Acordo Nupcial
4 Capítulo 4 - Teia de Sedução
Notas iniciais
Respirei fundo antes sair do carro. O dia não estava tão frio, mas todo meu corpo tremia dentro do casaco de couro preto.
Sabia que toda aquela vibração era motivada por um único motivo: meu compromisso com Edward.
Os últimos dias mais pareciam um delírio da minha cabeça do que algo real, era muito mais fácil crer que tudo aquilo era ação da minha mente fértil do que encarar como realidade... Até porque, parando para pensar racionalmente, tudo que estava acontecendo era extremamente ridículo.
Me casar por conveniência com o primeiro amor da minha vida que fora responsável pela maior dor que já enfrentei depois de quinze anos...
Respirei fundo quando me afoguei naqueles pensamentos angustiantes e maneando a cabeça me obriguei a focar no que estava a minha frente: a porta de entrada da casa dos meus pais, que se abriu no instante seguinte.
—Tudo bem, senhorita Bella? – a voz confusa de Linda se uniu aos seus olhos atentos.
Forcei o sorriso ao concordar com a cabeça.
—Tudo ótimo. – minha voz saiu mais convincente do que pensei que sairia. Linda não fez mais perguntas, abriu um meio sorriso e me ajudou a tirar o casaco preto. —A bolsa eu levo comigo, obrigada. – proferi segurando firmemente o adereço de couro legítimo que parecia pesar uma tonelada. —Onde estão os meus pais?
—Sua mãe está averiguando se a mesa do chá está do seu agrado na sala envidraçada enquanto o seu pai termina a sessão de terapia da fala. – Linda respondeu ao pendurar meu casaco no armário e fechar a porta de correr. —Quer que eu a acompanhe?
—Não precisa, Linda. Obrigada. – emiti mais um sorriso antes de seguir ao encontro da minha mãe. Encontrá-la sozinha era o cenário ideal para mim.
A pouca coragem que eu sentia tornava-se ainda menor conforme me aproximava da sala envidraçada que oferecia uma bela vista aos jardins romanos laterais. Respirei fundo enchendo meu pulmão de fôlego antes de atravessar as portas balcões e atrair a atenção de Renée.
Ela parou de trocar os arranjos de flores de lugar para me receber com um abraço rápido.
—Que mesa linda! – elogiei na vaga tentativa de amenizar a curiosidade que reluzia em seus olhos claros, e fiquei um pouco chocada ao ver que por alguns segundos a tristeza predominou em sua face.
—Resolvi usar minha louça egípcia uma última vez, já que pretendo vendê-la a uma casa de penhores. – seu timbre penoso se arrastou pelas palavras e com um suspiro profundo pontuou seu momento de tristeza. —Hoje também é o último dia da Linda e do pessoal que restou, queria que me acompanhasse na conversa que terei com eles...
—Não vai ser preciso mãe. – a interrompi engolindo seco. —Não vai ser preciso vender sua louça importada e muito menos demitir a Linda com os outros empregados.
Renée arregalou os olhos de surpresa, era difícil vê-la fora daquela figura calma e neutra, seria cômico se não fosse trágico.
—Como não vai ser preciso? – sua voz emitiu um misto de surpresa e alívio. —Não temos mais dinheiro nenhum, Bella. O restante que tínhamos foi investido no tratamento do seu pai. – narrou a tragédia com o semblante contorcido.
—Eu sei, mãe. – soltei o ar pela boca na vaga tentativa de me acalmar. —Mas encontrei a solução para os nossos problemas.
—Como assim?
Ela me encarou com expectativa e aquilo foi a dose de coragem que eu precisava para abrir minha bolsa e tirar minha carteira de lá de dentro.
—Aqui está o valor da hipoteca da casa. – entreguei a folha de cheque preenchida com o valor exorbitante.
Renée segurou o papel e arregalou ainda mais os olhos assim que entendeu a quantia que estava preenchida ali.
Engoli a seco sentindo o peso aumentar em meus ombros.
—Isabella! – sussurrou completamente pasma. —Onde conseguiu esse dinheiro?
Recuei o corpo diante sua pergunta sem ter a mínima ideia do que responder.
Como eu iria contar para a minha mãe que aquele dinheiro era uma parte do valor da minha liberdade?
—É uma longa história... – gaguejei devolvendo a carteira para dentro da bolsa. —Mas... Basicamente... – fiz uma pausa para tomar fôlego. —Vou me casar.
