Across The Frontline
32 Capítulo 32 - Reencontros
Notas iniciais
As semanas passaram com pressa depois do aniversário de Rosalie: mais cedo do que o previsto, agosto não só chegara como já estava na metade — levando consigo muitos outros acontecimentos.
Para a própria Rosalie, eram diversos fatos — tantos que, outra vez, ela se via sendo obrigada a, literalmente, perseguir sua própria vida. Empurrada a correr atrás dela, e tudo que a envolvia nos últimos tempos, para que não avançasse demais sem sua percepção.
Num primeiro avanço: ela estava indo bem, progredindo realmente, no trabalho. Na verdade, até mesmo já se sentia confortável e habituada às atividades e em fazê-las, majoritariamente, sozinha.
A nova casa que comprara estava, finalmente, em suas mãos, e isso era de onde ela tirava boa parte da inspiração e motivação nas horas vagas: junto de Esme — que estava, com alegria, planejando e decorando todos os ambientes da casa da filha -, ela estava tendo a chance de dar ao lugar seu estilo atual, sua cara, a vendo então, aos poucos, se tornar realmente seu lar.
E como irmã mais velha — e solidária, ela gostava de dizer -, a loira também vinha tendo a tarefa de consolar Edward nos últimos dias, que estava "um pouco chateado" — lê-se: completamente desolado — com o fato de seu jantar de noivado ter sido, novamente, adiado.
Isso parecia ser pelo não tão simples fato de que Reneé e Charlie, pais de Bella, não vinham sendo exatamente bons em ficar sem discutir um com o outro por mais do que dias a fio. E isso fazia nunca ser uma boa hora para uma ocasião como aquela — fosse pelo mau humor dos dois, um com o outro, ou pelo estresse de Isabella com a situação.
E apesar de não entender completamente a obsessão do irmão por casar-se, ou por Isabella, Rosalie entendia o quão difícil podia ser lidar com pessoas — ainda mais com sogros e sogras, por mais que fosse uma relação toda diferente -, e principalmente, manter aquele tipo de esperança vivo.
O que vinha se mostrando presente para ela também sob a forma de um esforço indeciso, nas últimas semanas, quando se tratava de Emmett e aquele mês inteiro sem tê-lo por perto — o que era, simplesmente, em toda vez. A todo momento.
Toda vez que riscava um dia no calendário ou preenchia uma página diferente na agenda do escritório. Toda vez em que levava os olhos ao tapete em sua sala, ou que alguém pisava nele, como era esperado — e ela se sentia estranhamente incomodada e ultrajada por isso.
A toda chance que o cheiro de café usava para chegar até ela, e sucedia terrivelmente; ou o da grama recém cortada no jardim e, ainda, o toque macio da pulseira de tecido em sua mão, sempre que a tirava da gaveta — como se ansiasse por isso. Toda vez que alguém batia à sua porta no escritório e ela, desavisada de sua resposta imediata demais, esperava ver a pessoa errada.
Toda maldita vez em que seu cabelo fazia cócegas na pele, brincando livre diante do vento e da luz do Sol, e ela precisava abrir os olhos pra ter certeza de que não era Emmett, mas a ilusão perfeita dele, perto o suficiente para que sua respiração, ou seus lábios corados, fizessem cócegas no rosto dela tão sutilmente.
Como havia dito: basicamente, toda vez.
O que a fazia ficar num paradoxo entre a sensação de que ele estava sempre ali, em todas aquelas coisas e mais; e a de que nunca mais estivera, ou voltaria a estar — ao menos nessa última parte, ela pensava, talvez não do jeito como queria, já que não ouvia falar dele há semanas.
Mas, em grande parte do tempo, Rose ainda era boa em obrigar-se a fincar os pés no chão: ela lembrava a si mesma constantemente de que, apesar de suas vontades, ideias e suspeitas convidativas — como a de que Emmett vinha, na verdade, telefonando ou escrevendo aos seus pais, ou a Jasper — a vida seguia sendo o que era e acontecendo — e ela devia fazer o mesmo, apesar de coisas e suspeitas como essa, que ela, inclusive, não procurava confirmar.
Afinal, sempre fora boa nisso — casada com Royce por longos anos, tivera que ser.
Embora, é claro, de uma forma curiosa, parecesse agora tão mais fácil ignorar, ou quem sabe conviver com, a raiva e a tristeza, do que com a possibilidade tentadora e sempre à espreita da felicidade.
