Acordo Nupcial
9 Capítulo 9 - Eu te Odeio
Notas iniciais
Ignorei o toque repetitivo do meu celular e o coloquei em modo avião antes de abandoná-lo dentro da bolsa. Edward não parava de me ligar desde que deixei aquele apartamento imenso sem dizer para onde ia, e sem usufruir da companhia de um dos seus motoristas ou seguranças.
Sabia que ele estava irado, mas não me importava... Queria mais é que ele fosse fazer companhia para o capeta e me deixasse em paz!
—Porque não avisou que viria para o jantar? – Renée atraiu minha atenção enquanto seguíamos até a sala de estar. —Teria mandado preparar algo especial!
Era bom e estranho estar ali. Por um lado, estava na companhia dos meus pais, me sentia acolhida e amada, por outro precisava lidar com a repreensão nos olhos de Renée e com as perguntas de Charlie.
Mas qualquer coisa era melhor do que estar perto de Edward, principalmente depois do que ele me dissera.
—Não se incomode, mãe. Não estou com fome. – aquilo era uma verdade incontestável, e Renée pareceu se incomodou bastante com minha fala.
Ela abriu a porta da sala de estar e deixou que eu entrasse primeiro para me acomodar em uma das poltronas vitorianas.
—Onde está o papai?
—Descansando até o jantar. Terminou a pouco uma sessão de fisioterapia na água... Disse que é a mais cansativa que tem!
Sorri ao concordar com a cabeça. A mais cansativa e cara também... A qual começamos a pagar após Edward oferecer mais um de seus cheques generosos para os cuidados de Charlie.
As mudanças que a chegada de Edward trouxera já eram visíveis. Mamãe havia voltado a ostentar joias, contratado novamente os empregados que tinha demitido, e estava até mesmo mais leve.
O dinheiro realmente muda as pessoas...
Suspirei profundamente direcionando meus olhos até as janelas grandes que ofereciam uma bela vista do jardim lindamente decorado com luzes de natal.
Os flocos de neve desciam em uma caída dançante pela cidade de Chicago, e quando passavam pelas luzes natalinas que enfeitavam as árvores e postes, os pequenos pontinhos de neve mudavam rapidamente de cor.
Aquela repetição era viciante de observar, e sentada na poltrona da sala de estar da casa dos meus pais, me deixei ser abduzida pela cena. Sempre me perdia fácil naqueles eventos naturais, era como se minha mente desligasse de todos os meus problemas para focar apenas na clima.
Só era uma pena que aquilo não durasse muito.
—Como você está? – a voz de Renée agira como um alfinete rompendo a bolha de imersão que havia construído ao meu redor.
Precisei manear a cabeça levemente para poder focar meus olhos em sua face contorcida pela preocupação.
—Bem. – dei de ombros e surpreendentemente não me incomodei ao perceber que ela não havia acreditado em mim.
—Não minta para mim, Isabella. – sua voz saiu mais séria. —Está nítido em sua cara que não está bem.
—Mamãe, eu estou bem. – reafirmei a mentira. —Só estou cansada... Reerguer a empresa é cansativo, sabia?
Renée recuou o corpo com minha resposta que era verídica. Sabia que estava abatida e parte daquilo se devia a minha entrega a Gamovies. Claro que a maior culpa das olheiras arroxeadas abaixo dos meus olhos, da falta de apetite e estresse diário, era de Edward. Ex Masen, e agora Cullen.
—Como estão as coisas? – indagou ao recostar na poltrona a minha frente.
—Caminhando lentamente, mas em frente. – fui sincera. —Vai demorar um tempo para que as coisas entrem no eixo novamente.... O importante é que estamos com as contas em dia. – aquilo era um alívio. Só de não ter o peso das faturas milionárias nas costas já me fazia respirar mais relaxada.
Renée assentiu com a cabeça e pude perceber que partilhávamos da mesma sensação de desafogo.
—Graças ao Edward. – rompeu o silêncio entonando certa ironia na voz. Encarei-a por debaixo do cílios percebendo a contradição em seu olhar. —Ainda não entendo o que levou esse rapaz a nos ajudar tanto... É muito dinheiro para uma boa ação.
—Já te disse que o que ele vai ganhar com isso.