Renée piscou algumas vezes se mostrando completamente confusa. Entreabriu os lábios e os fechos sem saber exatamente o que me responder.
Tentei me manter firme enquanto ela processava a informação que havia acabado de lhe contar.
—Como assim você vai se casar? Não sabia que tinha um namorado...
—Eu não tinha. – respondi rápido. —Esse casamento não é um compromisso romântico, é um negócio. – disse calmamente, tomando o devido respeito com cada palavra, quem sabe assim as coisas pareceriam menos nojentas para mim. —Esse casamento é a solução para os nossos problemas.
Repeti a última frase mentalmente algumas vezes enquanto via minha mãe assumir uma postura incrédula. Sabia muito bem a opinião dela a respeito de casamento por conveniência, Renée era absolutamente contra... assim como eu fui um dia. Até me ver sem saída, sem opção.
—Você não pode estar falando sério. – rompeu o curto silêncio que pairou na sala, soltou um suspiro longo e puxou uma das cadeiras altas e pesadas para que pudesse se sentar.
Engoli a seco a vergonha que estava sentindo ao me sentar a sua frente. A sensação de estar me vendendo só aumentou diante a acusatória presente nos olhos de Renée.
—Infelizmente estou falando muito sério. – o riso que escapou por minha boca fora um tanto quanto amargo.
—Não. – negou decidida. —Não vou aceitar que se sacrifique assim. Isso não é justo. – bateu o pé. —Devolva esse cheque ao dono e cancele essa ideia absurda de casamento... Nós vamos dar um jeito...
—Que jeito, mãe? – ergui os olhos para encará-la. —Me diga qual outra opção nós temos a não ser lidar com a falência?
Mamãe até quis me responder, mas realmente não havia o que ser feito além do que já tinha sido combinado.
Edward era minha única saída.
—Isso não é certo, Bella. – lamuriou afundando o rosto na mão. —Manter um casamento onde os dois queriam se casar já é difícil, imagina nessas condições... – soltou o ar pela boca antes de voltar a me encarar. —Não quero que faça isso. Não acho que vale a pena.
Eu a entendia completamente. Entendia seus argumentos e até concordava, no entanto, não havia para onde fugir...
—Vai ser só por um ano. – tentei consolá-la ao dizer o prazo de validade de tudo aquilo. —Depois disso nós vamos assinar o divórcio e tudo vai ficar bem de novo.
Forcei um sorriso ao fim das palavras, mas nada daquilo convenceu Renée.
—Quem é esse homem que te propôs isso? Porque eu tenho certeza que essa ideia absurda não partiu de você...
Recuei o corpo com sua pergunta ao ser posta contra a parede. O que eu responderia a ela? A verdade?
Se Renée soubesse que o homem que havia me proposto casamento era o mesmo menino que trouxera tantos problemas para minha família anos antes, ela seria ainda mais contra...
Prendi o ar nos pulmões ao perceber sua impaciência diante minha falta de resposta.
—Quem é o homem, Bella? – repetiu de olhos cerrados.
—Você não o conhece, ele é novo no ramo, mas está em ascensão... – quis me estapear por gaguejar tanto. —Esse casamento é só uma garantia para ele, nenhum de nós dois tem o interesse de concretizar a união. – pigarreei sentindo minhas bochechas esquentarem. —Se é que você me entende...
Renée se mostrou tão envergonhada quanto eu quando entendeu o que queria dizer. Nós não falamos sobre sexo, aquilo era um tabu entre nós duas. E eu preferia que permanecesse assim.
—E o que ele ganharia com isso? Se ele não te quer como mulher... – abaixou a voz ao dizer a última palavra. —Nós estamos falidos, a empresa não rende quase nenhum lucro... Não consigo entender qual a vantagem que esse homem possa ter nesse negócio.
Mordi meu lábio inferior contendo o ar nos pulmões. Renée não entendia porque não sabia de toda a verdade. Se soubesse iria compreendido rapidamente. O que Edward queria era vingança. Era entrar para a família que o rejeitara. Tudo aquilo era muito prazeroso para ele... ser a solução dos problemas da família que um dia o tratara como um verme.
Era impossível não ficar assustada com as voltas que aconteceram em nossas vidas.
—Reerguer a Gamovies será um grande feito para ele. Imagine só o quanto sua popularidade aumentará... Se ele quer investir seu tempo e dinheiro nisso, é porque vale a pena de alguma forma.
