os passos rápidos dos pés descalços, chegou até o destino em poucos segundos, recuperando o fôlego brevemente perdido antes de alcançar a maçaneta. Quando fez menção de abrir a porta, porém, foi interrompida pela textura estranha que roçou na sola de um de seus pés delicados. Atentou os olhos cor de mel para o piso frio, onde encontrou um envelope formal com remetente e destinatário.

—Rose? — uma voz familiar chamou sua atenção do outro lado da porta ainda fechada — Sou eu, Alice. — bateu levemente as pontas dos dedos na porta, como se tocasse a figura do outro lado, chamando-lhe a atenção.

—É claro, — voltou a atenção para o que realmente havia ido fazer, notando a si mesma um tanto distraída — Me desculpe, Alice. — tomou o envelope nas mãos, apressando-se em girar a maçaneta e liberar a entrada para aquela que encontrava-se do outro lado.

A porta, então, finalmente foi aberta, fazendo a loira encarar a expressão confusa da cunhada, que agilizou os passos saltitantes para dentro da mansão. Enquanto Rosalie fechava a porta, ainda perdida no envelope entre suas mãos, a morena pendurava a bolsa no cabideiro ao lado da porta, em seguida livrando-se do lenço que aquecia-lhe o pescoço, colocando-o no mesmo lugar em que anteriormente havia colocado o outro pertence.

Os olhos atentos na cor de avelã varreram todo o ambiente, como se procurassem um ponto específico. Logo, com o silêncio incômodo falando nos seus ouvidos, voltou a atenção para a cunhada, que ainda estava estranhamente atenta à algum item em suas mãos — esse que a morena ainda não havia identificado.

—Tudo bem, Rose? — aproximou-se da loira, com a curiosidade de identificar o que prendia tanto a atenção dela naquele momento.

—Sim, claro. — piscou os olhos descompassadamente, voltando por um breve momento à realidade — Antes de abrir a porta eu encontrei isso no chão, por isso demorei tanto. — estendeu o envelope para a outra, que o tirou com leveza das mãos em que estavam. Abriu o envelope com cautela, sem atentar-se ao remetente ou destinatário nesse escritos, dirigindo-se diretamente à folha que estava dentro dele.

" Departamento Policial de Seattle — Leste

INTIMAÇÃO

À senhora Rosalie L. H. King Cullen.

De ordem do Sr. Dr. Richard Carter, Delegado de Polícia Assistente, intimo Vossa Senhoria a comparecer nesse Departamento Policial, localizado na 12th Avenida, Seattle, WA, EUA, podendo fazê-lo em até 24 horas após a entrega desse documento, a fim de que aqui presente sejam procedidas suas declarações nos autos do inquérito policial correspondente à apuração do eventual acidente ocorrido na residência nomeada à Royce King II e Rosalie Lilian Hale Cullen, no dia 24 de maio de 1948.

Ressalta-se que na visita ao departamento, Vossa Senhoria deve apresentar documento de identificação."

Dentre um campo a ser assinado pelo destinatário no fim da página e outros detalhes e palavras na folha frágil, o trecho citado foi o que atraiu a atenção de Alice. Correndo os olhos por cada linha novamente, ainda desconfiando do que havia lido, a morena involuntariamente assanhou a ansiedade de Rosalie, que tinha agora mãos frias e respiração descompassada.

—É uma intimação, Rose. — a noiva de Jasper continuou encarando o papel, antes de olhar nos olhos desesperados daquela à sua frente — Você precisa comparecer na delegacia em até vinte e quatro horas para prestar seu depoimento sobre o acidente.

A loira sentiu como se todo o seu corpo voltasse ao estado de choque em que esteve no momento exato em que assistiu Royce rolar escada abaixo, no dia do tão falado acidente. Não era como se uma simples intimação para depor a estivesse assustando nessa escala, mas quando um assunto que parecia estar sendo, para alívio de todos — e principalmente dela mesma -, enterrado, vem à tona, causa mais calafrios, confusão e angústia do que se estivesse sendo rotineiramente tratado. O alívio de estar tão longe de todo o acontecido, de imaginar que tudo não passou de um momento — ou ao menos, de um dia — e principalmente, de poder despreocupar-se com qualquer ponto relacionado àquilo — voltando a viver uma vida serena e livre, à qual parecemos sempre pertencer passado o momento em que nos adequamos à ela -, era imediatamente retirado de si, desde a mais profunda raiz da qual nasceu, causando a terrível sensação de ser tirado da anestesia de uma queda livre e perigosa bem quando se está mais próximo do chão.

—Tudo bem? — Alice questionou, preocupada com a expressão no rosto de Rosalie.

—Claro, tudo bem. — com esforço, desvencilhou-se dos fios confusos de pensamentos que formavam-se em sua cabeça, voltando sua atenção para aquela que estava a sua frente — Eu só preciso dar uma olhada nisso. — estendeu uma das mãos, pedindo que a morena entregasse-lhe o papel.

—Aqui está. — sorriu, entregando gentilmente o documento na mão delicada da loira — Certo, então eu vou cumprimentar Esme. — olhou ao redor, imaginando que a mesma estivesse na cozinha ou no jardim, seguindo a passos suaves para o primeiro dos ambientes supostos.