Minha voz saiu tão cansada quanto irritada. Aquele assunto já estava repetitivo demais e me esgotava como nenhum outro.
—Vingança? – seus olhos me desafiaram, e encarei o tapete indiano por alguns segundos. —Porque nada faz tanto sentido quanto isso.
Corri a mão pelo rosto e respirei fundo ao me arrumar no assento macio.
—Porque ele iria querer se vingar de mim? – perguntei voltando a encará-la. —Eu fui abandonada. Fiquei sozinha e... – a palavra se perdeu dentro de mim. Mesmo depois de tanto tempo ainda era impossível externar aquilo sem sentir uma faca penetrar o meu peito. —Naquelas condições que você bem lembra. – completei com o ultimo resquício de ar que restava em meus pulmões.
Renée recebeu minhas palavras com um impacto digno de um tapa na cara. Por um breve segundo seu rosto bem conservado empalideceu e percebi que aquele assunto era tão delicado para ela quanto era para mim.
—Mas ele... Ele pode ter se sentido rejeitado pela nossa família. – gaguejou desviando os olhos dos meus.
Rolei os olhos diante a resposta óbvia. É claro que ele havia se sentido daquela forma, porque fora exatamente aquilo que acontecera.
—O que o levou a nos ajudar já não importa. O que interessa é que a Gamovies dará a volta por cima, e logo sairemos desse buraco.
Não tinha nada no mundo que eu desejasse mais do que aquilo. Aquela empresa garantia o sustento de muita gente e era a coisa mais importante na vida de Charlie. Sabia que ele não aguentaria o choque da falência.
—Só tenho medo de que você caia na lábia dele mais uma vez. – Renée assumiu encolhendo os ombros espantada somente com a ideia. —Esse homem só trouxe negatividade para a nossa família, mudou sua cabeça de uma forma que nem gosto de lembrar e quase estragou sua vida!
Contrai o maxilar repassando sua fala e foi impossível conter a raiva dentro de mim.
—Já pedi para não ficar tocando nesse assunto! – bati os pés no chão para me por de pé. —Porque é tão difícil entender que não gosto de ficar falando disso? – a encarei por um instante antes de lhe dar as costas.
Estar no meio daquele drama era extremamente cansativo. De um lado estava a prova viva de tudo o que eu sempre lutei para enterrar e de outro minha mãe com aquelas acusações repetitivas.
Já estava à beira de um surto!
—Só toco nesse assunto para que não se esqueça de tudo o que ele nos fez passar...
Sua voz morreu no corredor silencioso assim que me virei para encará-la. Acho que ela percebeu a fúria nos meus olhos e isso a fez recuar instantaneamente.
—Nos fez? – a indignação me fazia vibrar. —Nos fez passar? – repeti dando alguns passos em sua direção. —Eu, só eu, fui deixada pelo homem que amava. – fiz questão de frisar aquilo para que assim ela entendesse de uma vez por todas. —Depois de você e o meu pai fazerem um inferno na minha vida. – precisei fazer uma pausa para tomar fôlego. —Como se toda essa dor não bastasse... Eu fui praticamente obrigada a tirar o meu filho. E fiquei sozinha naquela clínica. Por dias.
Precisei me rasgar por dentro para poder lavar a minha alma e dizer aquilo. Falar aquelas coisas para Renée fez com que a caixa de pandora se abrisse, e liberasse todas aquelas lembranças horrorosas, as quais enterrei no lugar mais fundo do meu subconsciente.
—Eu senti aquela dor sozinha. Eu passei por tudo aquilo sozinha. E tentei superar sozinha, quando vocês dois decidiram que falar sobre o que aconteceu era a pior opção. – a ardência em minha garganta me obrigou a fazer mais uma pausa. —Então não venha dizer que o Edward “nos fez” passar por aquilo. – ergui os dedos para fazer aspas no ar. —Ele tem a parcela de culpa, mas você e o Charlie também tem. E a única vítima dessa história sou eu. – sentia todo meu corpo tremer, e não sabia exatamente se era por raiva ou pela dor latente. —Eu e o meu filho.
Meu filho.
