Across The Frontline
33 Capítulo 33 - Redenção
Notas iniciais
—Ei, McCarty! Já pode parar de se exibir! — Danny gritou a alguma distância, sob as risadas de outros amigos ao redor.
Emmett, de onde estava, deixou o ar ir decididamente e conseguiu rir em meio ao esforço.
Seu rosto estava úmido, o suor fazendo sua pele brilhar sob o Sol, num tom de vermelho bronzeado que tornava seus olhos impossivelmente mais azuis. Os braços, cujos músculos e tendões se confundiam e realçavam lindamente, fazendo desenhos indecifráveis na pele, não descansaram de sua tarefa por mais do que segundos.
—Ah, não tão cedo. Tudo pelos meus admiradores. — disse ele, que estava com as duas mãos numa barra fixa, pés cruzados um sobre o outro, erguendo o peso do próprio corpo com persistência.
Os outros riram, o olhando de longe.
—Bem, — Danny continuou. — minha consciência está limpa, então. Não terei pena de deixar ninguém para trás na corrida agora.
—Você sabe que isso não devia ser uma competição, não é? — Scott quem disse, zombando com o melhor amigo. — É parte do nosso treino. — e provocou, segurando a risada. — Deixe só o comandante ouvir a algazarra que você está organizando.
—Isso é você com medo de perder, Harper? — o outro voltou a retrucar, erguendo as sobrancelhas, lisonjeado pelo desafio.
—Eu estou achando que é, Danny. — Tyler concordou, empurrando Scott pelos ombros.
—Não se preocupe, eu sou misericordioso, está bem? — o loiro respondeu, colocando uma mão no ombro do amigo, como falsa concessão. — Só não serei hoje.
Foi quando o grupo — que Emmett observava de longe, numa diversão quase inaudível a eles. — foi intercedido por uma outra voz masculina familiar — um pouco mais jovial e mais agitada, que veio carregada de uma lufada de vento, com o ritmo dos passos até ali.
—Eu também não! — Seth disse, como se estivesse ali a conversa inteira e, ao receber os olhares dos outros, sorriu e virou-se para Emmett. — Desculpe, parceiro, mas com a sua motivação, minha habilidade e a vantagem de tempo, acho que a obra está prestes a superar o mestre hoje. — ele convenceu-se, as mãos na cintura e um sorriso largo, impassível, nos lábios.
—Oh, até você, Clearwater? — Tyler mostrou sua surpresa grata, rindo com brilhantismo na duração do garoto.
—O que diabos isso deveria significar? — o moreno quis saber, de repente intrigado, o cenho franzido enquanto esperava uma resposta.
—Ora, — Danny foi quem começou a responder. — deveria significar que Harper e Luisini tentam contra mim porque são estúpidos, mas você já é por ousadia. — ele disse como se fosse óbvio, um sorriso brincalhão no rosto quando tocou o ombro de Seth. — É o mais novo de nós então, sinto dizer, não tem chance nenhuma contra o corredor veterano aqui.
—Bem, — o menino começou lentamente, dando de ombros. — eu sou mesmo o mais novo. — e fez uma pausa longa, encarando os amigos um a um. — O mais novo; o melhor; o mais brilhante.
Foram as últimas palavras que deixaram a boca dele antes que saísse em disparada, correndo na direção do alojamento, conforme o percurso que faziam todos os dias — mas, com muito mais velocidade e, agora, menos rivais em seu encalço.
—Preciso dizer, estou orgulhoso dele agora. — Emmett disse então, depois de ter largado-se de volta de pé, alongando os braços e pernas, sob uma risada que mostrara suas covinhas.
—Boa sorte, competidores! — ele completou, ainda rindo um tanto, com olhar que tentara ser de compaixão, mas se divertira demais pra isso.
E daquele ponto em diante, sob os gritos dos amigos injustiçados, o de olhos claros correu em disparada pelo percurso conhecido, de volta ao alojamento, uma risada trovejando em seu peito até silenciar, ao lado do som de passos apressados contra o solo.
Era sempre nessa parte que os pensamentos se tornavam altos, como música alta demais e repetitiva em seus ouvidos, dando ao silêncio uma dose de seu próprio veneno. Subitamente, a força do corpo não era de ajuda alguma para repelir aquilo que era tão forte e insistente contra seu avesso.
