Acaso ou destino

24 Capítulo 23 — A herdeira esquecida


A fotografia permaneceu sobre a mesa da casa de Billy como uma porta aberta para um passado que ninguém desejava atravessar.

Sarah estava sentada diante dela, com Jacob ao seu lado. Ateara ocupava a outra extremidade da mesa, enquanto Billy mantinha a cadeira próxima à janela. Sue preparara café, mas nenhuma das xícaras havia sido tocada.

Na imagem envelhecida, Sophia e Benjamin pareciam felizes. Entre eles, Helena Mitena segurava uma criança de poucos meses. A semelhança entre as duas irmãs era evidente: os mesmos cabelos escuros, o mesmo formato dos olhos e a mesma postura altiva. Helena, porém, sorria diretamente para a câmera, enquanto Sophia observava o bebê em seus braços.

Sarah passou os dedos pela borda da fotografia.

— Quero ouvir tudo.

Ateara respirou profundamente.

— Helena era quatro anos mais velha do que Sophia. As duas nasceram em uma família que conhecia a antiga profecia, mas não compreendia completamente o que ela significava. A graça podia atravessar gerações sem se manifestar. Às vezes, surgia apenas como uma sensibilidade incomum: sonhos, pressentimentos ou a capacidade de perceber quando alguém estava próximo da morte.

— Minha mãe tinha algum poder? — Sarah perguntou.

— Tinha uma percepção muito forte. Sophia sabia quando alguém estava mentindo por medo e quando mentia por maldade. Também sonhava com acontecimentos antes que ocorressem, embora as visões nunca fossem claras.

— Ela nunca me contou.

— Sua mãe passou a vida tentando mantê-la afastada do sobrenatural.

— Esconder a verdade não me afastou de nada.

— Ela sabia disso quando já era tarde demais.

Jacob percebeu a dor na expressão de Sarah e pousou a mão sobre a dela.

A centelha entre os dois reagiu com um calor discreto.

— E Helena? — ele perguntou.

Ateara observou a mulher na fotografia.

— Nela, o dom surgiu mais cedo. Helena conseguia reconhecer a presença de seres sobrenaturais. Não sabia exatamente o que eram, mas percebia quando alguém não carregava vida verdadeira. Foi assim que identificou um vampiro que se aproximou da família.

— Andreas? — Sarah perguntou.

— Não. Isso aconteceu antes de Andreas aparecer. Era uma mulher chamada Corinne. Ela não pertencia aos Volturi, mas negociava informações com eles.

Billy completou:

— Os antigos acreditavam que Corinne procurava descendentes das famílias mencionadas na profecia.

— Helena descobriu o que ela era — Ateara prosseguiu. — Conseguiu fugir, mas compreendeu que toda a família estava em perigo. Pouco tempo depois, engravidou.

Sarah fitou a criança da fotografia.

— Quem era o pai?

Ateara demorou a responder.

— Um homem chamado Daniel Bennett. Era humano, não conhecia a verdade sobre Helena e acreditava que as histórias da família eram apenas tradições antigas.

— Por que o sobrenome Mitena não apareceu nos registros?

— Porque Helena se casou com ele e passou a usar Bennett. Sophia acreditava que isso ajudaria a ocultá-la.

Jacob inclinou-se sobre a mesa.

— Qual era o nome da criança?

— Maya.

Sarah repetiu o nome em silêncio.

Maya Bennett.

A prima que existira durante todos aqueles anos sem que ela soubesse.

— O que aconteceu com elas?

— Quando Maya tinha pouco mais de um ano, Corinne as encontrou. Benjamin e Sophia ajudaram Helena a fugir. A fotografia foi tirada poucos dias antes da partida. Foi a última vez que Sophia viu a irmã.

— Para onde ela foi?

— Daniel tinha parentes no Oregon. Helena pretendia permanecer com eles até que fosse seguro seguir para o Canadá. Mas o carro foi encontrado abandonado perto de Eugene. Havia sangue no banco do motorista e sinais de luta. Nenhum corpo foi localizado.