Renée processou minha justificativa em um silêncio profundo. Ainda era nítido o quanto estava contrariada, mas mamãe era inteligente o suficiente para perceber que não tínhamos outra saída.
—Seu pai não vai gostar nada disso. Tenho até medo de pensar no que pode acontecer quando contar tudo isso para ele...
—Não vou contar para ele. – declarei rápido. —Sei que está debilitado e não pretendo arriscar. Quero manter isso entre nós duas.
Renée soltou um riso alto e irônico ao arrumar a postura na cadeira.
—E como vamos explicar para ele todo esse dinheiro? Charlie pode estar debilitado, mas não é burro. – rolou os olhos antes de manear a cabeça em negação. —Isso é uma loucura filha... Uma loucura absurda.
Engoli a seco sentindo com pesar o ar de reprovação em suas palavras. A sensação de estar me vendendo pesou ainda mais em meus ombros.
Estar naquela situação só fez com que a raiva e o nojo que eu sentia de Edward aumentasse. Todo aquele constrangimento era culpa dele!
—Nós não temos outra opção, mãe. – estiquei a mão para segurar a sua. —É isso ou a falência.
Renée moveu-se amargurada, angustiada... Respirei fundo antes de forçar um sorriso na vaga tentativa de amenizar o clima.
—Um ano passa rápido, mãe.
Apaguei seus dedos enquanto me agarrava a minha última frase. Tudo o que eu mais queria era que aqueles meses voassem e que tudo aquilo acabasse o quanto antes.
Depois que mamãe percebeu que não havia outra alternativa e finalmente aceitou o cheque de valor absurdo, lhe disse exatamente o que contaríamos a Charlie.
Ele não precisava saber que sua única filha era o objeto de troca que salvaria sua empresa da falência. Não que Charlie fosse contra casamento por conveniência, a questão é que ele não sabia o quanto a empresa havia afundado nos últimos meses.
Quando ele chegou a sala envidraçada mamãe ainda se mostrou um pouco receosa, mas soube se recompor rapidamente.
Já tinha algum tempo que Charlie estava na cadeira de rodas e por mais que tivesse se recuperado um pouco, ainda era estranho para mim vê-lo tão debilitado.
Justo ele que sempre fora sinônimo de força e poder, agora mal conseguia mover as pernas.
—Como você está, pai? – indaguei mantendo o sorriso no rosto enquanto nos acomodação em frente a mesa redonda.
—Cada dia melhor. – respondeu após gaguejar algumas vezes. O AVC que ele tivera afetara boa parte do seu cérebro e deixara algumas sequelas, como na fala e nos movimentos, contudo, a melhora que as fisioterapias lhe trouxeram já era evidente. —E os negócios? Como está a situação da empresa?
Engoli a saliva como se fosse uma porção de pregos. Os negócios eram a vida de Charlie, sua maior felicidade e preocupação. Não atoa, foram as dificuldades da empresa que lhe deixaram naquele estado.
—Tudo melhorando. – proferi após pensar nas palavras certas a dizer. —Consegui um investidor e tenho certeza que em alguns meses tudo estará melhor.
Charlie sorriu e os lábios prenderam para o lado esquerdo, o lado que fora mais afetado pelo derrame. Desviando os olhos dele notei a apreensão que Renée sentia.
Como sempre fora uma esposa dedicada e submissa, tudo o que ela mais odiava era mentir para Charlie.
—Querido, nossa filha tem algo importante para lhe contar. – seu tom saíra carinhoso como sempre, Charlie maneou a cabeça e se manteve concentrado na xícara de café.
—O que é? – perguntou quando finalmente conseguiu ergue-la até os lábios. Suas mãos ainda estavam fracas e tremiam muito, mas ele já conseguia ter algum autonomia.
—Eu estou noiva. – disse rápido aproveitando a onda de coragem que me banhou.
Os olhos cor de avelã se voltaram para mim um tanto quanto surpresos. Me forcei a manter o sorriso no rosto enquanto torcia para que meu semblante estivesse leve e animado, muito diferente da angústia que sentia por dentro.
—Noiva? – repetiu espantado. —Como assim está noiva? – ele nem gaguejou ao perguntar.
Tomei um pouco do chá gelado para umedecer minha boca que ficara bastante seca e aproveitei aquela pausa para entrar ainda mais no personagem de mulher apaixonada e feliz.
—É um relacionamento recente, mas muito sério. – mantive minha voz terna e um pouco mais lenta que o normal. —Ele é um homem sério, bem-sucedido...