Haviam partes boas em meio aos fios de raciocínio que ele se deixou semear naquela mentalidade, é claro: o fato de não haver mais a neblina da inconsciência entre ele e Jasper, e sim uma continuidade refrescante da amizade preciosa que costumavam ter, era um grande reconforto e a razão de seu melhor humor, ou jeito de ser, nos últimos dias.
Isso o fazia sentir recuperando mais do que um "quê" especial ao significado que alguém como Jasper já tinha em sua vida. O fazia sentir recuperando a si mesmo — as partes, costumes e atitudes de que gostava e que, por tanto tempo, pensara ter sido uma perda irreparável.
Era uma boa sensação, e mais real do que qualquer outra já parecera. Emmett se sentia mais perto de si mesmo; e não podia deixar de sentir: mais perto de Andrew, de alguma maneira impossível — ou ilusória; ou talvez divina.
Havia um longo tempo desde que tivera seu último episódio de estresse pós traumático — ao menos em como podia identificar — e mesmo nas inevitáveis noites agitadas, não sonhava sobre nada ruim em particular — ao menos, não que o perturbasse ao ponto de se lembrar.
Às vezes, antes de dormir, sonhando acordado, Emmett até mesmo revivia memórias com o melhor amigo, que vinham ficando mais nítidas — e cuja falta, na medida do possível, se tornava menos dolorosa de encarar também.
Ele desconfiava que fosse pela atmosfera do local e de sua rotina, que vinha se tornando uma constante familiar novamente, reconstruindo e reformando um lugar esquecido em seu coração e também na cabeça.
Como uma nova árvore crescendo no lugar de outra, que costumava estar lá, devolvendo vida, de uma nova forma, à paisagem.
E, em especial, com a adição das amizades que pareciam estar — sob seu próprio ritmo e também o que o da confiança que o veterano permitia, florescendo.
Para além disso, certo som e alguns pares das palavras de Jasper estavam em sua cabeça, flutuando no lago inexpressivo que era sua dúvida, incerteza e falta, constantemente — e dolorosamente — impossíveis de contra atacar.
O som insistente da linha desfalecida depois que decidira ligar aos Cullen naquele último dia 31 ainda ressoava vez ou outra por ali, retorcendo as agonias que atropelara para se deixar levar àquela decisão — e que não havia levado a absolutamente nada.
Depois disso, parte sua sentia orgulho por ter resistido às tantas provocações de sua cabeça, o dizendo para perguntar sobre Rosalie ao seu irmão. A outra parte assumia uma fraqueza por isso, no lugar do orgulho, mergulhada em doses generosas (e frequentes) de arrependimento.
Afinal, fazia alguma diferença se ele se beneficiara tanto da percepção solidária de Jasper, que continuava dando a ele dicas do que queria saber sobre a irmã dele, mas não perguntava?
Era óbvio, esperado, como ver seu reflexo num espelho d'água: é claro que ele sentia falta de Rosalie e lembrava dela a todo momento. Como podia ser ao contrário, se todas as coisas, nele ou ao redor, remetiam a ela e às suas maneiras de ser e reagir, ou à imaginação que fazia delas?
E a parte mais engraçada era que, realmente, àquela altura, ele sequer se dava ao trabalho de esconder isso de si mesmo no dia a dia, no testamento infinito de coisas que ela deixara para ele lembrar-se, sem saber, dela.
Era o toque do Sol em sua pele, a colorindo de dourado quente, o fazendo prisioneiro entre a vontade de recuar e a de deixar queimar. Os livros que alguns rapazes carregavam lá e cá, às vezes parecendo nunca avançar uma página. O violeta no céu de início da manhã ou fim de tarde, e em flores espalhadas pelo terreno, na melhor exibição da cor favorita dela. Às vezes, era o amuleto pendendo do pescoço de Seth; ou as risadas que nunca eram tão verdadeiras e suficientes quanto a dela, ecoando na memória como seu disco favorito.
Mas, invariavelmente, sem dúvidas, eram os dias ensolarados de treinamento ao ar livre, quando o vento soprava na direção errada e tudo ficava impregnado com o aroma de verão: um memorando estúpido do looping em que ele estava preso, perseguindo Rosalie pelo jardim dos Cullen semanas atrás; os pés descalços dela se embrenhando com esperteza no verde, os braços ao redor de seu pescoço quando não pudera mais fugir.
E era aqui que ele precisava se deter e, então, a vista da fachada do alojamento nunca parecera tão certa e convidativa.
