Across The Frontline
4 Capítulo 4 - Vermelho-Vivo
Notas iniciais

Mais tarde, ainda naquela noite, enquanto Royce tinha sua habitual diversão em algum bar ou casa noturna da cidade, Rosalie aproveitava o confortável silêncio que se instalava sem ele por perto, enquanto usufruía de sua grande banheira, tomada por espuma branca. Os cabelos ainda molhados escorregavam por suas costas, enquanto ela ensaboava as pernas com calma e delicadeza, como gostava de fazer. Nos últimos anos, para seu alívio, esses momentos haviam aumentado consideravelmente, já que King passava a maioria das noites fora de casa. É claro que, conforme sabia, sua reputação enquanto esposa daquele homem deveria estar péssima, já que ele devia tê-la traído muito mais de dez vezes naqueles sete anos. Não que se importasse, afinal, já não amava-o há muito tempo.
Apesar de o tempo de paz em sua mente ter sido breve e milhões de pensamentos ainda atordoarem-lhe a cabeça naquele exato momento, Rosalie havia decidido terminar seu banho por ali, já que ainda desejava beber uma xícara de chá antes de deitar-se para descansar — e esse era um hábito que nunca lhe escapava da rotina.
Enquanto vestia o roupão de algodão, com a toalha branca presa aos cabelos no alto da cabeça, colocou-se a imaginar como seria sua vida à essa altura se Royce não fizesse parte dela. Bem, não era o tipo de devaneio que a loira fazia para constatar a importância dele na sua vida: muito pelo contrário. Era algo que a fazia constatar a si mesma que ele deveria ser o maior sinal de infelicidade e arrependimento que já havia tido ou poderia ter. No seu imaginário, era uma forma de contentar-se com a possibilidade de ser feliz, já que, com ele, jamais seria. Evidentemente, apesar de aquilo causar-lhe uma boa sensação passageira, não era o tipo de coisa que chamava-se de passatempo para Rosalie Hale: ela era uma mulher madura e realista o bastante para concluir sozinha, em seis anos e meio, que a vida não era — e nunca seria — um conto de fadas.
Depois de sair de sua breve divagação sobre a vida que agora, sem qualquer mudança, levava, a mulher de olhos cor de mel decidiu dirigir-se ao andar de baixo e tomar seu chá, para depois finalmente deitar-se em sua grande cama, que se tornava incrivelmente mais confortável e aconchegante sem Royce por perto.
—Mercedes, o que ainda está fazendo acordada a essa hora? — Rosalie observou a senhora de seus sessenta anos vagando pela cozinha, já trajando seu pijama, entretida em alguns afazeres que não identificou. Essa desatentou-se de tais, num sobressalto, ao ouvir a voz da patroa atrás de si.
—Bem, eu queria organizar esse armário de porcelanas há tempos... — ela encarou uma xícara de porcelana fina, condecorada com traços azuis delicados — Aproveitei que o Sr. King não deve vir dormir em casa hoje e comecei essa tarefa.
—Muito bem, então. — Rosalie começou, gentilmente afastando a porcelana das mãos cuidadosas — Aproveite que o "Sr. King" não dormirá em casa essa noite, e vá descansar-te no quarto de hóspedes. — a loira ordenou, outra vez com gentileza, confirmando sua convicção de que aquele sim deveria ser o quarto pertencente a alguém que trabalhava duro por aproximadamente 12 horas por dia, apesar de, infelizmente, ambas saberem que isso só era possível quando Royce não estava em casa, já que quando estava, fazia questão de assegurar que a senhora estava no quarto designado para empregados.
—Mas, e se ele chegar no meio da noite, menina? — Mercedes preocupou-se, referindo-se à Rosalie carinhosamente, como o usual.
—Eu lidaria com ele, mas tenho certeza de que não chegará. De todo modo, tranque seu quarto antes de subir e o quarto de hóspedes quando for deitar-se, por segurança. — pediu, com um sorriso breve no rosto, enquanto servia-se de uma pequena quantia de chá de hortelã.
—Tudo bem então, querida. — a senhora esboçou um sorriso alegre, enquanto fechava as portas de madeira com frestas de vidro, e preparava-se para trancar o quarto em que não dormiria essa noite.