Como se, de repente, paraíso e purgatório significassem nada comparado ao limbo que, em sua indecisão infinita e paralisante, fazia toda recompensa parecer inalcançável, mínima; e o caminho, um ápice excruciante.
Ainda assim, Rosalie vinha corajosamente acatando a esse fardo e refletindo, por outro lado, que já estava se esforçando o bastante, por exemplo, quando conversara com Carlisle e Esme sobre ir àquele leilão — aonde agora, sem poder repensar suas finalidades ou voltar atrás, estava.
Havia pouco mais de dez minutos que ela estava lá, tendo saído do trabalho mais cedo pra isso, e a loira achava já ter ouvido de quase tudo que era possível para uma breve noite: algumas poucas pessoas — o que ela notou satisfeita — ainda a haviam abordado com o argumento dos pêsames de Royce; outras falavam, mais agradavelmente, sobre o casamento de seu irmão, Jasper, que fora divulgado em alguns jornais; outras queriam falar com seus pais sobre o que quer que fosse, em assuntos que, graças aos céus, não diziam a seu respeito.
O que seguiu-se numa sequência mais ou menos previsível, até que eles fossem levados à própria mesa naquele salão muito amplo — um acontecimento sucedido de uma presença familiar os cumprimentando.
—Oh, vocês vieram! — Anna exclamou, chamando a atenção dos três conforme se aproximou, começando os cumprimentos. — Você veio! — ela disse ao chegar em Rosalie, apertando sua mão, e a loira afirmou com a cabeça. — É tão bom vê-los aqui, obrigada por virem! Aonde está o resto da família? — ela seguiu, empolgada.
—O prazer é nosso pelo convite, Anna. — Carlisle quem disse, assentindo com a cabeça e um sorriso gentil.
—Sem dúvidas. Agradecemos por nos chamar. — Esme acrescentou apenas, assentindo também, com um sorriso fraco que Rosalie estranhou; a mãe, na verdade, vinha estando estranha desde aquela manhã e ela pensava saber o por quê, relacionado ao irmão caçula.
—Edward tinha um compromisso com a namorada hoje, então não pôde vir. E Jasper, agora casado, estava muito ocupado para vir também. Mas, mandaram os cumprimentos a você. — Carlisle continuou, vendo que a esposa não o faria, e reforçou o afago nas costas dela.
—Ah, eu entendo, é claro! Agradeçam a eles por mim. — Anna sorriu, sincera, e descontraiu. — De toda forma, já estou feliz que tenham vindo! E você... — ela enfim indicou Rosalie com a cabeça, se virando mais diretamente para ela. — Estava com Emmett da última vez que nos vimos, certo?
—Sim, estava. — a loira confirmou, um sorriso saiu com esforço à menção do nome, e umedecendo os lábios com a memória; aproveitou a deixa incômoda para, ao mesmo tempo, indicar as cadeiras aos pais, sinalizando que deviam sentar-se. — Nós nos conhecemos lá.
—Sim, eu me lembro! Aquela foi uma boa surpresa. — a outra voltou a rememorar, sorrindo largo. — Eu pensei em convidá-lo, mas nem mesmo sabia em que parte da cidade ele estava.
—Ah, — Rosalie interviu, um pouco pega de surpresa. — ele não está na cidade, na verdade. — Foi para a Aeronáutica. — e sob o olhar confuso da outra, corrigiu, dando de ombros. — Treinar pra isso, na verdade.
—Meu Deus! É mesmo? — Davis exclamou, parecendo dividida entre o choque e a admiração. Sua boca ficou aberta por alguns segundos sem que ela dissesse nada. — Isso é inacreditável! Eu nem sei como me sentir, nossa. É realmente loucura de pensar! — ela riu um pouco, se sentando numa cadeira à mesa deles. Carlisle e Esme,que estavam conversando baixo e lado a lado, não se incomodaram em entrar na conversa das duas.
—Não é? Foi o que eu pensei! — a loira replicou, agradavelmente surpresa pela reação e fala dela, sentando na cadeira vazia ao lado, a tempo de deixar-se pensar direito e corrigir. — Quero dizer, o que nós pensamos. É meio que como estamos lidando com isso agora.
Houve um instante de silêncio estranho entre as duas.