— E todos concluíram que ela e Maya haviam morrido.

— Sim.

A voz de Sarah se tornou mais baixa.

— Minha mãe sabia que elas podiam estar vivas?

— Sophia nunca teve certeza. Procurou durante anos, mas cada tentativa de encontrá-las também poderia revelar você. Quando Benjamin morreu, ela interrompeu a busca.

Sarah afastou a mão da fotografia.

— Porque passou a vida inteira fugindo comigo.

— Porque acreditava que você era a única que restava.

— Mas Aro sabia.

— Talvez não soubesse naquela época — Ateara respondeu. — Pode ter descoberto depois.

Jacob pegou o envelope e examinou a escrita.

— “A primeira sobreviveu. A segunda despertará.” Se a primeira é Sarah, então Maya ainda não manifestou a graça.

— Ou manifestou de uma forma que Aro não compreendeu — Billy sugeriu.

Sarah tornou a olhar para Ateara.

— O que poderia despertar o poder?

— A profecia não explica. Em você, a graça se revelou diante da morte, da perda e do contato com o sobrenatural. Maya pode precisar de um chamado semelhante.

— Aro tentará provocar esse chamado — Jacob concluiu.

Ninguém contestou.

Se Aro acreditasse que a graça de Maya estava adormecida, não esperaria que despertasse naturalmente. Criaria medo, sofrimento ou morte ao redor dela até obter a reação desejada.

Sarah se levantou.

— Precisamos encontrá-la agora.

Jacob segurou seu braço.

— Precisamos encontrá-la, mas você também precisa se recuperar.

— Já me recuperei.

— Dormiu duas horas.

— Não estou fraca.

— Seu coração parou esta noite.

— E está batendo agora.

— Isso não apaga o que aconteceu.

— Também não interrompe Aro.

Jacob se colocou diante dela.

— Não estou pedindo que desista da busca. Estou pedindo que não corra cegamente atrás de alguém cuja localização desconhecemos.

Sarah sentiu a resistência dele, mas também o medo por trás dela. Antes do novo vínculo, teria interpretado suas palavras apenas como excesso de proteção. Agora percebia a lembrança da morte pulsando dentro dele.

— Não pretendo partir sozinha — disse, mais calma. — Mas também não vou ficar nesta casa enquanto todos procuram em meu lugar.

— Então encontraremos uma forma segura.

— Juntos?

— Foi o que prometemos.

A tensão nos ombros de Sarah diminuiu.

— Juntos.

Ateara recolheu a fotografia.

— Há uma coisa que talvez ajude.

— Outra parte que decidiu não contar? — Jacob perguntou.

O ancião aceitou a aspereza.

— Uma carta de Helena. Foi enviada semanas antes de desaparecer.

— Onde está?

— Entre os objetos de Benjamin.

Sarah o encarou.

— Você guardou uma carta da irmã da minha mãe durante todos esses anos e nunca me mostrou?

— Não sabia se havia o direito de reabrir uma ferida que Sophia tentou esconder.

— Não era sua decisão.

— Eu sei disso agora.

Ateara levantou-se.

— A carta está na casa dos guardiões. Voltarei com ela.

— Eu vou com você — Sarah disse.

— Não será necessário.

— Para mim, será.

Jacob pegou o casaco dela antes que a discussão recomeçasse.

— Nós vamos.

A casa dos guardiões ficava afastada da estrada principal, cercada por cedros antigos. Não era grande, mas conservava documentos, objetos e relatos pertencentes às famílias Quileute. Apenas os anciãos possuíam acesso livre ao local.

Ateara abriu uma caixa de madeira escura e retirou diversos cadernos amarrados por uma tira de couro. Sob eles havia um envelope amarelado.

Sarah reconheceu o nome de Sophia escrito na frente.

A caligrafia não era a mesma da mensagem deixada por Aro.

Ela abriu a carta com cuidado.

