Across The Frontline
5 Capítulo 5 - Ação e Reação
Notas iniciais

Em poucos segundos, as duas figuras presentes cercavam aquela ao chão: Emmett apoiado em um dos joelhos, medindo com os dedos indicador e médio o pulso de Royce, — como lembrava-se de ter feito em alguns companheiros durante a guerra — enquanto Rosalie sustentava o próprio corpo trêmulo nos dois joelhos, com o roupão preto arrastando-se de forma perigosamente próxima ao sangue que, apressadamente, ainda corria pelo piso.
—Precisamos chamar Carlisle. — Emmett alertou, levantando-se rapidamente — Ele está perdendo muito sangue, rápido demais. — referiu-se ao sangue que ainda escorria por um dos braços do homem de cabelos loiros e misturava-se ao pouco que descia por sua nuca.
—Oh, meu Deus, Royce. — Rosalie lamentou, com a voz embargada e as mãos trêmulas fazendo menção de tocar seu corpo imóvel.
—Cuidado! — Emmett a alertou, quando o roupão dela quase era tingido pelo sangue fresco — É melhor ficar longe dele, Rose. — direcionou os olhos azuis para a barra do roupão e depois a ela que, por sua vez, levantou-se de súbito, afastando-se assustada para o lado oposto do cômodo.
O rosto pálido, cercado por algumas mechas dos cabelos perfeitamente loiros, estava agora tomado pelo horror, medo e confusão. Os olhos razoavelmente claros preenchidos por lágrimas visíveis, que aumentavam o brilho ali presente, à medida que alcançavam qualquer foco de luz. As mãos terrivelmente trêmulas — assim como as pernas — aumentavam a sensação de pavor, que espalhava-se por cada centímetro de seu corpo agora frágil. Este reagia de forma gravemente compatível, originando palpitações aceleradas e pensamentos assombrosos, que perguntavam à uma Rosalie anestesiada o que diabos ela havia feito para conseguir um homem ensaguentado e desfalecido no chão da sua casa, quando ela já acreditava fielmente não haver nada que pudesse surpreendê-la àquela altura da vida — não quando, ainda tão jovem, já havia passado por tantas situações inusitadas quanto alguém no auge de seus 40 anos.
—Ele está a caminho. — a voz de Emmett ecoou pelo ambiente, chegando logo aos ouvidos desatentos de Rosalie. A mesma assentiu positivamente, enquanto ainda encolhia-se num canto da sala de estar, firmemente enlaçada aos próprios braços. O silêncio já pairava por toda a casa, quando a voz rouca e embargada quebrou-o bruscamente.
—Eu não sabia o que estava fazendo. — os olhos ainda marejados encaravam o chão frio, enquanto os passos silenciosos do ex-soldado aproximavam-se calmamente — Eu fiquei com medo, eu só tentei me defender, eu juro. — as lágrimas pesadas rolavam por seu rosto agora avermelhado, traçando caminhos desordenados que, desta vez, não eram interrompidos por qualquer tentativa de disfarçar o desespero.
—Eu acredito em você. — a voz serena e verdadeira, vinda daquele que agora a encarava a poucos centímetros de distância, surpreendeu a loira com a nítida falta de dúvidas sobre cada uma das palavras que ela havia proferido há pouco. Era estranho e, dessa forma, também um tanto interessante — para ambos — quanta confiança poderia haver ali, justamente onde sequer havia intimidade ou uma convivência que permitisse a existência de tal.
O rosto avermelhado, com os caminhos de lágrimas ainda traçados pelas bochechas, ergueu-se procurando pelos olhos daquele que lhe afagara mente e coração com o voto de confiança dado há pouco. À colisão dos olhos oceânicos com os castanhos claros marejados — e agora um tanto avermelhados pelo choro -, ambos os corações se aceleraram e de súbito, todos os minutos passados pareceram se resumir àqueles segundos. O impulso inevitável, vindo do coração mais fatigado e agora, mais sereno, sintetizou-se no ato tardio: aquela que considerava-se a mais madura e racional, alcançou o corpo grande à sua frente da forma mais amável e carente que podia, sem esforçar-se. As lágrimas que ainda rolavam pelo rosto corado, agora molhavam o terno fino de Emmett, que sustentava, ainda sem reflexo, o corpo frágil enlaçado ao seu. Percebendo o desespero intensificar-se, com o choro tomado por soluços descompassados, levou ambas as mãos aos cabelos loiros e ali permaneceu, afagando de forma a tranquilizá-la, enquanto ainda recuperava-se do desconcerto que aquilo causava no seu interior.
Quando Rosalie parecia finalmente acalmar-se, com a respiração mais ritmada e o corpo menos trêmulo, ainda recostada ao peito de Emmett, o breve som da maçaneta girando na porta da frente, seguido pelo abrir sutil da mesma, a fez recuar. Como se acordasse de um sonho bom com um barulho desagradável, ela praguejou mentalmente pelo susto, já distante do corpo rígido e estático do moreno. Ambos confusos com a situação, como se a mesma passasse a ser algum devaneio inconveniente em comum, afastaram-se com passos calmos, imaginando que Carlisle certamente não deveria ver a cena anterior prolongar-se.