Emmett balançou a cabeça para os lados, checando e concluindo que não havia ninguém em seu encalço: apesar do discurso dos outros, ele chegara primeiro, outra vez. Com o pensamento do que viria quando eles chegassem e, enfim, o encontrassem, ele riu pra si mesmo e diminuiu o ritmo, alcançando as escadas até a porta, pela qual entrou sem hesitar.
O silêncio era quase inapropriado lá dentro: aquele era o único dia e horário da semana em que todos os garotos, veteranos e calouros, ficavam em treinamento simultâneo — é claro, alguns no quesito físico; outros nas pistas, com as aeronaves; outros nas aulas teóricas.
Como sempre, o veterano cruzou a sala de convivência, caminhando para o dormitório sem preocupar-se em olhar demais ao redor — não havia nada novo para olhar — e entrementes, refazendo mais um hábito automático, encheu os pulmões de ar numa respiração funda.
Mas, mal havia começado a trazer o ar e seu corpo o barrou: uma tosse rápida emendou-se na garganta e seu nariz denunciou o cheiro de queimado muito perto — uma combinação que aguçou seus sentidos no mesmo minuto, enchendo seu corpo de adrenalina sob aquele sinal de perigo imediato.
Emmett não levou mais que um instante para, de repente, olhar ao redor e perceber uma nuvem discreta de fumaça tomando todo o alojamento, vinda do dormitório, e correu para lá noutro instante — centenas de perguntas e alarmes emaranhando e enchendo sua cabeça.
—Santo Deus. — foi a única coisa que deixou sua boca quando se viu no dormitório repleto por fumaça e enxergou, pelo vidro central da porta que dava entrada ao banheiro, nuvens cinzentas possuindo o cômodo.
Com incerteza, mas também alarmado, Emmett correu até a porta do banheiro e a abriu de um empurrão só, sendo recebido por uma nova nuvem de fumaça, mais densa, mas também pelo ambiente que, à parte disso, estava estranha e aparentemente normal.
Não havia nada fora do lugar: os chuveiros estavam desligados; os armários estavam lá; o banco ao meio deles também.
Mas, nessa parte ele se deteve: havia uma muda de roupas limpas dobradas sobre o banco. E em algum ponto, enquanto se aproximava, Emmett achou que elas pareciam familiares.
Com a ideia, sua cabeça se virou de um lado para outro, mais repleta de urgência do que antes, e sob a intuição de que havia algo errado em algum canto dali, parou quando avistou a porta do armário ao fundo do ambiente, aonde ficavam as coisas de limpeza — e de onde, agora, rastros de fumaça liberavam a si mesmos, pela fresta que a havia deixado aberta.
Foi um pequeno momento em que tudo aconteceu: correndo para aquela direção, Emmett espiou por sobre o vidro da porta enquanto a empurrava, e o pouco tempo para observar de repente fora, de certa forma, recompensador.
Ele mal vira a porção desesperadora do teto de onde o fogo se alastrava, as paredes de um certo lado e os produtos abaixo, todos em chamas, ardendo e desaparecendo como se nunca tivessem servido pra coisa alguma.
Mas especialmente, no chão, a vista que alimentaria seu desespero se houvesse tempo demais para vê-la: o corpo de Seth, caído e desacordado ao chão, sob o calor e luz laranja das chamas perigosamente próximas.
—Seth! — Emmett chamou, mesmo que em vão, com seu melhor grito diante da fumaça que o sufocava e do som de seu corpo contra a porta, a empurrando com ímpeto para entrar no cômodo pequeno.
Uma vez lá dentro, com o calor que não demorara a fazê-lo suar, o veterano dera o melhor de sua atenção para as prateleiras que queimavam, antes de abaixar-se para alcançar o corpo do garoto.
E quando o vira ali, sem mover-se ou abrir os olhos, um corte grande em sua cabeça, cujo sangue se espalhava pelo rosto, uma espécie de pânico velado se apossou dos ossos de Emmett, parecendo torná-los inconsistentes ao passo que ele se via numa ocasião tão semelhante à de anos atrás.
Ele poderia estar atrás de uma barreira insuficiente, na península de Cotentin, assistindo impotente ao corpo de Andrew caindo ao seu lado e sendo levado para longe, com uma única promessa entre eles e o destino feliz e improvável que só pudera desejar, e não saberia distinguir; porque a sensação era a mesma.
