Acertando as Contas com o Passado
24 Capítulo 24 – A definição
Notas iniciais
Posso dizer com certeza que esta foi a segunda pior noite da minha vida. A primeira com certeza foi aquela após deixar Jethro em Paris. Eu não consegui dormi. Mil e uma possibilidades do que aconteceria na maldita conferência pipocaram na minha mente. Minha única certeza era que ele estava ali comigo. E eu pretendia que isso acontecesse para o resto de minha vida. Meu plano de cinco pontos há muito tinha sido jogado no lixo. Eu sacrifiquei a minha felicidade por muito tempo. Era hora de dar a mim mesma o que eu merecia.
Quando deu uma hora adequada para que pudesse levantar, notei que Jethro também já estava acordado, aliás, não havia dormido nada, assim como eu. Fiz menção de me levantar e ele me segurou, me puxou para o seu lado me abraçando.
Tive medo desse abraço. Medo de que fosse o último. Tinha uma urgência, uma hesitação que eram incomuns a ele. Por fim, ele suspirou em meus cabelos e disse a mesma frase de ontem.
— Nada nem ninguém irá nos separar. Não mais.
— Eu acredito em você, Jethro. Eu acredito. – E enterrei meu rosto em seu peito. Por mais que acreditasse, eu ainda tinha medo do futuro.
E o futuro seria decidido em poucas horas.
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Logo que chegamos, sim, chegamos, pois Jethro havia deixado o carro no estaleiro, notamos que o carro do Secretário já estava ali. Ele chegara bem mais cedo do que o combinado.
Subimos pelo elevador, sem trocar nenhuma palavra. Apenas um do lado do outro, e isso era o suficiente. Já bastava os olhares de alguns agentes para nós dois desde que a notícia do noivado se espalhara, cortesia de Abby e Jimmy. Não precisávamos de mais atenção.
Assim que chegamos no andar, notamos que quase ninguém havia chegado, rumamos para nossas mesas. E vimos Ducky. Como sempre com uma palavra de conforto quando ele sabe que as coisas não vão bem.
— Jethro, Jennifer, bom dia! Fiquei sabendo da reunião com o Secretário da Marinha hoje, espero que tudo corra bem. Sei o quanto vocês gostam deste trabalho, mas não se esqueçam de que, em algumas situações seus comprometimentos fizeram mais mal do que bem. Cuidado com que irão fazer lá dentro – disse apontado para a porta de metal do MTAC – pois, talvez, não tenha volta. Mas saibam que serei a primeira pessoa a apoiá-los. – ele acabou o seu discurso se foi pelo elevador.
— Ducky e suas palavras difíceis.
— Ducky e sua sabedoria, Jethro. Sabedoria e amizade. Eu devo muito a ele.
Com pouco Ziva, Tim e Tony chegaram. Suas caras também não eram boas. Mas, pelo menos para eles, eu tinha certeza que nada de ruim aconteceria. A ira do Secretário era dirigida a mim e a Jethro, assim como as intenções nebulosas de Vance.
Como tínhamos a fatídica reunião. O caso que apareceu foi transferido para o time b. Portanto, o que nos restou para fazer, sem ser morrer de ansiedade, foi terminar os relatórios do caso da Serial killer. Contudo, isso não nos tomaria muito tempo.
As horas se arrastaram e, quando em fim às dez horas chegaram, fomos informados que a dupla nos esperava no MTAC.
Era chegado o momento.
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Como era de se esperar, os dois estavam com cara de poucos amigos quando um por um entramos no centro de ameaças.
Enquanto caminhávamos rampa abaixo, eles nos analisavam e nós a eles. Como se tivéssemos combinado, ninguém tinha a cabeça baixa. Todos encarávamos de igual para igual os homens de terno na nossa frente.
Bons dias foram trocados. E eu me lembrei de Tony, quando a pergunta: “Bom dia para quem?” passou pela minha cabeça.
Por segurança me mantive afastada de Jethro. Não queria piorar a situação que já estava ruim. Mas não pude deixar de notar o olhar de ódio mortal que SecNav lançou em direção a ele.
Amenidades começaram a ser discutidas. Mas nenhum membro da equipe parecia interessado em assuntos tão triviais. Quando Vance notou isso, deu a palavra a Davenport, que sem cerimônia começou com a notícia que eu já esperava.
— Ficou decidido que Leon Vance permanecerá na Direção da NCIS.
Ouvi alguém sibilar perto de mim. Pela nossa disposição de meia lua em frente aos dois tive quase certeza que era Ziva. E também escutei Abby soluçar baixinho.
E ele continuou com os motivos de ter feito tal escolha:
— É a decisão mais lógica, afinal não tem como reempossar uma pessoa que foi dada como morta para a imprensa, seria um escândalo sem precedentes para a NCIS. E, apesar de soar ingrato, eu preciso de estabilidade neste momento em que um dos nossos tentou liquidar tudo o que foi construído a muito custo, assim, Shepard, você retorna como agente especial, não podendo mais ser integrada ao posto de Diretora ou Vice-Diretora. E acredito que você saberá muito bem acatar essa ordem, afinal, durante o sua direção você sempre demonstrou um enorme apreço pela boa imagem da Agência, e tal trabalho foi tão bem feito que passamos de Agência Federal nanica que nem mesmo era conhecida dentro do país para um reconhecimento internacional. Então, conto com a sua compreensão quanto a isso?