Relembrar do ocorrido e conter o choro era impossível, mas não iria chorar na frente de Renée. Não mais. Não depois de todos aqueles anos, não depois de todas as vezes que tentei me abrigar em seu colo e ouvi que tinha que ser forte, que abortar tinha sido a melhor opção e deveria ser grata pela oportunidade.
Deixei aquela casa sendo seguida por ela e por suas falas que fiz questão de não prestar atenção. Não queria ficar mais nem um segundo ali e acelerei o carro assim que sentei no banco de couro.
Guardar toda aquela dor por anos definitivamente não fora a melhor opção, contudo, fora somente mais uma decisão errada que havia tomado naquele mar de infelicidade. A dor e sofrimento reprimidos por todos aqueles anos voltara de uma só vez me levando ao ápice do desespero.
Tinha muitos arrependimentos das coisas que fiz naquela época, mas nenhum era maior do que o que eu carregava por ter abortado. Me faltou maturidade e firmeza para dizer não quando meus pais impuseram o procedimento. Me faltou coragem para enfrentar tudo e todos pelo meu filho.
O soluço que saiu da minha garganta fora alto, tão expressivo quanto o choro copioso que me acometeu. Cada lágrima que descia por meu rosto tinha o peso de uma tonelada. Cada falta de fôlego ardia como ferro quente na pele.
Todas as memórias daquela manhã nublada estavam me deixando atordoada. Meu olhos embaçados mesclavam a via expressa com a sala completamente branca, fria e sem vida da clínica.
O cheiro peculiar de álcool preencheu todo o carro e conseguia sentir até a ardência da agulha do soro em meu braço.
—Você não vai sentir nada. – a enfermeira garantiu enquanto aplicava o medicamento na minha veia. —Vai dormir e quando acordar tudo terá acabado.
Mesmo deitada conseguia sentir todo meu corpo tremendo. De frio. De medo. De incerteza. Arrependimento.
Que merda eu estava fazendo? Não queria estar ali... Não queria tirar o meu bebê.
Intercalei os olhos entre o cateter preso no meu braço com o esparadrapo e o rosto calmo da mulher negra a minha frente. Ela sorria, acho que tentando me garantir que tudo ficaria bem, e aplicava o sedativo com cuidado.
Entreabri os lábios para pedir que ela parasse, para dizer que estava arrependida, que tinha mudado de ideia, que não era para machucarem o meu filho, contudo, a voz já não saia. O desespero cresceu dentro de mim principalmente depois que percebi a impotência que abrangeu meu corpo.
Nenhum membro me respondia mais, era como se eu já não tivesse pernas, braços, mãos...
—Feche os olhos, querida. Vai dar tudo certo, pode relaxar. – ela passou os dedos por cima das minhas pálpebras e elas a obedeceram instantaneamente.
Tentei lutar mais uma vez, mas o sedativo já estava correndo nas minhas veias. Já não podia fazer mais. Já era tarde demais.
A buzina alta me sugou de volta para a realidade e assim que meus olhos voltaram a enxergar a via a minha frente, já era tarde demais para desviar da caminhonete. O instinto atrasado e relapso me obrigou a afundar o pé no feio, o barulho dos pneus derrapando no asfalto foi agudo e incomodo, mas não nada se comparado ao estrondo que ecoara pela avenida quando os carros se chocaram.
Meu corpo fora projetado para frente diante o impacto violento e felizmente o cinto me mantivera presa no lugar. Só tive tempo de piscar para que os airbags se inflassem e espremessem meu corpo contra o banco.
A adrenalina do momento me deixou de coração disparado e mesmo depois que os airbags desinflaram continuei imóvel. Não conseguia processar o que tinha acabado de acontecer. Eram informações demais.
Carros. Luzes. Fumaça.
—Tudo bem? – a pergunta gritada seguira as batidas altas no vidro da janela.
Ainda absorta em toda aquela confusão, me virei para encarar o homem que me estudava com olhos preocupados. Me esforcei para manear a cabeça em consentimento assim que me assegurei de que não tinha nenhum ferimento grave.
Ele me ajudou a descer do carro e pude ver a grande movimentação de pessoas ao nosso redor. O transito estava parado e o barulho das buzinas era ensurdecedor.
Não sabia se estava tremendo pelo susto ou pelo frio intenso que estava do lado de fora. Talvez fosse a união dos dois.