Depois de demorados goles do chá quente e adocicado que tanto adorava, Rosalie lavou a xícara e deixou o bule sobre a bandeja, no canto da pia, lembrando-se de que a quantidade restante do líquido seria suficiente para tomar seu café da manhã no dia seguinte. Sem demorar mais do que alguns segundos, assegurou-se de que todas as portas e janelas estavam trancadas e com as devidas travas, e subiu em direção ao quarto de hóspedes, para dar boa noite àquela que parecia suficientemente cansada, há poucos minutos atrás, para cair no sono tão ou até mais rapidamente do que Rose.
—Boa noite, mocinha. — a loira brincou, batendo levemente na porta entreaberta. Ouviu Mercedes rir, enquanto dava passos rápidos até ela.
—Boa noite, menina. — a senhora de pele negra e olhos castanhos claros ergueu os braços para um abraço que fora muito bem retribuído por Rosalie, já que, desde que havia se casado, nutria uma afeição cada vez maior pela mais velha, que aconselhava e cuidava da outra como sua própria filha.
Pensou consigo que talvez aquele tivesse sido o único bom fruto de seu casamento: uma relação verdadeira como a de mãe e filha, mas ainda mais ao seu alcance, para aliviar a angústia de viver sob o mesmo teto que Royce e um tanto distante de sua família.
Depois do breve e último cumprimento daquela noite, Rosalie fechou a porta atrás de si com cautela e dirigiu-se até o quarto do casal — que, entretanto, preferia chamar de seu, já que ela quem dormia ali, quase sempre sozinha, para seu alívio, e também porque dessa forma soava muito mais confortável e convidativo, como deveria ser.
Com corpo e mente desejando o descanso calmo que a grande cama macia e aconchegante proporcionava, a loira adentrou o quarto com passos preguiçosos. Antes de deitar-se, trancou a porta de maçaneta dourada, certificando-se de que Royce não a incomodaria quando chegasse bêbado de algum lugar — já que assim que deparava-se com uma Rosalie ausente, atrás de uma porta trancada, geralmente preferia não usar sua insistência inflamada e apenas descia as escadas rumo à sala, onde dormiria até a hora de sair para o trabalho.
Trancar a porta era, depois dos primeiros anos, infalível, porque ela sabia que Royce não costumava ser insistente quando ela estava fora de sua vista. Talvez porque parecesse trabalhoso demais tentar ser agressivo e excessivamente imponente perto de uma mulher tão esperta como Rosalie.
Na verdade, isso era mais um eufemismo, pensava Rosalie: não era por sua postura destemido simplesmente, mas sim porque ele sabia que podia se tornar perigosa se tentasse algo contra ela. Perigosa, na cabeça agilmente transtornada de Royce como em alguém que sabe se defender — ela certamente não pouparia esforços, àquela altura, para defender-se do homem claramente doentio a quem estava presa, e ele sabia disso em certo ponto.
Enquanto tentava pegar no sono, virando-se lentamente de um lado para o outro entre os travesseiros e edredons brancos, Rosalie recordou-se do sentimento de segurança que pairava em seu peito quando o seu então marido não estava por perto.
Tudo era tão seguramente tranquilo e pacífico, que como tantas vezes, desejou trocar todas as fechaduras da casa e trancá-lo para o lado de fora, aparentemente livrando-se daquele incômodo em forma humana. Lembrou-se de como era extremamente desconfortável simplesmente ouvir o som da sua voz, de seus passos muito próximos dela, ou de estar no mesmo ambiente que ele.
Nesses momentos incrivelmente repugnantes, parecia que algo desconectado dentro da mente perturbada do homem loiro convencia-o de que, se ela estava ao alcance de seu campo de visão, certamente ele teria algumas chances de conseguir algo dela — nem que fossem apenas alguns segundos do toque no seu cabelo macio e no seu corpo perfeitamente curvilíneo, contra a vontade dela.
Royce era agressivo, e Rosalie estava ciente disso, mas só porque as moças com quem ele havia namorado antes pareciam extremamente amedrontadas ao simples olhar dele.