Esse bastardo me acertou bem no ponto fraco. Eu trabalhei duro por todo esse reconhecimento. Foi comigo que a NCIS cresceu. E ele sabia que eu sempre me orgulharia disso. E que não jogaria no ralo os meus três anos de trabalho duro.
— Sim, Senhor Secretário. Eu acato sua decisão. – Acatar é uma coisa, aceitar é outra.
Com essa minha resposta escutei alguém tossir. Jethro não comprou minhas palavras. Mas SecNAv pareceu contente com o que ouviu, assim como Vance que sorria em minha direção como um gato que acabara de comer um canário.
— Sabendo disso, lhe dou a opção de escolher uma equipe, em qualquer escritório para liderar, menos aqui em Washington. Com a sua experiência internacional, eu gostaria que você fosse realocada no exterior. Pois isso aumentaria as chances da NCIS de ter o mesmo sucesso que tem aqui dentro do país, nas investigações lá fora. Então, posso te mandar para o escritório de Paris? Se me lembro bem, seu escritório tinha bastante fotografias da cidade...
Eu não tinha palavras, minhas últimas esperanças de permanecer no país acabaram de se esvair. E, naquele exato momento, estava sem chão. Mas eu sabia o que responder ao Secretário.
— Eu agraço a oferta, Senhor. Mas não posso aceitá-la. Passei muito tempo no fora do país e posso dizer que os últimos quinze anos de minha vida foram dedicados exclusivamente à NCIS, portanto, já que a única opção que me dão é voltar para o exterior, eu peço a demissão do meu cargo.
A surpresa estava estampada no rosto dos dois homens poderosos na minha frente. E também no rosto dos cinco com quem, até então eu dividia uma equipe.
Ziva balançava a cabeça negativamente, Tim estava assombrado e posso dizer chateado, nos últimos três meses nós dois trabalhamos em uma sintonia única, ele realmente nascera para o que fazia. Tony tinha um olhar de incredulidade, quando me olhou de volta foi como dissesse: “Você vai realmente largar tudo? Justo você de todas as pessoas?” E Abby começou a chorar baixinho. Ela não queria que eu fosse embora em definitivo.
Não consegui ver os olhos de Jethro, sei que ele se surpreendera com minha decisão, mas não me olhara nem uma única vez.
Foi quanto SecNAv interveio mais uma vez, apelando pela lealdade à Agência, e dizendo que a NCIS como um todo iria perder. Disse que meu trabalho sempre fora essencial. Ele poderia falar o que quisesse. Não mudaria minha escolha. Já chega, não me sacrificaria por ele, por eles. Não mais.
Foi quando todos se surpreenderam com a voz de Jethro:
— Com tudo respeito, Senhor, Shepard tem que, necessariamente, assumir uma equipe? Não pode se juntar a uma já existente?
Essa questão pegou a todos de guarda baixa. Mas logo começamos a ver onde ele queria chegar. Eu o olhei incrédula. Ziva e Tony trocaram um olhar de entendimento e Tim abriu um sorriso. Abby ainda estava confusa. Gibbs realmente estava tentando fazer com que eu permanecesse na equipe dele?
— É o posto que ela ocupada antes de assumir a direção. Aliás, Rota ainda está disponível! – SecNav respondeu; tentando me seduzir com um lugar onde já estava familiarizada.
— O que quer dizer com isso, Gibbs? – Estava tão desnorteada com a notícia que, pela primeira vez, não estava acompanhando o seu raciocínio.
— Acho que, depois de toda essa crise, e dos últimos três meses, ficou mais do que provado que ela trabalha muito bem com a MCRT, e não seria nada ruim ter mais alguém por aqui. Regra 06 – Não desperdice o que é bom.
— A escolha é dela, mas como já disse, ser agente em uma equipe é voltar a um patamar a baixo de onde estava.
Eu estava pasma! Olhei para Jethro e dele para os rostos sorridentes e calorosos de McGee, Ziva, Abby e Tony. Seus olhares me diziam o que eles não podiam expressar – Você é muito bem vinda!
Bom, se eu não poderia ocupar o cargo que tinha deixado, se a outra opção era me mandar para o outro lado do oceano, que mal faria ser rebaixada, mas permanecer no país e estar junto do melhor time? Eu os conhecia, sabia como trabalhavam, e, para falar bem da verdade, ficar atrás de uma mesa, lendo relatórios entediantes, lidando com a burocracia e toda politicagem, não era para mim mesma. Sempre gostei da ação, e não ser a agente responsável por um time me dava muito mais liberdade para agir.
— Se ninguém for contra, por que não? Sim, Senhor Secretário, vou aceitar me juntar a MCRT, com uma única condição.
Todos me olharam estupefatos, principalmente Jethro, que me fitou com um misto de raiva e choque.
— Que seria? – SecNAv me questionou.
— Eu não serei chamada de Novata!
Nem tinha acabado de fechar a boca e Abby já me abraçava com um daqueles abraços de urso que só ela sabe dar. Escutei Ziva gargalhar e Tony, após um tapa na cabeça de McGee, dizer – “não foi desta vez que você deixará de ser o novato, novato!”
Eu poderia não mandar mais em nada. Mas uma coisa estava certa. Eu tinha a minha família de volta. Consegui permanecer no meu emprego e, principalmente, poderia ser finalmente feliz.
Os dois homens na nossa frente ainda pareciam assombrados com minha decisão. Mas como bem disse Jethro, não desperdice o bom. E eu não iria desperdiçar a melhor oportunidade da minha vida e carreira.
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