—Me desculpe mas, eu estou muito confusa agora. — Anna admitiu, balançando a cabeça. — Como vocês conheceram Emmett? Ele está... Morando com vocês?- ela questionou, franzindo o cenho com confusão genuína. — Ou algo do tipo?
—Bem, é complicado... — Rosalie suspirou, até ceder de leve com a cabeça. — Mas, sim, meio que está. — e se corrigiu rapidamente. — Ele estava, como eu disse, agora não está mais aqui. Mas, nós conhecemos ele desde que eu e meus irmãos éramos pequenos, e ele e meu pai meio que... — ela pausou, pensando numa boa maneira, e discreta, de dizer.
—Se reuniram, alguns anos atrás. Emmett, é claro, estava numa posição muito diferente, havia acabado de voltar da guerra, as coisas ainda estavam, — e novamente, ela hesitou, procurando as palavras. — de uma forma estranha, se arranjando. Então, ele veio ficar conosco no Natal de 1946 e acabou... Ficando. — ela deu de ombros, embora as memórias daquele passado específico, passando como feixes de luz por sua mente, causassem todas as reações que não aquela, em seu âmago.
—Ah, isso é muito legal! — Anna respondeu de pronto, sorrindo novamente. — Quero dizer, deve ser uma ótima história e vocês todos, Emmett inclusive, devem ter ficado felizes. É muita coincidência. Ou destino, realmente. — e acrescentou, cedendo com a cabeça pra um dos lados, sem fitar Rosalie, que agradeceu silenciosamente por isso.
—De toda forma, — ela prosseguiu, alheia à hesitação da outra. — estou muito feliz que os caminhos de vocês tenham se cruzado. Emmett já passou por momentos difíceis o bastante quando criança, e só posso imaginar como foi quando ele soube que a mãe faleceu... — e então sua expressão mudou para uma de pesar, ao que ela engoliu a seco, e então renovou a conversa com um suspiro e tom de resumo. — Mas, você já sabe de todas essas coisas. Ele só não merece mais nada desse tipo, e tenho certeza que estar com vocês ajudou.
—Eu espero que sim, mesmo. — a filha dos Cullen refletiu, sinceramente e um suspiro escapou, mais discreto dessa vez, por seus lábios, quando pensou em confessar o que lhe veio à mente. — Apesar de nós, na verdade, não sabermos tanto assim sobre o passado dele. — e sob o olhar inquisitivo e confuso de Anna, explicou. — Nós o conhecemos desde a infância, mas ele logo se mudou para longe com a mãe dele. Você provavelmente sabe essa parte também.
—Sim, claro! Foi quando nos conhecemos. — ela assentiu de pronto, sorrindo por um breve momento. — Eu sei coisas de antes disso porque ele me falou. Mas, não sabia que vocês o haviam conhecido nesse "antes", ele na verdade nunca... — e então parou para pensar o que iria dizer, como se algo estivesse errado. — Havia mencionado vocês?- e sob o olhar compreensivo de Rosalie, que baixou os olhos levemente, acrescentou. — Espero que não tenha soado indelicada.
A loira sorriu brevemente, dispensando com a cabeça, e incentivando Anna, indiretamente, a continuar.
—Bem, eu sei que o pai dele era terrível e ele tinha alguns problemas com isso, mas ainda assim, ele era uma pessoa calorosa e definitivamente um extrovertido. Especialmente perto da mãe dele. — ela sorriu então, quase rindo quando voltou os olhos à Rosalie, e seu tom mudou para um mais evidente. — Mas, mesmo então, haviam coisas sobre as quais ele não gostava muito de falar, ou pensava já ter falado o suficiente.
—Sim, isso se parece com ele. — Hale concordou, e pegou a si mesma rindo um pouco também, no mesmo tom que Anna fizera, até fitar as próprias mãos sobre a mesa de novo. — Às vezes, parece que ele pensa estar sendo realmente aberto, sabe? E não é que seja difícil lê-lo, é só que... — ela refletiu, tentando achar as palavras.
—Você queria ouvir dele. — Davis completou, sem hesitar e surpreendendo a loira, que a olhou em expectativa e surpresa. — E dá pra perceber que ele não está falando tudo, e nem está perto disso. Apesar de parecer que ele quer, ou queria em algum momento, certo?
O acerto impossível de Anna arrebatou Rosalie por vários segundos, causando sentimentos que ressoaram sobre ela como uma maré indecisa e estranha — ela não soube discernir as tantas coisas que sentia com o fato de Anna conhecer Emmett tão bem, àquele ponto, depois de tanto tempo distante dele.