Sophia,se estiver lendo isto, provavelmente não consegui voltar. Não procure por mim imediatamente. Corinne sabe mais sobre nossa família do que imaginávamos e não trabalha sozinha. Há outros observando os Mitena.Daniel ainda não compreende tudo, mas concordou em proteger Maya. Não sei se continuaremos juntos depois disso. Ele está assustado e tem o direito de estar. Nossa filha começou a apresentar sinais que não consigo explicar. Quando chora, as lâmpadas se apagam. Quando dorme, os animais se aproximam da casa. Ontem, Daniel cortou a mão, e o ferimento fechou enquanto Maya segurava seu dedo.Não acredito que a graça esteja adormecida nela. Acho que está se escondendo.Se alguma coisa acontecer comigo, procure uma mulher chamada Evelyn Ward. Ela viveu em Astoria e conhece Daniel desde criança. Evelyn não pertence à nossa linhagem, mas sabe que existem coisas no mundo que não podem ser explicadas.Se Maya sobreviver, não conte a ela quem é até que seja absolutamente necessário. Deixe minha filha ter a vida que nós nunca tivemos.Proteja Sarah. Sei que sua menina ainda não nasceu, mas sonhei com ela. Vi olhos verdes como a água e uma lua marcada na pele. Também vi um lobo ao lado dela. No sonho, os dois estavam diante de uma escolha, e o mundo sobrenatural mudava depois que suas mãos se tocavam.Talvez nossas filhas não tenham nascido para carregar o medo que herdamos. Talvez tenham nascido para encerrá-lo.Eu amo você.Helena.

Sarah terminou a leitura sem perceber que chorava.

Jacob permaneceu ao seu lado, sem interromper. Somente quando ela baixou a carta ele enxugou uma lágrima de seu rosto.

— Helena viu você antes de nascer — disse.

— E viu você.

— Ou algum lobo.

Sarah lançou-lhe um olhar.

— Era você.

— Como pode ter certeza?

— Porque o mundo mudou quando nossas mãos se tocaram.

Jacob não respondeu, mas a centelha dentro dela se aqueceu.

Ateara aproximou-se.

— Evelyn Ward é o único nome que pode nos levar até Maya.

Sarah entregou a carta a Jacob.

— Precisamos falar com Carlisle. Ele pode localizar registros antigos.

— Da fronteira — Ateara advertiu. — O tratado continua valendo.

— Eu sei.

Não havia dúvida de que Edward permaneceria fora de La Push. Nem mesmo a urgência daquela busca alteraria as leis do território Quileute.

Jacob guardou a carta no envelope.

— Primeiro precisamos descobrir se Evelyn ainda está viva.

Carlisle instalara-se temporariamente em uma casa vazia próxima à divisa, do lado de fora da reserva. Alice, Jasper, Bella e Edward estavam com ele. Emmett e Rosalie ajudavam os aliados a vigiar as estradas que levavam a Forks.

Sarah e Jacob levaram a carta até a fronteira, onde Carlisle os aguardava.

Edward permaneceu alguns passos atrás.

— Evelyn Ward — Carlisle repetiu. — Astoria, Oregon.

— Helena disse que ela conhecia Daniel desde criança — Sarah informou. — A carta foi escrita há aproximadamente vinte e quatro anos.

Alice já pesquisava em um computador.

— Há muitas pessoas com esse nome.

— Procure ligações com Daniel Bennett — Bella sugeriu.

Edward observava Alice, acompanhando seus pensamentos.

— Ela encontrou um obituário.

Alice ergueu os olhos.

— Evelyn Ward morreu há sete anos. Tinha setenta e nove.

A esperança de Sarah diminuiu.

— Há parentes?

— Um filho chamado Michael Ward e uma neta chamada Grace.

— Onde vivem?

Alice digitou novamente.

— Michael morreu antes da mãe. A neta...

Ela parou.

— O que foi? — Jacob perguntou.

— Grace Ward tornou-se assistente social em Portland. Trabalhou durante doze anos com processos de adoção e mudança de identidade para crianças ameaçadas.