Ela sabia que era um olhar cortante e capaz de enojar a qualquer um que o conhecesse bem, mas havia algo a mais naquele medo todo. Diante de tudo o que já havia visto e ouvido falar de Royce e do que a própria já havia vivido tão obrigatoriamente próxima dele, a loira colocava-se em uma postura alarmada sempre que estava perto demais — ainda que, ao mesmo tempo, soubesse que podia sentir-se razoavelmente segura, exceto pelos dias de surtos do mesmo, porque já tinha todas as defesas suficientemente planejadas e, aliado a isso, diferentemente de como costumava ser há certo tempo atrás, zero por cento de temor em colocá-las em prática.
(...)
Na manhã seguinte, Rosalie levantou-se com a preguiça matinal de sempre, movendo-se por entre os edredons até que seus pensamentos estivessem inquietos o bastante para fazerem-na sair da cama.
Saiu pela grande porta de madeira branca, os pés descalços tocando o chão agradavelmente frio e o longo roupão de seda fina, em preto, esvoaçando suavemente ao descer da luxuosa escadaria.
Enquanto apreciava o Sol fraco que entrava pelas vidraças ao lado da porta de entrada, compondo uma encantadora iluminação natural no hall de entrada da mansão, a loira notou que o quarto de hóspedes já estava desocupado. Imaginou que Mercedes já tivesse começado seus afazeres rotineiros — e estava certa.
—Bom dia, menina! — o sorriso encantadoramente branco e sincero recebeu Rosalie, ao batente da porta da cozinha.
—Bom dia, querida. — o sorriso igualmente resplandecente foi seguido de um abraço apertado, que arrancou mais sorrisos de ambas.
—Acordou cedo. — a senhora de pele negra comentou, lançando um breve olhar preocupado à mais jovem — Passou bem a noite? — Rosalie ofereceu um sorriso curvado, que fora pouco convincente.
—O de sempre, você sabe. — a outra compreendeu de súbito, aproximando-se com a xícara de chá matinal da então menina.
—Bem, esqueça isso. — pousou a xícara sobre a mesa, enquanto Rosalie afastava uma das cadeiras para sentar-se — Em alguns minutos iria levar seu café na cama.
—Imaginei. — a mais nova confessou, com um sorriso realmente expressivo desta vez — Preferi descer antes que o fizesse, porque queria me certificar de que Royce ainda não havia chegado. — Mercedes afastou o olhar e concentrou-se na bandeja que carregava, servida das frutas e torradas que compunham o café da manhã de Rosalie.
****
Apesar da noite anterior ter sido um tanto confusa para a mente ocupada de Emmett Cullen, o mesmo havia tido uma incrível noite de sono, que renderia uma manhã cheia de energia nas próximas horas. Agora o ex-soldado vestia sua roupa social e descia as escadas apressado, levando a usual maleta em uma das mãos, enquanto seus pensamentos surpreendentemente positivos daquela manhã enchiam seu corpo de adrenalina e disposição.
—Bom dia, família! — o sorriso de covinhas pairou no rosto alegre, enquanto servia-se rapidamente de uma xícara de café preto, ainda enquanto de pé.
—Bom dia, querido! — Esme retribuiu o carinho e a alegria estampadas no rosto do filho, antes de aproximar-se e lhe plantar um beijo em uma das bochechas.
—Alguém acordou animado essa manhã. — Edward provocou, cotovelando suavemente as costelas de Jasper, que riu silenciosamente enquanto encarava um Emmett sorridente do outro lado da grande mesa.
—Não te lembra alguém, pai? — Jasper lançou um olhar brincalhão à Carlisle, sentado na cabeceira da mesa de madeira.
—Não sei para vocês, mas me lembra Edward quando está com Isabella. — o patriarca proferiu, causando gargalhadas nos filhos e um sorriso afetuoso da esposa.
—Deixem de bobeira, meninos. — Esme defendeu o caçula, depositando um beijo por entre os cabelos cor de bronze do mesmo — Vão acabar se atrasando para o trabalho.
—Tem razão, preciso mesmo ir. — Emmett lembrou-se da tarefa que carregava consigo para antes do início do expediente e apressou-se em levar a última fatia de queijo branco à boca, para então despedir-se.