—Sim, é... — ela conseguiu responder apenas, ainda achando as palavras, e levantou os olhos para fitar a mulher com estranheza, mas também um resquício de admiração. — De alguma forma estranha, é exatamente o que quis dizer.
Anna riu baixo com a reação e assentiu, continuando diante do silêncio de Rosalie.
— Bem, da forma como eu vejo, Emmett costumava ser esse cara brilhante, alegre e aberto, que tentava superar o lado "sombrio" dele com esse outro mais leve e legal, por tanto tempo quanto possível. Mas, isso não fazia a outra parte, as coisas difíceis, dolorosas e segredos irem embora; — ela pausou, olhando para Rose pacientemente, se certificando de que ela acompanhava. — eles ainda estavam ali, só não saíam. E se quer minha opinião, — ela emendou, num tom mais baixo. — eu acho que ele só não mudou tanto antes, dessa forma, por causa da mãe dele, que ainda estava viva.
—A mãe dele era uma parte realmente grande dele, não era? — a loira perguntou retórica, num tom mais baixo que traduzia lamento e admiração, ao mesmo tempo.
—Oh, e como. — Anna replicou sem espera, com entusiasmo. — E ele era o mesmo pra ela, o mundo inteiro dela, realmente. Eles estavam sempre felizes de estar perto um do outro, de ter um ao outro. — ela sorriu, se lembrando. — Mesmo nas raras vezes em que discutiam você ainda podia, quase literalmente, sentir a felicidade e gratidão deles, eu acho, em estar na companhia um do outro. — ela riu e manteve um sorriso doce nos lábios, balançando a cabeça em negação. — É até mesmo difícil explicar...
—Mas, então, — Rosalie aproveitou a pausa, delicadamente, para intervir com o que lhe viera à mente. — deve ter sido realmente difícil pra eles quando ele decidiu ir para o exército. — e inclinou-se mais sobre a mesa, uma mecha loira pendendo e fazendo cócegas ao lado do rosto, o que ignorou enquanto cruzava os braços. — Ficar separados assim, com uma guerra em iminência.
—Sim, foi muito. — a outra confirmou, assentindo com veemência sob o olhar da loira, que a fez querer corrigir. — Quero dizer, Francine tinha uma ideia melhor do quão horríveis as coisas podiam ficar, e o quão rápido, lá fora. Então ela, é claro, apesar de feliz e orgulhosa que ele tivesse sido convocado para o exército, estava profundamente preocupada pela chance de isso se tornar algo mais.
Foi aqui que Davis parou mais longamente do que já fizera até então, como se estivesse reunindo a si mesma, ou aos seus vários pedaços quando se tratava daquilo, para ser capaz de deixar o que pensava fluir boca afora. Como se fosse quase um pecado dizer em voz alta.
—Ela costumava dizer que já sentia falta dele e acho que nunca vou dizer isso a Emmett, — ela admitiu, falando mais baixo e sob um suspiro. — mas às vezes soava mais profundo do que como em um "até já".
E não foi difícil para Rosalie sentir o fardo daquelas palavras, ou ver porque ela nunca dissera, e nem planejava, falar isso a Emmett, no rosto despedaçado dele que sua imaginação formara perfeitamente, como efeito daquela percepção.
—Mas, para Emmett era diferente. — a mulher de cabelos cacheados e escuros continuou, um sorriso renovado e de descrença nos lábios. — ele estava tão empolgado em ser chamado e ir, que era como se a possibilidade de uma guerra não o amedrontasse nem um pouco. Ou melhor, — e corrigiu-se, pensando melhor. — eu sei que não o amedrontava, porque ele tinha tanta certeza de que, se ir para a guerra fosse o caso, tudo ia sair tão bem, que ele até mesmo tinha planos para depois.
Com isso, de repente a saliva e o ar na garganta de Rosalie pareceram uma combinação errada e inóspita, como nunca antes; a fazendo emendar um engasgo repentino e breve mas, o suficiente para tirá-la uma lufada de ar e a discrição que tentava manter até então — e que à menção de "planos" com Emmett e Anna no mesmo contexto (apesar de estar criando gosto pela garota), havia escorrido para longe como água entre os dedos.