—Meu Deus, você está maluca? – ergui os olhos em direção a voz enfurecida. —Olha o que você fez com o meu carro! – o rapaz gritava gesticulando em direção a sua picape.
O SUV blindado havia afundado praticamente toda a frente da picape. Olhar aquele estrago grande me fez finalmente cair na real.
Que merda eu tinha feito?
—Me perdoe, por favor, eu juro que vou arcar com todo o prejuízo... Vou pagar pelo conserto. – gaguejei enquanto me aproximava.
—Conserto? – ele gritou perplexo. —Moça olha o estrago do carro, acha que isso tem conserto?
Entreabri os lábios sem saber exatamente o que dizer. Ele tinha razão. O estrago fora gigante. E não foi somente em sua picape antiga, apesar de os estragos serem menores, o carro de Edward também havia sido danificado. O para-brisa havia trincado por completo e o para-choque bastante amassado.
Puta que pariu!
—Já disse que vou arcar com o prejuízo...
—Claro que vai, porque eu estou ligando para a polícia!
Afundei o rosto nas mãos e respirei fundo. Tantos sentimentos pesavam em meus ombros que era difícil dizer qual me dominava mais.
Talvez o alívio, por mais irônico que pudesse parecer. Olhando o estrago dos carros, era impossível não me sentir aliviada por ninguém ter se machucado. Principalmente o moço que estava na picape... Seu carro não tinha airbags para protege-lo como o SUV de Edward haviam feito comigo.
Fora realmente um milagre ele ter saído daquele acidente sem nenhum arranhão!
A confusão que a minha falta de atenção havia provocado tomara proporções gigantes. O transito da via expressa que ligava a área leste ao centro de Chicago estava interditado, o que dificultou a chegada da ambulância e da polícia.
—Então você passou pelo sinal vermelho correndo a mais de cem por hora? – o policial me encarava com repreensão, enquanto os paramédicos curavam o ferimento no meu supercilio.
A adrenalina do ocorrido me deixara elétrica demais, tanto que nem senti o corte em minha pele e só me dei conta que havia me machucado quando o socorro chegou. Segundo a paramédica, o clima frio ajudava na anestesia e no estancamento do sangue.
—Eu sinto muito, de verdade. Não tenho justificativa para o que fiz. – proferi com os ombros encolhidos.
—Tem que sentir mesmo, senhora. Poderia ter tirado a vida de um inocente. – a voz saíra dura. —Vai ter que se submeter a uns exames toxicológicos, quero ter certeza de que não está sob o efeito de algum entorpecente.
—Ok. – respondi simplesmente, a vergonha que sentia era tanta que mal conseguia encarar o senhor fardado a minha frente.
Como se já não bastassem todos os acontecimentos daquele dia pesado, aquele acidente conseguia encerrar a noite com “chave de ouro”.
—Colham o sangue dela. – o policial pediu a paramédica assim que ela terminou de suturar o corte no meu supercílio.
Felizmente não havia dado tempo de tomar o vinho na casa dos meus pais, porque se o tivesse feito, estaria ainda mais encrencada. Dirigir acima da velocidade, ultrapassar o sinal vermelho e colidir de frente com uma picape, assumiria proporções ainda maiores caso estivesse embriagada.
—Bella? – a voz conhecida atraiu minha atenção e levei alguns segundos para encontrar o dono do timbre rouco.
Prendi a respiração enquanto via Edward furar a barreira montada pela polícia, até tinha me esquecido do prejuízo que eu lhe dera com o carro, e não estava preparada para levar mais um esporro.
—Você o conhece? – o policial me olhou.
—Ele é meu marido. – proferi baixo enquanto Edward praticamente corria em minha direção. A surpresa delineou a face do homem fardado a minha frente, mas a presença de Edward me deixou absorta de tudo que estava ao meu redor.
—O que aconteceu? – indagou arfante com os olhos estalados. —Você está bem? – ergueu as mãos até o meu rosto e inclinou minha cabeça para os lados com cuidado como se procurasse algum ferimento grave.
—Fiz uma besteira, Edward. – assumi encolhendo os ombros. —Eu acabei com o seu carro, me desculpe...
Ele rolou os olhos e bufou alto, contraiu os lábios e maneou a cabeça em negação.