—Já? Sequer tomou café, filho! — Esme preocupou-se, quase repreendendo o filho mais velho.
—Não se preocupe, madame. — o ex-soldado sorriu, depositando um beijo no alto da cabeça da mãe, enquanto despedia-se apressadamente dos outros, com breves abraços e um aceno final, antes de sair pelo grande arco de entrada do cômodo.
Os passos rápidos ajudaram a adiantar a rotina daquela manhã que, para Emmett, intimamente, corria muito mais alegre e rápida do que o normal, devido à tarefa tão igualmente árdua quanto tentadora de entregar os pertences esquecidos nas mãos da então dona dos mesmos. Era difícil distinguir o receio da ansiedade, sobretudo enquanto o caminho até a famigerada mansão encurtava-se em questão de minutos. Era difícil entender por qual motivo algo aparentemente tão bobo mexia com seu corpo, mente e sentimentos de tal maneira.
(...)
Na manhã seguinte, Rosalie levantou-se com a preguiça matinal de sempre, movendo-se por entre os edredons até que seus pensamentos estivessem inquietos o bastante para fazerem-na sair da cama. Saiu pela grande porta de madeira branca, os pés descalços tocando o chão agradavelmente frio e o longo roupão de seda fina, em preto, esvoaçando suavemente ao descer da luxuosa escadaria. Enquanto apreciava o Sol fraco que entrava pelas vidraças ao lado da porta de entrada, compondo uma encantadora iluminação natural no hall de entrada da mansão, a loira notou que o quarto de hóspedes já estava desocupado. Imaginou que Mercedes já tivesse começado seus afazeres rotineiros — e estava certa.
—Bom dia, menina! — o sorriso encantadoramente branco e sincero recebeu Rosalie, ao batente da porta da cozinha.
—Bom dia, querida. — o sorriso igualmente resplandecente foi seguido de um abraço apertado, que arrancou mais sorrisos de ambas.
—Acordou cedo. — a senhora de pele negra comentou, lançando um breve olhar preocupado à mais jovem — Passou bem a noite? — Rosalie ofereceu um sorriso curvado, que fora pouco convincente.
—O de sempre, você sabe. — a outra compreendeu de súbito, aproximando-se com a xícara de chá matinal da então menina.
—Bem, esqueça isso. — pousou a xícara sobre a mesa, enquanto Rosalie afastava uma das cadeiras para sentar-se — Em alguns minutos ia levar seu café na cama.
—Imaginei. — a mais nova confessou, com um sorriso realmente expressivo desta vez — Preferi descer antes que o fizesse, porque queria me certificar de que Royce ainda não havia chegado. — Mercedes afastou o olhar e concentrou-se na bandeja que carregava, servida das frutas e torradas que compunham o café da manhã de Rosalie.
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Apesar da noite anterior ter sido um tanto confusa para a mente ocupada de Emmett Cullen, o mesmo havia tido uma incrível noite de sono, que renderia uma manhã cheia de energia nas próximas horas. Agora o ex-soldado vestia sua roupa social e descia as escadas apressado, levando a usual maleta em uma das mãos, enquanto seus pensamentos surpreendentemente positivos daquela manhã enchiam seu corpo de adrenalina e disposição.
—Bom dia, família! — o sorriso de covinhas pairou no rosto alegre, enquanto servia-se rapidamente de uma xícara de café preto, ainda enquanto de pé.
—Bom dia, querido! — Esme retribuiu o carinho e a alegria estampadas no rosto do filho, antes de aproximar-se e lhe plantar um beijo em uma das bochechas.
—Alguém acordou animado essa manhã. — Edward provocou, cotovelando suavemente as costelas de Jasper, que riu silenciosamente enquanto encarava um Emmett sorridente do outro lado da grande mesa.
—Não te lembra alguém, pai? — Jasper lançou um olhar brincalhão à Carlisle, sentado na cabeceira da mesa de madeira.
—Não sei para vocês, mas me lembra Edward quando está com Isabella. — o patriarca proferiu, causando gargalhadas nos filhos e um sorriso afetuoso da esposa.