—Planos? — ela não pôde evitar de perguntar enfim, depois de disfarçar, tão bem quanto possível, seu engasgo de surpresa. — Com...? — e sugeriu, incerta do quão boba arriscaria soar com a próxima palavra.
—Ah, não, não comigo. — Anna esclareceu rapidamente, rindo um pouco. — Com a mãe dele, em grande parte, mas para si também. -e pausou de novo, processando em silêncio a reação de Rosalie e, então, sentindo que deveria esclarecer.
— Quero dizer, eu e Emmett, nós... — ela inspirou, gesticulando sobre a mesa e só para Rosalie, calmamente, enquanto tentava achar a maneira mais objetiva e sutil de dizer o que parecia ser um tópico sensível para a outra. — Nós nos apaixonamos quando éramos bem mais novos. Crescemos meio que juntos, então soou muito natural e certo.
—Acabamos namorando na adolescência, mas conforme ficamos mais... — ela procurou pela palavra, virando o rosto para outro lado, quando o Sol que vinha da janela fez sua pele negra reluzir. — Maduros, assim como nossos interesses, expectativas e todo o resto, percebemos que nossos planos eram muito diferentes; — e negou com a cabeça, um sorriso simples e de honestidade nos lábios. — não iam se encaixar, apesar das nossas vontades e sentimentos.
Rosalie se manteve quieta enquanto a outra explicava; como um cardume numa corrente contra a qual não se pode, nem deve, lutar; ou uma estátua imersa no oceano, perecendo no lugar errado mas, resistindo às ondas muito fortes de qualquer maneira.
—Eu queria estudar fora do país. Na terra natal da minha família, na França, por tanto tempo quanto pudesse e conhecer bastante do mundo antes de retornar. Emmett queria ser militar, aqui nos Estados Unidos e depois se casar, sossegar e ter uma família. — ela deu de ombros e rolou os olhos, sorrindo um pouco, como se fosse algo muito típico de se descrever. — Então nós concordamos em ser apenas melhores amigos de novo, e como nos importávamos muito um com o outro, funcionou bem.
Sob a conclusão, Rosalie ainda estava se deixando levar pela maré — apenas levemente tentada a nadar contra ela agora; mais do que antes.
—Ele queria isso? Uma família? — foi só o que ela conseguiu perguntar, retida àquele ponto por motivos demais para discernir.
—Ah, queria. E bastante. — Anna afirmou, assentindo e voltando a sorrir com leveza, e certa graça agora que achara a loira interessada por aquele ponto. — Ele sempre dizia que queria ter uma família grande, porque a casa deveria parecer cheia de vida e, como filho único, ele sempre achara a ideia de ter irmãos tão legal. — e então rolou os olhos, segurando um riso contrariado. — Também ficava se gabando de que seria um daqueles pais legais, que brincaria sempre com as crianças e os amigos delas.
Aqui, Rosalie não pôde conter e tampouco notar o sorriso espontâneo que alongou seus lábios, enquanto os olhos cor de mel mantinham-se presos à figura de Anna, dando mais alento à sua admiração.
—E claro, — ela emendou com pressa, como se quase esquecesse. — um marido útil, carinhoso e tudo isso, como Jared não foi com Francine. Ele costumava dizer que ia casar com o amor da vida dele; — e completou ainda, rindo contrariada outra vez. — era bem sonhador e otimista sobre esse tipo de coisa, na verdade. Ficava dizendo que ele tinha certeza que ela já estava por aí, e os caminhos só não haviam se encontrado ainda porque ela estava ocupando tempo com o cara errado até ele chegar. Era bem irritante de ouvir, às vezes. — ela riu de novo, com um olhar risonho e inevitável à Rosalie, que dessa vez acompanhou, rindo leve também.
—De todo jeito, eu não sei quanto disso mudou depois da guerra, mas ele estava realmente certo também sobre os planos com Francine. Dizia que ia comprar pra eles essa casa enorme, com um jardim todo pra ela e alguém que os ajudasse a limpar e cozinhar, assim ela não teria que se preocupar tanto mais sobre isso. O quarto dela seria o maior, uma suíte com cama grande, banheira e tudo mais. — e parou brevemente mais uma vez, falando como se lembrasse a si mesma. — A única coisa com que ele a provocava era sobre ter um bando de crianças pra acabar com a paciência dela. — e então negou com a cabeça, sorrindo. — Era divertido de assistir.