Sarah compreendeu a ligação.

— Evelyn pode ter entregado Maya à família do filho.

— Ou Grace ajudou a ocultá-la — Carlisle disse.

— Há um endereço? — Jacob perguntou.

Alice continuou a busca.

— Grace deixou o serviço público há três anos. Agora administra uma pequena pousada na costa, perto de Cannon Beach.

Edward virou a cabeça subitamente para o norte.

Jacob reagiu no mesmo instante, colocando-se diante de Sarah.

— O que ouviu?

— Emmett.

Poucos segundos depois, Emmett surgiu entre as árvores, parando ao lado de Carlisle.

— Encontramos um carro abandonado a cinco quilômetros daqui — informou. — O veículo é alugado e há sangue no banco traseiro.

— De quem? — Sarah perguntou.

— Não sabemos. Mas Rosalie encontrou isto.

Emmett retirou do bolso um pequeno cartão branco.

Nele estava escrito o endereço da pousada de Grace Ward.

— Aro — Jacob disse.

— Provavelmente — Edward confirmou. — Ele já encontrou o mesmo nome.

— Quanto tempo de vantagem? — Carlisle perguntou.

— O motor ainda estava quente. Pouco.

Sarah voltou-se para Jacob.

— Precisamos partir.

Ele não discutiu dessa vez.

— Sam enviará lobos pelas rotas da floresta. Nós iremos pela estrada.

— Eu os acompanharei — Carlisle se ofereceu.

Jacob olhou para Sarah.

Ela compreendeu a pergunta silenciosa. Carlisle não poderia entrar em La Push, mas a partir do momento em que saíssem da reserva, não haveria violação do tratado.

— Precisaremos de um médico — respondeu. — E de alguém que conheça Aro há mais tempo do que nós.

Carlisle assentiu.

— Bella e Edward também devem ir. Se Aro estiver acompanhado, Edward poderá identificar os atacantes antes que se aproximem.

Jacob não demonstrou entusiasmo.

— Ele ficará fora da minha cabeça.

— Neste momento, ele não consegue entrar — Sarah lembrou.

Edward cruzou os braços.

— Não por falta de tentativa.

Jacob o encarou.

— Isso deveria tranquilizar?

— Foi uma constatação.

— Guardem essa animosidade para depois — Bella interveio. — Se Aro chegar até Maya primeiro, teremos um problema muito maior.

Alice se aproximou da fronteira, mas permaneceu do lado de fora.

— Não consigo ver vocês na pousada.

— Por causa de mim e de Jacob? — Sarah perguntou.

— Em parte. Porém, há outra interferência. A imagem de toda a região está desaparecendo.

— Maya — Carlisle concluiu.

Alice assentiu.

— Se ela estiver lá, seu poder já está desperto o suficiente para bloquear minhas visões.

Sarah olhou para a carta de Helena.

A graça não estava adormecida.

Estava se escondendo.

— E Aro sabe disso — disse.

Billy não tentou impedi-los, embora sua preocupação fosse evidente.

Sam organizou uma equipe com Leah, Seth, Embry e Quil. Os lobos seguiriam pela floresta, mantendo distância suficiente dos Cullens para evitar conflitos. Carlisle dirigiria o primeiro carro, levando Bella e Edward. Jacob conduziria Sarah em seu próprio veículo.

Antes da partida, Ateara entregou a ela um pequeno pingente.

Era uma pedra esverdeada envolvida por fios de prata.

— Pertencia a Helena.

Sarah o segurou na palma da mão.

— Por que estava com você?

— Ela o entregou a Benjamin antes de partir. Disse que Maya reconheceria a pedra se algum dia fosse encontrada.

Sarah colocou o pingente no pescoço.

— Trarei a filha dela de volta.

— Talvez Maya não queira voltar.

A observação a surpreendeu.

— Ela é minha família.

— Mas não conhece você. Pode ter passado toda a vida fugindo daquilo que somos. Não transforme o sangue compartilhado em uma obrigação.