—Deixem de bobeira, meninos. — Esme defendeu o caçula, depositando um beijo por entre os cabelos cor de bronze do mesmo — Vão acabar se atrasando para o trabalho.
—Tem razão, preciso mesmo ir. — Emmett lembrou-se da tarefa que carregava consigo para antes do início do expediente e apressou-se em levar a última fatia de queijo branco à boca, para então despedir-se.
—Já? Sequer tomou café, filho! — Esme preocupou-se, quase repreendendo o filho mais velho.
—Não se preocupe, madame. — o ex-soldado sorriu, depositando um beijo no alto da cabeça da mãe, enquanto despedia-se apressadamente dos outros, com breves abraços e um aceno final, antes de sair pelo grande arco de entrada do cômodo.
Os passos rápidos ajudaram a adiantar a rotina daquela manhã que, para Emmett, intimamente, corria muito mais alegre e rápida do que o normal, devido à tarefa tão igualmente árdua quanto tentadora de entregar os pertences esquecidos nas mãos da então dona dos mesmos. Era difícil distinguir o receio da ansiedade, sobretudo enquanto o caminho até a famigerada mansão encurtava-se em questão de minutos. Era difícil entender por qual motivo algo aparentemente tão bobo mexia com seu corpo, mente e sentimentos de tal maneira.
(...)
Depois de comer pouco naquele café da manhã, Rosalie encontrava-se um tanto entretida com o vaso de porcelana no alto da escada, preenchido com flores variadas. Gostava daquele vaso como se fosse o único que possuía — e tinha um bom motivo para tal -: havia sido um presente simbólico dos pais no seu vigésimo primeiro aniversário. Sobre o móvel simples e estreito de madeira polida que recebia aqueles que subiam a escadaria, centralizado na breve passagem que antecedia os quartos, o vaso fino chamava a atenção de todos os convidados que atentavam-se para um pouco além da escadaria monumental.
Quebrando com uma rispidez inigualável o momento de serenidade da esposa, King fechou a porta atrás de si sem qualquer cautela, enquanto adentrava o ambiente antes calmo e alegre com passos trôpegos e uma garrafa de uísque preenchida pela metade em uma das mãos. O sentimento de desgosto e o tom de frieza tomaram conta da loira, que agora respirava fundo em palpitações descompassadas, paralisada à frente do vaso em que antes mexia.
—Ei, Rose! — o homem de cabelos loiros chamou, com a voz embargada dos efeitos do álcool e o olhar doentio pousado sob a figura de Rosalie, que fazia menção de afastar-se no momento anterior — Estava com saudades. — a voz desequilibrada comentou pateticamente, seguida de uma risada igualmente dissimulada. Quando finalmente alcançou o mesmo patamar que a esposa, atirou-se para a mesma, colocando as mãos possessivamente sobre o rosto delicado e agora, de semblante enojado.
—Aposto que sim. — ironizou, afastando-se brevemente do homem bêbado à sua frente — Você está bêbado, Royce. Vá tomar um banho. — apoiou-se no móvel atrás de si, enquanto tentava afastar-se daquela figura perturbadora.
—Vamos lá, Rose, querida... — o sorriso débil formou-se outra vez nos lábios molhados, tentando aproximar-se outra vez — Não fuja de mim. Eu te amo, você me ama, sabe disso. — com a mão livre, tomou a nuca da esposa impaciente, que habilmente estava prestes a livrar-se de seu toque.
—Você não sabe o que é amar, Royce. — proferiu, as palavras sinceras e tomadas de rancor atingindo de súbito os ouvidos atentos do rosto tão deploravelmente próximo ao seu. Sentindo o aperto agressivo das mãos dele em seu corpo, alcançou discretamente o canivete que escondia atrás do vaso de porcelana, assegurando-se de que conseguiria se defender caso seu marido tentasse algo contra ela — E sabe que não amo você. — disse mais baixo, de forma irritável, encarando os olhos agora furiosos. No primeiro momento possível, empurrou-o para longe.