—Não dou a mínima importância para o carro. Quero saber se você está bem. – sua resposta me pegou um pouco de surpresa. Dava para sentir a preocupação em seu timbre, em seus olhos esverdeados, em seus toques cuidadosos.
—Eu estou bem. – garanti olhando-o fixamente.
Ainda com os olhos nos meus, Edward respirou profundamente, vi o alivio deixar seus ombros mais relaxados dentro do sobretudo preto.
—Está bem encrencada, não é? – o policial se colocou no meio da nossa conversa, e fez Edward desviar os olhos de mim. —Como vai, Edward?
—Xavier? – Edward não escondeu a surpresa ao reconhecer o homem. Os vi trocar um aperto de mão intercalando os olhos entre os dois, ainda sem saber o que estava acontecendo. —Estou bem e você?
—Um pouco atarefado por causa da sua esposa. – zombou colocando as mãos dentro da calça. Senti minhas bochechas queimarem de vergonha. Tinha armado a maior confusão! —Mas está tudo em ordem... E a família?
Ainda ao meu lado, Edward disse rapidamente ao policial que seus pais e irmã estavam bem. Não sabia de onde eles se conheciam e qual a relação que possuíam, mas tinha certeza que as coisas ficaram mais tranquilas para o meu lado após a chegada de Edward.
—Vai ser preciso ir até a delegacia?
—Bom... – o policial ponderou maneando a cabeça. —Depende do carinha, ali. Se ele prestar queixa...
—Vou falar com ele. – Edward disse bastante decidido.
—Não vai adiantar. – murmurei após limpar a garganta em um pigarro. —Ele está muito nervoso e com razão. A picape dele está destruída, duvido que o seguro vá cobrir.
Edward mordeu o lábio inferior e pareceu refletir por alguns segundos.
—Vou falar com ele. – repetiu. —Fique aqui, está bem? – pediu com os olhos nos meus, e rapidamente concordei com a cabeça. —Está com frio?
Estava pronta para negar, mas ele fora mais rápido ao retirar o sobretudo e colocá-lo sobre meus ombros.
—Não precisa...
—Me espere aqui, eu já volto. – voltou a pedir e se afastou após afagar meu rosto com a ponta dos dedos.
Nem mesmo se eu quisesse me levantar teria feito. Estava esgotada de todas as formas possíveis. Meu corpo todo tremia e minha mente fervilhava. Tanta coisa tinha acontecido nas ultimas doze horas que não conseguia processar mais nada.
Por mais que o susto do acidente tivesse sido grande, ainda não fora capaz de acabar com aquela angusta que me consumia por dentro. Relembrar o aborto me deixava em um nível de instabilidade extremo. Era o meu ponto mais fraco, e depois que era tocado levava dias até que eu me reerguesse novamente.
—Tome, pressione isso contra seu olho. – a paramédica mandou ao me estender a bolsa térmica que estava bastante gelada. —Vai ajudar a não inchar. – explicou diante meu impasse.
—Obrigada. – agradeci forçando um sorriso.
Toda pele do meu olho esquerdo estava adormecida, era difícil até de piscar por conta da anestesia, contudo aquilo era muito melhor do que a dor. Com a bolsa térmica contra o rosto vi Edward se aproximar novamente, pela primeira vez desde que nos reencontramos ele me olhava com carinho e cuidado.
—Já está tudo resolvido, você está liberada. – informou ao parar a minha frente, não tive tempo de responde-lo, já que ele rapidamente se voltara para a paramédica que recolhia os instrumentos usados na minha sutura. —Acha necessário leva-la ao hospital? Para fazer uns exames mais profundos, talvez...
—Não há necessidade. – ela respondeu com um sorriso tranquilizador. —A Isabella está bem, não há sinais de concussão. Acredito que o corte foi provocado pelo airbag. Isso é bastante comum em acidentes. – explicou pacientemente. —Pode ficar tranquilo, sua esposa está bem.
Edward não pareceu muito convencido, mas aceitou a opinião da paramédica.
—Vou pedir para abrirem espaço para entrar com o carro...
—Não há necessidade, eu posso ir andando. – Edward bufou alto com minha resposta enquanto arrumava seu sobretudo nos meus ombros. O perfume que a peça de couro exalava era deliciosamente viciante.