Sarah pensou nas palavras.

Durante anos, outras pessoas haviam tomado decisões em seu nome, sempre sob o argumento de protegê-la. Não poderia fazer o mesmo com Maya.

— Eu lhe contarei a verdade — decidiu. — Depois, deixarei que escolha.

Ateara assentiu.

Jacob abriu a porta do carro.

— Está pronta?

Sarah olhou para a estrada.

— Não.

Ele esperou.

— Mas vou mesmo assim.

— Essa parece ser uma característica sua.

— Você continua ao meu lado.

— Também parece ser uma característica minha.

Os dois entraram.

Quando deixaram La Push, o sol já atravessava as nuvens. Sarah esperava sentir o corpo enfraquecer com a distância da reserva ou com a tensão da viagem, mas sua força permanecia estável.

Jacob também percebia.

— Seu coração está tranquilo — comentou.

— Está me ouvindo?

— Sentindo. Não sei explicar a diferença.

— Tente.

Ele manteve os olhos na estrada.

— Não ouço as batidas com os ouvidos. Elas acontecem dentro de mim. Quando está calma, o ritmo é leve. Quando tem medo, parece que meu coração recebe um golpe antes do seu acelerar.

— E agora?

— Está preocupada, mas decidida.

— Isso é assustadoramente preciso.

— Também sei que está com fome.

Sarah franziu a testa.

— Isso faz parte do vínculo?

— Não. Seu estômago fez um barulho há alguns minutos.

Ela riu.

O som aliviou a tensão dentro do carro.

Jacob segurou sua mão sobre o console.

— Vamos encontrá-la.

Sarah olhou para o perfil dele.

— E se chegarmos tarde?

— Não chegaremos.

— Não pode prometer isso.

— Então prometo outra coisa. Seja o que for que encontrarmos, não enfrentará sozinha.

A resposta percorreu o vínculo entre eles.

Sarah fechou os olhos.

Por um instante, viu a estrada através dos sentidos de Jacob: o movimento das árvores, o cheiro da chuva e o som distante dos lobos correndo pela mata. Ao mesmo tempo, Jacob recebeu um fragmento da percepção dela: uma linha prateada estendendo-se para o sul, fraca, mas presente.

Os dois se entreolharam.

— Você viu? — Sarah perguntou.

— A luz?

— Sim.

— Para onde leva?

Ela se concentrou.

A linha não apontava exatamente para a pousada. Seguia para um ponto além dela, em direção ao oceano.

— Maya está se movendo.

Jacob acelerou.

A pousada de Grace Ward estava vazia quando chegaram.

A porta da frente fora arrombada. Havia móveis derrubados na recepção e marcas profundas na madeira, incompatíveis com força humana.

Carlisle entrou primeiro. Edward e Bella verificaram os outros cômodos, enquanto Jacob permaneceu junto de Sarah.

— Há sangue — Carlisle disse.

Encontraram Grace na cozinha.

A mulher, de aproximadamente cinquenta anos, estava caída ao lado da mesa. Respirava com dificuldade. Havia um ferimento em seu abdômen e hematomas em seus braços.

Sarah ajoelhou-se imediatamente.

— Grace, consegue me ouvir?

Os olhos da mulher se abriram.

— Maya...

— Onde ela está?

Grace tentou se mover, mas gemeu.

Sarah pressionou as mãos sobre o ferimento. Sua graça respondeu, envolvendo a mulher com uma luz suave.

Jacob sentiu a energia passar por ele antes de alcançar Grace. Dessa vez, não era apenas Sarah curando. A força circulava entre os dois e retornava ampliada.

O sangramento diminuiu.

Grace respirou profundamente.

— Quem... quem é você?

Sarah retirou o pingente de dentro da camisa.

A mulher arregalou os olhos.

— Helena...

— Sou filha de Sophia. Meu nome é Sarah.

Grace agarrou seu pulso.

— Você precisa encontrar Maya.