O homem de cabelos angelicalmente loiros, tão diferentes daqueles do homem ao chão, por sua vez, lançou apenas um olhar de cumprimento à ambos, apressando-se em examinar o corpo ainda desfalecido. Verificou que, nos poucos minutos em que havia ficado aparentemente inanimado ali — dez, talvez -, o quadro deveria agravar-se ainda mais em pouco tempo — como imaginava até mesmo antes de checar — e portanto, algo deveria ser feito logo. Com a experiência dizendo-lhe que, sem sombra de dúvida, aquele já seria um caso grave na situação atual, adiantou-se nos próximos passos.
—Precisamos chamar a emergência o mais rápido possível. — os olhos claros, lembrando os da filha, alcançaram o rosto do ex-soldado, que encaminhou-se apressadamente para o telefone mais próximo — É melhor você trocar de roupa para acompanhar-nos. — Carlisle sugeriu à Rosalie, oferecendo-lhe um de seus olhares serenos e afetuosos.
—Ele vai ficar bem? — ela questionou, antes de virar-se na direção da escada.
—Como em todo acidente, existem chances, filha. — maneou a cabeça para o lado direito, indicando certa dúvida — Vamos saber melhor quando chegarmos ao hospital, então, acalme-se. — ela assentiu e quando já estava a caminho do quarto, foi interrompida outra vez — Não se preocupe, querida, eu sei que você não teve culpa de nada. Tente se conformar com essa situação: ele procurou por isso. — o mais velho falou com sinceridade, acalmando certa inquietude que ainda pairava no peito da mais jovem. Essa, enfim, subiu as escadas com passos arrastados, desviando cautelosamente de toda possível pista do acidente que ainda estava marcado por ali, tanto quanto em sua mente conturbada.
(...)
Poucos minutos depois, Rosalie encontrava-se parada ao batente da porta da frente, vestindo sua blusa rosê de botões, colocada por dentro da saia bege cintura alta — que ia até o meio dos joelhos. A blusa de gola marcada e grossa — um tanto caída pelos ombros — e mangas 3/4, conjuntamente com a saia levemente justa, demarcava sua cintura fina, parecendo moldar o corpo de forma perfeita. Em um dos braços, pendurada, uma de suas bolsas favoritas, também em tom de bege — esse, porém, mais escuro do que aquele que tingia a saia — e nos pés, sapatos de salto no tom nude. Os cabelos caídos em cachos pelas costas, como o usual, e uma pulseira de ouro delicada enfeitando pulso direito.
—Vamos? — Emmett encostou brevemente a porta atrás de si, colocando-se a certa distância dela, que parecia pensar em algo distante demais para atentar-se ao mundo real. Enquanto esperava por sua resposta, por breves segundos, observou os policiais solicitados recentemente por Carlisle — antes que o mesmo adentrasse a ambulância com Royce a caminho do hospital — investigando, no lado de dentro da casa, cada uma das pistas deixadas pelos cantos da então "cena do crime". Antes de voltar a atenção para Rosalie outra vez, notou Mercedes parada ao pé da escada, com a expressão preocupada. Mentalmente, lembrou-se do breve momento em que testemunhou o desespero da mesma, desejando ter estado presente no momento da agressão, ao invés de estar fazendo suas tarefas no jardim, como ocorreu. Imaginou ainda se teria sido melhor ou pior se tivesse sido dessa forma.
—Ah, sim, vamos. — ela finalmente respondeu, encarando-o com um sorriso breve.
Quando a voz melódica chegou aos ouvidos atentos, McCarty ofereceu um sorriso em resposta, para em seguida dirigir-se ao carro, no lado do passageiro, onde abriria a porta para que a outra se acomodasse. Em poucos segundos, graças à pressa camuflada de ambos, já estavam dentro do veículo, a caminho do hospital — caminho esse que fez-se imerso em silêncio e pensamentos divididos dos dois lados.
(...)
Chegando ao hospital, na sala de espera, encontravam-se Esme, Carlisle, Jasper e Alice. Assim que adentraram o ambiente, Rosalie e Emmett receberam olhares afetuosos e preocupados — esses últimos destinados mais à loira do que ao ex-soldado.
—Rosalie, por Deus! — Esme exclamou, apressando os passos na direção da filha, com os olhos marejados encontrando os que remetiam aos do marido — O que ele fez com você, meu bem? — a mãe, corroída pela angústia do acontecido, abraçou longamente a mais jovem, certificando-se em seguida de que o corpo da mesma estava intacto — como de fato não estava.
—Eu estou bem, mãe. — mentiu — Não se preocupe. — aproximou uma das mechas loiras para mais perto do pescoço com um maneio de cabeça, tentando esconder a marca das mãos no pescoço branco.