—O que ele faz? Eu o conheço?
—Não, querido. Nós não o conhecemos ainda. – Renée foi mais rápida ao responder.
—Mas vão, em breve. – garanti com certo desgosto. —E respondendo sua outra pergunta, Edward é empresário. Atua no ramo da tecnologia. É um dos mais importantes do país. – os olhos de Charlie brilharam, sabia muito bem o que dizer para impressiona-lo. Nada impactava mais o meu pai do que poder.
—Edward? – Renée perguntou estreitando os olhos. —Esse é o nome dele. – meu coração pulou uma batida quando ela permaneceu naquela informação.
Não queria que ela soubesse ainda que o nosso “salvador" era menino que trouxera tantos problemas para nossa família.
—Edward Cullen. – coloquei rapidamente na tentativa de que o sobrenome chamasse mais atenção.
—Cullen. – Charlie assobiou pensativo. —Não conheço nenhum Cullen, mas espero que não seja um oportunista. Você sabe o quanto nossa família é bem-vista, tenho certeza que há muitos aproveitadores que fariam de tudo para estar aqui conosco.
Precisei tomar mais um pouco do chá gelado ao ouvir aquelas palavras. Elas não me eram estranhas. Charlie já havia dito aquilo algumas vezes, principalmente há quinze anos, quando fizera questão de frisar o quanto Edward e eu éramos de mundo diferentes.
—Ele não é um aproveitador, pai. – daquela vez não precisei forçar um sentimento já que ele era real. Se tinha uma coisa que Edward não queria era se aproveitar dos lucros financeiros que a empresa poderia render. Ele não precisava daquilo. Não mais. —Inclusive é um novo investidor da Gamovies.
Charlie me encarou surpreso, contudo, consegui notar o contentamento em suas expressões.
—Isso não é o mais importante. – Renée se fez presente. —Tudo o que queremos é a sua felicidade, Bella. – completou em tom sério. —Não é, Charlie?
Ela voltou os olhos para ele que refletiu durante um longo segundo antes de manear a cabeça em consentimento.
—Claro. – respondeu baixo sem demonstrar a menor certeza.
Respirei fundo antes de tomar mais um pouco do chá gelado. Charlie nunca escondera que sua maior preocupação era a empresa e eu já não me importava mais com aquilo.
Quando deixei a casa dos meus pais o peso daquele cheque saíra da minha bolsa e fluíra todo para minhas costas. O que antes parecia apenas um delírio da minha cabeça estava cada vez mais real, e a ligação inesperada de Edward só servira para confirmar ainda mais.
—Alô. – minha voz saiu um pouco trêmula, e por mais que quisesse negar, o motivo era claro: ver o nome de Edward aparecer na tela do meu celular fazia com que certos sentimentos que levei uma década e meia para esquecer, começassem a despertar dentro de mim.
—Entregou o cheque para os seus pais? – foi direto, mas consegui sentir uma dose a mais de interesse na sua voz rouca.
—Sim. Já entreguei. – foi impossível não me sentir um pouco humilhada. Toda aquela situação era exageradamente incomoda para mim.
—Ótimo, temos um jantar agora a noite na casa dos meus pais. – sua voz voltou a ter o mesmo tom de descaso de sempre, mas não foi aquilo que me deixou surpresa.
—Jantar? Na casa dos seus pais? – perguntei debilmente enquanto estacionava meu carro na vaga.
—Sim, Isabella. – apostava o quanto fosse que ele estava revirando os olhos. —Passo para te pegar as oito.
—Mas...
Ele não esperou por minha resposta simplesmente encerrou a ligação após o aviso do horário. Bufei alto espalmando as mãos no volante. A raiva que sentia dele só aumentava, principalmente quando ele agia daquele jeito.
—Grosso. – resmunguei ao descer do carro e meus passos foram pesados até o elevador.
Não conseguia entender como uma pessoa poderia ter mudado tanto... O Edward que eu havia conhecido há quinze anos era o oposto daquele homem frio e prepotente.
Como ele mudou tanto?
Maneei a cabeça para espantar aquelas questões da minha mente assim que entrei no meu apartamento. Aquilo não me importava. Nem um pouco. Ele seria meu marido apenas no papel, da porta para fora e por apenas um ano...
Mas se ele pensa que vai me tratar com grosseria está muito engado!
Afirmei em meu subconsciente um tanto quanto decidida.