— Aro a levou?

— Um homem de cabelos escuros veio procurá-la. Parecia saber tudo. Disse que Maya poderia curar a morte.

— Onde ela está? — Jacob insistiu.

— Fugiu antes que ele chegasse. Ela sempre soube que alguém viria. Minha avó a preparou para isso.

— Para onde foi?

Grace olhou para a janela, na direção do oceano.

— O farol abandonado.

Sarah sentiu a linha prateada se fortalecer.

— Ela está lá.

Edward surgiu na porta.

— Há quatro vampiros se aproximando pela estrada.

— Aro? — Bella perguntou.

— Não ouço a mente dele, mas reconheço um dos outros. Corinne.

A mesma vampira que perseguira Helena havia mais de vinte anos.

Grace começou a tremer.

— Ela encontrou Maya uma vez quando era criança. Helena ficou para trás para permitir que fugíssemos.

Sarah compreendeu o que a mulher ainda não havia dito.

— Helena morreu protegendo a filha.

Grace fechou os olhos.

— Sim.

A luz ao redor das mãos de Sarah oscilou com sua raiva. Os vidros das janelas vibraram.

Jacob tocou seu ombro.

— Sarah.

Ela sentiu o lobo dentro dele, firme e protetor. A fúria não desapareceu, mas encontrou direção.

— Grace está estável — Carlisle informou. — Eu ficarei com ela.

— Os vampiros estão a menos de dois minutos — Edward advertiu.

Jacob se levantou.

— Bella pode permanecer com Carlisle. Edward, venha conosco.

Edward pareceu surpreso por ter sido incluído, mas não discutiu.

— E os lobos?

Um uivo distante respondeu antes que Jacob pudesse perguntar.

— Estão próximos — disse.

Sarah levantou-se. A cura não a enfraquecera. Pelo contrário, a centelha compartilhada pulsava com intensidade crescente.

Ela segurou o pingente de Helena.

— Corinne não matará outra filha desta família.

O farol erguia-se sobre as pedras como uma sombra contra o oceano.

A chuva começara a cair quando Sarah, Jacob e Edward saíram do carro. Os lobos surgiram entre as árvores segundos depois, espalhando-se ao redor do prédio.

A linha prateada que Sarah enxergava terminava no alto da torre.

— Maya está lá dentro — disse.

Edward inclinou a cabeça.

— Ouço uma mulher. Está assustada.

— Consegue ouvir os pensamentos dela?

— Apenas fragmentos. Há alguma coisa bloqueando o restante.

Jacob aspirou o ar.

— E Aro?

— Ainda não chegou — Edward respondeu. — Mas Corinne e os outros estão perto.

Sarah correu para a entrada do farol.

Jacob a acompanhou.

Subiram os degraus estreitos, seguindo o som de uma respiração humana. Quando chegaram ao topo, encontraram uma mulher encostada contra a parede circular.

Maya parecia ter pouco mais de vinte e cinco anos. Seus cabelos negros estavam presos em uma trança, e os olhos tinham um tom verde acinzentado. Ela segurava uma faca, embora suas mãos tremessem.

— Não se aproximem! — ordenou.

Jacob parou imediatamente.

Sarah levantou as mãos vazias.

— Não viemos machucá-la.

— Eles sempre dizem isso.

— Meu nome é Sarah.

Maya a observou.

Seu olhar desceu até o pingente.

A faca quase escapou de seus dedos.

— Onde conseguiu isso?

— Pertencia à sua mãe.

A dor atravessou o rosto de Maya.

— Minha mãe está morta.

— Eu sei.

— Então quem é você?

Sarah respirou fundo.

Não havia forma simples de revelar uma verdade escondida durante uma vida inteira.

— Sophia Mitena era irmã de Helena. Sophia era minha mãe.

Maya balançou a cabeça.

— Não.

— Somos primas.

— Não.

As lâmpadas do farol se apagaram.

Uma onda invisível atravessou o ambiente, fazendo Jacob recuar um passo. Edward levou a mão à cabeça.