—Não seja teimosa. Eu já volto, me espere aqui.
Discutir com Edward era algo que não queria naquele momento por vários motivos. Um deles é que não queria acabar com aquele momento de cuidado e atenção. Não sei exatamente o porque fiquei surpresa quando ele conseguira a liberação para se aproximar com seu carro da ambulância, já que graças a ele me livrei de ir na delegacia.
Foi cuidadoso ao me ajudar a entrar no carro e prendeu meu cinto pedindo que eu evitasse me movimentar bruscamente.
—Você está bem? – perguntou mais uma vez enquanto se afastava daquela confusão que eu criei.
—Estou sim. – minha voz saiu baixa. Recostei a cabeça no banco de couro e fechei os olhos. Estava tão cansada que tinha a sensação de que os dois carros haviam se chocado contra o meu corpo. —Obrigada por me ajudar. – eu tinha que agradecer.
Realmente não esperava todo aquele comportamento cuidadoso dele. Principalmente depois da nossa discussão. Contudo, Edward havia me surpreendido positivamente.
—Não precisa agradecer. – seu tom afetuoso colocou um fim no nosso breve diálogo e permanecemos em silencio durante o restante do percurso até o apartamento.
Muitas coisas passavam pela minha cabeça. A discussão que tivemos mais cedo, minha conversa desastrosa com Renée, o acidente...
Revivia aqueles momentos em um looping sem fim, minha cabeça se recusava a desligar para deixar aquilo de lado.
—Tudo bem? – Edward voltou a perguntar enquanto subíamos de elevador. —Está se sentindo mal?
—Estou bem. – minha voz se mesclou ao suspiro profundo que soltei.
Ele não pareceu convencido da minha resposta, e quando as portas se abriram no hall de entrada, foi paciente e carinhoso ao me ajudar a subir as escadas me guiando até meu quarto.
—Tenta dormir um pouco...
—Não vou precisar ir na delegacia? – perguntei deixando a bolsa térmica de lado para poder tirar minhas botas.
Pela primeira vez em duas semanas me senti bem por voltar para “casa”.
—Acredito que não, depende do resultado do exame de sangue. – deu de ombros me observando atentamente. —Você bebeu?
—Não. – neguei rapidamente.
—E o que aconteceu então?
Prendi o ar nos pulmões diante sua pergunta. Não queria falar sobre aquilo. Não queria me torturar ainda mais.
—Onde você estava? – fez mais uma pergunta diante ao meu silêncio.
—Não é da sua conta.
Lhe dei as costas seguindo em direção ao banheiro, torcendo para que ele entendesse o recado e me deixasse sozinha.
—Como não é da minha conta? – sua voz apareceu antes do seu reflexo no espelho grande.
Escovando os dentes simplesmente dei de ombros e de soslaio o vi rolar os olhos.
—Bella, você sumiu e do nada se envolve em um acidente de trânsito. – sua voz deixou claro que ele estava começando a se irritar. —Algo aconteceu e eu quero saber o que.
Enxaguei minha boca e deixei a escova de dentes sobre o mármore branco para poder tirar minha blusa. Em circunstancias normais jamais me despiria na frente dele, mas estava tão exausta que não importei.
—Será que você pode parar de bancar a criança e me responder?
Bufei alto percebendo que ele me seguiria por onde eu fosse.
—Edward, não quero falar sobre isso! Será que você pode me deixar sozinha? – me virei para encara-lo, e soube no mesmo segundo que ele não me deixaria em paz enquanto não obtivesse uma resposta. A determinação deixava seus orbes verdes ainda mais brilhantes.
—Não vou sair daqui até que me diga onde estava e o que aconteceu, Isabella. – pontuou firmemente. —Veja o que aconteceu... Você poderia ter se ferido seriamente!
—Como se você se importasse! – zombei com a voz ácida enquanto me livrava da calça justa.
Os orbes verdes correram por todo meu corpo e engoli a seco assim que eles voltaram a me encarar. A temperatura do quarto subiu drasticamente me deixando repentinamente com calor quando o vi morder o lábio inferior e se aproximar um passo.
—É claro que eu me importo com você!
Não sei exatamente o porquê, mas sua fala despertou algum gatilho em mim fazendo a fúria correr por minhas veias.