—Eu aposto que sim. — Rosalie sorriu de novo, com um tom agridoce, incerta entre os dois modos como aquilo ainda lhe soava e cuja parte, noutro instante, então admitiu. — Eu queria ter tido a chance de conhecer todas essas coisas, esses momentos... — e umedeceu os lábios, recuando na cadeira. — Queria poder vê-lo falando sobre isso, ver esse lado dele de novo.
Houveram segundos de silêncio, uma nuance compreensiva por trás dele ao lado de Anna, que observou a loira com cautela e compaixão da mais genuína, pelo que quer que ela estivesse passando com Emmett — e que ela parecia, muito como ele, quase querer falar.
—Quero dizer, ele ficou um pouco melhor. — a filha dos Cullen prosseguiu, dando de ombros, sentindo-se mais à vontade. -Quando chegou em nós de novo, ele... — e procurou pelas palavras, os olhos vagando no ambiente. — Era muito diferente, nesse sentido. E melhorou. Ele ficou melhor, mais confortável, confiando mais em nós, mas sinto que tudo isso nunca foi tanto quanto poderia. — e voltou os olhos para Anna, mais intimista, e menos defensiva, do que antes. — Entende? Como você disse antes.
—Entendo, claro. Na verdade, acho que sei exatamente o que quer dizer. — Davis deu de ombros e se inclinou sobre a mesa, mais próxima de Rosalie para dizer. — E se quer saber, qualquer que tenha sido a situação em que ele voltou pra vocês, tenho certeza que ajudou muito e fico confiante de que vocês vão, um dia, vê-lo assim. — ela afirmou com a cabeça, uma expressão serena que transmitia confiança. — Como ele era antes, mais confiante e todo o resto. Talvez só vá levar tempo, entende? Especialmente agora, com o que você disse, de estar na Aeronáutica.
E aqui ela recuou outra vez, franzindo o cenho com confusão e com a memória dela, que guardara por toda a conversa, até ali. Rosalie assentia, mais para si mesma, esfregando as mãos nas pernas quando a mulher voltou a dizer.
— Aliás, você sabe como isso aconteceu? — ela perguntou, também mais intimista, a confusão nítida em seu rosto. — Eu estou tentando entender.
—Bem, eu na verdade sei. — Rosalie respondeu de pronto, hesitando não na sinceridade, mas na continuidade longa dela, que esbarrava na ausência de Emmett ali e seu direito de fazê-la; afinal, era sua história. — Mas, é uma longa história. Quase tão longa quanto essa sobre como ele "voltou" até nós, e me sinto um pouco errada em contar no lugar dele, pra ser honesta. — e fez um suspense proposital, desviando o olhar dos olhos curiosos, mas contidos, de Anna. Um instante, no entanto, a inclinou o suficiente para o tom que queria tomar contar de seu ser. — Mas, você me contou tanto que, a essa altura, eu simplesmente te devo.
Ela sorriu, sobrancelhas arqueadas, e diante disso, finalmente, Anna riu livremente, inclinando a cabeça para trás e causando um efeito de cópia em Rosalie, que riu com gosto também, sem deixar de fitá-la.
—Eu poderia falar que você não me deve, na verdade. — a outra voltou a dizer quando se recompôs, e emendou mais de perto. — Mas, pra ser honesta também, eu quero muito saber!
E foi então que, antes que Rosalie pudesse dizer o que quer que intencionasse, uma voz surgiu às suas costas, captando o olhar e atenção da mulher de cabelos escuros.
—Srta. Davis, com licença. Precisam de você no salão principal. — o homem gesticulou para trás de si e, antes de responder, a que fora requisitada deu um olhar à loira.
—Vá, podemos nos falar mais tarde. — é ela a liberou gentilmente, sorrindo breve antes de ver Anna retribuir e passar por ela, um afago leve em seus ombros antes de sumir de vista.
(...)
Cerca de uma hora mais tarde, os Cullen estavam num novo salão, sentados um ao lado do outro numa das muitas fileiras de pessoas que participavam do leilão beneficente.
Carlisle estava discretamente dividido entre prestar atenção ao evento e à esposa ao seu lado, que parecia alheia ao evento e, por algum motivo, aflita. E então havia Rosalie, que estava levemente diferente de quando entrara no lugar, e não fazia ideia do que estavam leiloando daquela vez, ou das outras que haviam passado.