—Rose, Rose... — com os olhos claros cada vez mais possuídos pelo ódio e o corpo cada vez mais rígido, com trejeitos agressivos, King aproximou-se depois de outro gole do uísque inacabado, pretendendo mais do que apenas intimidá-la: pretendia agir, dessa vez — Você está brincando com o fogo. — o estalo do vidro atingindo o chão assustou a loira, que imediatamente segurou com firmeza o canivete escondido entre as mãos, enquanto assistia o líquido cor de âmbar espalhar-se pelos degraus. Em segundos, as mãos sujas e agressivas estavam no pescoço fino dela, pressionando de forma perigosa, tirando subitamente o ar que lhe passava pela garganta.
Do lado de fora da casa, na porta principal, Emmett esperava ser recebido por alguém. Na verdade, esperava ser recebido por Rosalie, mas àquela altura, com tamanha demora, já receava que outra pessoa fosse recebê-lo — e desde que não se tratasse de King, poderia lidar com isso.
Quando já ia bater na porta outra vez e, em seguida, preparar-se para ir embora, ouviu vozes perigosamente altas soarem agressivas do lado de dentro da grande casa. Dessa vez, seu coração e mente trabalhavam juntos: em poucos segundos, tinha certeza de que uma das vozes inconfundíveis que havia ouvido pertencia àquela que fazia seu coração disparar e seus pensamentos se enroscarem, infalivelmente, todas as vezes. A outra voz, masculina e mais potente do que o usual, reconheceu com certa estranheza. Com sua mente bolando milhares de possibilidades para aquelas pistas, colocou-se à frente de uma das grandes vidraças ao lado da porta da frente, apertando os olhos ansiosos na tentativa de enxergar melhor o lado de dentro.
Desesperadamente, seu coração passou a bater descompassado, como se o mesmo já conseguisse prever o que a visão embaçada ainda tentava enxergar claramente. Num átimo, os olhos focalizaram-se na cena desesperadora do lado de dentro da grande mansão, no alto das escadas: o homem transtornado de cabelos claros pressionava as mãos agressivas contra o pescoço frágil da mulher loira, agora, de olhar agonizante. Era tão óbvio, como ele nunca havia pensado nisso antes? Royce não era só um homem evidentemente arrogante, alcoólatra e ignorante, como de fato já havia confirmado sem precisar de muito; Royce era também um homem violento. E o pior: era um homem violento com sua própria esposa. Justamente com aquela que todos fariam de tudo para ter ao seu lado — e em "todos", ele, Emmett McCarty, se incluía.
Deixando as indagações, certezas e devaneios de lado, o ex-soldado encarou a porta, correndo os olhos desesperadamente por todos os detalhes da mesma, enquanto tentava pensar em alguma solução para intervir na situação desastrosa que se formava do lado de dentro da casa. Lembrou-se brevemente das vezes em que fora obrigado a arrombar portas nos treinos militares e nas operações de emergência no quartel. Bem, agora tratava-se de uma porta incrivelmente maior e mais desafiadora, mas era a única saída.
—Rose! — gritou, enquanto empurrava a porta com o peso do corpo, enrijecendo o ombro que colidia com a madeira branca — Solte ela, King! Tire as mãos dela! — a voz enraivecida tornava-se cada vez mais alta e imponente a cada colisão com a grande porta branca resistente, somada ao ódio que o tomava quando a cena vista passava por sua mente outra vez.
Como se todos os sentimentos e pensamentos enraivecidos e desesperadores transformassem-se em força, o corpo grande colidiu pela última vez com a grande porta, que abriu-se de súbito, batendo em uma das vidraças. O olhar desesperado correu pelo hall, encontrando uma Rosalie cheia de hematomas roxos no pescoço, parada no alto da escada, com os olhos assustados e marejados.
Antes que pudesse avançar os passos e finalmente alcançá-la, no canto de sua visão, percebeu alguma movimentação. Dando por falta de Royce, varreu os olhos pelo ambiente até encontrá-lo: o corpo desfalecido ao pé da escada estava acompanhado de sangue vermelho-vivo. Os olhos completamente fechados, como num desmaio profundo. Por debaixo da cabeça e por um de seus braços, o então sangue escorria, tingindo o piso branco vertiginosamente.
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