— Não consigo ouvir nada — declarou.

A graça de Maya estava despertando.

— Fique longe de mim! — ela gritou.

— Maya, escute...

— Grace prometeu que ninguém me encontraria!

— Aro também encontrou o nome dela. Ele está vindo.

— Não sei quem é Aro!

— É o homem que perseguiu nossas mães. O homem que matou meu pai e passou anos procurando você.

Maya apertou a faca.

— Por que eu acreditaria nisso?

Sarah tirou a fotografia do bolso.

Colocou-a no chão e a empurrou lentamente.

Maya olhou para a imagem.

Seus joelhos cederam.

— Ela tinha uma cópia — sussurrou. — Minha mãe carregava uma fotografia igual.

Sarah deu um passo.

— Maya...

— Não!

Uma luz dourada explodiu ao redor dela.

Jacob se colocou diante de Sarah, mas a energia atravessou seu corpo sem feri-lo. A marca em seu peito brilhou, respondendo ao poder de Maya.

Ela observou o símbolo prateado sob a pele dele.

— O lobo — murmurou.

Sarah tocou o próprio pulso, revelando sua marca.

— Lua e lobo.

Maya a encarou.

Por um instante, as duas graças se reconheceram.

Sarah sentiu a infância escondida da prima: fugas constantes, nomes falsos, o medo de tocar pessoas feridas e vê-las sarar, animais seguindo seus passos, sonhos com uma mulher de olhos verdes e uma lua sobre o mar.

Maya também viu Sarah.

Viu Sophia morrendo, Benjamin caído na neve, Jacob estendendo a mão na praia, o coração de Carlisle batendo, a transformação, a batalha e o instante em que Sarah atravessara a morte.

As duas recuaram ao mesmo tempo.

— Você morreu — Maya disse.

— Sim.

— E ele a trouxe de volta.

Os olhos dela se voltaram para Jacob.

— Trouxemos um ao outro — Sarah respondeu.

Um estrondo veio da parte inferior do farol.

Edward se posicionou diante da escada.

— Eles chegaram.

O som de passos lentos subiu pela torre.

Uma risada feminina ecoou pelas paredes.

— Helena escondeu você por muito tempo, criança.

Maya empalideceu.

— Corinne.

Sarah colocou-se ao lado dela.

— Você não está mais sozinha.

Maya olhou para Sarah, depois para Jacob e Edward.

— Não sei lutar.

Jacob encarou a escada.

— Não precisa. Apenas fique atrás de nós.

Corinne surgiu no último degrau.

Tinha cabelos claros, olhos vermelhos e um sorriso satisfeito. Três vampiros a acompanhavam.

Ela observou Sarah e Maya juntas.

— As duas herdeiras — murmurou. — Aro ficará satisfeito.

— Aro não está aqui — Sarah disse.

— Ainda não.

— E nunca tocará nela.

Corinne sorriu.

— Sophia pronunciou palavras muito parecidas antes de morrer.

A raiva de Sarah atravessou o vínculo.

Jacob assumiu a forma de lobo antes que o primeiro vampiro se movesse.

A torre inteira tremeu com o rugido.

Do lado de fora, a matilha respondeu.

Maya olhou para Sarah.

— O que fazemos?

Sarah segurou sua mão.

As duas marcas brilharam.

Prata em Sarah.

Ouro em Maya.

Quando as luzes se encontraram, o farol abandonado despertou. O antigo mecanismo acima delas começou a girar, projetando um feixe luminoso sobre o oceano escuro.

Corinne perdeu o sorriso.

Sarah sentiu a graça da prima unir-se à sua, não como submissão, mas como reconhecimento. Ao mesmo tempo, a força de Jacob atravessou as duas.

A profecia não falava apenas de uma herdeira.

Falava de uma linhagem que se recusava a morrer.

— Nós terminamos o que nossas mães começaram — Sarah respondeu.

E, quando Corinne avançou, a luz atingiu toda a torre.