A mesma fúria e angústia tomando conta de sua cabeça, acesas pela incerteza, o medo e a surpresa infeliz que nunca ousara antecipar; um pedaço do mundo desabando dentro de seu peito e outro ao seu redor, o obrigando a escolher: a qual daria ouvidos? O que não podia dar-se ao luxo de largar?
Seth não era seu melhor amigo e, nem de longe, algo como Andrew fora. Mas, era o mais próximo que havia disso agora, no que parecia uma nova gravação do filme antigo de sua vida no exército.
Agora não havia ninguém para fazer o que os médicos haviam tentado fazer por Andrew. Eram só ele e Seth, cujo pulso ele agora sentia com os dedos em sua carótida — um alívio para a sensação que o ameaçava. — o ajudando a decidir: de novo, ele não podia deixar-se sentir tudo aquilo agora. Apenas, quem sabe, depois, quando Seth estivesse são e salvo, lá fora.
Ao menos, ele reconheceu com felicidade, agora não era o mundo inteiro desabando lá fora. Era apenas aquele armário e se, com sorte, conseguisse tirar o garoto dali, estaria fora daquela realidade condenada: o restante o estaria esperando lá, tão normal quanto no último mês, livre da pressão de precisar reagir diante de seu próprio caos, interno.
—Tudo bem, você vai ficar bem. — ele acenou para si mesmo, falando com o garoto inconsciente enquanto tentava restringir seus pensamentos teimosos. — Vamos, vou te tirar daqui.
Com isso, Emmett passou as mãos por debaixo do corpo de Seth, levantando nos braços fortes seu corpo fardado, com o maior cuidado que pôde e, para tornar a afastar a porta o suficiente, fez um jogo de corpo ágil, a empurrando com um dos pés para o lado oposto.
Mas, antes de sair, suas íris claras refletiram, pelo que parecia uma última vez, as chamas alaranjadas se alastrando pelo ambiente e, no caminho de seu percurso incompleto, também um colar familiar que, ele não demorou a lembrar-se: era o amuleto de Seth, feito por seu pai, que ele mostrara ainda outro dia e usava sempre — naquele caso, quando fardado, carregava no bolso, e devia ter caído de lá conforme o garoto desmaiara ao chão.
Enquanto se tornava consciente dos gritos ao lado de fora, falando seu nome, o de Seth e outras coisas que não pudera distinguir, o veterano soube também, então, que voltaria para aquele objeto que, sob a comparação de sua memória à pulseira de Francine nas mãos de Rosalie e a imagem de Seth orgulhosamente falando dele há dias, e sobre como o fazia sentir próximo de seu pai, afinal, confirmou o que ele não gostaria — e não deixaria — que acontecesse ao amuleto.
Quando caminhou para fora do pequeno cômodo, Emmett reencontrou-se com um banheiro cujo céu era fumaça — uma muito mais cinzenta, encorpada e em maior quantidade do que a outra. — e, quase ao mesmo tempo, seus pulmões arderam no peito, o fazendo tossir repetidamente enquanto os pés davam conta de apenas chegar até a porta, aonde poucos garotos haviam acabado de parar — e falavam coisas demais, se movendo para achar extintores e outros itens que ajudassem contra o fogo.
Não tendo ouvido a série de perguntas ininteligíveis que os garotos — sobretudo Danny, Scott e Tyler. — os faziam, o veterano apenas começou a falar, entregando o corpo do garoto moreno para Tyler — o mais alto daqueles três.
—Seth, ele desmaiou. — ele disse apenas, buscando fôlego em meio às tosses que pausaram por um instante. — Acho que alguma coisa caiu na cabeça dele, está com esse corte e desmaiou mas, tem pulso, eu acho que... — ele engoliu a seco, a fuligem incomodando sua garganta.
—Acho que só precisa de uma massagem cardí-... — ele ia dizendo, e então a tosse retornou, mais impetuosa, até que se obrigasse a parar. — Cardíaca, ou algo assim. — e gesticulou para o banheiro, dando as costas, ignorando novamente as tentativas dos outros de intervir e lhe perguntar coisas. — Eu vou pegar o colar dele, que ficou caído lá.
—Você o que? — Scott foi quem gritou, com urgência, avançando para a porta do banheiro, enquanto Tyler desaparecia dormitório afora com Seth. — Emmett, volte aqui já!