Desde então, passaram-se alguns minutos até que Rosalie aparecesse no jardim outra vez. Alice encontrava-se de pé, perambulando pelo grande terreno, aproximando-se a cada segundo de um canteiro de flores diferente. Esme, por sua vez, estava sentada na cadeira de ferro delicada do jardim, pintada em branco, perto das flores que recebiam mais Sol. A cesta com as que seriam colocadas num vaso, estava ao seu lado, no chão gramado.

—Enfim voltou. — a mais velha suspirou — O que estava fazendo lá dentro por tanto tempo? — olhou com curiosidade e preocupação no par de olhos cor de mel que se aproximava.

—Deixaram uma intimação para que eu compareça na delegacia hoje e dê meu depoimento sobre o acidente. — parou a poucos centímetros da cadeira, sentando-se ao lado da mesma, na grama fofa.

—Você vai, certo? — Esme inclinou a cabeça de volta para a vertical, observando com atenção os trejeitos da filha. Ambos os rostos eram iluminados pelo Sol, que aquecia agradavelmente as peles frias.

—Claro. — a mais nova fechou os olhos, deixando a luz quente aquecer suas pálpebras — Estou pensando em ir agora. Bem, eu lavaria os pés, colocaria os sapatos que estava calçando antes, ajeitaria o cabelo e pronto.

—Posso ir com você, se quiser. — a mãe ofereceu, preocupada com o estado em que a filha poderia ficar após o fim do depoimento.

—Obrigada, mãe, mas não será necessário. — a loira sorriu, levantando-se lentamente — Fique com Alice, eu pedirei um táxi. Tenho certeza que será rápido por lá. — beijou ternamente a bochecha rosada da mãe, antes de retirar-se para o lado de dentro da casa.

Com os saltos que há pouco encontravam-se jogados em algum canto do jardim, nas mãos, Rosalie seguiu nas pontas dos pés para a lavandeira, onde lavou os mesmos brevemente no tanque, secou-os com um pedaço de pano qualquer, e calçou os sapatos. Depois, certificou-se em frente ao espelho de que seu coque ainda estava firme no alto da cabeça e passou outra vez o batom nude nos lábios. Com a bolsa escolhida pendurada no antebraço, contendo os documentos pessoais e a carteira, a loira avisou a mãe de que estava saindo, e então, esperou pelo táxi do lado de fora da casa. Quando o mesmo chegou, apressou-se em acomodar-se e informar o endereço contido na intimação, em seguida aconchegando-se discretamente no banco de trás, enquanto observava a paisagem passar rapidamente pela janela entreaberta.

Em alguns minutos, o táxi estacionava em frente ao departamento de polícia. Rosalie pagou o motorista antes de retirar-se do carro pela porta que o mesmo abria com gentileza. Agradeceu com um maneio de cabeça, para logo focar-se nos degraus que a esperavam antes da porta de entrada. Tentando concentrar-se apenas no piso de concreto sob seus pés — e falhando parcialmente -, a loira imaginou se as perguntas que seriam feitas poderiam ser tão específicas que não pudesse respondê-las corretamente. Imaginou, principalmente, se deveria lembrar-se de algum detalhe que a confusão e o desespero a haviam feito esquecer. Ao fim dos degraus da pequena escadaria, só conseguiu lembrar-se de pedir aos céus que não fosse colocada sob pressão, já que aquela seria a pior circunstância para seu cérebro atarefado e confuso demais funcionar.

Atravessando as grandes portas de vidro cordialmente abertas por um dos seguranças do lado de dentro do estabelecimento, Rosalie dirigiu-se até o balcão central, onde explicou brevemente a situação e fez o devido registro. A moça jovem, de cabelos castanhos e olhos azuis — que fizeram aquela que encontrava-se do outro lado da bancada alta lembrar-se de um par em particular no mesmo tom -, pediu que aguardasse sentada em uma das cadeiras vazias até que seu nome fosse chamado.

Sem qualquer saída a não ser fazer o que lhe fora pedido, Hale sentou-se em uma das cadeiras disponíveis e aguardou silenciosamente, como tantos outros ali presentes. Conforme os minutos passavam, devaneios e passatempos diferentes preenchiam seu tempo e mente, como por exemplo, supôr o que cada um naquele ambiente havia ido fazer ali. Encarava discretamente o rosto de um e de outro, percebendo a diversidade de expressões e posturas. Daquela forma, espantava a ansiedade como uma criança que espanta o tédio, sem perceber que os minutos passavam rapidamente, de uma forma consideravelmente agradável e perigosa ao mesmo tempo. Vez ou outra encarava as próprias mãos ou pés, dando a si mesma tempo para criar uma situação para a pessoa que havia sido observada há pouco. Em um desses intervalos, somando quarenta minutos exatos desde sua chegada no estabelecimento, uma voz masculina grave chamou sua atenção.

—Rosalie Hale King Cullen. — um homem que aparentava seus quarenta anos chamou, ignorando o segundo nome da loira, em seguida varrendo o ambiente com os olhos em busca de qualquer sinal de presença daquela que havia chamado. Os olhos antes distraídos de Rosalie tornaram-se atentos em um átimo, focando-se, finalmente, no dono da voz que havia chamado seu nome.

Notas finais
Beijões, Angel ♥.