—Deixe-me ver, eu sei que há algo de errado. — Esme encarou firmemente o rosto mascarado da filha, enquanto analisava as partes descobertas de sua pele. Sabendo que não haveria escapatória, Rosalie deixou que a mãe enxergasse as marcas roxas em seu pescoço, tão nítidas a olho nu quanto uma mancha de tinta fresca numa porcelana.
—Mãe? — a voz mais aveludada aproximou-se das duas, como se pedisse licença.
—Jazz! — a irmã exclamou, aliviada pela presença do irmão que, se dúvidas, a acalmaria mais do que todos. Desvencilhando-se brevemente do exame da mãe atenta, deu passos largos na direção do mais velho, que a recebeu com um abraço também demorado.
—Eu e Alice só viemos checar como você estava, logo teremos que ir embora. — elevou o canto direito dos lábios, desculpando-se pela pressa.
—Jazz precisa voltar ao trabalho e eu preciso ir a uma reunião de família. — Alice sorriu entre um suspiro e outro, mostrando-se também nitidamente aflita pela situação.
—Não pense que vou deixar isso escapar, mocinha. — Esme lhe lançou um olhar de advertência — ainda que tivesse mostrado-se um tanto afetuosa ao mesmo tempo — fitando de relance a marca em seu pescoço. Alice, do lado contrário, fez o mesmo pelo canto dos olhos.
—Sinto muito por isso, Rose. — a morena ofereceu-lhe um olhar terno característico, surpreendendo-a em seguida com um abraço duradouro e apertado, carregado do amor fraterno singular que uma já conhecia da outra — Você sabe, estou aqui para o que precisar.
—Obrigada, Lice. Você é um doce. — Rosalie retribuiu, agora voltando a atenção para o irmão à sua frente — Bem, vocês já devem ir, certo?
—Infelizmente. — Jasper concluiu, sorrindo sinceramente antes de abraçá-la outra vez — Eu faltaria no trabalho mas, você sabe, Emmett já está aqui com vocês, então eu preciso ajudar Edward com as coisas por lá.
—Eu entendo, Jazz. Obrigada por terem vindo, de verdade. — a loira agradeceu com o melhor sorriso que pôde, antes de enfim vê-los partindo pelo hall de entrada do hospital.
De volta aos bancos da sala de espera, Rosalie acomodou-se ao lado de Emmett, enquanto esperava por notícias de Royce. Carlisle havia desaparecido pelo andar de cima do estabelecimento há alguns minutos, avisando que iria atrás de notícias. Esme, por sua vez, decidiu ir até um dos cafés na calçada em frente, acalmar-se com algum chá ou água com açúcar.
—Você precisa descansar. — o moreno quebrou o gelo, interrompendo assim seus pensamentos rodando em turbilhões por sua cabeça — Se quiser, eu posso te acordar quando Carlisle chegar com as notícias. — encarou a dona das terríveis marcas roxas no pescoço, fugindo com o olhar rapidamente para os olhos perdidos, impedindo-se de ser tomado pela fúria e ressentimento que aquelas traziam ao seu interior.
—Eu estou bem. — ela disse simplesmente, mexendo na aliança encaixada no dedo anular da mão esquerda — Além do mais, eu com certeza não vou conseguir descansar com tudo isso tão recente. — respirou fundo, encarando o piso branco sob os saltos altos.
—Tudo bem, você quem sabe. — ele deu de ombros, desacreditando de todas as palavras que ela havia acabado de dizer. Era nítido no rosto pálido que o cansaço deveria falar mais alto em breve, assim como aconteceu, conforme lembrou-se, quando ela rendeu-se milagrosamente, recostada em seu peito, mais cedo.
(...)
Passada mais de uma hora, Rosalie encontrava-se absorta em um sono profundo, agora com a cabeça recostada ao ombro esquerdo de Emmett, que àquela altura, também relaxava recostado na parede branca. De quando em quando, atentava-se ao movimento na pequena sala de espera, ansiando pela volta dos pais com notícias de King.
—Filho? — Esme afagou-lhe o ombro, surpreendendo-o.
—Alguma notícia? — o ex-soldado corrigiu a postura, cuidando para que Rosalie não acordasse antes do necessário.
—Na verdade, eu cheguei quando vocês dois estavam dormindo, fui até o andar de cima procurar pelo seu pai, mas não o encontrei. Achei melhor ver como vocês estavam. — a mais velha sorriu maternalmente, sentando-se na cadeira o lado do filho.
Noutro instante, sem qualquer pausa para uma volta ao estado de relaxamento anterior, Carlisle atravessou a porta da pequena sala, trazendo um semblante tranquilo, como habitualmente — porém, sem sorrisos.
—As notícias não são boas. — anunciou, enquanto Emmett tentava fazer Rosalie despertar.
—Aconteceu alguma coisa? Alguma notícia, pai? — Rosalie levantou-se confusa, ajeitando os cabelos levemente bagunçados e a roupa amassada. Emmett e Esme também o fizeram, encarando Carlisle com olhares agoniados.
—Royce está em coma. — o mais velho declarou, de frente para três pares de olhos estáticos.
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