Havia simplesmente muito em que pensar e, ao mesmo tempo, o ritmo do local e o fato de estar em público nunca a deixavam concluir, de verdade, um só pensamento. Então, ela se via indo e voltando em raciocínios iguais, quase todos inconclusivos mas, ainda assim, intrigantes demais para não dar a eles uma chance.
Um dos raros que se excedia a esse padrão era a ideia que havia de Anna, agora, em sua cabeça.
Ela agora concordava com Emmett e, embora num nível diferente, achava a mulher muito agradável, até mesmo legal e divertida.
Agora, Anna não era mais, e nem apenas, a garota muito bonita de quem ela ficara enciumada. Ela era muitas coisas além disso e, em partes, porque entendia a empolgação de Emmett em reencontrá-la naquele dia.
Além de ser parte importante de sua história, mais como uma melhor amiga — apesar da parte do namoro, que ainda a intrigava levemente -, Anna era mesmo uma companhia proveitosa, com uma energia radiante que fazia parecer que sempre haviam conversado, sintonizado daquela forma.
Entrementes, diante do ar distante de Rosalie sob esses pensamentos, Carlisle e Esme trocavam algumas palavras, enquanto o loiro alternava seu ouvido atento à esposa e ao evento.
—Está se sentindo bem, querida? — ele quis saber, passando um braço por detrás dela e acarinhando seu ombro.
Esme, que estava mesmo tão quieta quanto no começo do evento e, então, mais do que o normal, descansou uma mão na perna do marido, com um afago leve.
—Não sei ao certo, querido. — ela respondeu honestamente, fitando a própria mão na perna dele, que se moveu para afastar o cabelo dela do rosto e vê-la melhor. — Quero dizer, não é comigo, eu só estou... — ela suspirou, e levou uma mão ao peito, engolindo a seco. — Estou com um mau pressentimento. Desde hoje cedo, sinto que algo ruim vai acontecer, com um de nós.
E então, a mulher dedicou um olhar angustiado e, ao mesmo tempo, de expectativa ao marido — como se esperasse que ele dissesse algo a amenizar sua agonia persistente.
Carlisle, que não esperava a confissão, e muito menos o temor do potencial motivo por trás dela, voltou a afagar dessa vez as costas da esposa, e a trouxe para mais perto.
—Não fique assim, meu bem. — ele sorriu leve, alisando os fios escuros dela. — Talvez seja só a questão do noivado de Edward, por ele estar se sentindo cabisbaixo. Você deve estar sentindo por ele, é só isso. — e completou, deixando um beijo carinhoso na têmpora dela. — Logo estaremos em casa e você vai se sentir melhor.
Depois que Esme concordara breve e silenciosamente, acenando com a cabeça antes de selar os lábios com os do marido num beijo rápido, o loiro minutos seguiram-se até que ele se interessasse pela peça de arte que estava sendo leiloada e, finalmente, quase ao final da contagem para o que teria sido o último lance, levantara a mão com sua placa.
—Seiscentos dólares com Sr. Cullen! — o homem que apresentava a peça exclamou, indicando a direção do loiro e depois para o restante da plateia. — Alguém acima? Seiscentos e cinquenta doláres? Eu ouvi seiscentos e cinquenta dólares? — e, muito subitamente, uma mão feminina se ergueu noutro canto. — Seiscentos e cinquenta dólares com a Sra. Barnett!
À menção do nome, os três Cullen pareceram ter ouvido um estalo, que os tirou das expressões e poses estáticas de antes, as refazendo num misto de surpresa e dúvida.
Exceto por Rosalie, que sentira uma coisa que a fazia ter certeza do que acabara de ouvir e, ainda mais, do que vinha com aquilo.
E bastou um segundo pra que ela encontrasse o devido rosto no que parecia uma multidão organizada, virado em sua direção também, com uma expressão que poderia ser reflexo da sua, tamanha a igualdade do que seus rostos diziam, sem que falassem coisa alguma.
De repente, como numa enxurrada, dias ensolarados com sua melhor amiga pareceram chover em sua cabeça e ao redor — tudo o que havia, de repente, não havia mais. O caminho livre entre as duas e, ainda mais, como se fosse exatamente o mesmo — como se tempo nenhum houvesse passado naqueles anos infinitos.
—Vera? — Rosalie questionara, mais para si mesma do que para a mulher que ainda vinha em sua direção e estava muito distante para ouvir.