Provavelmente ele está acostumado a tratar as pessoas como se elas fossem propriedades dele... Mas comigo isso não vai rolar!
Garanti a mim mesma na frente do espelho, enquanto avaliava o vestido pendurado no cabide que eu sustentava a frente do meu corpo.
Não sabia que Edward tinha pais, e a falta de informação me fez entrar em uma dúvida cruel do que vestir assim que sai do banho. Se os pais fossem iguais ao filho eu estava ainda mais perdida.
Devolvi o vestido púrpura ao closet e voltei a analisar minhas opções. Não sabia como deveria me arrumar. Era um jantar com a família dele, mas não fazia ideia do quão formal aquilo poderia ser.
Respirei fundo avaliando minhas opções de vestimenta.
Não que eu me importasse com a opinião da família do Edward, a questão é sempre gostei de me vestir apropriadamente bem.
Mordisquei meu lábio inferior de olhos atentos nas roupas penduradas, até decidir usar um vestido caramelo justo, sem mangas e de gola alta.
Entre tantas opções de sapato, escolhi uma bota de couro recém adquirida que ia até a altura dos meus joelhos, ela fazia par com um belo, e pesado, casaco de couro preto, o qual vestiria apenas na hora de sair de casa.
Ondulei o cabelo com a ajuda do babyliss e tentei não exagerar na maquiagem, não queria que ele pensasse que havia me arrumado demais para encontrar com sua família. Edward já tinha um rei na barriga, não queria aumentar seu ego.
Meu celular vibrou assim que terminei de passar o batom nude nos lábios. Rolei os olhos diante a mensagem curta e direta informando que ele estava já estava a minha espera.
Vesti o casaco e peguei minha bolsa antes de descer ao encontro dele. Meu coração batia disparado dentro do peito e tratei de ignorar aquele e qualquer outro sintoma da ansiedade que sentia.
A volta de Edward para minha vida havia estremecido o muro que levei tanto tempo para construir ao redor de todo aquele passado doloroso que nos unia, contudo, não estava disposta a deixar que ele caísse.
O vento que cortou a rua do meu apartamento me fez estremecer dentro do casaco, e me agarrei na ideia de que minhas pernas ficaram trêmulas de frio e não por ser o foco dos olhos de Edward, que me esperava de pé em frente ao SUV branco da Mercedes.
—Boa noite. – cumprimentou com um sorriso no canto dos lábios.
—Boa noite, Edward. – respondi e precisei tomar fôlego pela boca.
Edward sempre fora um homem bonito, mas o passar dos anos o deixara ainda mais atraente. E não era apenas a grossa camada de músculos que mudara, o modo de se vestir e agir também contribuía para aquilo.
—Sabe que é apenas um jantar de família e não a cerimônia do Oscar, não é? – zombou ao abrir a porta do passageiro para que eu entrasse no carro de luxo.
Rolei os olhos e fui obrigada a prender a respiração. O aroma do seu perfume era altamente viciante.
—Rá, rá, rá. – soltei ironicamente ao me sentar no banco de couro. —Vou tomar isso como um elogio. – proferi assim que ele deu a volta no carro e se sentou ao meu lado, a frente do volante.
—Fique à vontade. – me laçou uma piscadela e correu a mão pelo cabelo em um ato extremamente sexy.
Engoli a seco e me permiti admirá-lo por alguns segundinho. A barba estava perfeitamente desenhada, o cabelo arrumado em um topete descontraído e elegante ao mesmo tempo. Ele estava vestido todo de preto, desde os sapatos de couro, ao blazer de corte fino. Aquilo fazia com que seu cabelo cobre tivesse ainda mais destaque.
Pigarrei alto quando seus olhos se encontraram com meus e senti o calor intenso invadir minhas bochechas.
Merda!
—Agora eu entendo o porquê teve que comprar uma noiva. – mudei de assunto assim que vi o sorriso crescer em seus lábios, minha voz saiu tão ácida quanto a vergonha que sentia. —Já que essa é sua maneira de elogiar uma mulher, tudo faz sentido agora. – dei de ombros encarando a rua pela minha janela.
Não tive coragem de encará-lo, mas senti que sua respiração ficou mais forte. Edward não me respondeu e aquilo me deixou levemente irritada. Odiava quando ele ignorava minhas provocações.
Paramos em um sinal vermelho e de soslaio o vi ligar aumentar o som do rádio, a voz de Bruno Mars preencheu o silêncio incomodo que havia se instalado.