—McCarty, que diabos, volte bem aqui agora! — Danny protestou também, a voz raspando sua garganta com a força que fizera para tentá-lo coagir àquilo, colocando-se dentro do banheiro em um passo. — Emmett!
—Saiam da fumaça e vão tomar conta de Seth, agora! — o de olhos azuis conseguiu gritar do meio do banheiro, gesticulando com ímpeto quando se virou para eles, por um único e apressado minuto. — Ou não estarão ajudando em nada! Vão!
E enfim, quando a última vista que tivera fora a dos garotos se afastando do batente e, assim, mais ninguém estava à porta onde podia ver, Emmett tornou a se virar para a direção do armário de limpeza, e para onde correu, avistando as chamas que pareciam se projetar também em sua direção, tentando alcançar mais do cômodo insuficiente.
Num pensamento de instantes diante daquele cenário, ele conseguiu imaginar que as chamas seriam muito mais difíceis de que desviar-se agora e, querendo apressar-se, alcançou o registro do chuveiro mais perto da porta, se enfiando debaixo dele e da água fria que, logo, ensopou sua farda — como intencionado.
Era uma tática apenas lógica e que, inicialmente, sempre parecia boba e dispensável mas, ele se lembrava dos treinamentos do Exército, que reforçavam o quanto molhar as roupas antes de enfiar-se num cômodo incendiado era uma recomendação que poderia, mais literalmente do que o imaginado, salvar sua pele.
Depois disso, ele novamente não perdera um só minuto entre fechar o chuveiro, correr para a porta e empurrá-la, permitindo que começasse a vasculhar o chão do lugar com os olhos.
Colando o corpo ao piso, aonde poderia não só ver melhor diante das chamas mas, especialmente, respirar melhor também — porque o ar era sempre mais puro próximo ao chão. -, Emmett logo avistou o amuleto, descansando quase debaixo de uma das estantes que se afogueava, e rastejou até ele, estendendo uma mão naquela direção antes que pudesse pensar muito.
O calor que esbarrou em sua pele quase foi demais mas, a dança que as chamas faziam não chegara a envolvê-la — apenas dera a ela um gosto do que era arder naquela temperatura, fazendo Emmett franzir o rosto enquanto tentava, com esforço, não gemer com a dor, contendo nos pulmões o ar menos contaminado que acabara de inalar.
E assim que conseguira, depois do que parecera uma mínima e torturante eternidade, fechar a mão ao redor do colar e mover-se para longe das chamas, o veterano enfim levantou-se e cambaleou porta afora, deixando o ar em seu peito fugir para longe, perdendo-se na fumaça, assim como seu corpo parecia agora. Ensaiando uma corrida pelo longo banheiro até a porta do dormitório, onde ele achara ter visto vultos de pessoas novamente — mas, o abalo que a tosse incontrolável fez em seu corpo, dessa vez, não o deixou ter certeza.
Cedo demais, Emmett começou a sentir que seu corpo realmente titubeava, subitamente, não mais tão confiável. A única coisa que permanecia segura em si era o colar na mão esquerda bem fechada, e seus olhos foram, muito rápido para processar, se tornando frestas vacilantes de um céu muito azul diante da tempestade que a fuligem, manchando sua pele, havia feito no rosto perfeito.
Nesse ritmo, ele então colidiu com alguma coisa metálica, seguida de um ardor desagradável em algum lugar entre sua testa e sobrancelha, e tinha a sensação de que se levantara com esforço, avançando ainda até a porta antes de abrir a mão à frente do corpo, mostrando o objeto a quem quer que fosse — não a si mesmo, porque sua visão estava ficando escura demais para isso.
Enfim, redenção — foi a sensação que tomou conta de seu corpo, num bálsamo inesperado.
Foi com ela que o veterano deixou seus pulmões desistirem, seu cérebro ceder à sensação do vazio, as batidas do coração se perderem em algum lugar do peito que não podia sentir, anestesiado, e a última coisa que de fato sentiu foram todas as coisas desligando ao seu redor — ou em seu corpo. -, o tornando incapaz de ouvir, ver e sentir.
Ainda assim, num depois impossível, Emmett achou ter visto a própria vida passar diante dos olhos — em cenas demais para distinguir e, ao mesmo tempo, com tamanha intimidade que poderia enumerá-las. — mas, tudo acabou antes que ele pudesse ter certeza do que havia sido.
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