—Rose? — a outra perguntou a si mesma também, caminhando rápido em sua direção conforme o leilão, apesar de sua percepção oposta, continuava, ignorando seu lance recém dado.
—Meu Deus! — Rosalie riu quando se aproximaram o suficiente, ela se movendo da fileira aonde estava para um caminho livre, e pôde ver os mesmos traços no rosto da amiga, com um quê quase imperceptível de mudança de que a maturidade havia se encarregado.
—Oh, meu Deus, Rose! — Vera voltou a exclamar, identificando a amiga de pronto, com os olhos correndo seu rosto, e as duas se encontraram num abraço abrupto e muito entusiasmado, que fez a sensação de antes correr pelas veias de Rosalie e encher seu ser com um tipo de alegria genuína, misturado a tantos outros sentimentos e memórias unicamente boas, que continuaram pelo longo abraço entre as duas.
(...)
Naquela noite, uma Rosalie sorridente se sentara à pequena mesa do próprio quarto, na casa dos pais, com papéis de carta e sua caneta tinteiro em mãos.
Mais cedo, ela aproveitara a chance de retomar seu tempo com Vera — e com o que parecera o milagre de reencontrá-la -, repassando memórias e renovando o que sabiam uma sobre a outra — como, principalmente, os fatos de Rosalie ter se tornado viúva, e Vera e o marido terem se tornado, há poucos anos, pais de um garotinho chamado Henry — que havia ficado com os avós naquela tarde.
Para além disso, Anna também conseguira se juntar a elas em certo ponto, e a sensação agradável que sua conversa com Hale havia deixado, somada à de reencontrar Vera, fizera com que, para a loira, as três parecessem ser realmente — e quase igualmente — amigas, pelo resto da tarde que então, pareceu se tornar subitamente muito mais ensolarada e refrescante do que um quase-outono seria capaz de fazer sozinho.
Elas haviam falado sobre quase todo tipo de coisa que aquele encontro inesperado — e mais rápido do que desejavam. — permitia, incluindo: sobre colegas da época de escola de Vera e Rosalie; a família e o trabalho de Anna; o trabalho novo e ex-casamento de Rosalie; o filho de Vera; os Cullen; e assim variavelmente.
Dizer, portanto, que Rosalie chegara à casa centenas de vezes mais falante, expressiva e alegre do que todos ali lembravam de tê-la visto ser nos últimos dias, era mesmo um eufemismo: ela havia chegado repetindo tudo o que já dissera aos pais para contar à Mercedes, ao irmão mais novo e às paredes, se elas estivessem ouvindo; até decidir que era hora de fazer o que prometera: escrever as cartas à família Barnett, à Anna Davis e Brian Dawson.
As três seguiam o mesmo propósito: convidá-los para a festa de inauguração de sua nova casa, dali a alguns dias — que estivera planejando, até então, sem grandes expectativas, já que seria apenas algo simbólico à sua família; até perceber, naquela tarde, que era uma chance de reunir-se com aquelas pessoas e replicar, se possível ainda melhor, aquela hora tão agradável de reencontro que haviam tido.
Brian era o único que não se enquadrava nessa última parte: ele era um amigo de adolescência, da escola, de Vera e Rosalie. Estudara com elas, costumava ser um garoto reslmente legal — mais recluso e estudioso do que o usual para os garotos de que falavam na época, mas ainda assim, bastante gentil e agradável, segundo se lembravam. — e que, num adendo saudável — e de que Rosalie não estava certa, feito por Vera. — costumava ter uma queda pela loira na época.
Em suma: ele havia sido mais uma lembrança da melhor amiga, que dissera tê-lo reencontrado recentemente e saber que ainda estaria na cidade à altura em que a festa estava estimada para acontecer, o que a dera à Rosalie a ideia de convidá-lo — afinal, ela estava descobrindo agora que reencontrar pessoas podia ser realmente proveitoso, e uma chance para novas amizades florescerem.
Então, ela havia tido, primeiro, o cuidado de pegar seus endereços, nomes, sobrenomes e colocá-los nos papéis — três com os textos de convite semelhantes; outros três como envelopes. Depois, os deixara organizados sobre um canto da mesa, antes de recolher-se para dormir naquela noite, finalmente, renovada em diversos sentidos — o bastante para que a última e maior de suas preocupações, antes de ceder ao sono, fosse apenas a firme promessa de ir ao correio pela manhã seguinte, enviar aqueles convites a quem deveriam chegar.
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