Tentei relaxar no banco enquanto ouvia a letra profunda de When I Was Your Man, mas ficar relaxada ao lado dele era extremamente difícil. Estar com Edward me deixava desconfortável de todas as maneiras possíveis.
Seguimos em um silêncio inquebrável durante todo o percurso que nos levara a Gold Coast, mais especificamente a uma rua calma e sem saída, onde Edward estacionou o carro em frente a uma casa de lote duplo.
Respirei fundo tentando conter a ansiedade que sentia. Não fazia ideia do que encontraria lá dentro e aquilo me deixava ainda mais tensa.
Edward desligou o som e me soltei do cinto de segurança assim que ele desceu do carro. Minhas mãos estavam tão frias quanto o meu estômago. Engoli a seco e tentei me acalmar tentando controlar minha respiração, mas estava cada vez mais difícil.
Ele abriu a porta do passageiro e me ofereceu a mão para que eu descesse. Relutantemente, aceitei e meus dedos gélidos pareceram atrair sua atenção.
—Não precisa ficar nervosa. – sua voz saiu calma.
—Não estou nervosa. – rebati arrumando a gola do meu vestido.
Edward fechou a porta do carro e me encarou com as sobrancelhas arqueadas, arqueei a cabeça mantendo a postura firme. Jamais iria ceder e admitir que ele estava certo.
—Meus pais não sabem do acordo. – rompeu o silêncio me pegando um pouco de surpresa.
—Não sabem? – ele negou com a cabeça. —Eles acham que estamos juntos porquê...
—É. – confirmou se aproximando um passo de mim e fazendo meu coração bater ainda mais rápido. —Eles acham que nós dois ainda somos apaixonados. – continuou se aproximando mais um pouco.
Tentei me afastar dando um passo para trás, mas meu corpo colidiu com o carro alto. Prendi o ar nos pulmões quando Edward parou a minha frente, a pouquíssimos centímetros do meu corpo. Podia sentir seu perfume, seu calor, até mesmo o ar quente de sua respiração.
—O que, obviamente, não é verdade. – sua voz saiu mais arrastada, mais envolvente.
Lutei contra a vontade que sentia de encarar seus lábios cheios que se moviam de forma extremamente sexy conforme ele falava, mas estava difícil dizer não para aquilo.
—Não é? – perguntou erguendo uma mão e tocando meu rosto.
Minhas pernas tremeram veementemente, e só não caí ali mesmo porque Edward pressionou seu corpo contra o meu, segurando-me com o outro braço.
Tão rápido quanto um piscar de olhos, voltei para o passado que me obriguei a esquecer. E de repente, parecia que nada de ruim havia acontecido. Que a minha frente estava o garoto por quem havia me apaixonado perdidamente.
—É. – concordei debilmente. Teria concordado com qualquer coisa que ele perguntasse naquele momento. Já estava completamente envolvida na sua teia de sedução.
Um sorriso nasceu no canto dos seus lábios, ele olhou dentro dos meus olhos e correu a mão até a minha nuca me pegando com jeito e me puxando para quebrar a micro distancia que existia entre nossas bocas.
Quando seus lábios se encaixaram nos meus senti todo meu corpo formigar. Se antes meu coração batia disparado, agora ele tinha parado por completo. Aliás, tudo que não se referia a boca de Edward na minha, estava estagnado. Nada tinha importância, a não ser o toque da sua língua na minha.
Um arrepio correu minha coluna quando ele sugou meu lábio inferior e o mordiscou levemente. Suspirei em seus lábios erguendo as mãos para me agarrar nele.
Edward notou minha entrega e aprofundou ainda mais nosso beijo, que assumira um ritmo mais quente e voraz.
Quinze anos haviam se passado. Havia tanta coisa envolvida ali, era um turbilhão de acontecimentos e sentimentos, o que só deixava tudo mais intenso. O beijo e o sentimento.
O ar começou a faltar para nós dois, e fui sugada de volta para a realidade quando sua boca se afastou da minha. Sua respiração estava tão arfante quanto a minha, mas era difícil prestar atenção em qualquer coisa que não fosse o formigar dos meus lábios.
Abri os olhos e me deparei com aquelas imensidões esverdeadas. Pela primeira vez elas estavam límpidas de todo o rancor que ele sentia de mim.
—A propósito, você está linda! – elogiou tocando meu rosto mais uma vez, antes de se afastar.
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