—Não minta para mim, não de novo. – proferi entredentes. —Você não se importa comigo, nunca se importou. – contraí os dedos fechando-os em punho. —Tudo isso é culpa sua. Tudo de ruim que aconteceu comigo é culpa sua!
—Culpa minha? Do que está falando? – cerrou os olhos e fingiu não entender.
Bufei alto com a raiva crescendo dentro de mim.
Como ele ousava se fazer de sonso depois de tudo que acontecera?
—Não se faça de desentendido! – ordenei praticamente fuzilando com os olhos. —Todo esse inferno que está acontecendo na minha vida é culpa sua... Tudo começou quando você apareceu na minha vida. Quando você... Fez com que eu me apaixonasse e depois me abandonou!
Edward recuou o corpo com a minha acusação. Entreabriu os lábios e piscou algumas vezes como se não acreditasse no que tinha ouvido.
—Eu te abandonei? – a pergunta entonou um tom perplexo. —Acho que bateu a cabeça com força no acidente e isso está te fazendo delirar!
—Não seja cínico. – meu pedido saiu em forma de rosnado. —Seja homem e assume o que fez...
—Que porra é essa que você está falando? – correu a mão pelo cabelo e deu alguns passos em minha direção. —Hein? Que merda é essa?
Um riso amargo escapou da minha boca. Era bem o reflexo de como me sentia por dentro: amarga, ácida.
—Porque você tem que ser tão cínico? – cobri o rosto com as mãos tentando conter aquela fúria que queria me fazer explodir. —Porque você teve que entrar de novo na minha vida? Já não bastou o estrago que fez da primeira vez?
Edward soltou um riso irônico e me encarou com dureza.
—Eu causei estrago na sua vida? Tem certeza disso?
—Tenho! – minha voz aumentou uma oitava enquanto marchava até ele. —Tenho a mais plena e absoluta certeza de que você acabou com a minha vida. – soltei com o dedo em riste direcionado ao seu rosto. —Todo esse inferno em que eu vivo é culpa sua!
—Já chega! – aumentou a voz segurando firmemente em meus braços. —Para de falar esses absurdos, como eu não tivesse comido o pão que o diabo amassou por sua causa!
—Não paro! – espalmei as mãos em seu peito tentando empurra-lo para longe, mas a diferença de força que possuíamos era muito grande. —Tudo isso é culpa sua! – repeti batendo minhas mãos em seus ombros na vaga esperança de me desvencilhar.
—Você está me tirando do sério, Isabella! – avisou entredentes.
—Não estou nem aí! – minha voz alta ecoou pelo quarto. —Quero que você se exploda! – disse olhando em seus olhos empurrando-o pelo peito com as mãos fechadas em punho. —Eu odeio você, Edward.
—Foda-se. – rosnou me interrompendo. Soltou meus braços para segurar em meus punhos, e em um movimento rápido, me pressionou contra a parede.
Ofeguei alto ao sentir seu corpo pressionar o meu contra a parede fria. Edward segurou meus braços a cima da minha cabeça usando apenas uma mão, a outra ergueu meu rosto sem muita delicadeza me obrigando a encará-lo.
—Me solta!
—Foda-se porque eu também te odeio. – continuou ao ignorar meu pedido, seu rosto estava extremamente próximo ao meu. Tanto que podia sentir seu hálito quente colidir contra minha bochecha. —E você não faz ideia do quanto eu te odeio, Isabella. – completou com os olhos dentro dos meus.
Por mais que ele dissesse nutrir aquele sentimento ruim por mim, não conseguia encontra-lo dentro dos orbes esverdeados. Alguma peça não encaixava ali.
Nossas respirações ofegantes tomaram conta das vozes alteradas ao serem os únicos sons ecoando dentro do quarto imenso. A temperatura voltou a subir e o calor correu meu corpo quando seu rosto se aproximou ainda mais do meu.
Fechei os olhos quando sua boca roçou na minha, meu coração assumiu um ritmo ainda mais descompassado. Um ritmo que somente Edward era capaz de despertar.
—Eu te odeio, Edward. – sussurrei com os lábios roçando nos seus.
Ele respirou fundo, e aquela foi a única resposta que me deu antes de me beijar profundamente.
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